This Outlaw Life
2 Capítulo 1 – Sweet Home Ohio
Notas iniciais
Sgt. At Arm = É o guarda-costas do Presidente do clube. A função dele é proteger o líder, mesmo que isso custe a sua vida.
Titans. Uma palavra, substantivo comum, seis letras. Simples, mas carrega um significado muito importante para a pequena Lima, uma cidade no interior de Ohio, a algumas milhas da capital do estado. Não, não estamos falando do infame time de futebol americano do colégio William McKinley, o distrito escolar apenas quis prestar uma homenagem, uma homenagem regada com muito sarcasmo e ironia, já que a equipe consegue perder todos os jogos da temporada, das maneiras mais absurdas possível.
Os Titans de que esta história trata é um clube de motoqueiros que praticamente manda na cidade. Fundado na década de 50, por ex-soldados que voltaram da guerra da Coréia, era uma comunidade meio hippie, meio rebelde, vista como um grupo de desordeiros que queriam acabar com o estilo de vida local. Com o passar do tempo o clube se tornou uma entidade tão respeitada quanto a igreja ou quanto os times da liga juvenil, graças ao dinheiro conseguido com cassinos ilegais, casas de striptease e ao tipo de justiça violenta que era mais eficiente do que a polícia local.
Mas o que isso tem haver com Quinn Fabray, ex-Cheerio, que conseguiu sua passagem pra bem longe de Lima quando foi aceita em Yale? Tudo. Porque se não fosse pelos Fabray, os Titans nunca teriam existido, e se não fosse pelos Titans, ela nunca teria voltado.
RJ Fabray, avô da loira, era um dos fundadores do clube, e quando ele morreu, Russel veio de Belleville para assumir o controle. Era como se fosse um negócio de família, que passava de pai para filho num ciclo vicioso sem fim. Ainda podia ouvir seu pai lhe passando um sermão sobre o quanto o era importante manter os Titans vivos, pois fazia parte da história e eram prova de como o orgulho Fabray era poderoso.
Ela não tinha certeza de quanto tempo estava envolvida nisso, mas sabia que desde que Russel tivera um AVC, e fora praticamente obrigada a assumir a presidência que entrara de cabeça na organização. E nesse meio tempo percebeu que se abandonasse o clube, o único legado decente de sua família, seria o mesmo que condená-lo a uma morte lenta e dolorosa, e deixar Lima a mercê de neonazistas, traficantes e toda a escória com um pouco de visão suficiente para perceber o quanto cidades pequenas podem ser lucrativas.
Tudo isso vinha em sua cabeça enquanto vento gélido da madrugada batia no rosto alvo, a neblina ficava mais densa à medida que a Harley Dyna Wide Glide preta cortava a auto-estrada com o motor rugindo furioso pela escuridão. Os cabelos loiros escondidos parcialmente pelo capacete aberto esvoaçavam com força quando ela aumentou a velocidade, dando um leve girar no guidão.
Os olhos esverdeados ganhavam um tom dourado brilhante enquanto sua moto ia correndo livre, sem se preocupar com as placas de limite ao longo do acostamento. Aquela era a melhor hora do dia, todos estavam dormindo, especialmente os policiais que deveriam estar vigiando aquela parte da rodovia. Era apenas Quinn e o asfalto correndo por debaixo dos pneus, sua própria definição de liberdade. Uma liberdade que durava até o raiar do sol, porque com as primeiras luzes da manhã, os problemas começavam a bater a sua porta.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma luz avermelhada que entrou em seu campo de visão. Devia ser um carro quebrado no acostamento, esperando alguém passar. Seus dedos correram a alavanca de freio, reduzindo a velocidade, parando alguns metros de distância do automóvel.
Enquanto soltava a presilha que mantinha o capacete na cabeça, deu uma olhada no veiculo. Era um sedan, provavelmente da Ford, meio cinza, meio prata e com cara de ter saído de uma locadora bem desleixada. Desceu da moto, deixando o capacete sobre o banco, tirando as luvas de couro, as guardando no bolso de trás da calça jeans, e colocando os óculos de proteção no bolso do colete do clube. Havia uma silhueta pequena atrás do volante, devia ser uma mulher, mas não conseguia afirmar com certeza, já que os vidros estavam embaçados por causa da espessa neblina.
