— Você precisa ir à delegacia.

Estávamos sentados no sofá da casa de Heitor. Meu cabelo estava molhado, mas preso em um coque. Usava um moletom cinza, que meu amigo havia me emprestado e, por ser dele, chegava até minhas coxas. Minha mão tremia ao redor de uma xícara de chá fumegante.

— Eu não sei se consigo fazer isso. – Comecei a soluçar e as lágrimas embaçaram minha visão. – Eu ainda consigo ouvi-lo gritando.

10 anos antes

— Você não pode estar falando sério, Mari. – Heitor balançou a cabeça negativamente, rindo.

Nossos horários eram iguais nas quinta-feiras e, por isso, voltávamos juntos para casa caminhando.

— Ah, mas você acredite, porque é verdade. – Ri de volta.

— Eu não acredito que você flertou com o monitor para mudar uma de suas classes.

— Era isso ou ficar mais um semestre com o Sr. Cowell. Você sabe que eu acabaria me matando. — Arregalei os olhos para ele, intensificando minha palavras.

— Nossa, como você é dramática. — Riu, ainda balançando a cabeça. — Você sabe que pode, simplesmente, se inscrever no primeiro dia que abre as opções de cadeiras, em vez de passar por isso.

— Mas, Heitor, é essencial que eu treine minha habilidade de flerte. Parece que você não entende. — Revirei os olhos, brincando.

— E o que ele falou?

— Então, o tiro saiu um pouco pela culatra. — Cocei meu pescoço.

— O que você fez?

— Eu tive que marcar um encontro com ele.

Heitor gargalhava como se fosse a coisa mais engraçada que eu já o houvesse contado. A verdade é que eu odiava André, o monitor. Ele era o ser humano mais arrogante e egoísta que poderia existir, mas, por algum motivo, desde a primeira vez que nos vimos na universidade, ele tinha uma quedinha por mim. Um ano depois decidi usar isso ao meu favor, mas não aconteceu como eu esperava.

— Como isso aconteceu?

— Eu dei meu número errado pra ele.

— Como você sempre faz, deu o número da pizzaria lá da rua, não foi?

— Isso! Como sempre. Mas ele ligou para o número, dizendo que era pra facilitar de eu salvar o dele. — Dei uma tapa no braço do meu amigo, que continuava a rir desesperadamente. — Ai, depois de bancar a sonsa, dizendo que tinha acabado de mudar o número e, por isso, não lembrava ao certo, ele disse que só me desculparia se pudesse me buscar amanhã à noite para jantar com ele. E é isso, temos um encontro e eu estou pronta para levar um tiro a qualquer momento, mas, pelo menos, eu e você temos mais uma cadeira juntos. No geral, você está me devendo uma.

— Eu?? — Ele arregalou os olhos para o meu lado e deu um sorriso debochado. — Você fez isso única e exclusivamente para seu prazer, nem me envolva nas suas loucuras.

— Sua amizade já foi mais proveitosa para mim. Acho que está na hora de terminarmos nossa relação. — Mostrei a língua para ele e abri a porta do nosso apartamento.

A noite passou mais rápido do que eu esperava, assim como o dia seguinte. Em um piscar de olhos eu estava encarando minha imagem no espelho enquanto me arrumava para o encontro.

— Okay, essa é a hora que você finge que está passando muito mal e eu não poderei deixar você sozinho. — Olhei esperançosa para o meu colega de quarto.

— Engraçado, eu nunca me senti tão saudável em toda minha vida. — Ele sorriu de lado e piscou o olhou direito.

— Sabe esse calor que você está sentindo? — Arqueei uma sobrancelha. — É o inferno, Heitor, onde passarás o resto da eternidade.

— Você está linda, Mari.

— Eu te odeio. — Sorri falsa, mas havia ficado feliz com o elogio.

— Você acha que volta a tempo de assistir a algum filme comigo? Ou pretende ir para a casa do seu novo namorado? — Ele forçava uma cara séria, mas eu sabia que estava segurando uma risada.

Mostrei meu dedo do meio e voltei para o meu quarto, ainda precisava terminar de ajeitar meu cabelo. Eu odiava o garoto, mas não significava que eu precisava sair feia.

