Thousand Eyes.
4 Freya.
Notas iniciais
Nova York — EUA.
Freya passou pela imigração sem problemas, seus documentos falsificados por ela mesma com o nome de Karen Willians eram impecáveis.
Ela saiu do aeroporto e pela rua movimentada, sem saber exatamente para onde ir. O endereço que havia dado era de uma casa de fachada, também usada por um politico corrupto para desviar dinheiro. Ou seja, ela não tinha onde ficar.
Era começo de outono e o tempo começava a esfriar, por isso, ela se dirigiu a um café que ficava a algumas quadras do aeroporto, tomando o cuidado de manter a cabeça baixa.
Ela estava bem embaixo do nariz do que havia sobrado da HYDRA e seria louca de se descuidar. Eles sempre a achavam. Ela era sempre extremamente cuidadosa, mas, eles sempre acabavam lhe encontrando.
Freya pediu um chocolate quente e um sanduíche de presunto e queijo. Depois de pegar seu pedido, se sentou em uma mesa vaga perto da janela e pegou seu celular. Ela comprou o aparelho na loja do aeroporto. Era um celular pré-pago o que dificultava o rastreamento, mas, apenas por garantia ela acessou as configurações dele e alterou a criptografia.
Freya deu uma mordida em seu sanduíche, considerando onde poderia ir. Depois de fugir da HYDRA, ela havia roubado dinheiro e foi de ônibus até a fronteira do país com o Canada, onde pagou para passar, depois disso, ela tentou se manter o mais distante possível dos Estados Unidos e da Rússia. E agora ela estava ali, praticamente entregando sua cabeça de bandeja para quem estava atrás dela.
Ela considerou suas opções: um hotel estava fora de cogitação, apesar de ela ter dinheiro para um. Ela também não queria ficar em um albergue, havia ficado em um no Canadá e tinha sido encontrada no dia seguinte. Qualquer um poderia ser uma ameaça.
Freya terminou de configurar o celular e abriu o navegador. Primeiro ela procurou por sites de hospedagem e pensões. Acabou encontrando uma pensão só para mulheres no Brooklyn. Ela ligou para o lugar e marcou um horário. Depois, abriu um site de noticias brasileiro e viu que as mortes no parque eram noticia de destaque. Ela leu a noticia apreensiva, mas, relaxou quando descobriu que a policia ainda não tinha encontrado suspeitos.
Ela terminou seu chocolate quente e pediu outro, já sentindo o açúcar lhe deixar mais agitada — desde seu tempo na HYDRA, ela havia se tornado extremamente sensível a açúcar e cafeina. Ela acessou outro site de noticias, dessa vez americano e procurou pelos Vingadores. A adição do Soldado Invernal a equipe ainda era a noticia mais comentada. Ela olhou a expressão distante dele na foto. O que diabos ela estava fazendo? O que tinha dado nela para simplesmente ouvir o nome dele e correr para onde ele estava?
Freya terminou o segundo chocolate quente, pagou a conta e saiu.
Sem ter mais o que fazer e sem ter elaborado um plano, ela desceu as escadas do metro e se dirigiu a o endereço da pensão.
A dona do lugar era uma escocesa já nos seus quase 60 anos e adorou Freya assim que ouviu seu sotaque. A pensão ficava nos arredores da ponte do Brooklyn e era perfeita, ninguém a procuraria ali. Ela pagou um mês adiantado em dinheiro e a senhora lhe deixou sozinha em seu quarto novo.
O lugar era pequeno, mas, tinha tudo que ela precisava. E a vista da janela dava para a avenida principal, o que lhe dava uma boa visão de quem ia e vinha por ali.
Freya tirou os sapatos e pegou o notebook na mochila, pensando em qual seria o próximo passo. Ela criptografou a conexão da pensão para que seu IP não fosse rastreado e abriu o site do FBI que era exclusivo para funcionários. Ela havia conseguido um login de acesso há algumas semanas, mas, era arriscado acessá-lo no Brasil. Talvez ali fosse um pouco menos perigoso.
