Notas iniciais
Boa leitura = D

Daniel Smutter POV

Suspiro olhando para o topo da árvore, sem me deixar abater, começo a escala-la, em momentos como esse, agradeço minhas fugas das aulas de etiqueta, assim que chego ao galho mais alto, me sento e puxo fortemente o ar.

Como ela está? A morena não se dá ao trabalho de me olhar.

Mais corada, disse Ary, é um ótimo sinal. Respondo oferecendo um sorriso a garota. — Já comeu?

Retiro duas maçãs de meu bolso e ofereço uma a ela, sua cor também não era das mais saudáveis, e por mais que entendesse perfeitamente seus sentimentos, não podia apoiar sua atitude.

Ela não come… Fora sua única resposta, passei a comer a minha maçã e quando já tinha desistido de esperar por mais, ela voltou a falar. — Por minha culpa, ela não come.

Seus lábios tremiam e seus olhos estavam marejados, mas ela tentava se manter sobre controle.

Eu não acho que ela pense assim. A morena se vira para mim com uma expressão irritada. — Eu não a conheço a tanto tempo quanto você, mas… Vai soar estranho, mas eu sei que ela não é esse tipo de pessoa, sem dúvida, ela ficaria muito triste se soubesse que você está sem comer.

Por quê? A Fontana se lamenta, fechando as mãos em punhos. — Porque não temos força o suficiente para protegê-la, essa é a nossa tarefa, e é sempre ela quem acaba me salvando… E ainda assim, ainda assim…

Grossas lágrimas rolam de seus olhos, ela se inclina em minha direção e deita a cabeça em meu ombro, ficamos assim até que a morena se acalma, porém ela mantém a cabeça ali.

Eu nem mesmo consigo ficar ao lado dela, como posso esperar protegê-la.

Isso não é verdade, tenho certeza que ela não pensa assim, a senhorita Fuyuki é muito gentil, tenho certeza que ela não iria querer que você se obrigasse a ficar ao lado dela quando isso não lhe faz bem. Digo tentando conforta-la, e de fato, acredito completamente em minhas palavras, mesmo tendo a conhecido há tão pouco tempo.

Não é a primeira vez. Ela solta o ar, e se ajeita, encostando-se no tronco e pegando a outra maçã e a mordendo. — Parece que é um efeito colateral da inocência, quanto mais ela usa, pior.

Sei que isso não é exatamente o que você quer ouvir, mas ela escolheu usa-la mesmo sabendo disso, então…

POR QUE EU NÃO PUDE PROTEGÊ-LA! Quase me desequilibrei do galho com o susto, não esperava que ela fosse explodir desta maneira, a morena respira fundo diversas vezes e completa. — Você não entende, é frustrante, ela não precisa fazer isso pelo Kanda, aposto que você também não a causará problemas, ela sempre tenta carregar tudo sozinha, eu queria ajuda-la, eu queria estar lá por ela, mas no primeiro problema eu já dei para trás, nem mesmo ficar ali, ao lado dela, nem isso eu consigo, ela realmente não precisa de alguém como eu, mesmo que me irrite acima de tudo assumir, ela realmente precisa de alguém como o imbecil do general.

Voltamos ao silêncio, não importava o quanto eu tentasse fazê-la entender, ela continuaria se culpando pelo estado da senhorita Fuyuki.

Kanashiro Fuyuki POV

Fuyu, Fuyu, acorda. Lentamente abri os olhos, fechando-os logo em seguido, o forte Sol era demais para alguém que acabara de acordar. — Veja!

Uma sombra se instalara na minha frente, fazendo com que eu pudesse finalmente abrir os olhos, o moreno tinha um enorme sorriso estampado em seu rosto, suas mãos estavam esticadas em minha direção e nelas se encontravam diversas conchas, um sorriso igualmente grande se abriu em meu rosto.

São lindas! Digo me sentando, estico minha mão e pego algumas, é uma pena eu ter ficado dormido, teria sido tão divertido pegar conchinhas, penso levemente desapontada.

Qual você gosta?

Hum… Reviro as conchas em sua mão, uma grande e escura chama minha atenção. — Esta.

Você já acordou, Fuyu? A morena se aproxima, sentando-se ao meu lado e vendo as conchas que temos em mãos. — Você realmente encontrou boas conchas, poderíamos fazer alguma coisa com elas.

O que podemos fazer com essa? Indago, mostrando a que escolhi.

