The warmth of Winter
23 Sacrifícios
Notas iniciais
– O que houve? A voz de Kanda me tira de meu estado pensativo, viro a cabeça, mantendo-a deitada sobre meus joelhos, e olho para ele.
– Não gosto da ideia de envolver mais pessoas. Assumo cansada.
– Então não o envolva. Conclui o moreno, simplesmente.
– Você sabe que não temos essa opção.
– Não vejo nada que te obrigue.
– Se Lizzy disse que devemos fazê-lo sincronizar, ela deve ter seus motivos, sem contar que “deveríamos” encontrar o maior número de compatíveis possível. Digo, fazendo aspas com os dedos.
– Mas você está relutante. Afirma o general.
– Eu não diria relutante, sou totalmente contra a ideia, não acho justo que outras pessoas sejam obrigadas a lutar.
– É uma guerra.
– E quanto mais pessoas envolvidas, mais feridos, mais vidas em risco. Levanto minha cabeça, encostando a no vidro e mirando o céu, estamos a mais de hora sentados na frente da janela de Daniel, e nenhum sinal de perigo.
– Há certos sacrifícios que precisam ser feitos. Fala o espadachim, como uma constatação.
– Eu… Fecho meus olhos, lembrando-me de todos os exorcistas. — Não acredito nisso!
Viro-me para o moreno, me sentando sobre meus joelhos e o encaro firmemente, não quero ouvi-lo repetir isso novamente, mesmo que eu não possa mudar o passado, de agora em diante, pretendo impedir que ocorram sacrifícios.
– Eu sei que é uma guerra, e sei também que todos arriscam suas vidas, porém, eu não permitirei mais nenhum sacrifício! Juntei minhas mãos, as colocando sobre meu coração, onde eu suponho, esteja alojada a inocência. — Eu estou aqui agora, e não vou deixar que mais ninguém sofra.
Nos encaramos em silêncio por um longo momento, sei que Kanda é incapaz de acreditar em mim e não o culpo por isso, após tudo pelo que passou, me surpreende ele não ter desistido de tudo, ele vira seus olhos para o céu e suspira.
– Você é demasiado ingênua. Diz o general, sua expressão é tão triste que aperta meu coração. — Mergulhar de cabeça em uma guerra e ainda insistir em proteger a todos, você não tem nada a perder?
– Todos vocês. Sorrio para o espadachim. — Vocês são o que de mais precioso, eu poderia perder.
– Garota estúpida. Não consigo entender o que o moreno diz sob a respiração, mas quando ele se vira para mim, sua expressão está mais suave. — Parece que terei o dobro de trabalho, se está disposta a jogar sua vida fora tão facilmente.
Por um momento compartilhamos um sorriso, e no momento seguinte, Kanda me empurra para trás, caímos deitados e o lugar onde antes estivéramos é atingido por uma bola de energia, destruindo a janela.
– Eu não os senti. Falo chocada.
– Não se distraia tão fácil. O general já estava de pé e com a Mugen em mãos, talvez ele tenha razão, preciso estar atenta para lutar.
Quem havia atirado em nós, fora um level 2, além dele havia apenas um level 1, senti alívio tomar conta de mim, eu não gostava de obrigar o espadachim a lutar, eu sabia que sua vida estava diminuindo muito rapidamente e tinha certeza que ele não me permitiria aumentá-la através de meus poderes.
– O que está acontecendo?! Daniel olha para onde antes se encontrava sua janela, sai pelo enorme buraco e se depara conosco. — Senhorita Fuyuki!?
– Tire-o daqui. Grita o moreno, partindo para cima do level 2, que tentara se aproveitar do momento para atacar.
– Vamos! Digo, já agarrando a mão do loiro e o puxando comigo para dentro do quarto.
– Irmão. Ele para bruscamente, me fazendo tropeçar, viro-me e vejo que quem o chamara foi sua irmã, mas, como ela está do lado de fora, será que…
– CUIDADO! Um escudo se forma em torno de nós dois no momento em que a loira dispara contra nós, agora no formato de um Akuma level 1.
– Como? Questiono Lizzy, incapaz de entender.
– Ela se transformou hoje, e aposto que não faz muito tempo.
– Mas…
– Foque-se na batalha, Fuyuki.
Nesse momento, uma enorme bola de energia nos acertou pelas costas, partindo meu escudo. Um level 4, como eu não o sentira antes?
– Daniel, volte para dentro, eu… Me interrompi, agarrando o loiro que decidira ir em direção a sua irmã. — NÃO! Ela não é mais humana, ela é um akuma, não ira lhe reconhecer, pior ainda, mesmo não querendo, ela irá te machucar.
– Ela é minha irmã!
– Não é mais, Danie… O level 4 dispara em nossa direção, crio um escudo, porém sei que ele não durará muito, percebendo isso, o level 1 se junta, atirando contra nós.
Sinto uma enorme pressão em minha cabeça, contudo, não posso deixar que o escudo se desfaça, começo a sentir dificuldades para respirar, minha visão embaça, fecho os olhos e aperto mais os braços em torno de Daniel, independente de qualquer coisa, não posso deixa-lo se machucar, de repente os ataques cessam, abro os olhos e encontro os dois akumas presos por grossos galhos de árvores.
