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4 Capítulo 4 - Heroes We could be


Notas iniciais
VOLTEEEI! o/ Estava viajando no carnaval, por isso não postei nada essa semana. Mas, durente a viagem (que foi ótimaaa) eu escrevi esse capítulo e um pedaço do 5º. Infelizmente, não foi possível traduzir nada de Letters from War porque a internet lá era inexistente. Perdão :( A vingança da Regina se aproxima, será no próximo capítulo muahahah A música desse capítulo é Heroes (We could be) - Alesso ft. Tove Lo. Espero que gostem :)

“Obrigada, — ahn, desculpe, qual é o seu nome? Seu nome de verdade?” Henry perguntou, envolvendo Emma em um inesperado abraço.

“Emma. Meu nome é Emma Swan.” Ela tentava ao máximo esconder a perplexidade em seu tom de voz, abraçando o garoto de volta.

“Prazer em te conhecer, Emma. Nos vemos depois de amanhã!” E o menino foi desaparecendo do corredor, de mãos dadas com sua mãe. Regina Mills era mãe daquela criança.

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“É o quê? Emma, você está louca? Não podemos fazer isso! Quero dizer, podemos, se nosso objetivo de vida é morrer antes dos trinta anos.” Ruby disparou, incrédula, do outro lado do balcão da cafeteria.

“Ah, qual é, Rubs. Por favor. Por mim.” E a loira lançou à amiga um olhar de cachorrinho pidão. Aquela expressão sempre fora sua arma mais letal, seu trunfo para convencer as pessoas de qualquer coisa. Talvez essa carinha funcionasse até num acordo pela paz mundial. “EUA, parem de brigar com os outros países do mundo, por favoooor?” Era tiro e queda.

“Você não pode estar em suas condições normais de saúde mental. Aparecer na casa da Regina depois de amanhã do nada? Ela vai nos enxotar de lá como se fôssemos insetos asquerosos!”

“Mas até a Mary concordou! Ruby, só eu vi o quão aquela mulher ficou triste quando seu filho – e, sim, Regina tem um filho – perguntou se eu ia à festa de aniversário dela. Ela não convidou ninguém. E é porque ninguém iria. Ninguém teria coragem de aparecer na casa de uma mulher tão...” Emma suspirou e deixou os ombros caírem. Àquela altura, Regina era tanta coisa para Emma que, de repente, lhe faltou adjetivos para descrever um mínimo aspecto de sua personalidade. Do mesmo modo que, quando Regina olhou para Emma tentando se desculpar pela audácia do filho, a jornalista mais nova não conseguia enxergar nenhum sentimento. Aquele espectro de sentimentos tornou-se uma linha tão tênue entre amor e ódio – carnal e celestial que nada mais poderia ser razoavelmente explicado. “Tão tudo.”

“Amiga, se tem uma coisa que aprendi com a própria Mary Margaret é que não devemos nos intrometer onde não somos chamados. Já te passou pela cabeça o porquê da Regina nem tentar se aproximar de alguém? Vai ver ela gosta de ser solitária. Vai ver ela tem algum distúrbio psicológico que a impede de demonstrar afeto, eu sei lá. Só sei que você é tão maluca quanto ela se insistir mesmo nessa ideia.”

“Eu insistirei. Regina não é sociopata. Eu vi com meus próprios olhos os abraços que ela deu em Henry e o tamanho do sorriso na boca dela quando ela falava dele.” Só de pensar naquela boca e no sorriso da outra mulher, Emma pressionou os lábios e deu um meio sorriso. “Eu sei que ela é uma mulher hostil, distante, muito conservadora em relação a sua vida pessoal, mas, Rubs, vamos dar uma chance a ela. Vamos ver no que vai dar. Vou te pedir só mais uma vez...”

Emma deu à morena os olhinhos pidões novamente. Se não funcionou da primeira vez, é porque eles realmente temiam Regina.