– Já chamei o reboque e tenho spray de pimenta comigo. — Gritou a voz vinda de dentro do carro, visivelmente entediada. — Também sei alguns golpes de defesa pessoal, já que as ruas de Nova York são um lugar muito mais perigoso do que este, e tenho certeza que a polícia chegará aqui a qualquer minuto, pois é função deles como funcionários pagos pelo estado de Ohio proteger as rodovias durante a noite.
A loira riu. Ela apoiou o cotovelo no teto do carro e deu uma leve risada.
– Acho que são pago pra dormir. Pelo menos, era o que estavam fazendo quando passei pela guarita deles, alguns quilômetros atrás — Disse, com um tom despreocupado.
– Oh! — Exclamou a voz de dentro do veículo, que Quinn achou bastante familiar. — Irei pedir pro meu assistente escrever uma carta ao departamento de trânsito de Ohio para fazer uma reclamação formal sobre isso. Obrigado pelo aviso, mas pode ir embora.
A ex-cheerrio balançou a cabeça de um lado para outro, achando a eloqüência daquela mulher um tanto quanto divertida.
– Já te disseram que você fala demais e muito rápido? Quase não dá pra prestar atenção. Parece uma metralhadora de cuspir palavras. — Um sorriso surgiu no canto de seus lábios, achando ainda mais graça da situação.
Foi nesse momento que teve um choque. Apenas uma pessoa no mundo era capaz de falar tantas palavras em tão pouco tempo, com um inglês perfeito. Suas mãos gelaram por um minuto, o coração começou a bater descompassado e selvagem no peito, a loira jogou a culpa no frio da noite e na falta de cafeína no sangue.
– Rachel?! É você?
Quinn perguntou, desejando ouvir um “Que Rachel? Tá ficando maluca?” de quem quer que fosse que estivesse ali.
O vidro foi baixando lentamente, revelando mulher de pele bronzeada, com um casaco branco, de tecido bem fino, cabelos escuros, preso em um rabo de cavalo bagunçado, olhos chocolate que brilhavam de surpresa ao ver a loira a sua frente. Sua boca bem delineada ficou entreaberta soltando uma palavra de forma quase inaudível.
– Quinn Fabray?! — Disse olhando com uma expressão no rosto que era um misto de surpresa com aflição e algo mais que permanecia um enigma. — O que está fazendo aqui? — Foram as únicas sentenças que o cérebro da diva conseguiu formular ao se perder na imensidão esverdeada que a encarava com curiosidade.
– Eu faço a mesma pergunta, Man Hands.- Respondeu de forma evasiva e com um tom desdenhoso.
– Eu perguntei primeiro. — A morena retrucou com um falso tom acusatório, usando o mesmo artifício da outra.
– Voltei há algum tempo. — Revirou os olhos e arqueou a sobrancelha, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — E você não devia estar em Nova York. – “Pelo menos, foi o que Kurt contou” disse a si mesma, esfregando os dedos contra a palma da mão de forma nervosa e apoiando o cotovelo no teto do carro.
– Bom... Err... Eu... Gaguejou, tentando decidir se deveria contar ou não os motivos de sua visita para aquela que havia feito sua vida durante o High School um inferno na terra. — Tenho um assunto pessoal pra resolver aqui. É lógico que ficou com a segunda opção.
– Hum... Legal — Quinn ficou com a coluna ereta e seus olhos vagavam de um lado para o outro, evitando o contato visual com a cantora, que a analisava de cima a baixo, como se a loira fosse um animal a ser dissecando na aula de biologia.
Rachel estava estranhando, e com toda a razão. A última lembrança que tinha de Quinn era da um encontro num supermercado, no feriado de ação de graças, durante o segundo ano da faculdade, em que a loira havia deixa o cabelo ficar comprido de novo, usava um vestido floral. Agora, ela vestia uma calça jeans surrada, um par de all star pretos sujos de poeira de estrada, um casaco azul escuro, o famoso colete do Titans por cima, e os cabelos curtos e completamente bagunçados. O contraste entre os dois visuais era algo difícil de passar despercebido pela pequena diva.
– Não esperava te encontrar por aqui — Disse enquanto brigava para se soltar do cinto de segurança que insistia em permanecer travado. — Pensei que fosse tentar alguma coisa em Hollywood.
