Through the Ages
1 Through the ages
Notas iniciais
Through the Ages
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Aquela deveria ser uma noite como outra qualquer, onde Rin simplesmente subiria as escadas da mansão Tohsaka, e se encaminharia para seu quarto, buscando descanso no conforto de sua cama após um longo e relaxante banho. Por mais que muitas vezes não realizasse seus planos da forma como desejava e acabasse concentrando-se em algo diferente, nada, nem em seus sonhos mais estranhos, poderia prepará-la para a cena que a recepcionaria.
Fazia alguns dias que tinha a sensação de estar sendo observada, por vezes, flagrara uma sombra disforme através do fino tecido tremulante da cortina da janela, mas acabara concluindo que era tudo coisa de sua cabeça, culpa daquele instinto desperto quando fora uma das magas escolhidas para a Guerra do Santo Graal, quando Archer fora seu servo e sua vida estava ligada a dele das mais diversas formas possíveis.
Mas estava tudo no passado – ou assim deveria ter sido.
A maga carregava o casaco vermelho num dos braços, o qual já havia se tornado sua marca; o cabelo descia longo pelas costas, não mais presos pelos antigos laços negros. Os pés praticamente se arrastavam, a visão quase se turvava, tão exausta estava pelas horas ininterruptas de leitura. Empurrando a porta com a lateral do corpo, caminhou para o negrume de seu quarto. Logo no primeiro passo dentro do cômodo, foi atingida por uma sensação inominável, que fez com que se colocasse alerta no ato e todo cansaço se esvaísse, deixando o casaco deslizar cuidadosamente de seus braços para o chão.
O local parecia estar tão repleto de magia quanto sua própria sala de prática, o que só se intensificou, quando a poucos passos, uma presença se materializou e, mesmo na escuridão, dois orbes de um intenso vermelho se acenderam como magma puro, quentes e letais. Rin se surpreendera, mas não pelo fato de haver uma segunda presença em seu quarto e, muito menos, por se tratar de um heroi, mas por reconhecê-lo de imediato. Por ter cravado em sua mente, que embora ferozes, tais olhos não lhe apresentava perigo, muito pelo contrário, já haviam sido sua salvação, e disso, ela jamais se esqueceria.
— Lancer…
A voz da maga ecoou através do silêncio, fazendo com que um sorriso travesso se mostrasse nos lábios do heroi. Ter seu nome pronunciado com tamanha certeza deu a ele certa alegria. Ao que parecia os anos não haviam apagado-o da mente da morena — assim como não a apagara da dele.
O Espírito Heroico sondou-a dos pés à cabeça, notando os sinais de amadurecimento presentes não só em suas roupas como em sua feminidade. Estava mais do que claro que pouco restara daquela garota e, muito havia da mulher que se tornara. Uma elegância discreta, um corpo esguio, embora, repleto de curvas agradáveis.
— Vejo que cresceu bem, garota.
O guerreiro moveu-se para a luz que era oferecida pela lua e, Rin pôde ver, mesmo com a parca iluminação, as mudanças em sua aparência, mais especificamente em suas vestes. Nada da malha azul que marcava cada seguimento de músculos e nem sinal da lança.
— Parece que não fui a única a mudar nesse meio tempo.
— Pode me chamar de Caster, agora… ou Cu Chulainn, como preferir.
Acrescentou ele casualmente, dando de ombros.
Rin piscou, levemente desconcertada, mostrando-se um pouco mais cautelosa.
— É suposto que os herois mantenham sua identidade em segredo. Eu saber seu nome pode deixá-lo em desvantagem em relação aos demais.
Chulainn continuou a sustentar seu sorriso, repleto de confiança.
— Mas você não é uma inimiga e muito menos apresenta perigo para mim. Não vejo motivo para não me revelar. Ademais, acredito ter esperado tempo demais para fazê-lo.
O heroi caminhou pelo quarto, tilintando o metal presente em seu cajado, até encostá-lo contra a parede. Rin o observou em silêncio, tentando entender o motivo de sua inesperada aparição. Ela não era uma mestre, disso tinha certeza – embora, apenas para confirmar, fitou ambas as mãos, correndo os dedos levemente sobre a pele.
Um riso ressoou através do peito de Caster, fazendo com que Rin levantasse os olhos.
— Não se preocupe, não estou aqui para isso. Se lembra-se de mim, acredito que também não tenha esquecido do que eu disse.
A maga piscou, buscando na mente aquele determinado acontecimento de tantos anos atrás; as palavras ditas em meio às chamas. O lampejo de reconhecimento deve ter sido claro o suficiente em seu rosto, pois, o heroi voltou a rir, alargando o sorriso.