“Tá booooom, Swan. Tudo bem. Eu faço isso. Mas é por você, não por ela. Que fique bem claro.” No fundo, as amigas sabiam que Ruby também estava comovida – ou, pelo menos, bastante curiosa. A loira soltou um gritinho e abraçou a amiga animadamente. “Ahhh, eu sabia, sabia,que podia contar com você! Avise aos outros funcionários mais próximos dela se eles passarem por aqui. Não esquece. Ah, e leve um prato salgado, afinal, Regina nem imagina que vamos arrastar todas essas pessoas pra casa dela.” Emma gargalhou e saiu após depositar um beijo na bochecha da amiga.

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Em sua infância, Regina não teve a sorte de ser uma criança livre. Ela não tinha amigos no colégio, nem entre as famílias vizinhas à sua enorme mansão em Boston. Sempre foi ensinada a achar que o amor era uma fraqueza e que qualquer tipo de laço afetivo seria um entrave em seu sucesso escolar, acadêmico e, por fim, profissional. Cora Mills era sua mãe, afinal. A mulher era o diabo encarnado. Antes do falecimento de seu marido, Henry Sr, pai de Regina, tudo o que a matriarca desejava era status. Como se fosse uma peça de xadrez, Cora manipulava Regina e a empurrava para as melhores festas, com os melhores pretendentes — os mais ricos. As duas nunca puderam sentar e conversar. Nunca compartilharam sobre os desafios de se tornar adolescente, de se tornar mulher. Nunca trocaram abraços quentes e seguros. Nunca foram assistir a um teatro de marionetes juntas quando a morena era pequena, pois não precisavam nem sair de casa para tê-lo. O respeito pela família Mills fora sendo alcançado aos poucos, porém, a partir do dia em que seu pai fora enterrado, ele também fora. Regina e sua mãe passaram a ser temidas. E muito.

“Henry, querido, vá se trocar. Os convidados já devem estar chegando.” Regina chamou num tom alto, porém tão plastificado. Não havia convidado algum. Bem, não era pra haver. Haveria somente as desculpas esfarrapadas de todos os anos sobre aquela ausência constante.

“Tcharam, já estou pronto. E lindo. Você não acha?” Henry deslizou para dentro do quarto de sua mãe, dando uma voltinha com as mãos no paletó. Regina não pôde evitar uma gargalhada alta. Henry era tão esperto e safo que, às vezes assustava. Mas era engraçado. “Está sim, meu amor. Você é o menino mais lindo” Regina o puxou para um abraço e depositou um beijo em seu pescoço, inalando o cheiro de sabonete “e cheiroso desse planeta!” Os dois riram mais um pouco e Henry saiu correndo do quarto. Se aquela festa fosse mesmo acontecer, Regina o mandaria parar de correr para não suar. Mas, naquele dia, seu filho poderia fazer o que ele quisesse.

Os aniversários dela sempre foram assim. Na verdade, até a puberdade, alguns convidados da nata de Boston ainda compareciam às grandes celebrações sediadas na mansão dos Mills pura e simplesmente por educação. E interesse. Todos os anos, a menina – e depois adolescente, e depois mulher – era obrigada a colocar seu vestido mais caro, o mais deslumbrante, apenas para si mesma. Jantava com sua solidão e brindava mais um ano de vida batendo taças de cidra de maçã com sua amargura crônica. Sempre foi assim e, infelizmente, sempre será assim.

“Outro maravilhoso ano.” Regina sussurrou olhando-se no espelho em cima da cômoda, as mãos apoiadas no móvel. Ela fechou os olhos por alguns segundos e suspirou intensamente.

O transe da morena só foi interrompido pelo som da campainha tocando. Imediatamente, os olhos de Regina se arregalaram e quase saíram de órbita, capturando sua própria imagem refletida. Não conseguia se mexer, não conseguia acreditar que, pela primeira vez desde a infância, a campainha de sua casa havia tocado no dia de seu aniversário.

“Mãe, mãe, o primeiro convidado já chegou! É melhor você se apressar. Vou recebê-lo para você.” Henry falou animadamente, descendo as escadas como um foguete.