– Bea. Murmuro agradecida, soltando os braços de volta do Smutter.
– Ary! O loiro se aproveita para correr até a irmã.
O tempo desacelera, vejo tudo passando em câmera lenta, Daniel aproveita a liberdade para correr até Arabela, o Akuma level 4 se solta dos galhos, alguém grita cuidado, o akuma dispara, e antes que o projétil o atinja , um vulto se choca contra o loiro, tirando-o da linha do tiro. Beatrice cai no chão e muito sangue começa a correr, sinto minha cabeça girar, o akuma se aproveita da confusão e tenta se aproximar de Daniel, porém um ataque o atravessa, logo em seguida, Kanda aparece, já partindo para cima do level 1, instintivamente, corro até a morena, ajoelhando-me a seu lado e começo a curar sua ferida..
– NÃO! O Smutter se coloca na frente da “irmã” com os braços abertos, mesmo a vendo naquela forma, ele ainda não pode aceitar que a destruamos.
Sinto meus olhos se encherem de água, consigo sentir completamente suas emoções, confusão, raiva, mágoa, medo, mas acima de tudo, determinação, Daniel não pretende deixar que ninguém machuque sua irmã.
– Ela é um Akuma, não há mais salvação para ela, precisamos destruí-la. Fala o general, mas antes que possa se mexer, o level 4 o atinge, arremessando-o longe.
– Lizzy! Chamo desesperada, entretanto, não recebo resposta, minha cabeça está girando mais a cada momento, e toda essa adrenalina não me permite pensar direito.
– Daniel. Digo, finalmente saindo de meu estado de estupor e correndo em sua direção, Bea pode aguardar um pouco, primeiro preciso tira-lo daqui, ou ela terá se machucado em vão. — Por favor, essa é a única maneira de salvá-la, nós precisamos…
Vejo-a mirar nele e se preparar para atirar, provavelmente depois dessa eu não serei mais capaz de me manter em pé, mas preciso protegê-lo, penso ao ativar meu escudo. Como previsto sinto minha cabeça ficar leve e sou tomada por uma forte tontura, tornando impossível me manter de pé, caio sobre meus joelhos e tento respirar profundamente para me manter consciente.
– Você está bem? Rio da ironia, ou talvez seja apenas essa sensação de leveza que me fez rir, mas ao me ver cair, Daniel, acabou por correr para o meu lado.
Ele toca meu braço para me ajudar a levantar, colocando sua mão sobre o bracelete, e então todos os seus pensamentos me inundam, cada memória ao lado de Arabela, o profundo amor fraternal e a amizade existente desde seu primeiro momento de vida, lágrimas correm de meus olhos sem minha permissão, revejo nosso momento no baile, agora por seus olhos, e descubro também o que aconteceu depois, Michael, esposo de Arabela e melhor amigo de Daniel, morrera num acidente, e a notícia fora entregue a loira logo após ela ter deixado seu irmão, isso também explica o fato de ela ter se tornado um akuma.
Algo atinge o nosso lado, viro-me incapaz de compreender completamente a cena, mais sinto do que vejo, Kanda se aproveitando da distração do Smutter para partir para cima do level 1.
– Fuyuki!
– Nã… o. Talvez tenha sido um impulso, pois não foi algo consciente, mas quando percebi, já estava agarrando o braço do general para impedi-lo de atacar Arabela.
Uma nova explosão, dessa vez eu já não tinha mais forças para criar um escudo, porém a posição em que estávamos era favorável para que o moreno pudesse me proteger, novamente, se machucando em meu lugar, todos, todos sempre se machucam em meu lugar, todos estão sofrendo, todos estão machucados, e tudo que eu faço é atrapalha-los ainda mais, aqueles que eu quero proteger, por que continuo sendo protegida por eles?
– Fuyuki!Pare, Fuyuki!
Beatrice está ensanguentada no chão, Kanda está com um terrível ferimento, que era na verdade, destinado a mim, Daniel está com uma ferida em seu coração afinal, sua irmã está tentando o matar, e nós estamos tentando mata-la, guerra… Isso é uma guerra, dor, tristeza, devastação, ódio. Será que sacrifícios são realmente necessários?
A escuridão no coração das pessoas, é disso que o conde se alimenta, é isso que gera um akuma, foi assim que tudo começou, eu não posso… — Eu não vou desistir!
– Já chega, você não pode passar disso, você sabe muito bem quais são os riscos, sua sincronização máxima é 25%, não tente ultrapassa-la, FUYU! Lizzy gritava em minha mente, porém eu sentia uma enorme paz, era como se eu estivesse completamente sozinha pela primeira vez em muito tempo.
– Eu tenho algo que preciso proteger, custe o que custar, na verdade, acho que entendi o que significa, sacrifícios são necessários, acho que essa frase quer dizer que quando você acha algo pelo qual lutar, você é capaz de se sacrificar sem medo, não fique muito brava comigo, mas, eu vou precisar de 40%, acho que, do nosso poder, esse é o suficiente.
– Você está louca, se você forçar a sin…
– Obrigada Lizzy, mas isso é algo que só eu posso fazer, e ao mesmo tempo, é a única coisa que eu posso fazer.
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