They
1 Into to Darkness
Notas iniciais
A energia já se fora há algumas horas, e neste momento, a escola não era mais a mesma. Ainda me lembrava dos belos momentos que passara com meus colegas ali, naquela quadra do ginásio, no qual anteriormente ocorrerrera diversos eventos até ano passado, mas agora não. A arquibancada estava vazia. Desértica para ser honesto.
Minhas íris esverdeadas refletiam o terror existente ali na frente. Cadáveres atiçados no chão, vidas jogadas foras, e o horror das pessoas onde ali foram atacadas pela criatura mais estranha que já tinha visto em minha vida — ela era levemente, mas totalmente esverdeada, parecia que a sua pele tinha escamas. Era toda rasgada, deixando os seus músculos a mostra, em determinados locais de seu corpo -. Não pude ver a sua face, pois quando tive a oportunidade, esta coisa estava com seus dentes cravados na carne de um estudante que estudava ali. Não o conhecia, mas quando ele estava sendo comido pela criatura, senti uma imensa dor em meu peito enquanto ouvia os seus gritos desesperadores, de medo, de dor. Um berro humano, no qual revelava todos os seus sentimentos não esperançosos.
Eu permaneci inerte, surpreso e congelado pelo que estava acontecendo, enquanto o ví ter cada parte de seu corpo arrancada pelos caninos da criatura, e juntamente a isto, o seu líquido rubro, que anteriormente escorria em suas veias, estaria sendo jorrado perante as paredes de cor desgastada, e o piso de madeira presente em todo o ginásio. Poderia dizer, que naquele momento estava paralizado de medo. Eu era um covarde, e eu estava me sentindo um covarde, sendo que poderia tê-lo ajudado enquanto ainda dava, mas agora já era tarde. Muito tarde.
Senti um leve arrepio perante o clima e a minha situação atual. Estava em meio a inúmeras teias de aranha, atrás de uma arquibancada em pleno ginásio observando o corpo do estudante cujo fora devorado alí, inerte, atiçado sobre o liso chão amadeirado.
Como a energia tinha se ido, o local estava escuro, e eu poderia perceber que, aos poucos, a hora ia se passando, e ia-se escurecendo, e eu apenas estaria escondido, amedrontado de sair de meu local atual. Quando remexi nas aberturas de minha calça jeans, não achava meu celular, então eu estaria totalmente perdido no tempo.
Duvido que ainda estaria o límpido céu azulado, e ensolarado daquela manhã neste exato momento. Duvido que as mesmas pessoas que ví nesta manhã de terça-feira estariam fazendo seus determinados ofícios, pois tudo que se denominava humano, todas as nossas construções, em apenas três dias, iria se mantendo no esquecimento, iria por água abaixo. Infelizmente esta era a triste realidade de meu país neste momento, um país em esquecimento.
Embora pareça que eu esteja totalmente seguro de mim, não estou, pois narrar cada momento, cada sentimento que estou sentindo é complicado. Múltiplos sentimentos a cada bombeada que o meu coração fazia. A cada momento me faria duvidar se aquela criatura ainda estava naquele prédio, ou se já teria ido para outro lugar. Meu corpo, trêmulo, estava dormente por eu estar sempre na mesma posição de sempre, com as pernas justapostas, e meus braços envolvidos nelas, suspirando pesadamente.
Aos poucos eu ficava esfomeado, muito esfomeado. Já não estava aguentando mais. Tinha que sair dali. Uma gota de suor escorreu na lateral de minha face, e foi quando eu dei meu último suspiro e me remexi, arrastando meu corpo para fora da arquibancada. Engatinhando para ser mais preciso. Não demorou muito para eu estar me vulgarizando, vulgarizando minha veste — uma camisa azul, com listras brancas nas mangas, e um brasão demonstrando que eu estava no Terceiro Ano do Ensino Médio. Em sua trás, estaria escrito, em letra de forma branca, o meu nome: Joshua Hobbes.
Meu suor não estaria somente concentrado em minha face, mas também em meus curtos louros negros, que estariam desgrenhados totalmente, embora fossem lisos, e nos meus membros superiores, tais como minhas palmatórias. Suspirei novamente.
Foquei meu olhar no estudante a frente, com suas tripas totalmente para fora, e não me hesitei em dar cautelosos passos em direção ao mesmo. Era triste aquela cena, porém perturbadora. Olhava em sua pele, sua pele gélida e alva, e foi neste momento em que me agaichei e o analisei. Ele podia estar morto, podia não, estava ! Mas a sua alma ainda continua vagando por aí, talvez com um certo desejo de vingança.