“Boa n- EMMA!” Os olhos do menino se expandiram em descrença e um sorriso de orelha a orelha se desenhou em seu rosto branquinho. Ela havia cumprido sua promessa. Era a primeira pessoa que não a quebrara desde que Henry tinha ciência dos aniversários da mãe. A porta, que estava meio aberta, se abriu por completo juntos com os braços de Henry, que foi recebido por um abraço caloroso da loira. “Oi, garoto. Eu disse que vinha. Ah, e, Henry...” O garoto olhou para cima para dar atenção a Emma e seu campo de visão pôde perceber tudo. Não havia apenas Emma. A boca de Henry formou um ‘O’ enquanto soluçou sua surpresa e espanto. Era uma festa completa. Cada acompanhante da jornalista segurava um tipo diferente de comida de festa: salgadinhos, docinhos e as bebidas. Outros exibiam cachos feitos de balão de gás e duas mulheres ao lado de Emma seguravam juntas uma faixa escrito ‘Feliz aniversário’. “Isso...é...DEMAIS!” Agora Henry sorria tão avidamente que podia-se ver todos os seus dentes. Saindo do caminho como um sinal de permissão para entrarem em sua casa, os (des)convidados foram adentrando, um pouco receosos, a casa de Regina Mills.

Já com toda a decoração devidamente arrumada e o bufê improvisado a postos, as luzes do andar de baixo foram apagadas por ordem de Henry. Essa era uma das vantagens de se morar numa casa grande e antiga: paredes grossas, o que significava que as chances de Regina, ainda imóvel em seu lugar diante do espelho, escutar o que estava acontecendo logo depois das escadas era mínima.

O garoto subiu as escadas cuidadosamente e seguiu em direção ao quarto da mãe. Entrando de mansinho, Henry usou seu tom mais teatralmente triste. “Mãe... é que... tem alguém lá embaixo querendo muito falar com você. Disse que é urgente.” Regina virou-se para seu filho, dando a ele um sorriso decepcionado. Só porque não estava nem um pouco acostumada a receber convidados em seu dia especial, não significava que ela não tinha, pelo menos, uma pequena curiosidade. Talvez até mesmo a vontade.

Mãe e filho fizeram seu caminho pelas escadas, e, quando os cliques do salto de Regina não podiam mais ser ouvidos, significava que já haviam terminado os degraus. Consequentemente, significava o início da festa. Ruby, que estava encarregada de acender o interruptor, finalmente o fez, revelando toda a produção para a festa tomando conta do saguão, da sala de estar e da de jantar. Um estridente grito de ‘SURPRESAAAA!’ ecoou pela casa, fazendo Henry gargalhar.

“Mas o qu-“ Regina não conseguiria completar aquela frase. Quando fechou os olhos, em seu quarto, sozinha, de frente para seu espelho, Regina desejou não passar seu aniversário sozinha. Entretanto, como em todos os outros anos, ela sabia que esse ritual de fechar os olhos e fazer um pedido era um mito. Mas as coisas não estavam seguindo a convencionalidade na vida de Regina desde que Emma Swan entrou em sua vida. Apesar de as duas terem concordado que tudo aquilo não passava de sexo, a loira era parte da vida de Regina. Uma pequenina parte, mas, ainda assim.

Seus olhos ainda estavam arregalados, engolindo tudo aquilo à sua volta, sua boca aberta em estarrecimento. Antes que alguma daquelas pessoas ali presentes – principalmente Emma, a possível responsável por aquele ultraje – viesse a abraçar ou lhe desejar os parabéns, Regina saiu. Correu para fora da casa esbarrando em qualquer um que estivesse em seu caminho. Quando já estava no jardim, percebeu que havia alguém a seguindo.

“Regina...” Emma tentou, parando a alguns metros da morena.

“Emma, não.” Regina também parou e virou-se para ela, levantando a mão sinalizando para que não chegasse mais perto. “Eu...não. Por favor, não me siga.” E a jornalista retomou seus passos, sumindo na distância de sua rua, evaporando na brisa fria daquela noite sem luar.

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“Sim, ela simplesmente foi embora!” Emma repetia pela terceira vez aos convidados, ainda atônitos com o que acabara de acontecer. “E ela pediu para não ser seguida. Nossa, ela é tão teimosa. Ela acha que vive em alguma cidadezinha de um livro de contos de fada? Não! Isso aqui é Nova York! Ela pode estar em perigo e eu não sei onde ela está e...” A loira suspirou fracamente. Mary depositou uma mão em seu ombro e a ofereceu um sorriso acolhedor. “Vai ficar tudo bem, Emma. Regina está bem. Ela é uma mulher adulta e, odeio admitir, muito sã. Não faria nenhuma loucura e conseguiria escapar de qualquer violência. Fique calma.”