— Isso mesmo. Pedi para que viesse me ver quando crescesse um pouco, mas como isso não aconteceu, tomei a iniciativa... Espero que ainda goste de pessoas como eu.
— E-Eu…
Rin não sabia o que dizer. As palavras estavam presas na garganta, e vinham em uma velocidade muito maior do que seu cérebro era capaz de processar, o que só piorou, quando por um passe de mágica, as luzes se acenderam e, no momento fugaz em que sua visão se desviou para o teto, o heroi já havia coberto toda a distância que os separava e a enlaçado pela cintura, com tamanha posse, que a deixou desnorteada.
Rin o encarou de olhos arregalados, sem saber o que fazer com as próprias mãos, pressionou-as contra o peito. Estavam tão próximos, que mesmo com as grossas camadas das roupas dele, a maga conseguia sentir contra seu corpo os contornos de cada músculo e a força contida em seu ser. Chulainn a observava de cima, absorvendo sem pressa alguma as curvas da mulher sob as roupas. Jamais havia se arrependido por tê-la salvado, mas agora poderia afirmar que teria sido um total desperdício deixá-la morrer. Transpassar o peito com Gáe Bolg não parecia um preço tão alto agora que receberia sua recompensa. Mas embora Rin houvesse mudado de várias formas, uma coisa permanecia — ela ainda corava com facilidade.
Caster envolveu um dos pulsos de Rin com a mão livre, afastando-a do corpo feminino, deslizou os dedos através da palma dela até sustentar os dedos da maga com os dele, levando-a próxima aos lábios, conforme acariciava as costas de sua mão com o polegar.
— Diga-me, garota... Ou melhor, Rin. Você continua perdendo seu tempo com aquele garoto?
Rin franziu o cenho, desviando o rosto para a lateral, seu lado orgulhoso começando a acordar sob a timidez que a atingia.
— Não consigo pensar em um motivo para minha relação com Emiya Shirou ser de sua conta.
O heroi sorriu satisfeito, gostava do espírito indomável que a maga detinha. Mas teria que amansá-la pelo momento, para obter as respostas de seu interesse. Detendo o polegar, pousou os lábios sobre os nós dos dedos da morena, não beijando-os, mas oferecendo a promessa de que era capaz de fazê-lo se assim quisesse. O simples contato contra a pele dela, fez com que Rin se retesasse, e oferecesse atenção renovada a Chulainn.
— É de minha conta, pois, preciso saber se há algum empecilho no caminho até você, do qual devo me livrar.
Como se fosse possível, o rosto da maga triplicou de tonalidade, fazendo com que tentasse se afastar do servo, mas ele intensificou o aperto em sua cintura, assim como a pressão em sua mão, sorrindo de forma leviana, mas sem distanciar-se um milímetro sequer. Insistente, voltou a questioná-la.
— Onde pensa que vai? Ainda não respondeu minha pergunta.
— Tal pergunta nem ao menos deveria ser considerada! C-Como… Como se atreve…?
— Sinto muito, mas sou atrevido por natureza. E então? Devo beijá-la ou fazer uma visita a um certo rapaz?
Rin se retesou. Ainda que aquela fosse uma ameaça vazia, a imagem de Shirou ensanguentado no corredor da escola lhe preencheu a mente. Era algo que não gostaria que se repetisse, nem na mais impossível das hipóteses. Uma vez fora o suficiente para que se culpasse pelo resto de seus dias. Ciente da aflição que causara na morena, Chulainn atenuou seu sorriso, tomando-lhe a mão inteira, para virá-la, pousando um casto beijo no pulso da maga, que se acelerou de imediato. Um arrepio percorreu toda a extensão do braço de Rin, permanecendo em seu estômago. O servo repousou a mão dela sobre o peito dele, liberando-a, para então tomar a lateral de seu rosto, agora levemente pálido, devido ao susto pelo qual fora o responsável.
— Não tema, garota... Estava apenas a provocá-la.
O alívio foi imediato, fazendo com que Rin fechasse os olhos e relaxasse tanto a expressão quanto o corpo, expirando longamente. Chulainn a admirou por um momento, correndo um dedo pela mandíbula dela.
— Mas não pode me culpar por querer respostas rápidas, pode…?
Murmurou em tom ardiloso.