Ela digitou o login e a senha e viu que o nível de acesso era o 4, inferior demais para maioria dos arquivos, mas, o suficiente para que achasse alguma coisa. Primeiro, ela pesquisou seu nome: Uma foto de quando tinha 14 anos, que era do álbum da escola apareceu, junto de algumas informações pessoais e o status “Desaparecida”, seguida de uma observação recente: “Possível contato com a HYDRA. Ordem de prisão imediata”.
Ótimo, ela pensou, então o FBI também está atras de mim. Que maravilha!
Depois ela pesquisou o nome do “namorado” de sua mãe: Khaled Kampmann. Morto. A foto dele era antiga, do exército e ela sentiu nojo ao olhar aquele rosto que a atormentou por anos, junto de algo novo. Seria alegria? Não, era algo mais sombrio que aquilo, era satisfação em saber que ele havia morrido.
Espero que tenha sofrido bastante, seu filho da puta.
Ela pesquisou então o nome de sua mãe — Irene Hatkins — mas, nada apareceu. Freya achou aquilo estranho, mas, preferiu não se aprofundar. Se alguém interceptasse a conexão dela iria chamar atenção demais e também, ela não queria pensar na mãe.
Então ela pesquisou o que realmente queria saber. HYDRA.
Havia centenas de documentos sobre eles, todos atualizados e metade deles bloqueados para seu nível de acesso. Mas, o que ela conseguiu acessar era suficiente para que tivesse noção do que estava acontecendo.
O FBI e os Vingadores haviam feito enorme progresso acabando com o resto da organização, mas, pelo que ela viu, ainda não tinham conseguido extingui-la completamente.Ela continuou procurando por qualquer pista do que eles estavam fazendo agora, mas, não havia nada que ela conseguisse acessar sem chamar atenção. Merda de nivel 4!
Freya continuou procurando por mais um tempo, até encontrar uma pasta intitulada “Teatro Montauk”, seu coração acelerou quando ela clicou na pasta, o acesso era liberado para seu nível e ela leu os relatórios.
Ha dois meses o FBI havia encontrado o lugar de onde ela tinha fugido. Todos os arquivos tinham sido aparentemente apagados — impossível de recuperar, dizia o relatório — e todos os 150 prisioneiros tinham sido executados. Inocentes, mortos mais uma vez pela HYDRA.
Freya não teve coragem de ver as fotos. Poderia ter sido eu, ela pensou, eu poderia estar morta agora.
A culpa lhe invadiu. Freya deveria estar morta, junto dos outros, não deveria ter escapado sozinha, deixando os outros para tras. De certo modo, era culpa dela.
Ela fechou os olhos, refletindo no que fazer e então lhe ocorreu. Freya fechou o notebook e saiu decidida, apesar de no fundo sentir que aquela era a ideia mais estupida que ja teve.
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ANTES
Base HYDRA — Russia — 2009.
Depois de tantos meses, ela havia aprendido a fazer o quer era mandada. Seja naquela sala de controle no meio do nada, seja nas madrugadas em sua cela, que mais parecia um pesadelo.
Sua vida havia se tornado um pesadelo.
Ela estava sentada de frente para o computador, fazendo o que tinha sido mandada, o rosto de Zola em um monitor próximo, de olho nela. Ele sempre estava em todos os lugares. Sempre.
Ela ouviu vozes se aproximando e a porta se abriu. Era Kampmann acompanhado de vários soldados e dele, o Soldado Invernal. De relance ela o viu se sentar naquela cadeira horripilante, ofegante e com as roupas sujas de sangue. Um arrepiou percorreu seu corpo e ela voltou a olhar para a tela do computador.
—Relatório da missão. — a voz de Zola ecoou pela sala.
—Missão bem sucedida. — respondeu ele, a voz grave e vazia de emoção.
—Ótimo, sargento Barnes. — Zola falou — Kampmann, lime a memória dele e o leve de volta ao gelo.
A curiosidade a venceu e ela virou para olhar. Ele recostou na cadeira, o peito arfando e quando os choques começaram, seus gritos ecoaram pela sala.
—Continue seu trabalho, querida. — a voz de Zola lhe falou — Logo teremos concluído.
Ela abaixou a cabeça e obedeceu.
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