“Isso mesmo, Em. Regina é durona. Ela só deve estar precisando de um tempo para processar o que fizemos por ela.” O mesmo sorriso foi oferecido por Ruby, sentada no sofá. “Ficaremos aqui com você até que ela retorne. Para impedir que você faça alguma coisa estúpida e da qual irá se arrepender depois, e tal.”

Henry atravessou a sala e sentou-se no colo de Emma, envolvendo sua cabeça com um abraço. “Emma, ela vai voltar. Daqui a pouco, você vai ver só. Vai voltar pra mim e pra você.” Todos os outros (des)convidados conversavam entre si, abafando a voz do menino para que só eles dois pudessem se ouvir.

“Pra mim?” Emma deixou os ombros caíram e o canto de seu lábio subiu. “Ela não nada para o qual voltar em mim, garoto. Eu e sua mãe somos meramente colegas de trabalho. Se você nunca dissesse que ela fala de mim para você, eu morreria achando que ela me odeia.” Os dois gargalharam brevemente antes de um silêncio se estabelecer entre os dois. Henry o quebrou.

“Ela sempre mentiu para mim.” Aquela declaração fez Emma voltar seu olhar para ele, atentamente, pedindo para que continuasse. “Todos os anos, ela diz que os convidados tiveram um compromisso de última hora, ou estavam doentes, ou haviam morrido. Eu sempre soube que era mentira. Mas, por outro lado, eu a entendo. Ela só não queria que seu próprio filho soubesse o quão solitária ela realmente é. Mas acredito que ela só é assim por causa da vovó Cora. Ela é muito exigente até comigo, imagino o quanto ela não foi com minha mãe. Teve um dia, Emma, que ela estava tão chata que aproveitei enquanto ela estava costurando para fugir. Eu peguei um dinheiro que minha mãe sempre deixa ali naquela mesa para casos de emergência e saí correndo daqui.” Henry explicou calmamente, olhando para Emma com olhos tristes.

“Ela – espera aí. Foi no dia que você apareceu lá no prédio? Foi por isso que você foi para lá? Como você conseguiu chegar?” Emma o interrogou inquisitivamente.

“Wow, muitas perguntas! Fui pedindo informações, ora. Não é tão difícil chegar à Times Square quando se mora no Central Park. São os dois lugares mais conhecidos da cidade, desculpa, de onde você veio mesmo??” Henry brincou.

“Nem comece, garoto. O que me espanta é você ainda estar vivo depois do que fez. O que sua mãe fez?”

“Na verdade, ela entendeu.” Os olhos de Emma se arregalaram, suas sobrancelhas se arquearam em surpresa e sua cabeça se inclinou para a lateral. “É claro que ela brigou comigo por eu ter saído sozinho por Nova York sem avisar, até confiscou todos os meus quadrinhos por isso. Mas ela entende o porquê de eu ter feito. Na verdade, nunca vi minha mãe ser tão sincera comigo quanto naquele dia. Ela me contou sobre as milhões de vezes em que quis fazer o mesmo que eu, mas lhe faltou coragem. Me contou sobre como sua mãe lhe afastou do resto do mundo para que ela estivesse focada somente em sua carreira e em seu status. Por isso eu achei que ter vocês aqui hoje seria legal. Minha mãe é como é hoje por falta de atenção ontem. Se vovó Cora tivesse lhe amado e lhe apoiado em suas próprias decisões, talvez hoje ela não fosse tão fria e até tivesse um namorado. Você tem namorado, Emma?”

