Third Crusade
2 Capítulo I
Notas iniciais
Bem, é nesse daqui que vocês conhecerão o personagem principal da história: Abelardo Schrager.
Boa leitura.
Creio que minha vida mudou em Março de 1182. Eu era apenas uma criança de treze anos na época.
Bem, antes de explicar, devo me apresentar corretamente. Meu nome é Abelardo Schrager. Costumava viver em um pequeno vilarejo no litoral norte da Germânia, junto ao meu pai, minha mãe e meu irmão.
Levava uma vida relativamente fácil. Meu pai era um guerreiro famoso, mas se aposentou em Agosto de 1178, aos 40 anos. Travou diversas guerras, incluindo algumas contra os maiores inimigos que os ocidentais poderiam ter: árabes. Consequentemente, era incrivelmente famoso e respeitado naquele pequeno vilarejo.
Já minha mãe era filha de nobres. Porém, havia decidido não levar essa vida de privilégios em algum castelo na capital e portanto, deixou isso tudo nas mãos de uma irmã mais nova. Mas isso não fazia de minha mãe uma pessoa menos importante no vilarejo.
E eu e meu irmão, Afonso Schrager, éramos portanto os jovens mais famosos da região. Afonso era 5 anos mais velho do que eu, portanto, já era quase um homem adulto. Suas habilidades com uma espada eram impressionantes e ele conseguia derrubar até mesmo alguns veteranos da vila. Manejava uma lâmina com leveza. Parecia que a arma era uma extensão de seu corpo. Por isso, já era um dos jovens mais observados pelos soldados do Imperador que passavam por lá. Com certeza, assim que completasse a idade necessária, iria ser convocado para treinamento para ser um guerreiro. Possivelmente, um cavaleiro.
Eu ainda não tinha tanta afinidade com uma espada. Em parte porque era novo demais e em outra porque era muito pequeno. Não conseguiria manejar uma lâmina pesada com tanta velocidade. Portanto, sempre que saía de casa, levava por precaução uma adaga pequena. Muito bonita, por sinal. Era muito bem feita, importada de uma ilha que ficava do outro lado do oceano, chamado Inglaterra. Diziam que as adagas inglesas eram as melhores. E eu realmente percebi isso em meus combates com amigos e ladrões.
Porém, isso não durou para sempre. E acho que quando eu percebi isso, era dia 17 de Março de 1182.
~X~
— Ei, Abelardo, espere por mim! — gritou meu melhor amigo, Louis.
— Seu lerdo! Pegue-me se puder! – gritei de volta. Apressei o passo, apenas para provoca-lo.
Essa era uma atividade extremamente comum entre os garotos no vilarejo: correr pelo mercado. Aguardávamos ansiosamente a bendita semana quando comerciantes vinham das redondezas vender seus mais variados produtos (cereais, frutas, peixes frescos, carnes, artesanato, armas) em uma grande praça central que ocupava quase todo o centro da cidade. Era uma algazarra de barracas, mercadorias, gente gritando e compradores olhando. E correr por aquela pista de obstáculos era um ótimo exercício para garotos de treze anos.
— Qual é, Louis? Vai dar uma de mariquinha? – um novo garoto, Frank, se juntou à corrida. Não que fosse representar um oponente digno: ele era incrivelmente alto, musculoso e aparentemente muito resistente. Mas era desastrado, lento e não aparentava ter muita coordenação motora. Seria um bom adversário em uma luta de vale tudo, mas facilmente vencido em uma corrida ou em uma guerra onde fosse necessária uma tática.
— Não que você possa me vencer, Frank! – provoquei. Ele apenas bufou e tentou pular sobre uma carroça de mercadorias. Tropeçou na roda e sumiu em uma confusão de cereais e frutas derrubadas no chão. Seus xingamentos eram encobertos pelos gritos furiosos dos vendedores.
Soltei uma gargalhada sonora e virei a cabeça para ver como Louis se saía. Ele se desviou facilmente da carroça derrubada e então conseguiu saltar agilmente por cima de uma mesa de madeira. Mas ao tentar se desviar de uma barraca de tecidos importados, perdeu o equilíbrio e foi de encontro a um velho comerciante que tentava vender uma jarra de louça aparentemente vinda do oriente. Quando o comerciante caiu, a mercadoria se espatifou no chão. Não parecia ser barata. Mas quando o velho tentou gritar com o jovem que o derrubou, Louis já estava de pé e correndo bem longe dali.
Abri um sorriso ao pensar no quanto aqueles acidentes eram incomuns comigo. Se me faltava força para carregar uma espada, eu compensava em velocidade e agilidade. Conseguia saltar facilmente sobre as carroças, desviava agilmente dos vendedores e escalava perigosamente as barracas mais bem montadas, que tinham um bom suporte de madeira que as mantinham fixas no solo. Não demorou muito para eu atravessar o mercado inteiro e chegar até a outra ponta. Estava exausto, mas havia vencido a corrida.
