Tic-Tac

3 Capítulo 3


Nenhum deles soube identificar o nome de cabeça da espécie, mas se recordavam dos filmes que tinham visto. E quase certeza que não era Jurassic Park.

Marilyn, a enfermeira loira, estava com as costas grudadas na parede branca e encardida, tentando ao máximo se afastar daquela coisa — e talvez também do Gabriel, que pegou um abajur de pé grande e alto e tentou acertar o pequeno dinossauro. Que apesar de tudo, era rápido.

– Você vai... matá-lo? — Derek olhou para o loiro, em dúvida.

Gabriel parou, mantendo ainda o cano do abajur perto da coisa para evitar um futuro ataque. Deu um olhar rápido para Marshall, enquanto sua atenção ainda era de maior parte para o bicho.

– Eu... Eu não sei. Sim? Claro?

Novamente, a criatura rosnou e partiu para o ataque, recebendo depois uma pancada forte na cabeça. Mas ele não parou por aí, claro. Foi na verdade o que faltava para ele ficar mais agressivo e mortal do que antes, fazendo o possível para machucar Gabriel e Gustavo, que resolveu ir ajudar.

– Você só piora tudo, Biel. Era de se imaginar — comentou Guga, casualmente.

– Queria que eu fizesse o quê? Carinho com o taco improvisado aqui? — rebateu.

– Podemos confundi-lo — Derek entrou na conversa.

– Sério? Ele quer nos matar e você pensando em jeitos de sequer machuca-lo? — Gabriel retrucou e se afastou. Depois, correu até as costas do animal e tentou acertá-lo, sem sucesso. Um pensamento leve passou por sua mente, sobre se estivesse tendo que lidar com um T-Rex e as chances de se virar. Logo fez questão de afastar a ideia, já que tinha acontecido tanta coisa maluca e ele não duvidava da possibilidade dos seus pensamentos virarem realidade.

– Acho que tínhamos visto algum desse tipo em Bem 10. Sabe, aquele rápidão? Então. — Thiago estendeu a mão para Marilyn, que ofegava e tentava ao máximo não gritar. Ela pegou a mão dele e correu para o outro lado do campo de batalha, onde apenas o garoto Derek estava, observando toda a cena.

– Pronto. Você está salva. — Sorriu. E recebeu um beijinho vermelho na bochecha.

– VÃO FICAR AÍ NAMORANDO? — Guga gritou, encurralado no canto da sala.

– UMA REDE! — Derek disse animado.

– ELE PARECE UM PEIXE PARA VOCÊ?

– Biel, para e pensa — respondeu.

– Por que diabos ele tem uma pele tão dura e grossa? — Mitchell deu mais uma pancada contra o dino, que pareceu nem sentir. Ele ia aos poucos para cima do Guga, com os dentes a mostra e um bafo de matar.

Com perdão pelo trocadilho.

Uma rede voou do nada para cima do pequeno e agressivo animal, o confundindo. Logo um corajoso Derek amarrou a rede e pulou em cima, prendendo-o e deixando a criatura sem chances de vencer.

Só que ela não sabia disso e não ia parar de tentar rasgar as cordas da rede com seus dentes afiados ou de tentar acertar Dery com as garras.

– Eu sabia que tinha um bom jeito de terminar isso tudo. — O garoto sorriu e se levantou, estabilizando-se no chão. — O quê? — Reparou nos olhares sobre ele.

Estavam no mínimo chocados. O pulo e a dominação de Dery sobre o animal foi inacreditável — aliás, ele ainda não tinha desistido de se libertar -, como uma espécie de Peter Pan, parando com os braços na cintura e um sorriso Colgate.

– Você... Você foi ótimo! — Marilyn se ergueu e foi abraçar o garoto, que partiu para 50 tons de vermelho. — Mas agora, precisamos dar um jeito nele. Deve ter algum lugar para eu injetar a morfina. Eu nunca vou conseguir penetrar essa casca dura, então...

Agora que a adrenalina estava mais baixa, puderam reparar na sala direito. Era uma das salas que guardavam os materiais hospitalar, como lençóis de cama, remédios e luvas descaráveis.

– Pescoço? Pata? Olho? — sugeriu Thiago.

Eles não sabiam se era porque a época com a baixa medicina ou se o hospital não era dos melhores, mas a sala era quase vazia. Algumas prateleiras estavam caídas no chão, com marcas de dentes mostrando sacos plásticos dilacerados.

Guga olhou de perto e arregalou os olhos, pensando no que aquelas navalhas em forma de dentes fariam com a pele dele. Logo depois olhou acusatório para o animal.

– Talvez o pescoço, mas quem tem coragem de checar? — Marilyn analisou o ser, ainda hesitante. Comprimiu e espremeu os lábios, observando os detalhes. — Ele é lindo. Mas não foi extinto há uns, milhões de anos atrás?