A outra a ajudou, abrindo a porta numa facilidade que fez a morena soltar um suspiro, e estendeu a mão logo em seguida, oferecendo apoio para facilitar a descida do carro. Um nó nasceu na garganta de Rachel ao entrar em contato com a pele macia e delicada. Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo e um calafrio subir a espinha. Ela sempre fora educada, pelo menos quando o queria ser e era uma das qualidades que a Rachel mais gostava.
– Nem sempre as coisas saem do jeito que a gente planeja — Quinn afirmou em um tom amargo, vendo o rumo que a própria vida levara. Que ironia! Se formar em Yale e voltar à Lima, para perpetuar a mentalidade tacanha de Russel... E o pior de tudo é que gostava daquele estilo de vida, no qual podia fazer o que bem entendia, porque estava protegida com o símbolo dos Titans nas costas, como se fosse um uniforme de super-herói. Aquele simples colete e a moto que empunhava pelas ruas lhe entregavam um poder inimaginável, muito maior do que o a roupa vermelha, branca e preta de Cheerio lhe dava na época de colégio.
A diva balançou a cabeça, concordando com a frase.
Seu casamento com Finn poderia ser encaixado nessa categoria. Todo mundo sabia que o garoto não era material para NY, mas Rachel insistira em arrastá-lo com ela, como um porto-seguro para quando se sentisse mal. No final, lá pelo terceiro ano de faculdade, percebeu que a falta de ambição e o egoísmo do rapaz eram uma âncora que a impedia de evoluir, não só como artista, mas como pessoa também.
– Você assumiu os Titans? — Questionou a morena, quando seus olhos chocolate se fixaram sobre a inscrição "Presidente" marcada no colete.
– Sim. — Quinn respondeu de forma seca. Sua atenção estava sendo usada para estudar a mulher a sua frente. O casaco leve (provavelmente de algum estilista famoso) cobria o vestido preto, o colo e as pernas bem torneadas a mostra, já que a roupa terminava alguns centímetros acima do joelho, e os saltos a deixavam da altura da loira. “Nada mal” pensou, procurando alguma coisa nos bolsos da calça. — E pelo visto, você abandonou os suéteres de bichos e as combinações esquisitas.
– Eu tenho um personal stylist agora. — A diva tinha um tom irritadiço, cruzou os braços e se escorou no carro. Já esperava por essa provocação, mais cedo ou mais tarde. Kurt fizera uma piadinha parecida quando a encontrou no mês passado.
A loira deu um sorriso e pegou um maço de cigarros com a embalagem bem amarrotada.
– Eu te ofereceria, mas é o meu último. — falou com sarcasmo sabendo a reação que a morena teria.
A Rachel revirou os olhos. Fumar era um hábito que detestava, sem tirar que fazia um mal terrível para as cordas vocais. “Típico de Quinn Fabray querer me afrontar”, refletiu.
O silêncio sepulcral se instaurou entre elas. Claro, porque todo mundo espera ficar numa rodovia, no meio de milharais secos, ao lado da garota pela qual você tem sentimentos mal-resolvidos e que te enxotou da vida dela quando você finalmente admitiu o que sentia. Isso vale pra ambas as partes...
“Deus, que pernas” a loira pensou, quando Rachel cruzou as pernas num gesto elegante. “Para com isso agora! Você acabou de pensar que Rachel “Treasure Trail” Berry tinha pernas de matar e que era uma tremenda gostosa... E para de olhar senão ela vai perceber”, ralhou outra parte de seu cérebro.
– Quer ligar pra alguém? Seus pais, Kurt, Tina... — Quinn perguntou entre uma tragada e outra, tentando parecer impessoal.
– Meus pais estão em um cruzeiro e só voltam depois de amanhã, e o Kurt está em Los Angeles. — A diva olhava as unhas bem feitas, evitando o contato visual. Sabia que se ficasse encarando demais, acabaria cometendo uma loucura. — E por que iria querer chamar a Tina? Não falo com ela há muito tempo” Sua voz elevou um tom, e parecia mais uma reclamação do que outra coisa.
– Sei lá... Ela foi sua única dama de honra, vocês eram bem amigas e ela ainda mora em Lima... — Deu de ombros, enquanto colocava o cigarro de volta na boca.
Rachel não respondeu. Permanecia com o olhar fixo no final da estrada.
– Você pode ir, se quiser. — A morena massageava as têmporas com as pontas dos dedos indicadores. — O reboque já deve estar chegando.