Eu diria um colar, mas já sei que você não vai aceitar. Dou uma risadinha, agarrando meu pingente. — Ei, você está vermelha, está com febre?

Arregalo meus olhos, não, por favor, não quero que tenhamos que ir embora por minha causa, eu quero brincar mais com eles, são poucas as chances que temos de sair, não quero estraga-las, eu já o prendo o suficiente, penso desanimada.

Não, não estou com febre, é… Tento pensar em algo aceitável. — Calor, eu estava dormindo no Sol, mesmo debaixo do guarda-sol ainda está quente.

Ela arqueia uma sobrancelha, e estica a mão para tocar minha testa, porém ele é mais rápido e puxa minha mão, já me colocando de pé junto consigo.

Se você está com calor, o melhor a se fazer é dar um mergulho. Seu sorriso é tão brilhante quanto o Sol, fazendo com que eu também sorria, concordo com a cabeça e ele me puxa consigo em direção ao mar.

Sinto alguém me chamando, tudo fica momentaneamente escuro, sinto-me tremendamente confusa, como se a voz viesse de dentro de minha cabeça, e então abro meus olhos.

Uma luz suave entra pela janela aberta, junto de uma agradável brisa, respiro profundamente, tentando entender o que se passou, duas grandes orbes lilases me encaram a uma distância de no máximo um palmo, levanto minha mão e toco o pequeno ser alado, que esfrega a cabeça em minha mão, sento-me na cama e vejo algo se mexer por minha visão periférica, me viro e me deparo com o general.

Eu tive um sonho estranho. Não sei ao certo o porquê de ter dito aquilo, mas sinto que precisava compartilha-lo com alguém.

Deve ter tido vários. Inclino minha cabeça para o lado, sem entender o que Kanda queria dizer, o ser alado pousa em meu colo, acaricio sua cabeça distraidamente. — Esteve dormindo por cinco dias.

Meus olhos se arregalam, tudo isso, como posso ter dormido cinco dias, isso é uma semana, minha nossa, eles devem ter surtado de preocupação, tento alcançar os sentimentos do espadachim e sinto-me tonta, meu corpo tomba para o lado, contudo ele me segura.

Você não deveria se levantar, volte a deitar, você ainda…

Eu estou bem. Me solto gentilmente dele e me sento corretamente na cama, o bichinho alado saíra de meu colo quando me desequilibrei, depois de esfregar sua cabeça contra minha bochecha, ele volta a pousar em meu colo, sorrio para ele e volto a coçar sua cabeça. — Só devo me manter longe da inocência por algum tempo, não é como se eu tivesse me machucado afinal.

Sua expressão não era de quem estava acreditando 100% em mim, mas não é como se ele pudesse me obrigar a ficar deitada, olho para minha volta e percebo que não estamos no quarto da última pousada em que tínhamos ficado.

Onde estamos?

A casa do novo exorcista, eles não aceitaram que você fosse levada para outro lugar. Aceno com a cabeça, ainda não consigo tirar aquele sonho da minha mente, e também, aquela voz, por que sinto que a conheço…

Fuyuki.

Ahm? Será que ele falara algo, eu realmente estava distraída.

O que está te perturbando? Uma risadinha escapa meus lábios, sorrio para o moreno, preocupado como sempre, penso, ainda brincando com o pequeno ser.

Você já sentiu que deveria se lembrar de algo? Balanço minha cabeça. — Não, é mais como se você “soubesse” que sabe de algo, mais como, quase uma lembrança, só que um sonho, é, algo como…

Um sorriso nada característico surge no rosto do general, paro de falar e o encaro surpresa, não me considero particularmente boa em ler as pessoas, e Kanda já é naturalmente difícil, fazendo assim com que eu não tenha a menor ideia do por que de ele estar quase rindo.

Está se referindo ao sonho estranho. Mesmo não sendo uma pergunta, confirmo com a cabeça. — Você acha que é mais que um sonho.

Isso! Falo, me sentindo aliviada. — Sabe, parece algo que, digamos assim, quase como se fosse uma lembrança, só que de uma vida passada.

A expressão do espadachim se torna sombria e ele parece prestes a falar algo, porém a porta se abre e uma mulher loira entra, a reconheço como sendo Arabela.

Você acordou! Seus olhos brilham, mas não consigo reconhecer a emoção por trás deles, percebo o quanto fui dependente da inocência até agora, meus pensamentos são interrompidos no meio por dois braços se fechando em minhas costas e meu rosto sendo pressionado contra um ombro. — Obrigada.