Time
18 XVIII - Roma
Notas iniciais
[Just Give Me A Reason — Pink feat. Nate Ruess]
Que as Parcas tenham piedade do tempo. E como este correu.
Poseidon se casou com Anfitrite e Atena passou a ser vista novamente como a deusa mais fria do Olimpo. Mortais ergueram tributos para ela, mas a época grega estava terminando.
Dos descendentes de Tróia, surgiu Roma. Um povoado que cresceu tanto que virou império. E como Império eles dominavam, aquela velha dor por terem perdido em Tróia se reascendeu e eles marcharam para Grécia, pretendendo pegar de volta o que lhes fora tirado.
Os deuses, sábios como sempre, previram a chegada de Roma e trataram de se preparar. Zeus havia se aprontado para uma mudança da chama do Ocidente. Eles deixariam a Grécia e viveriam em Roma. Mudariam, se adaptariam. Afinal, eram o deuses. E senhores tão poderosos quanto eles não podem simplesmente deixar de existir.
Bom, naquele maldito pôr-do-sol, onde eles esperavam para serem levados para outro lugar, algo aconteceu.
Zeus havia ordenado à todos os deuses que ficassem no Jardim do Olimpo. Um por um, conforme os romanos os adotavam, iriam para sua nova casa, Roma. Onde levantariam outro monte Olimpo e fariam de tudo para se adaptar.
Os servos do Olimpo, sátiros, ninfas, etc, já haviam partido. Esperando por seus senhores e preparando terreno. Pela primeira vez em milhões de anos aquilo iria acontecer. E, os deuses sabiam, não seria a última.
Mas Atena estava apreensiva.
— O que lhe aflige, filha querida? — Perguntou Zeus, minutos antes do sol se pôr por completo e seus espíritos serem levados.
— Temo que não serei querida nesta nova casa. Prefiro ficar... — Contou a deusa, e uma conversa que seria reservada estava sendo ouvida por todos os deuses subitamente.
— Não podes irmã! — Ártemis interviu. — Ficaras sozinha e com o tempo parará de existir... Os gregos irão cultuar os deuses romanos, não os gregos, e você será esquecida.
— Não se preocupe comigo, Ártemis, querida — Atena falou, embora estivesse se sentindo embargada. Era óbvio que seria esquecida. Mas o que adiantava viver em um mundo que só lhe fazia sofrer? — Tenho os filhos de Ulisses e os filhos dos descendentes de Perseu. Eles irão me honrar. Eu estarei salva.
— Es um dos quatorze deuses olimpianos, Atena — Hera falou, segurando os ombros da filha emprestada com delicadeza. — Não podes ficar para trás.
— Os romanos já tem sua deusa da guerra! — Atena queixou-se, como uma criança que perde um brinquedo novo. — Eles farão o que comigo? Me deixarão como artesã? Eu sou uma deusa guerreira, não uma dona de casa.
Os deuses fixaram o chão. Este era enfim o problema. Seriam implantados em outra religião. Em algo que não condiz com eles.
— Mesmo assim — Hefesto proferiu. — Não vamos abandoná-la e tampouco podemos ficar.
— Concordo com meu marido, Atena — Afrodite falou, abraçando a cintura de Hefesto com um gesto carinhoso. — Não vamos abandoná-la, então você precisa vir conosco.
— Mas não entendem? — Atena perguntou, as lágrimas que nunca mais cairiam cegando sua visão por dentro. Nenhum deles nunca iria perceber isso, ninguém nunca mais a veria chorar pois suas lágrimas não caiam por sua face. — Eu não sou bem vinda! E eu me recuso a...
— Ora vamos — Poseidon falou, deixando todos surpresos. Nenhum deles ao menos tinha notado a presença de Poseidon. Ficara presumido que ele iria para Roma junto com seu reino, mas pelo jeito ele apareceu no Olimpo.— Não seja uma menina mimada, Atena.