– Não se preocupe com isso. Se eu quisesse ir embora, já tinha ido — Usou a voz mais entediada que conseguiu fazer.
Virou-se alguns instantes para jogar a butuca do cigarro fora e seus olhos caíram nela mais uma vez. A diva passava as mãos insistentemente nos braços, para se aquecer, mas sem obter sucesso, os lábios começavam a ganhar um tom arroxeado, e os ombros se encolhiam, reduzindo a área em que o vento batia. O casaco era fino demais para agüentar o frio da madrugada, ainda mais estando a duas semanas do inverno.
E antes que os neurônios de Quinn pudessem pensar, já estava retirando seu casaco azul de Yale e estendendo a morena. Tudo bem que não era a melhor das situações, mas não podia deixá-la morrendo de frio, podia pegar uma hipotermia ou algo do gênero.
– Não precisa. — A diva dispensou educadamente, mantendo-se firme ao plano de evitar os olhos penetrantes de Quinn Fabray.
– Rachel...Veste. Você está tremendo — O nome veio numa tentativa para fazê-la aceitar a gentileza enquanto vestia o colete de novo sobre a camiseta branca do The Clash, um pouco maior do que ela, e balançava o casaco na mão esquerda.
“Não, você vai ficar com frio” A diva deixou transparecer sua preocupação na frase.
– Estou acostumada a sair essa hora. Além disso, tem o colete dos Titans que é bem quente. — Argumentou de forma sensata, Pousando a mão sobre o ombro da diva.
– Não, muito obrigada — Rebateu.
– Precisa sim. Deixa de ser teimosa e veste de uma vez essa porra de casaco. — Num arroubo, a loira puxou a morena pelo braço, fazendo-a girar em seus calcanhares e ficarem cara a cara novamente.
Apenas alguns centímetros separavam seus rostos. Os olhos expressivos de Rachel lembravam a de um animal acuado, encarando um leão a beira do ataque. A boca delineada entreaberta, como um convite ao pecado. O coração de Quinn ficara ainda mais arredio, um incômodo tomava conta de seu estômago, sua pele começa a suar. Mesmo passado tanto tempo, seu corpo ainda reagia apenas à mera possibilidade de beijar os lábios carnudos e deliciosos, o gosto doce do beijo dela vinha a sua língua como um estalar de dedos. Foi preciso muita força de vontade para não agarrá-la ali mesmo.
– Toma. — A ex-cheerio disse ofegante, empurrando o casaco contra os dedos da cantora. Respirou fundo e soltou-a antes que cometesse alguma burrada.
– O...obrigada. – A diva falou, sentindo uma tontura leve ao se envolver com a peça de roupa. O aroma de baunilha e jasmim a inebriava. Perdera a conta de quantas vezes tentara encontrar algo similar àquilo, ou que se perdera em seus devaneios, lembrando-se dele. Lógico que ainda havia o cheiro da gasolina, mas ela tentava se fixar na essência original daquela peça de roupa.
Quinn apenas deu de ombros como se não fosse nada de mais e se escorou no carro, espalmando as mãos no capô.
– Então... The Clash hein... — comentou Rachel antes do silêncio estranho se instaurasse novamente.
– É... — A loira correu os dedos pela franja, jogando o cabelo para de trás da orelha, num gesto descuidado. — Espera, Rachel Berry conhece alguma coisa além de musicais e música pop? — A sobrancelha direita arqueou em escárnio. Não podia perder uma oportunidade tão boa para implicar com a judia.
– Conheço sim. — A morena estufou o peito com orgulho. — Não sei se você se lembra, mas eu fui para NYADA, e na aula de História da Música tivemos que aprender sobre todos os movimentos musicais importantes e o punk foi um movimento começado na Inglaterra pelos Sex Pistols e o The Clash...
– Você conhece, já entendi. — Ela revirou os olhos e riu em seguida, tinha se esquecido de como a diva era uma sabe-tudo. — Essa nem é a minha banda favorita, mas era a única camiseta que estava limpa no armário do Connor...
– Quem é Connor?
“Droga” pensou ao perceber que sem querer falara algo que levantaria perguntas constrangedoras. Por que tem que ser tão fácil falar com Rachel Berry? Por que ela tinha esse dom de fazê-la falar sobre coisas que não conversava com ninguém?
Soltou um suspiro e ajeitou o cabelo mais uma vez.
– É... É meu namorado... — respondeu, vendo a expressão de susto no rosto da outra.