Os garotos concordaram em um silêncio assustador.

Por outro lado, o dinossauro anão já estava bufando e desistindo, quando abriu um buraco na rede e prendeu a mandíbula e as narinas lá. Mas seus olhos eram espertos e não perdiam um único movimento dos cinco. Poderia até imaginar que ele estava rosnando.

– Devemos chamar a polícia. — A moça decidiu.

– E dizer o quê? "Hey, tem um dinossauro aqui na sala de estoque do hospital! Não, senhor. Eu não fumei nada. E, sim, estamos vivos. Incrível, né?"– Biel disse ironicamente e recebeu um peteleco de Iago.

– Fumou? — Marilyn olhou confusa e franziu a testa. — Como assim? O que cigarros têm a ver com dinossauros?

– Nunca ouviu falar de LSD? Maconha? — ele perguntou, chocado.

– Ahn... Não. — Marilyn olhava para ele como se ele fosse louco e realmente tivesse acabado de usar maconha. O sotaque alemão não parecia mais tão alemão. — Do que está falando?

Um minuto. Sotaque alemão?

– Onde estamos, Marilyn? Que país é esse? — Thiago deu um olhar sério para a garota, enquanto sua cabeça estralava fazendo as contas.

– Berlim, Alemanha. — Sorriu ainda mais confusa. — Por quê?

– Você fala português desde quando? Onde aprendeu? — Derek se pronunciou.

– Que ano é esse, Mary? — Gabriel puxou a linha de raciocínio.

– Tem um dinossauro aqui e vocês preocupados com a língua dela? — Guga franziu a testa.

– Eu não falo português, não. Falo alemão e inglês. Mas não contem à ninguém do inglês, porque não sou muito boa e certas moças não devem falar línguas ou saber de coisas como homens...

– Mas está falando agora em português. E o ano? — interrompeu.

Marilyn olhou para os meninos, ainda mais hesitante.

– Vocês se esqueceram? Deve ser algum problema neurológico que o médico não viu. No circo de vocês não...

– Circo?

– Vocês não são de circo? Por que usam essas roupas, então? — perguntou curiosa.

Os garotos se entreolharam.

Ficaram tanto tempo concentrados em acabar com o animal e se manterem vivos que nem pensaram muito sobre o que estava acontecendo. Onde estava acontecendo. Por que estava acontecendo.

Bom, tinham um dinossauro ali com mais ou menos um metro de altura, jogado no chão e preso por amarras e uma rede. Tinham um hospital com baixa infraestrutura e uma enfermeira de roupinha de teatro e olhar inocente. Não estavam em casa, e sim na Alemanha. Uma ampulheta que aparecia e sumia a todo tempo. Bom, as chances de ser um sonho eram grandes, mas os detalhes acusavam o contrário.

Sem contar que se sentiam vivos. Se sentiam reais — mesmo com as células renovadas — e lúcidos, mesmo que confusos e com a cabeça doendo.

– Ah, o ano é 1860. Janeiro, para ser mais exata. — Sorriu, se sentindo útil. — Vem, eu vou tratar os machucados de vocês. — Apontou para os arranhões e sumiu atrás das prateleiras.

– Precisamos achar aquela ampulheta. — Slytes respirou fundo e passou a mão na testa molhada. — Eu já desisti de entender o que está acontecendo.

– Agora só vamos seguir o script, tentar nos manter vivos e tentar voltar para casa. — Gabriel concordou, sério.

– E achar algo para comer. — Derek tossiu e respirou com dificuldade.

– E nos livrarmos daquele animal. Definitivamente, temos que nos livrar. — Biel olhou para as marcas sangrentas nos seus braços e olhou para os amigos.

– Meninos! Voltem para os leitos! Já estou indo. Deixem o Dino aqui, vou trancar a sala.

Cansados, obedeceram sem nem reclamar.

Agora, apenas um médico estava na emergência, escrevendo algo no prontuário em pé ao lado do balcão. Indiferente aos outros poucos que passavam naquela noite fria.

Gustavo tremeu o nariz quando o álcool que a Marilyn aplicava no machucado entrou na carne e ele se concentrou na entrada do local. Lá na porta, um homem manco e velho, de mais ou menos 1,75 adentrou ao hospital. Aos poucos a luz dos abajures foram iluminando o rosto do sujeito, mostrando uma barba malfeita contornando um sorriso vagabundo. Seus olhos pararam nos garotos e ele rosnou baixinho, apontando a bengala de madeira para Gabriel.

– Ei, você! — o sotaque arranhava a garganta e fazia sua voz mais grossa e rouca do que podia imaginar. — Me dê agora a ampulheta!