Mas a loira não conseguia nem processar as informações vazadas antes da última frase de Henry. Então essa era a razão de tudo. Era por isso que Regina era tão...tudo. Ela era tudo. Regina Mills era morena, de olhos castanhamente sedutores. Linda como nenhuma outra mulher jamais poderia sonhar em ser. Tinha a pele macia e levemente bronzeada. Seu sorriso era capaz de mudar as rotas da Terra de tão intenso e brilhante e sua voz, ah, a voz daquela mulher provocava arrepios desde o dedão do pé até o último fio de cabelo. Regina Mills era uma jornalista intransigente, estressada, hostil, prepotente, mandona, impaciente, mal humorada. Regina Mills era mãe de um garoto de dez anos, um garoto assustadoramente inteligente e derretivelmente adorável. Regina Mills era solitária e infeliz, havia uma agonia em sua alma que nunca havia sido mostrada pela embalagem firme e autoritária que a mulher exibia a todos. Regina Mills poderia ser uma pessoa, afinal. Uma pessoa humana, com medo do afeto, medo do amor. Medo de ser abusada como foi por seu próprio chefe. Medos ordinários que a maternidade traz de brinde. Medo de, Emma ousou arriscar, se entregar a algo mais profundo do que somente sexo.

“Como?” Emma respondeu lentamente, virando seu rosto para Henry.

“Eu perguntei se você tem namorado.”

“Não.”

“Por quê?”

“Porque não.”

“Você não é como a minha mãe. Você vê as coisas boas nas pessoas, é alegre, esperançosa e muito legal.”

“E você só me conhece há alguns dias. É a primeira vez que conversamos, garoto.”

“Não preciso de tanto tempo para perceber essas coisas. Você é tipo uma super heroína.”

“Super heroína?”

“Me conta a sua história.”

“A minha história?”

“Você tem algum problema de audição? Porque...” Emma soltou uma risada espontânea.

“Não, é que você sempre me surpreende com suas perguntas e pensamentos.”

“Então, vai contar ou não?”

“Tudo bem, mas só se me prometer que vai escrever um livro sobre ela.”

“Tudo bem. Eu prometo.”

Então a jornalista contou sua história. Ela falou sobre ser abandonada na beira de uma estrada envolta numa colcha com seu nome bordado, sobre os anos inacabáveis no orfanato e, esporádica e brevemente, numa família adotiva. Falou sobre se envolver com um homem fora da lei, Neal Cassidy, até hoje procurado pela polícia. Sobre seus meses na prisão, onde tudo o que via era o cinza das paredes e de sua alma e o laranja dos uniformes, vagando de um lado para o outro, perdidos num lugar sem saída. Mas, além disso, Emma falou sobre a rejeição, sobre o medo de se envolver com outra pessoa novamente. Contou a Henry sobre sua volta ao mundo real, no qual teve a oportunidade rara de estudar e se especializar em algo que, no passado, havia arruinado sua vida. Escrever sobre crimes era como ser a autora de sua própria história todos os dias.

“Eu sabia.”

“O quê?”

“Sabia que você havia passado por tanta coisa em sua vida quanto minha mãe, mas você resolveu tomar um outro caminho. E por isso você é minha heroína. Mesmo diante de tanto sofrimento, tanto abandono, tanta decepção, você optou por fazer o bem e estar sempre feliz, mesmo sem ter tudo o que quer. A prisão te ensinou isso, né? Quando se não tem nada, o pouco é tudo.”

“Lá está você me assustando com essa sapiência toda. Qual a sua idade mesmo??” A mulher respondeu no mesmo tom de brincadeira que Henry usou quando perguntou de onde ela veio.

“Você devia ir atrás dela. Da minha mãe.” Henry sugeriu depois que conseguiu parar de rir.

“Mas eu nem sei ond-“

“Use seus super poderes. É sério. Você consegue. Em, eu confio em você. Vai lá, traz a minha mãe de volta pra essa festa e mostra para ela que, assim como você, ela pode esquecer o passado que ela teve e se abrir para uma vida nova, cercada de pessoas que ela ama. Você faria isso por mim?”

“Garoto, não só por você. Por ela também.” Em sua cabeça, a resposta era um pouco mais longa. E por mim.

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Regina saiu andando pela calçada em seus sapatos de salto alto, um vestido azul marinho e uma maquiagem leve. Seus lábios rosados estavam partidos e sua testa estava franzida. O olhar que carregava era esbugalhado e apavorado e a respiração era rápida e ofegante. Assim que virou a esquina, a mulher soube onde queria ir. Onde era o único lugar para o qual poderia ir sem que pudesse ser encontrada por uma loira intrometida. Assim que o pensamento se desfez, a morena entrou num bar à meia luz, uma música suave de jazz tocando baixinho. Tomou o primeiro banco e logo pediu uma taça de cidra de maçã, a única bebia capaz de apaziguar seus pensamentos mais sombrios e insanos. Como aqueles que estava tendo no momento. Na verdade, como os que andava tendo há tempos.

