The warmth of Winter
40 Diferentes pontos de vista
Notas iniciais
Kanda Yuu POV
Abro meus olhos, tentando me lembrar de onde estou, minha última memória é da luta contra o Apocrypho, contudo, sei que estou em uma cama, por sinal, uma boa cama. O quarto se encontra completamente escuro, sendo a única luz, aquela que entra pela janela, sinto algo na cama, do lado oposto à janela. Graças a fraca luz, se torna difícil distinguir do que se trata, entretanto, o calor em minha mão deixa claro ser um ser humano, levanto um pouco a cabeça e finalmente tenho uma melhor visão, no mesmo instante, a pessoa também levanta a cabeça.
– Finalmente você acordou. Fuyuki sorri, parecendo a beira de lágrimas, ela aperta mais minha mão, como se tentasse confirmar não se tratar de um sonho.
– Onde estamos?
– Na residência principal dos Ichinose. Responde se sentando direito na cadeira. — Você está bem?
Não sinto nada de diferente, olho para onde me lembro de ter sido ferido, porém não vejo nem mesmo uma cicatriz, ela segue meu olhar, sua expressão se torna consternada.
– Eu sinto muito. Sussurra a morena mordendo o lábio com força, novamente ela parece prestes a chorar.
– Eu já estou bem. Você me curou? Ela acena positivamente com a cabeça. — Não deveria, você sabe que iria se curar sozinho.
Ela ri, uma risada sem humor, algo nada característico dela, por algum motivo Fuyuki parece distante, como se estivesse concentrada demais em alguma outra coisa.
– Este não era um ferimento comum, nem mesmo você seria capaz de se curar sozinho, Apocrypho realmente estava almejando me “matar”, obviamente, tanto eu quanto ele seriamos capazes de nos regenerar, mesmo se tratando de tal ferimento, em compensação, eu ficaria fora por tempo o suficiente para que ele pudesse se livrar de minha consciência.
Mesmo durante seu discurso, a morena parecia distraída.
– E por que viemos para cá? Eu sentia que isso tinha algo a ver com seu estado contemplativo.
– Parece que vai chover. Comenta Fuyuki, quando um relâmpago corta o céu. — O que acha de irmos até o jardim? Você já deve estar cansado de ficar na cama.
Ela olha fixamente pela janela, suspiro, parece que ela não pretende me responder, me pergunto o porquê de ela querer sair, sabendo que vai chover, contudo, concordo com a cabeça. Ela se levanta da cadeira e pega uma camisa me entregando, visto-a e saímos do quarto, durante todo o caminho ficamos em silêncio.
– É realmente bonito. Fala, assim que chegamos a ele, o jardim é extenso e tem das mais variadas flores, todas abertas, visto que acabamos de entrar no verão.
– Você ainda não tinha vindo aqui? Ela ri, indo em direção a uma roseira, suspiro, ela provavelmente não saiu do lado da minha cama.
– Não há nenhum lótus aqui. Diz se virando para mim, algo em sua expressão me faz sentir desconfortável. — Eu gostaria de ver, a flor de lótus. Kanda, mesmo estando em um pântano, uma região nada propicia, a lótus é capaz de florescer, certo?
Um novo raio ilumina o céu, seguido de um forte trovão, a morena se vira de volta para as flores, mantenho-me em silêncio, esta sem dúvida foi uma questão retórica.
– Eu não sou como a flor de lótus. Na verdade, eu deveria ser uma árvore de inverno. Comenta rindo e se virando de volta para mim, com uma flor em mãos. — Mas parece que este não é o caso, árvores de inverno são capazes de suportar as mais adversas condições e ainda se mantém firmes.
– Recentemente eu descobri muitas coisas, tanta coisa que chega a me deixar confusa… Ela segue mais para dentro do jardim, acompanho-a. — Agora eu não tenho a menor ideia de nada, quer dizer, eu já não sabia nada, mas antes eu felizmente ignorava tudo, agora em compensação não posso mais fazer isso.
Ela anda de um lado para outro, olhando e cheirando as flores, enquanto fala e ri, como se de alguma maneira, tudo que estivesse dizendo se tratasse de uma grande piada.
– Kanda, eu estou completamente confusa agora, não sei de que lado eu estou e de que lado os outros estão, a ordem, os Noahs, o Apocrypho, o 14º, Lizzy, os Ichinose, quem é aliado, quem é inimigo?
A morena finalmente parara de zanzar pelo jardim, colocando-se de frente para mim, de modo a me encarar, agora sua expressão voltara a se tornar séria.
– Não posso lutar uma guerra em que nem sei contra quem estou lutando. Ela para, parecendo pensar sobre como continuar, seus olhos parecem voltar a se encher de água, ela os abaixa e volta a mordiscar o lábio.
– Eu não sou uma boa pessoa… Fuyuki deixa sua voz morrer, um novo raio corta o céu, iluminando sua expressão de desamparo. — Eu tinha decidido que iria lutar, eu juro que estava decida, mas ainda assim, eu não consigo deixar de vacilar, é como se eu não fosse capaz de me manter firme a minha palavra.
A morena para, contendo um soluço, ela luta fortemente para evitar que as lágrimas caiam.
– Me desculpe! Fuyuki se curva, sei por sua voz que ela finalmente não consegue mais segurar as lágrimas. — Eu decidi que vou ser forte e não vou mais depender de nenhum de vocês, eu sabia que não podia deixa-los lutar no meu lugar para sempre, mas, mas…
Finalmente os primeiros pingos de chuva começam a cair, outro relâmpago ilumina o céu, seguido de um barulhento trovão.