Ouvi a campainha e revirei os olhos. O momento havia chegado. Podia escutar Heitor sendo simpático com ele, oferecendo um lugar para sentar e algo para beber, os quais ele negou. Mal-educado.

— Oi, você chegou bem na hora. — Forcei uma animação que fez Heitor soltar uma risada entredentes.

— Nossa, você está mais bonita que normalmente.

André não era feio. Seus cabelos encaracolados sempre estavam em um comprimento bom: longo suficiente para mostrar os cachos, mas curto o bastante para não parecer desleixado. Ele era cheiroso, se vestia bem e a boca dele era carnuda.

Okay, o pensamento começou a ficar estranho demais.

— Obrigada, você também está muito bonito. Já decidiu para onde vamos? — Ele fez que sim com a cabeça e eu o acompanhei até a porta.

Antes de sair, fiz questão de virar e fazer careta para o Heitor, que foi deixado às risadas no sofá da sala. Lugar onde eu mais queria estar.

O caminho até o restaurante não foi tão ruim quanto eu imaginava, embora André dirigisse tal qual uma tartaruga. Conversamos um pouco sobre o campus, professores, séries e livros que gostávamos, descobrindo que tínhamos mais em comum do que poderia imaginar algum dia.

— Espero que esse lugar esteja bom para você, Mari. — Ele deu um sorriso encantador.

Por que ele não estava chato?

— Está ótimo, é um lugar lindo, como você conheceu?

O restaurante era simples, mas muito charmoso. Havia flores por todos os lados, de todas as cores possíveis. As toalhas de mesa eram de cor creme que contrastavam muito bem com a mobília toda preta.

— Fica bem no caminho que eu pego para à faculdade, passava sempre por aqui e achava a fachada bonita. Quando te convidei para sair, achei que seria a oportunidade perfeita para conhecer isso aqui.

Eu sorri verdadeiramente pela primeira vez na noite, mas não pela última. No final das contas, André e eu tínhamos muito assunto e nos interessávamos por muitas coisas iguais.

— Posso te perguntar uma coisa? — Falei em meio às colheradas que eu dava em minha sobremesa.

— Fala. — Ele levantou os olhos para me encarar.

— Por que você é tão chato na faculdade?

— Você me acha chato? — Ele abriu a boca: meio sorrindo, meio chocado.

— Um pouco. Parece que você só sabe falar de você mesmo e suas conquistas.

— Okay, eu não posso negar isso, mas, na maior parte do tempo, eu falo isso só perto de você. — Ele parecia sem graça. Eu franzi o cenho e ele continuou. — Eu pensava que desse jeito você iria me notar, eu tenho uma queda por você desde sempre.

— Sério que isso era pra me conquistar? — Fiz cara de incrédula.

— Sim. — Ele riu. — Você é muito inteligente, está sempre lendo uns livros difíceis, eu vi o seu currículo do ensino médio e wow.

— Não sou isso tudo. — Foi minha vez de ficar envergonhada. — E você sempre se mostrou inteligente, não precisava ficar reforçando todos os prêmios que ganhou ou quase ganhou.

— Eu sei, mas me sentia um pouco intimidado pelo Heitor também. Vocês são tão próximos e eu não sabia a forma de competir com isso. Pelo visto escolhi a estratégia errada.

— Sim, péssimo estrategista. Você deveria ler Maquiavel. — Dei de ombros. — Pode te ajudar nisso ai.

O resto da noite foi ótimo. Ficamos muito confortáveis um com o outro, de tal forma que nem vimos a hora passar.

— Foi muito divertido passar um tempo com você. — Eu falei, sincera, quando ele me deixou na porta do apartamento.

— Você é ainda mais incrível do que eu pensei que fosse. Boa noite, Marina. Até segunda.

Ele se aproximou, não sei se para beijar minha bochecha, mas eu fui ao encontro de sua boca dando-lhe um selinho rápido.

— Até segunda.

Entrei no apartamento e me deparei com Heitor dormindo no sofá. A TV ainda estava ligada, no último volume como gostávamos de assistir. Desliguei a televisão, o cobri com a manta do sofá e beijei-lhe a testa antes de ir para o meu quarto.

Dias atuais

— Não me leva à delegacia. Por favor. Foge comigo. — Falei segurando as mãos do meu melhor amigo como se fosse a única coisa que restava na minha vida.

E era.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.