— Eu... Eu acho... Que vou... Morrer! – Louis chegou alguns minutos depois, arfando e completamente sujo de cacos de louça, suco de frutas e grãos de cereais.
Gargalhei e dei um soco em seu ombro. Em circunstâncias normais, ele teria revidado e começaríamos uma pequena briga ali mesmo. Mas ele estava cansado demais para isso. Apenas aceitou o golpe e caiu sentado sobre uma pilha de feno que havia ali para alimentar os cavalos dos comerciantes ricos.
— Você corre... Muito rápido... – ele ofegou e eu concordei. Nunca era demais receber elogios de seus amigos.
Louis era um cara interessante. Ele era alto e magro. Tinha cabelos loiros e olhos castanhos. Não tinha força o suficiente para manejar uma espada, mas era expert com um arco. A cada 5 flechas, 3 acertavam o alvo. E eu já o tinha visto atingir um veado a mais de 100 metros de distancia. E tinha uma visão incrível. Eram poucos os detalhes que passavam despercebidos por ela. Por isso, talvez, que conseguia ver um veado no meio de uma floresta densa, a mais de 100 metros de distância.
Louis, de qualquer maneira, era um garoto extremamente adequado para ser meu melhor amigo.
— Levanta aí, cara. – estendi a mão e ajudei-o a pôr-se de pé – Vamos dar uma olhada no mercado. Acho que preciso arranjar alguma coisa para beber.
~X~
O mercado era realmente interessante. É lógico que não era um mercado típico de uma cidade como Berlin ou Nuremberg. Mas era bem grande para uma vila pequena como aquela. E um evento e tanto para os moradores acostumados com a vida pacata da cidade.
Estava completamente cheio, então eu e Louis tivemos bastante dificuldades em avançar pelo local. Mas conseguimos ver mercadorias interessantes. Percebemos que a parte menos cheia era o lado Norte e quando fomos para lá, vimos o motivo.
O lado Norte era o mais bem montado, com barracas e produtos da melhor qualidade. Percebi que lá era a área dos comerciantes ricos, a maioria estrangeiros. Quando perguntei, apenas por curiosidade, de qual lado do mundo vinha aqueles artesanatos, o vendedor respondeu grosseiramente em um sotaque bem francês:
— Eu não responder perguntas de criança. Criança não ter dinheiro.
Retirei da bolsa que estava em minha cintura um pequeno punhado de moedas de ouro. Estavam ali as vantagens de ter uma mãe da nobreza. O francês as olhou quase como se hipnotizado e mandou que eu escolhesse uma das mercadorias.
— Ser de Oriente. Montanhas do Leste. – ele respondeu à minha pergunta enquanto pegava as moedas. Escolhi um vaso bonito para dar de presente para minha mãe. Estava enfeitado com alguns símbolos que não consegui decifrar, mas sabia que, se eram das Montanhas do Leste, aquilo só poderia ser chinês. Uma das vantagens de seu pai ser um guerreiro prestigiado no castelo real era ter acesso aos mapas mais secretos do império. Eram poucos os europeus que sabiam da existência daquele império chamado China do outro lado do oriente.
Eu e Louis continuamos andando pela área Norte do mercado. Conseguimos distinguir comerciantes franceses, castelhanos, ingleses e até mesmo alguns poucos italianos. Realmente consegui notar, pelo montante de moedas que trocava de mãos, que as mercadorias não eram tão baratas.
Após alguns minutos de caminhada, decidimos parar para descansar. Sentamo-nos na varanda de uma casa próxima ao mercado e ficamos observando as pessoas passarem. Algumas eram camponeses pobres, enquanto algumas tinham uma classe social mais elevada. Pudemos distinguir até dois ou três cavaleiros montados. Realmente, o mercado era algo interessante de se ver.
Mas foi Louis quem percebeu aquele pequeno pedaço de tecido amarelo no meio da multidão.
— Ei... Aquilo não é uma túnica árabe? – ele indagou, apontando. De início, não consegui perceber nada de anormal, mas depois notei que o que ele falava era verdade. Um árabe estava ali e com certeza era um guerreiro islâmico, de acordo com as vestes descritas por meu pai logo depois dele ter voltado da guerra.
O muçulmano estava indo em direção ao lado Sul do mercado.
— Espere aqui. – disse para Louis e ele obedeceu prontamente. Fiquei grato por isso. Saquei minha adaga e coloquei-a em mãos. Se eu fosse mesmo fazer o que pretendia, não queria meu melhor amigo por perto. Por ele estar desarmado, seria mais um peso a se preocupar do que uma ajuda verdadeira.
