Eu o amava, insanamente.

Na primeira vez que o vi, pensei “como alguém pode chamar tanta atenção e ser tão tímido?”. Achei um tanto engraçada a forma como ele era meio estabanado, às vezes desengonçado. As garotas do colegial que nos visitavam nos festivais se aproximavam e ele parecia sempre tão sem jeito.

Mas talvez fosse esse o principal atrativo para elas.

Na segunda vez que o vi ele estava sorrindo, e era para mim. Não me lembro do que pensei.

Mas eu gostei, imensamente.

Apertamos as mãos, nos apresentamos, já sabendo que a partir daquele instante dividiríamos muito mais que algumas horas na sala de aula ou na quadra de esportes. E mesmo que os horários fossem diferentes ou não nos víssemos durante todo o dia, esperaríamos um pelo outro, acordados, apenas para conversar um pouco antes de dormir.

E por isso as vezes seguintes passaram tão rápido, foram se tornando tão freqüentes, e éramos mais próximos do que qualquer par de amigos jamais seriam.

Ele gostava de deitar a cabeça em minhas pernas e contar histórias, encolhido no sofá, que sempre fora grande demais para o seu tamanho.

Nunca lhe disse que fora por isso que minha paixão por livros crescera. Mas também nunca lhe dissera que tudo nele me era uma paixão.

Eu ria, me divertia, o escutando enquanto fingia não prestar atenção no carinho que fazia nos cabelos dele, disfarçando o quanto gostava da maciez entre meus dedos.

Às vezes, ele virava o rosto, e eu podia olhar em seus olhos.

E eu adorava em silêncio, imensamente, o sorriso contido nos lábios, o brilho divertido nas íris que me olhavam como se não acreditassem que eu acreditava nele. Ou não acreditando nas próprias palavras.

Podia ver esse mesmo brilho quando ele me convencia a fazer chocolate quente e me puxava para o pátio do alojamento, me mostrando algo que havia achado ou apenas me convencendo a caminhar, olhar as árvores, as estrelas, como iria dizer.

E eu passei a saber tantos detalhes sobre ele, mais do que qualquer um.

Sabia que preferia chocolates a qualquer outra comida, que odiava tomates assados nas pizzas ou em qualquer outro lugar, que tinha a mania de franzir o nariz quando sorria – e nada tiraria de mim o quanto aquilo era simplesmente lindo.

Só não soube o quanto passei a me apegar àquilo.

Acho que só cogitei a possibilidade de todo aquele sentimento estar indo longe demais quando... Eu quis beijá-lo.

Assim, simplesmente.

A lembrança estava cravada na minha mente e eu perdia o fôlego só por pensar na forma como... Quase me descontrolei.

E eu colocaria tudo a perder, porque sempre soube que seu coração estava em outro lugar.

Mas era tão mais forte que eu, que doía, sangrava.

Suas mechas estavam espalhadas nas minhas coxas, seus dedos em minhas mãos, e ele ria, de alguma bobagem que eu havia dito. E eu mal lembrava o que poderia ser, tão concentrado naquele rosto já decorado, cravado em mim.

Tão lindo.

E de repente ele parou. Seu par de olhos veio aos meus, tão simples, tão... Crus. Ele teria o que quisesse dos meus olhos, leria minha mente, meu coração, ele veria meu grito sufocado se quisesse.

Mas ele apenas sorria, como se não houvesse nada mais simples no mundo.

Aproximei meu rosto e ele não recuou. Seu olhar continuava sobre o meu, firme. Certeiro.

Ele confiava em mim.

Mas eu não teria coragem.

Minha boca pousou na testa, pressionando, sentindo sua quentura, e eu assoprei ali, tirando a franja clara do lugar. Seus dedos apertaram os meus, em um pedido que não deixara sua voz, e voltei a olhá-lo.

Estava tão perto...

E eu sabia que ele havia percebido o olhar que lancei à sua boca.

A minha estava seca, meu coração palpitava, ele conseguia sentir minha respiração falha. Eu sabia que sim.

Eu nunca estivera tão atraído por alguém.

E ao mesmo tempo tão ferrado.

Três segundos me separaram de sua resposta, do seu sorriso, do seu coração.

E ele riu, me olhando de forma interrogativa, deixando claro que não sabia o que eu estava fazendo.

E eu queria me desfazer ali, queria, pateticamente, chorar pela demonstração tão clara de que ele não esperava nada de mim que não fosse uma amizade.

Havia tampado seus olhos, então, para que ele não visse meu rosto, até que eu conseguisse segurar aquelas lágrimas, o nó na garganta, a quentura em meu rosto.

Seus dedos novamente foram aos meus e ele novamente riu, me perguntando qual era o problema.

E eu não soube da onde havia tirado forças para dizer que não era nada.

Porque era tudo.

Ele era... Tudo.

Notas finais
Reviews? n__n
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!