A deusa ficou em choque. Fazia tanto tempo que ela não o via. E lá estava ele, com seus lindos cabelos negros e olhos verdes como o mar, embora parecesse cansado, a mandando parar de ser mimada.
— Com quem pensas que estas falando, Poseidon? — A voz da deusa relinchou no ar. — Posso estar prestes a me tornar um nada, mas eu ainda sou uma deusa poderosa, não me irrite ou...
— Ou o que? — Poseidon perguntou, frio. — Vais matar-me? Sabes que não pode. — O moreno fitou os olhos cinzas dela, cheio de frieza e distância. Atena se não fosse Atena teria se encolhido e chorado. Mas Atena era Atena. E nenhum deus, deusa ou mortal a colocaria para baixo. — Agora deixe de chorar e aceite o seu destino como nós aceitamos o nosso.
—Escute-me bem, Poseidon, pois não serei a única a perder com essa mudança — Atena falou, esquecendo-se do que seu pai lhe pedira para manter em segredo de seu tio. — Você terá tantos prob...
— Atena! — Zeus chamou, cortando-a. — Isso não está mais em ponto de discussão. Você irá conosco e pronto.
— Mas pai...
— Nada de mas. O Olimpo inteiro irá para lá, e você é do Olimpo. Aceite sua função e obedeça o seu papel na história. Roma não durará para sempre e quando ela cair você voltará com seus poderes plenos. Aguente!
E com suas últimas palavras, o sol desceu por completo e os deuses começaram a serem levados.
Time
Atena fechou os olhos e quando os abriu estava sozinha.
Ninguém andava pelas ruas do Olimpo, tudo deserto como se estivesse prestes a cair. A deusa se ajoelhou no chão e respirou fundo.
Lágrimas finalmente caíram por seu rosto, sem um sinal que iriam parar.
Ela. Odiava. Chorar.
— Pare de drama, você só foi a última — uma voz lhe informou.
— Poseidon? — Atena se sobressaltou, levantando e limpando suas lágrimas.
— Uma miníma parte — Poseidon informou. — Já me levaram, meu nome é Netuno agora. As coisas estão se resolvendo por lá.
— Queres que eu o chame de Netuno, romano? — perguntou Atena com nojo na voz. — Achas que isso significa algo para mim? Minha família já me foi tirada.
— Não Atena, não é assim que acontece... — Poseidon/Netuno informou. — Você acha que nós simplesmente esquecemos quem somos quando viramos romanos? Eu ainda sou Poseidon, deus dos mares e senhor dos terremotos. Eu ainda luto pelos gregos. E eu ainda luto do seu lado.
Atena arfou com a última frase, encarando os olhos verdes mar de Poseidon. Seu Poseidon. O mundo poderia chamá-lo do jeito que quisessem. Para ela, ele sempre seria Poseidon.
— O que queres dizer com isso?
— Nossa mente sempre esteve em vários lugares Atena, agora não é diferente. Uma parte de mim está lá, no Olimpo, ajudando Júpiter, este é o seu pai, a organizar as coisas. Embora possa dizer que a maior parte está aqui, como Poseidon, tentando te ajudar.
— Não quero sua ajuda. Não preciso dela.
— O orgulho sempre lhe foi um problema, Atena.
— Fala do sapo quem não quer enxergar a rã.
— E isso que dizer...? — Poseidon perguntou confuso.
Atena suspirou, soprando uma leve mecha para longe do rosto.
— Que o meu orgulho é grande mas o seu também.
— Não nego — Poseidon falou, com um pequeno sorriso. — Temos isso em comum, não é mesmo?
Atena arfou novamente, cansada.
— O que faz aqui, Poseidon, Netuno, alga do mar?
— É assim que tratas quem quer ajudá-la?
— Ora vamos meu querido lorde Poseidon — Atena falou com sarcasmo. — O que queres com essa pobre deusa? — Pelo sorriso de Poseidon, ele 1)não percebeu o sarcasmo e 2) gostava daquela história de “querido lorde Poseidon”. — Desembucha, alga marinha!