Com a cabeça ainda baixa, Regina foi surpreendida por uma mão em seu ombro. A primeira pessoa em que pensou foi logo descartada quando a mesma mão desceu para seu braço e o acariciou rapidamente. Era uma mão grossa e bruta. Em uma fração de segundos, Regina levantou sua cabeça e a virou para o lado, a fim de ver quem era aquele ser abusado que havia lhe tocado com tanta intimidade. Não poderia ser o Gold. Não.

“O que um mero homem da vida poderia oferecer para uma mulher tão celestial? Um Martini? Uísque? Uma cerveja?”

“Você não vai querer saber o que eu tenho para te oferecer.”

“E se eu quiser saber?” O tom do homem de cabelos loiro escuro e olhos verdes era provocador e ele a oferecia um sorriso desafiador.

“Você me paga outra cidra de maçã e eu te ofereço o que tenho.”

“Só se for agora.”

Enquanto a morena terminava sua primeira taça, o garçom se aproximou e depositou a próxima, cortesia do homem desconhecido que acabara de conhecer.

Terminada a segunda taça, os sensos de Regina já estavam suficientemente alterados para que pudesse fazer o que queria.

Com um movimento rápido e certeiro, a morena envolveu seus braços no pescoço do homem e o beijou vorazmente, desesperadamente. Ele demorou a responder mas, assim que o fez, o beijo foi se aprofundando e, quando ia ficar ainda mais intenso, Regina separou seus lábios dos dele, lhe dando um sorriso mais falso do que uma nota de três dólares. “Meu nome é Robin”, ele lhe disse, devolvendo o sorriso, mas esse era sincero. Antes que pudesse falar mais alguma coisa, a expressão da jornalista se transformou em uma furiosa e, sem ponderar seus instintos, cinco dedos pesados estalaram contra a bochecha do homem, cujo rosto se virou rapidamente.

“Isso é por me tocar daquele jeito.” O homem já havia retornado seu olhar para a mulher, e era um olhar chocado e questionador.

“E isso,” Regina levantou seu joelho dobrado e o acertou bem no meio das pernas “É por eu ser um monstro sem coração.”

“Regina! Reginaaaa! O que foi isso?” Uma voz muito conhecida foi se aproximando. “Regina, o que-“

“Agora não, Swan.”

“Quem era ele? Por que ele saiu arrastado daqui? Regina, ele te machucou?”

“Sim.”

“O qu-“

“Mas não se preocupe. Eu o machuquei de volta. E o que é que você está fazendo aqui? Achei que não frequentasse lugares assim.”

“Olha, senhorita Mills, você pode me subestimar o tempo inteiro, mas lembre-se que estamos no mesmo patamar da hierarquia da redação e eu poderia muito bem passar as minhas noites solitárias aqui também, como você faz. Acontece que eu prefiro lugares mais animados para me divertir com meus amigos e eu não sou sozinha como você é.” Aquelas palavras saíram sem que ela pudesse impedir, o que fez com que ela logo pusesse a mão sobre a boca. Tarde demais.

“Eu não lhe devo satisfações sobre minha vida pessoal, Swan.” O tom ferido e ofendido de Regina foi o suficiente para que a mulher mais nova se rendesse e a puxasse para se sentar numa mesa mais afastada da música, da bebida, das pessoas.

“Henry me contou. Ele me disse tudo sobre você, sobre ele, sobre sua mãe. Você teve uma história difícil, Regina, e eu entendo isso. Acredite, eu entendo. Tudo o que você teve demais, eu tive de menos. Cresci sem pais, sem uma escola chique, sem boas maneiras ou boas influências, sem uma bolsa por recomendação numa das melhores universidades do país. Passei tempo demais numa prisão por um crime do qual fui cúmplice. Passar sua infância e adolescência sem ao menos uma pessoa para te pressionar, para te educar, não é bom. Sei que o que sua mãe fez, e ainda faz, é até desumano, mas ela ainda te ama. Ela ainda é sua mãe. Eu não tive isso, Regina. Mesmo que não seja do jeito convencional, ela quer o seu bem. Consegue ver alguma coincidência?”

