The warmth of Winter
42 A primeira compatível
Notas iniciais
– Você sabe que esta é uma ideia suicida, não será capaz de aguentar a pressão se não tiver alguém ao seu lado. Comenta Natsumi, quando a empregada deixa seu quarto.
Ela me guiara até lá e sugerira que tomássemos café enquanto conversávamos, então esperamos até que a comida fosse servida para começarmos.
– Eu suportaria menos ainda condenar alguém a tal sofrimento. Bebo um gole do chá, que descubro ser de pêssego.
– Eu não posso te obrigar a nada, mas sinto que você irá mudar de ideia, só espero que não seja tarde demais. Por algum motivo aquilo me irrita, respiro fundo, tentando me acalmar.
– Bom, sobre você e a guerra… Ela olha em volta, se levanta e abre um enorme armário.
Depois de examinar meticulosamente cada uma das roupas, ela o feche e indica com a cabeça que eu a siga, vamos para outro cômodo, este decorado de modo muito diferente do seu, ele tem a aparência de um “quarto-armário”, uma vez que para todos os lados, há apenas roupas.
– Aqui, este deve servir.
Ela colocara a minha frente um delicado quimono, sua gola começava branca, porém ele ia escurecendo, até que seu pé terminava em um forte tom fúcsia.
– Ficará bom, vá tomar um banho. Diz me empurrando para outra sala. — Quando terminar lhe ajudarei a vesti-lo.
Mesmo sem compreender, aceno com a cabeça e sigo para o banheiro. Ao entrar me sinto chocada, aquilo não era um banheiro, estava mais para uma piscina, havia um enorme buraco no chão, quase como uma fonte de águas termais, tento me focar, devo tomar um banho e sair o mais rápido possível, quero conseguir minhas respostas logo.
– Prontinho! Falo ao sair do banho, enrolada em uma toalha, havia um armário com diversas toalhas dobradas, supus que eu poderia pegar uma.
Mesmo querendo apressar as coisas não pude deixar de aproveitar a água, estava tão bom. O que eu não sabia, é que ainda havia muita preparação pela frente. A morena chamou duas empregadas e as três juntas fizeram um verdadeiro dia de salão de beleza, ajeitaram meu cabelo, fizeram maquiagem, me vestiram no quimono e até mesmo arrumaram minhas unhas.
– Agora sim. Natsumi me puxa para frente de um espelho, o que vejo me deixa de queixo caído, nem mesmo a produção de Beatrice fora tão bonita, eu parecia uma boneca de porcelana. — Vamos, você ainda quer suas respostas, certo? Ou prefere se encarar o dia todo?
Provoca a Ichinose me puxando pela mão para fora da sala, rio, não duvido que eu fosse capaz de perder um bom tempo me encarando, afinal, eu nem me parecia comigo mesma.
– Por que preciso estar tão arrumada? Indago, reparando que estamos deixando o interior da mansão e nos encaminhando para os fundos do terreno, o pobre quimono ficará sujo de lama, penso deprimida.
– É em respeito ao templo. Arqueio uma sobrancelha, tudo bem que Natsumi-san também está arrumada, porém, isso não deixa de ser estranho.
Paramos em frente a um estranho buraco, que parece se tratar de uma escada, ela se vira para mim com uma expressão séria.
– Ouça bem, tudo que você ver e ouvir aqui, fica aqui. A única pessoa com a qual você teria permissão de compartilhar é seu guardião, mas, bom, você já sabe.
Aceno com a cabeça, confirmando que a entendi, passamos então a descer, o caminho é bem íngreme e escuro o que não ajuda em nada a minha sensação de desconforto.
– Chegamos.
A escada desemboca em uma espaçosa sala, com corredores e portas, no centro da sala principal há um enorme quadro, de uma mulher com os mesmo olhos castanhos de Aki, porém com os mesmos cabelos loiros de Lizzy, ela realmente é linda, por sua roupa, suponho que seja muito antiga, talvez da bisavó de alguém.
– Esta é Ichinose Hana. Não consigo desviar meus olhos do quadro, ela é tão linda. — Ela foi a primeira compatível à inocência coração.
Finalmente consigo desgrudar meus olhos do quadro, sinto que eles estão arregalados, quando os viro para a morena.
– Siga-me, vou lhe contar a história de como esta guerra começou. Andamos por alguns corredores, até que chegamos a uma sala que de fato remete a um templo. — Esta é a minha sala, apenas para lhe esclarecer, eu sou a sacerdotisa daqui, mas irei lhe explicar mais sobre isso depois, primeiro sente-se.