– Achei que você era gay — Comentou Rachel, tentando camuflar a surpresa em sua voz.
E isso incomodou Quinn, porque ela se lembrava das palavras ríspidas, da saída intempestiva, das inúmeras ligações e das noites sem dormir, esperando por algum sinal que lhe indicasse que tudo iria ficar bem entre as duas. Coisa que nunca veio...
Seus dedos coçavam os cabelos na nuca, transparecendo seu nervosismo por justamente Rachel estar tocando no tema.
– Não precisa falar se não quiser — A judia falou como se tivesse sido ferida pelo silêncio.
– Não, não é isso... Eu só... Só... Descobri que sou bi, mas que gosta mais de mulher — A loira estava desconfortável por estar discutindo o assunto, mas pensou que precisava explicar melhor essa história.
A morena apenas acenou com a cabeça.
– E você? Está saindo com alguém? — Foi a única pergunta que veio em sua mente para mudar o rumo da conversa.
Quando diva abriu a boca para responder, um borrão de luz apareceu, seguida do reboque com a logomarca da Hummel-Hudson Garage, antiga Hummel Tires & Lub, aparecer e estacionar próximo as duas mulheres no acostamento. O sangue de Quinn gelou. Não era possível, a morena teve a coragem de ligar para Finn vir buscá-la, mesmo depois de ter terminado o casamento de uma forma incrivelmente dramática, com ela atirando as coisas do gigante pela janela, porque ele se recusava a sair... Mais uma vez, fofoca feita por Kurt...
A porta se abriu e um Burt Hummel desceu, cansado, com algumas rugas a mais e vestindo o roupão xadrez por cima do pijama.
– Rachel, Quinn. — Cumprimentou, recebendo um forte abraço da morena.
– Burt. — A loira disse num tom leve, tirando um par de luvas do lugar onde estavam guardadas e calçando-as.
– Eu teria vindo com o colete do clube, mas como pode ver, já estava na cama quando me ligaram.- Ele coçou a têmpora, esperando receber uma chamada pela a falta da peça.
– Tudo bem, você está a trabalho mesmo. — Falou, enquanto colocava os óculos no rosto. — Te vejo amanhã na reunião. — Caminhou em direção a moto, imaginado que pelo menos o tempo deu um pouco de sanidade a Rachel — Tchau Rach, até qualquer hora.
– Tchau Quinn. — Saiu quase como um sussurro.
A loira apenas colocou o capacete e arrancou, sem esperar muito e sem olhar para trás, mas com os olhos quentes, segurando lágrimas que queriam descer.
Quinn tentou entrar silenciosamente em casa. No relógio de pulso, quase três da manhã, e a escuridão ajudava-a a permanecer sorrateira até o caminho de volta para cama, que era onde deveria estar àquela hora. Atravessou a sala, o corredor entre a sala e a cozinha e subiu a escadas, sem fazer o menor barulho.
Ao entrar no quarto, o suspiro de alívio, o homem de quase 1,80 e de cabelos castanhos, ainda estava deitado de costas, coberto até o pescoço. Se sentou, tirou os tênis e a calça, e jogou o colete do clube, junto a um idêntico ao seu, mas com a inscrição “Sgt. At Arms” no lado direito.
– Foi bom o passeio? — A mão pesada tocando ombro quase a fez dar um pulo de susto.
– Porra Connor! Quer me matar do coração? — Ela levou a mão ao peito, encarando o rapaz que sorria, gargalhando com o que tinha acabado de acontecer. Os olhos verdes dele brilhavam por ter conseguido fazê-la ficar nervosa, porque era difícil tirá-la do sério.
– Ninguém morre do coração aos 25 — Disse com um tom divertido, enquanto pegava o par de óculos jogado no carpete. — A não ser que tenha um problema de nascença, ou que coma uma quantidade colossal de gordura... Apesar de que você come muito bacon, principalmente quando está triste. — Connor franziu o cenho e coçou a ponta da sobrancelha esquerda. — Mas e ae? Como foi o passeio?
A loira passou a mão pelo rosto cansado de pilotar e se deitou, puxando o cobertor. Refletiu se contava a verdade, já que sabia o quanto Connor era estourado e impulsivo. Ele poderia ir na casa dos Berry tirar satisfação com Rachel, ou pior, ir a casa dos Hummel para ir falar com a morena e encontrar Finn, e o rapaz detestava o ex-quarteback.