Avistei-lhe a sua bolsa, e por fim a apanhei, e abri o seu zíper. Não a apanhei, mas sim a furtei de um cadáver, o que tão pouco me interessava. Nesta estariam alguns livros e cadernos, nos quais os tirei e os deixei sob o liso chão amadeirado e imundo, assim vendo-lhe no fundo, uma mísera carteira, e foi nesta que a peguei. Roubei-lhe os trocados, e por fim ví a sua identidade. Era um mulato, de cabelos negros, cujo seu nome era Gabriel Pereira, a sua identidade era nativa da Grande São Paulo. Gabriel nascera em 2007, o que me faria pensar que ele estaria cursando o Segundo ano do Ensino Médio. Este, em sua morte, usaria a camiseta do Colégio Stafford, como eu, é claro.
Apenas de ver Gabriel, abaixei-me a cabeça, e deixei a sua identidade em seu peito. Uma lágrima salgada caiu de meu rosto, e logo a limpei. Limpei e tentei cessar, não poderia, não naquele momento, mas eu estava cheio de arrependimentos, que chegavam a me dar calúnia de mim mesmo.
— Me perdoa... — Resmunguei.
Em meu período de arrependimentos, ouvi um ruído. Um ruído próximo, o que não me fez pensar duas vezes em saltar. Não era hora de me arrepender de meus atos, mas sim de sobreviver, e no caso, sobreviver era achar comida e alguém, é claro. Passei as mãos por meus olhos, e com a mochila vazia pertencente ao cadáver, que estaria em minhas costas, comecei a andar para a porta. Não havia porta, para ser mais preciso, pois uma das criaturas a havia arrombado. Não sabia o que ele, ela, ou aquilo, era, mas sabia que era forte, agressivo, e que se degustava de carne humana, e eu, poderia ser o jantar daquela criatura. Não me sentia bem com isso.
Em pleno corredor eu passava, ainda ouvindo tais ruídos. Notaria que a partir da visão das janelas, que estariam abertas, notava o ilustre céu azul, em um tom escuro. Já era noite, e eu mal tinha notícias de minha família, de meus amigos, e o mais importante, "deles" — Eu os apelidei "deles", pois não soube especificar a sua espécie. A biologia atual a desconhece ainda, ou melhor, a biologia atual que eles acabaram de destruir -,aquelas criaturas horrendas. O ruído prosseguia.
Trinquei os dentes. A fome me matava, o medo me matava, e a esperança se afundava. Eu estava no fundo daquele imenso breu, as vezes pensava em desistir, o quanto seria fácil simplesmente eu quebrar o vidro de algum espelho do banheiro, e passar a sua parte cortante em minha jugular, ou me entregar para Eles, mas acho que a minha vontade de viver era maior.
Em meio aos meus pensamentos, os ruídos ficariam cada vez mais altos. Mais vulgares. Por mim era outro alarme falso que havia, pois eu os estava ouvindo à muito tempo. Desde o ginásio até aquele íngreme corredor. Estes ruídos logo se tornariam barulho de passos. Passos rígidos, que quase chegariam a quebrar o chão, e quando me virei, ví novamente a criatura esverdeada em pleno corredor. Seus músculos estavam rasgados, este tinha a forma do estudante anteriormente visto no ginásio, deitado. O moreno. Seus olhos já não eram mais existentes, e sim tinham uma tonalidade esbranquiçada.
Não pude deixar de correr. Eu chamei a morte e agora ela estava atrás de mim, cômico não ? Extremamente cômico. Meu coração palpitava desesperadamente, e eu estava encurralado. Já me iludia com as presas da criatura rasgando minha pele, mas mesmo com essas ilusões feitas pelo meu psicológico, eu corria como se não houvesse fim. Minhas pernas chegariam a ficar doloridas, mas de uma hora para outra elas ganhariam vida.
Tão pouco liguei em olhar para trás. Ouvia o ruído que a criatura faria, ouvia os seus desastrosos estrondos na parede, quando ele tombava. Ele me perseguia, e parecia que não se cansava.
Virei o corredor, e a criatura a tão poucos metros de mim. Parecia não haver ninguém ali, somente eu, e futuramente, talvez nem eu. Talvez nem um humano, um humano racional, é claro. Minhas pernas já estavam bambas, extremamente bambas. Em meio ao corredor, eu já estava caindo, literalmente. Meu joelho foi para o chão, levando o meu corpo enfraquecido junto. Sem energia quase, pois já estaria em meu limite. Quando eu me ví caindo sob o chão, tendo em mente o meu fim, apenas cerrei meus olhos, cerrei e soltei o meu último suspiro. Era o meu último suspiro.
Meu psicológico estava a mil, tanto que por fim, vendo um local totalmente preto, senti algo me puxar facilmente pelo meu braço e me arrastar. Estranhei, é claro, pois era algo firme e quente que havia me puxado, e o melhor, não pontiagudo. Quando eu abri minhas pálpebras,
desesperadamente, senti o meu corpo preso. Preso por algo. Não conseguia falar, e minha visão estava escura. Totalmente escura.
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