Fiz como ela me sugeriu, olhei em volta da sala, haviam incensos, velas, uma mesa que eu supunha ser um altar, entre outras coisas esotéricas, ela se sentou de frente para mim.
– Há milhares de anos atrás, quando Deus criou o mundo, ele fez também o homem, que deveria ser seu semelhante. Até aqui não há nada muito relevante, penso, me sentindo ansiosa. — Porém os humanos não seguiam o caminho de Deus, a cada vez mais, as pessoas se tornavam gananciosas, egoístas, preguiçosas, e tendiam a pecar mais e mais.
– Foi então que tudo começou, Deus decidiu que destruiria tudo e começaria de novo, do zero. Mas houve uma exceção, logo que tudo começou, um casal, abrigou pessoas e animais, eles se ofereceram para proteger e ajudar, quem pudessem. Vendo isso, Deus os deu uma segunda chance, ele os disse para construir uma arca e que ele faria com que ela fosse capaz de aguentar qualquer coisa.
De alguma maneira, eu me sentia mais nervosa a cada momento, por que parecia que aquilo não acabaria nada bem?
– Com o propósito de cumprir sua promessa, Deus deu a eles um cristal, cujo poder era o suficiente para proteger a arca e a todos que estivessem dentro dela. E assim começa a derrocada do mundo.
– O homem, também conhecido com Noé, ficou fascinado pelo poder do cristal e decidiu usá-lo para benefício próprio, fazendo assim, com que ele caísse em tentação, e se esquece de seu objetivo inicial.
Teoricamente, este homem seria o conde, certo?
– Ao retirar o cubo do lugar, a arca começou a ruir, sua esposa, percebendo o erro do marido, e sabendo que não havia mais nada que pudesse ser feito, implorou a Deus por seu perdão, pedindo a ele, que protegesse a Arca, e oferecendo sua vida em troca. Engoli em seco, de alguma maneira, eu sentia que sabia onde isto iria terminar.
– Sensibilizado pelo ato da mulher, que mesmo após ter sido traída por seu marido, ainda queria protegê-lo, Deus a deu uma última chance, ele ofereceu a ela um cristal igual e ordenou que ela o usasse para parar seu marido.
– Mesmo sabendo que havia varias vidas em jogo, a mulher não conseguia se obrigar a matar seu marido, então decidiu tentar convencê-lo a devolver o cristal, porém a esta altura, o mundo já estava caminhando para seu final e a arca se encontrava em condições muito precárias. Prendi o ar, por algum motivo meu coração se aperta, sei estar chegando ao fim, e que não será um final feliz.
– Enquanto ela argumentava com ele, que estava cego pela ganância, uma enorme onda se choca contra a arca, ela vendo que ele seria atingido, largou seu cristal e o empurrou, acabando por ser levada ela mesma. Consumido pela culpa, o homem se jogou atrás dela, após também largar seu cristal, sobrando no convés apenas os cristais que ambos carregavam.
Natsumi estica a mão e acaricia minha bochecha, noto então que ela está molhada, não havia reparado que estava chorando.
– Em resumo, Hana e Noé, ou o conde, foram os primeiros compatíveis, a inocência e a matéria negra são a mesma coisa, contudo, a segunda foi corrompida pelos desejos humanos. Ela afasta a mão.
– Isto também explica o motivo pelo qual os Noahs odeiam a inocência, uma vez que antes de se atirar ao mar, Noé amaldiçoou o cristal, por ser o responsável pela morte de sua amada. Meus olhos se arregalam, isto realmente é informação demais para processar. — E apenas para completar, na Arca estava à família de ambos, além é claro de algumas outras pessoas. Mas ao encontrarem apenas os cristais, as famílias decidiram que o mais justo seria que cada cristal ficasse com a família de cada um deles, sendo que o cristal de Noé, que é hoje conhecido como a matéria negra, ficou com sua família, que se tornaram os descendentes de Noé, ou a família Noah, como você deve conhecê-los. E o cristal de Hana, ficou com o seu lado da família, que foi também o responsável por ficar com seus filhos, que herdaram seu sobrenome, os Ichinose, dois irmãos, que se tornaram respectivamente, o primeiro sacerdote do templo da família Ichinose e o segundo compatível a inocência coração.
Fale com o autor