Então, ágil como se estivesse em batalha, o heroi puxou o rosto dela em direção ao dele, colando seus lábios. Rin abriu os olhos de imediato, mas apesar do sobressalto, sua resistência foi tão breve que poderia se considerar inexistente; logo voltou a fechá-los, pressionando os lábios contra os dele. Chulainn, sentindo a queda das barreiras postas pela maga, aprofundou o beijo, tomando-a pela nuca. Passaram a se mover juntos num beijo lento e sedutor, intenso o suficiente para deixar a ambos sem ar, mas não o suficiente para que os motivasse a se afastar.
Se ele tinha algum arrependimento por não tê-la beijado naquela época, estes tornaram-se apenas maiores, fazendo-o questionar se fora pior ter vivido a desejá-la em seus sonhos, ou como teria sido, lamentar a distância imposta pela eras, por não mais ter Rin ao seu alcance. Os lábios daquela garota eram como fogo vivo e, o queimava a cada contato e, seu toque, alimentava as fagullhas de um sentimento até então ignorado, mas cultivado através de tempo e espaço, fazendo-o sentir-se mais vivo do que nunca.
Os braços de Rin ao redor de seu pescoço e o gosto dela em sua boca, fazia-o questionar sua própria classe, sua sanidade. Não seria necessário juramento algum, ou, voto de lealdade, para que ele se pusesse a servi-la, se com isso, pudesse tê-la em seus braços noite após noite e, seu nome sussurrado pela maga, nos mais diversos tons. Mestre, parceira ou mulher; por minutos, horas ou anos. Não importava em que condição nem por quanto tempo, Chulainn só sabia que a queria.
Obrigando-se a recuar, Chulainn a encarou com um sorriso convencido, enquanto suas respirações mesclavam-se em arfadas profundas, não podendo conter seu comentário, mesmo que este saísse entrecortado.
— Acho… que a resposta... é não.
Rin baixou os braços até que as mãos se encontrassem novamente no peito dele — que subia e descia tanto quanto o dela. Ainda estava confusa com o volume de informações descarregadas sobre ela naquele pequeno intervalo de tempo, onde um servo aparecera sem sobreaviso, a provocara inadvertidamente, para então fazê-la ignorar toda a inconstância dos acontecimentos com um único e desconcertante beijo — ao qual se rendera sem maiores protestos.
Pela primeira vez, ela não tinha intenção de procurar razões ou respostas que tivessem uma lógica. Conforme crescera, aprendera que nem tudo se encontrava em livros e, sempre haveria momentos que teria de agir de acordo com seus instintos, até mesmo através de seu coração e, naquele momento, ele a ensurdecia de tamanha forma, que nem precisaria traduzir cada batimento em palavras, para entender o que isso significava.
Rin não era indiferente a Chulainn e, nem se tentasse, conseguiria mascarar o quanto ele a afetara. E mesmo que quisesse, era tarde demais, pois, qualquer que fosse o feitiço lançado sobre eles, estava fora de seu alcance anulá-lo. Talvez suas constantes lembranças dele se devessem a motivos muito maiores.
— Que resposta?
Questionou ela, atordoada. Os olhos cianos brilhando mesmo na escuridão.
Chulainn levou a cabeça até o pescoço dela, inalando seu cheiro, para então mordiscar-lhe o lóbulo antes que segredar ao ouvido dela.
— Alguém que beija assim definitivamente não perderia tempo com aquele garoto.
Não fora preciso olhar para o rosto de Rin para que Chulainn constatasse o quanto o rosto dela se aqueceu e, muito menos, seu embaraço, quando ele pegou-a nos braços e carregou-a para a cama.
— O-O que pensa que está fazendo?!
O heroi a calou com um beijo — o beijo, que muito provavelmente deixou-a ainda mais constrangida diante da luxuria silenciosa contida — antes de sentar-se no colchão e recostar-se na cabeceira com Rin ainda em seu colo, envolta em sua proteção. A morena permaneceu quieta ante a ingenuidade daquele ato, mas como era de se esperar, Chulainn não deixou por menos.
— Estou curioso… o que achou que eu faria?
Provocou ele, em seu tom mais malicioso.
Diante do silêncio sepulcral da morena, Caster apenas gargalhou, enquanto entrelaçava seus dedos com os dela.
— Talvez numa outra noite, por hora, isso é tudo que pretendo. Ainda teremos tempo para nos divertir.
Rin murmurou algo ininteligível enquanto escondia o rosto no pescoço dele e, ainda que Chulainn não tivesse entendido, soube no exato momento que se tratava de um insulto. Mas essa era a beleza da coisa toda, Rin poderia insultá-lo quantas vezes quisesse, de quantas formas preferisse, pois, isso significava que estavam no mesmo lugar, no mesmo dia e era e, juntos um do outro — mais do que jamais se permitira desejar.
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