“Como assim?” Regina estava muito compenetrada no desabafo, como nunca esteve em nenhuma aula da faculdade, nenhuma prova decisiva, nenhuma reunião com Mr. Gold.

“Eu também quero isso, Regina. Você goste ou não, eu quero o seu bem. E seu filho, céus, como o Henry te ama. Nã-não que eu te ame, ou algo do tipo, mas nós dois queremos o seu bem. Eu não levei aquelas pessoas com quem você convive há tanto tempo porque elas estão interessadas no seu dinheiro ou na sua posição na empresa. Eu não os levei por puro dó. Eu os levei por esperança. Eu tinha – e ainda tenho – esperanças de que você possa abrir essa sua concha e sair dela, deixando revelar a pérola que vive em seu coração. E me desculpe por estar sendo sentimental, mas, como seu filho me disse há uma hora, eu vejo o bem nas pessoas. Sou uma super heroína, nas palavras dele.” Emma sorriu inocentemente, até um pouco envergonhada de expor seus sentimentos daquele jeito para uma pessoa tão gélida.

“Eu o beijei.” Foi tudo o que Regina conseguiu dizer.

“Quem?” A loira usou um tom decepcionado. Será que nem depois de ter aberto seu coração, a morena ainda não conseguiria amolecer?

“Aquele homem. Eu o beijei. Na verdade, ele chegou me tocando, acariciando meu braço. Emma, eu lembrei daquele dia em que você me viu chorando no banheiro.” As duas se olharam ao se lembrarem do que aconteceu logo após. “Gold me tocou de um jeito parecido, um jeito abusivo. Nos dois eu dei um tapa muito bem dado e merecido, e desse homem eu chutei o meio das pernas. Em cheio. Mas isso foi depois do beijo.”

“E por que você beijou aquele cretino?” A voz de Emma era cheia de raiva e indignação.

“Porque eu queria sentir algo!” Regina falou quase gritando, deixando uma lágrima cair, depois de tentar escondê-la por muito tempo. “Ao ver tudo o que você fez por mim, aquela festa montada com comida, bebida, decoração e, ainda por cima, aquelas pessoas todas, Emma, eu senti medo. Ninguém nunca fez nada parecido por mim. Durante a minha vida, eu nunca tive oportunidades de me preparar para ter pessoas à minha volta, me parabenizando, me dando abraços, enfim, se importando comigo. Quando eu cheguei aqui, aquele homem veio, sem mais nem menos, me ofereceu uma bebida e eu achei aquilo o maior dos ultrajes. E eu o beijei. Eu fiz aquilo porque eu precisava sentir algo além de medo. E não senti.” Com aquela última declaração, uma pontinha de alívio surgiu entre os mil sentimentos que rodeavam a mente e o coração de Emma. “Eu queria provar para mim mesma que não sou esse monstro de gelo que todos dizem por aí. Pelo visto, não há muito o que fazer. Eu sou assim, vou morrer assim.”

“Não. Droga, Regina, não! Está errado!” Emma bateu na mesa e sua voz saiu mais alta do que planejava. Regina analisou a expressão da loira de cabo a rabo. Com um suspiro calmante, Emma continuou. “Há um outro jeito de fazer isso acontecer. De você provar para todos e para si mesma que você é um ser humano, um de verdade, com direito a sentimentos e tudo.”

“E qual seria esse jeito, Ms Swan? Um milagre?”

“Não. Venha para a festa.”

“Emma, isso é-“

“Não hesite, Regina. Quando você queria prazer, você não hesitava. Muito pelo contrário. Na hora de se entregar à luxúria carnal, você não perdia tempo. Dê essa chance a você. Deixe que todos, mas principalmente você, vejam que você não é só uma embalagem. O que me diz?”

Regina não precisou responder. Apenas suspirou e encolheu os ombros em rendição. Emma sorriu em aprovação e as duas caminharam para fora do bar, calmamente, de mãos dadas.

Notas finais
Awww