– Eu preciso de respostas, não posso continuar seguindo as cegas, alheia a tudo a minha volta. A morena volta a levantar a cabeça, a chuva encobrindo suas lágrimas, creio que já entendi o porquê de seu desejo de sair na chuva. — Para que eu possa finalmente decidir que lado tomar, eu preciso primeiro saber mais sobre a guerra, a inocência e até sobre mim mesma.
– Não importa o quanto eu minta para mim mesma, eu não posso mudar a verdade, eu estou com medo, estou com muito medo do que vou encontrar em meu caminho. Mais um raio, de alguma maneira o céu parece expressar os conflituosos sentimentos de Fuyuki.
– Eu não posso te pedir para ir comigo, em compensação. Ela balança a cabeça de um lado para o outro, violentamente. — Eu não quero que você vá comigo, mesmo tendo medo do que me aguarda, sei que nunca sentirei tanto medo quanto senti no momento em que você foi atingido em meu lugar, eu senti como se algo dentro de mim tivesse quebrado, eu pensei que você iria morrer e a culpa seria toda minha, tanto quanto se eu tivesse feito aquilo com minhas próprias mãos.
– Você não me pediu para me colocar na frente, portanto a culpa não é sua. Digo, me sentindo verdadeiramente irritado com sua ideia sem sentido.
– É fácil para você dizer isso, mas você brigou comigo por ter te curado, não acha que o sentimento é o mesmo, eu também não sou capaz de assisti-lo sofrer e ficar indiferente. Fuyuki se aproxima, colocando a mão em meu rosto. — Eu não vou mais te envolver em meus problemas. Allen está no sul de Londres, o verdadeiro Allen, Nea voltou a dormir. Eu irei descobrir uma maneira de ajudá-lo também, mas por enquanto o máximo que posso fazer é isso.
A morena retrai a mão e a enfia no bolso, tirando de dentro dele uma pulseira feita de fios trançados.
– Parece que posso passar um pouco das minhas habilidades para qualquer objeto que eu mesma produza, não é exatamente uma obra de arte, mas deve ajudar a conte-lo. Ela volta a abrir seu típico sorriso terno.
– Johnny está aqui também, o décimo quarto queria se livrar dele, então decidiu trazê-lo de volta para nós, o deixando bem perto de onde estávamos lutando. Leve-o com você, Allen precisa de vocês. Fuyuki se afasta e volta a se dobrar. — Por tudo até agora, muito obrigada!
Ela se afasta sem levantar completamente a cabeça, assim que ela passa por meu lado, agarro seu braço, quem ela pensa que é para simplesmente me ordenar ir atrás do moyashi e sair.
– Agora você vai me ouvir. Seus olhos se arregalam, mesmo na chuva é perceptível que ela está chorando. — Eu não ligo se você se sente culpada, ou se pensa que me machuquei por sua causa, já tive ferimentos tão ruins, ou até piores, antes mesmo de conhecê-la. Que você atrai problemas é um fato, mas todo exorcista está fadado a ser um imã de perigos.
– Isso é…
– Ainda não terminei. Digo virando-a completamente para mim, ao que a mesma desvia os olhos, puxo-a para mais perto, estou cansado de vê-la bancar o mártir.
– Se é a inocência coração, Elizabeth ou você eu não sei, mas algo realmente faz com que eu me sinta atraído a você, então ao invés de assumir toda a culpa, eu aceito que uma parte pode sim ser responsabilidade da inocência, já que nenhum de nós pensa duas vezes quando se trata da sua segurança.
– Por isso mesmo, você deve saber que ninguém vai aceitar que você simplesmente vague por aí sozinha. Se realmente quer que eu acredite que você é capaz de se virar sozinha, o mínimo que pode me fazer é provar isto. Fuyuki engole em seco, finalmente me olhando nos olhos, parecendo apreensiva.
– Você disse que não pretende depender de nenhum de nós, então suponho que irá lutar sozinha, sendo assim, terá de ser capaz de finalizar seus adversários, está disposta a isto, matar alguém em prol de salvar sua própria vida? Seu rosto estava completamente lívido, seus olhos pareciam prestes a saltar da orbita, ainda assim, ela acenou com a cabeça.
– Então me mostre. Puxei-a comigo, seguimos em direção à floresta, não foi difícil achar o que eu procurava. — Ali, mate-a.
Como eu imaginava haviam armadilhas para raposa próximas à mansão, e a armadilha a nossa frente tinha conseguido capturar uma raposa vermelha.
Soltei o braço da morena, que cambaleou, antes de conseguir parar, ela esticou a mão pegando sua lança, suas mãos tremiam convulsivamente, ainda assim, ela apontou a arma para o animal, que se encolheu, porém a olhou, como se esperando para ver sua próxima ação.
– Eu não consigo. Disse quando já havia passado longos minutos com a lança apontada para a raposa, e seu corpo tremia tanto que era um milagre ainda se manter de pé.
Ela tentou dar um passo para trás, contudo me coloquei logo atrás dela e passei meus braços, um por cada lado de seu corpo, segurando a lança, mas fazendo com que a mesma continuasse a segurá-la, num movimento rápido, apontei a lança para o animal e ataquei. Fuyuki fechou os olhos, virando-se e escondendo o rosto em meu peito.
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