Thin Wings
1 Capítulo Único
Começou como algo tão inocente. Tão simples, mas ao mesmo tempo tão cheio de determinação. Era aquilo e pronto. Um processo a ser seguido.
E de fato se procedeu. Segui as regras que eu mesma criei para mim. Curta e grossa. De manhã, colégio com um lanche magro, mas o suficiente para me saciar. Concentração, sem distrações. Á tarde, após o trabalho, mais um lanche rápido e pés ligeiros na esteira. Chegada a noite, uma refeição pequena e cama.
Essa foi a rotina que me permitiu perder quase dez quilos. Comecei com cinquenta e quatro quilos com uma altura de um e cinquenta. Estava ligeiramente acima do peso para minha idade e o meu tamanho. Desde criança nunca gostei do meu corpo e por vezes fui apelidada com nomes que declaravam meu peso. Afinal, crianças nunca mentem. Crianças são cruéis.
Apenas no último ano do ensino médio que eu consegui perder esses quilos. Foi realmente muito fácil no começo e eu estava amando os resultados. Realmente, fiquei muito orgulhosa de mim mesma no momento em que troquei a primeira casa. O cinco, virou quatro. Logo, eu estava pesando quarenta e nove quilos. Isso nunca havia acontecido.
Demorava duas semanas mais ou menos para eu meu peso pular de número, pois oscilava bastante, mesmo eu seguindo religiosamente o regime. Entretanto, nesta época, nunca abusei em nenhum dia.
De certo eu não sei quando comecei a ter esses pensamentos. Creio que há mais tempo do que eu possa me lembrar. Admito que algumas redes sociais fizeram a minha cabeça em relação ao padrão de corpo que eu deveria seguir. Eu tinha que chegar lá. Eu necessitava.
E então alguns pensamentos começaram a se tornar frequentes, como: “eu vou ficar tão magra que as pessoas não vão me reconhecer”, “as pessoas não gostam de mim por que sou gorda”, “quero ficar tão magra a ponto de as pessoas acharem que estou doente”. Eu realmente não estava consciente de onde aquele tipo de pensamento ia me levar. De fato, parecia algo inofensivo, e bem, quando eu chegasse em meu peso ideal, eu iria parar... certo?
Eu falava isso para as pessoas ao meu redor toda hora. Elas insistiam que eu não precisava perder mais peso e que só deveria manter. Mas, afinal, essas pessoas nunca me viram sem roupas. Elas não viam as gorduras encrustadas ali ao redor de meu umbigo, o acumulo debaixo dos meus braços e nas minhas coxas asquerosas. Era tudo uma enganação.
E mais uma vez, estúpida, eu pensava: “eu não posso ter um distúrbio alimentar, pois eu não sou magra.”. Trágico erro, minha querida.
Ter um distúrbio alimentar é querer dormir ao máximo para não ter a tentação de ir até a cozinha e comer algo. É querer pintar todos os espelhos da casa de preto para não ter que olhar no espelho. É se trocar o mais rápido possível para não se espantar com o tamanho de sua barriga. É não comer nada por um dia inteiro, mas ao mesmo tempo, é também ter uma compulsão alimentar em outros dias. É se auto sabotar. É não ter mais controle de absolutamente nada.
E então você começa a evitar as saídas com seus amigos. Você faz de tudo para não envolver comida nos principais assuntos. A ansiedade se desenvolve juntamente com toda essa paranoia, obviamente. Criar atividades aleatórias apenas para se ver distraído e não disparar em direção a cozinha. Nada faz sentido, pois no final do dia, seus pais chegam e quando você vê, está sentada no sofá com um pote de pão de queijos em mão. Quando isso aconteceu?
Sem controle.
Depois vem toda a frustração. Você se sente decepcionada consigo mesma por não ter se contido. E quer botar tudo para fora. Seus dedos vão para a garganta. Você vomita tudo o que pode mesmo sabendo que aquilo também é uma enganação. As lágrimas saem junto. Isso não vai funcionar.
As fotos passam rapidamente pela tela de seu celular. Você quase nem as olha, apenas se tornara uma rotina. Como se servisse de alimento para o seu subconsciente: “quero me tornar isso”, “quero ficar magra desse jeito”.
Os jejuns se tornam seus melhores amigos, assim como litros de água, chá verde, café e até mesmo o cigarro. Você disse que nunca iria utilizar coisa do tipo, mas claro, para tornar-se magra, nem o céu é o limite. Abusa até a fraqueza, até sentir o mundo girar. Mais uma vez, isso se torna rotina. Isso se torna comum e você acha que está preparada para forçar mais.
Acontece que nunca vai parar.
Você sempre vai querer mais e mais.
Até sobrar apenas as magras asas que te levarão à tão sonhada liberdade.
Fale com o autor