Subi rapidamente em uma carroça estacionada ao lado de uma casa e saltei para a janela do segundo andar. Usei-a como apoio para pular até uma viga de madeira e depois para as telhas no teto da casa. Então fui perseguindo o árabe de cima dos telhados, para não ser percebido. Contornamos a área Oeste do mercado e nos dirigíamos para área Sul. Ele caminhava sem hesitar por entre as estreitas passagens e parecia negar educadamente em alemão quando as pessoas lhe ofereciam alguma mercadoria. Foi apenas em um momento que ele virou a cara para o lado onde eu estava que eu notei que ele não tinha feições de um árabe. Seu rosto era extremamente parecido com um europeu. Parecia italiano.
Um traidor, pensei para mim mesmo.
Continuei seguindo-o até ele sair do mercado e adentrar as ruas estreitas da cidade. Andava por elas com extrema confiança e parecia saber exatamente para onde ir. Devia já conhecer a vila antes de chegar. Continuou caminhando na direção da área pobre, onde as casas eram feitas de palha e muito juntas umas das outras.
Quando chegamos lá, finalmente percebi o que ele estava querendo fazer desde o início e precisava impedir.
Cuidadosamente, o muçulmano retirou duas pedras bem negras de sua túnica e começou a esfregar uma na outra, até produzir uma pequena faísca. Esta caiu sobre a palha que formava a casa e acendeu uma chama pequena, mas que foi logo apagada. O árabe bufou de irritação.
Ele planejava incendiar a vila. A palha era um excelente combustível e a proximidade entre as casas apenas facilitaria o trabalho do fogo se espalhar. Ele tentou mais uma vez e dessa vez, a chama se manteve.
Tentei fazer algo, mas acabei cometendo um erro logo no começo. Meu plano era simples: saltar do telhado e mata-lo rapidamente com a adaga sem ser detectado. Mas assim que cheguei à borda, perdi levemente o equilíbrio e meus pés escorregaram. Uma das telhas se soltou e se espatifou a apenas alguns centímetros do árabe.
Sua primeira reação foi de espanto, mas logo quando olhou para a direção de onde a telha veio, seu rosto se tornou debochado. Deveria ter imaginado que eu era apenas um garotinho assustado tentando mata-lo com uma telha. Como ele se enganou...
— Olá... – ele cumprimentou em um alemão perfeito, sorrindo, aparentando tranquilidade. Mas notei que sua mão foi instintivamente para o punho da espada em seu cinto – Quem é você?
— Meu nome é Abelardo, filho de Everton Schrager. E você? – gritei em resposta, tentando aparentar confiança e coragem. Mas, no fundo, estava morrendo de medo.
— Sou italiano. – ele afirmou, o que confirmava minhas suspeitas anteriores. – Por isso, tenho dois nomes. O original é Esmond Giallo, mas atualmente sou conhecido como Ghalib Le’then. Sou o espião chefe do segundo exército do General Muntasir La’Had.
Percebi então que aquele homem não era um traidor qualquer. Era não só aceito entre os árabes, como prestigiado entre eles também. Mesmo sendo do segundo exército, era uma grande honra ser espião chefe. Mas o que eu não entendia era o que ele fazia aqui, em uma vila tão afastada da capital.
Foi, então que ele percebeu a adaga que eu carregava e soltou uma gargalhada:
— O que foi? Pretendia lutar comigo? Ora essa, o garoto queria lutar comigo! Só pode ser brincadeira.
— Mas trate de acreditar. – respondi, mas ainda não desci do telhado. Não estava tão seguro a ponto de querer enfrentá-lo imediatamente. Esperaria que ele fizesse algo errado para que eu pudesse ter uma vantagem.
— Vá embora e me deixe terminar o que comecei... – ele disse, mas rapidamente ajuntou – Pensando bem, melhor não. Um garotinho como você pode causar problemas. Se correr para a mamãe, vai acabar chamando os guardas e eu não os quero me atrapalhando. Preciso mata-lo aqui mesmo.
Dizendo isso, ele sacou sua espada. Não era nada do que já havia visto. Para começar, era uma cimitarra. Tinha o punho todo encoberto em ouro e a lâmina aparentava ser resistente e afiada, feita de algum material que eu jamais havia visto. Ele a sacudia no ar com agilidade e leveza, mostrando-se um espadachim experiente.
— E aí? – perguntou, em tom de desafio — Vai descer? Ou vai fugir como uma menininha?
Dei uma leve olhada para o lado antes de responder. O cheiro de queimado ia ficando maior a medida que o fogo queimava a casa de palha. Era um fogo fraco, mas em breve se tornaria incontrolável. Mas, naquele exato instante, tive ideia do que fazer.
Saltei para a rua e segurei a adaga em posição de batalha, do modo como meu pai havia me ensinado.
— Pois bem, traditore.- falei, usando a palavra italiana (língua natal de meu adversário) para irritá-lo. Aparentemente deu certo. – Vamos iniciar este duelo.
Notas finais
No próximo capítulo, começará de vez a história de Abelardo.
Um abraço a todos e aguardo reviews.
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