— Ai, ok, calma — Poseidon se sentou, indicando que Atena senta-se do seu lado. E por algum motivo que a deusa desconhece ela o fez. — Eu vim conversar algumas coisas. Primeira, você pode ir para lá tranquila Atena. Eles lhe darão um novo nome e te trataram diferente, mas não todos. Os gregos ainda sabem quem somos e rezam por nós, embora falem os nomes novos rezam pelos antigos.
— Grande coisa, por que não posso ficar aqui então?
— Deixe eu falar, coruja de biblioteca! — Atena revirou os olhos mas fez um gesto para ele continuar. — Segunda coisa, eu quero saber o que é que você ia dizer quando Zeus lhe mandou calar a boca.
— Ah... — Atena corou. — Se eu bem me lembre você estava me chamando de mimada na ocasião.
— Não protele comigo, Atena.
— Eu não estou protelando.
— Você é esperta o suficiente para saber que dizer que não está protelando é protelar.
— E você é mais esperto do que eu pensava para saber o significado de protelar! — Ela só percebeu que seu comentário poderia ser entendido como um elogio quando reparou no sorriso enorme de Poseidon. — Ahn, ei, isso foi uma critica!
— Aham... — Poseidon falou sarcástico, balançando a cabeça do jeito que a deusa achava maravilhoso.
— Eu juro que... — mas ela se impediu. Nada que falasse faria Poseidon mudar de ideia, e pensando bem, ela só teria aqueles poucos segundos com ele, antes de perdê-lo para uma nova civilização, mulher, etc. — Seus territórios — Atena respondeu finalmente, fazendo Poseidon encará-la com dúvida. — Os seus territórios também foram reduzidos — Atena explicou. — Você tinha quase o domínio de toda a Grécia pelo mar, agora Roma não fica nem na costa.
— Há dois rios — Poseidon falou, mas Atena notou o quão triste aquilo lhe deixava.
— E há um trabalho de tecelã — Atena deitou-se na grama do Olimpo, onde eles estavam sentados. — Será que algum dia vai ser a mesma coisa?
Poseidon ficou quieto por imensos segundos.
— Creio que sim — falou por fim, deitando-se ao lado de Atena. Ela pensou em se afastar, levantar, ir embora, correr. Mas a única coisa que fez foi rolar para o lado, ficando mais perto de Poseidon de um jeito que poderia ser “sem querer”. — Zeus mesmo disse, Roma irá cair. Pode demorar mas vai.
— E quando isso acontecer, voltará a ser tudo como antes? — Atena se sentia idiota perguntando coisas patetas para Poseidon, mas ele lhe acalmava. De repente ela até acreditava que não seria tão ruim assim. — Você acha que tudo pode voltar ao normal?
— Quanta insegurança, Atena — Poseidon brincou, pousando o dedo no nariz dela antes de afastá-lo rapidamente, como um pai faz com uma criança. Atena riu e enquanto ria Poseidon passou os braços por ela, puxando-a para que ela ficasse apoiada em seu peito. Por um momento novamente, ela considerou fugir de novo, se afastar dele, mas aquilo passou tão rápido que ela até esqueceu que a ideia surgiu. Tê-lo ali, com os braços envolta dela e com sua cabeça apoiada no peito dele lhe dava uma sensação de segurança que alguém tão insegura precisava. — Eu te prometo que as coisas vão melhorar.
— Quando, Poseidon? — Ela se sentiu sonolenta, como se quisesse dormir e nunca mais voltar ao mundo dos afazeres. — Quando?
— Não vou te prometer nada, minha coruja — Atena sorriu com o minha, embora estivesse achando o comportamento de Poseidon estranho. — Mas um dia, um dia será você e eu, numa praia distante e com uma cesta de piquenique, exatamente como sempre foi para ser.
E com essa promessa esquisita, Atena fechou os olhos sendo finalmente levada para Roma.
Fale com o autor