– Encontrei um carro quebrado na estrada. — Sua voz veio lenta, como se preparasse para dar uma notícia ruim. — E ela estava lá dentro.
– Ela quem? — Ele apoiou o cotovelo no colchão e o queixo na palma da mão, com uma expressão confusa no rosto.
– Ela. Rachel — Disse, virando a cabeça no travesseiro e olhando para o namorado.
– Que Rachel? — Connor apertou os olhos, pensando.
– Aquela que eu atormentava na escola...
– Qual das escolas? Você já foi a várias... — Ele coçava o queixo ainda sem saber de quem ela falava.
– A do McKinley – Ela começava a ficar irritada.
– Aquela que você pegaria uma granada por ela? Que pularia na frente de um trem por ela — passou a mão pela barba por fazer, ainda pensativo.
– É — respondeu com tédio.
– Aquela pra quem você se declarou no primeiro dia de aula do senior year, vocês passaram uns meses dando uns amassos no banheiro e que ela acabou surtando e resolveu casar com o namorado, que por acaso era o seu ex?
– É — Quinn apertou o espaço entre as sobrancelhas
– Aquela que foi embora pra NY e que você disse que tinha uma boca deliciosa, uns coxões de fazer babar e que...-
– ÉÉÉÉ ESSA RACHEL. — A loira gritou impaciente, e deu um tapa no rosto do namorado, causando uma crise de riso nele.
– Você me mata de rir estoura desse jeito. — Se jogou contra o colchão com um sorriso enorme nos lábios. — Então...Você falou com a sua Rachel?
Ela passou a mão nos olhos e soltou um suspiro. Era só o que faltava esse tipo de conversa a essa hora da manhã...
– Falei. Ela foi legal. — Respondeu de forma fria
– Legal do tipo: “Vamos botar os assuntos em dia” ou do tipo “Eu voltei porque quero te beijar até seu cérebro virar gelatina, e a gente acabar em cima da sua moto, fazendo sexo selvagem no meio da estrada”?
Quinn arqueou a sobrancelha pro que acabara de ouvir.
– Você assiste muito filme pornô, sabia... e não, nenhuma das duas — Disse, fazendo-o ficar decepcionado. — Ela foi legal, legal.
– Então, qual o problema? — Perguntou num tom despreocupado.
– O problema é que eu sem querer deixei escapar que a gente estava namorando. -Cruzou os braços e ficou encarando teto. “Devia ter ficado calada” pensou, se martirizando por ter começado a conversa.
– Mas pra todo mundo do clube e pros seus pais, a gente está. — Connor deu de ombros, às vezes, a postura tensa de Quinn o fazia ficar incomodado. — Só você, Santana e eu sabemos que é tudo de fachada, que eu sou sua barba, ou qualquer que seja a versão lésbica desse termo.
– Eu sei — A loira passou a mão pelo rosto mais uma vez. Odiava quando ele vinha com esse jeito desligado, que lembrava bastante a Brittany. – Mas eu não queria que ela soubesse disso, Einstein.
– Do jeito que o pessoal dessa cidade gosta de uma fofoca, ela ia acabar descobrindo mesmo. Melhor que ela ouvisse isso de você do que de alguma comadre fofoqueira, ou por Finn Hudson — Ele comentou num tom despreocupado, vendo o quanto Quinn estava ficando nervosa, mas do jeito assustador, e tinha medo da Quinn Assustadora.
Ela ponderou. Talvez Connor estivesse certo. Se Rachel encontrasse Finn, o que era muito provável, pois Burt fora buscá-la no meio da madrugada, ela iria acabar sabendo de seu “namoro”, e as conseqüências disso poderiam ser bem piores. Também, a morena descobrir que a loira tinha alguém, seria bom para mostrar que a ex-cheerio conseguiu seguir em frente, apesar de nunca ter esquecido-a em todos esses anos.
– Ainda bem que você é meu braço direito, C — Virou a cabeça e encontrou Connor com a boca aberta e o corpo esparramado pela cama. — E você sempre consegue estragar esses momentos.
– Eu também te amo — Retrucou, parando de fingir que estava dormindo — Só não te agarro porque sei que da fruta que eu gosto, você chupa até o caroço. Literalmente.
– Essa não teve graça. — Riu, se virando para dormir um pouco.
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