II
Eu não consigo parar de pensar naquela garota.
Por que eu não consigo parar de pensar naquela garota?
Eu tenho literalmente uma galáxia inteira aos meus pés, eu sou o Líder Supremo. E, com ela, problemas enormes: políticos, principalmente, além da porcaria da Resistência.
Mudo de posição novamente na cama, olhando para o teto. Já estou tentando dormir há horas. Parece que Rey finalmente está tendo uma boa noite de sono, depois de semanas fazendo esforços para conter a nossa conexão. Mesmo que não consigamos controla-la sempre que queremos, ela ainda acha que tudo é possível se feito com esforço. Garota teimosa.
Fecho os olhos e tento visualiza-la, o que, após um minuto, acontece. Ela usava roupas folgadas e estava coberta como se houvesse alguém a abraçando por trás. Ela parecia tão pacífica.
Chego mais perto, não sei o porquê. Talvez seja o cabelo castanho caindo no seu rosto, ou os cílios longos tocando o rosto pálido. Ou as bochechas levemente coradas em meio ao mesmo. Ou os lábios avermelhados.
Naquele momento, lembrei-me de um conto antigo que já ouvira falar na infância: Branca de Neve. Uma garota com cabelos e olhos escuros e pele branca como a neve.
Encaixa tão bem na Rey.
Volto para a minha cama mais calmo. Talvez por ter visto Rey tantas vezes hoje, de vários jeitos: roupa de treinamento, roupa de dormir e até quase sem roupa.
Nenhum consegue sair da minha cabeça, especialmente o último. O jeito como ela ficou envergonhada e vulnerável, mas nunca deixaria transparecer. Mas ela esquece que eu sinto o que ela sente.
Acordo com Hux querendo armar formas de atacar a Resistência. Atacar, não. Dizimar.
E, claro, comprar milhares de armas e naves. Mais do que as enésimas que já temos.
Após diversas discussões, chegamos em um plano definitivo, porém sinto que há algo faltando. Como sempre nestas reuniões, afinal, eu não entendo absolutamente nada de política e guerra e tenho que governar uma galáxia inteira.
Nessas horas eu percebo que eu sou só um idiota numa máscara brincando de Darth Vader e que, se eu não fosse seu neto, nunca estaria aqui. Se eu não tivesse matado o meu próprio pai que, por sinal, era como um pai para a Rey. A dor que causei a mim mesmo talvez seja menor que a que ela sentiu ao ser abandonada novamente.
Suspirei, derrotado.
Rey
—Rey! -Ouvi a voz do Finn atrás de mim e sorri.
—Oi, Finn. Tudo bem?
—Melhor agora. -Brincou. -E o todo aquele negócio Jedi? Melhorando?
—Sinceramente, mais ou menos. Sem um mestre é mais difícil. Mas, os antigos livros do Luke têm me ajudado a me virar. E você? Se sentindo melhor em relação a... Rose? -Perguntei, hesitante, por medo dele se sentir ofendido.
—Eu acho que só vou melhorar totalmente quando eu vingar a morte dela, Rey. -Ele disse, olhando fundo nos meus olhos. -Quando destruirmos toda a Primeira Ordem e, principalmente, Kylo Ren. Aquele monstro. -Ele praticamente cuspiu as palavras e eu engoli seco.
—Eu não acredito que é como a Rose gostaria de te ver, com todo esse ódio no coração. Eu entendo você querer tomar tudo nas suas próprias mãos e fazer sua própria justiça. Mas o ódio não leva a nada. Foi uma das coisas que aprendi com o Luke, a ser passiva. -Ele me olhou desconfiado. -Ao menos tentar ser passiva. -Corrigi.
—Eu sei que isso de ser passivo e acreditar na Força é muito bonito e tal. Mas você é uma Jedi, Rey. Uma bem forte. E eu sou só o antigo faxineiro da Primeira Ordem. -Ele retrucou.
—Eu era uma órfã catadora de lixo em Jakku. Quer dizer, ainda sou. -Me atrapalhei com as palavras. -Ainda sou órfã, não catadora de lixo. Mas eu era. -Ri de leve por ter me confundido tanto, e ele também. -Olha, eu sei de algo que pode te ajudar. Vem comigo.
Olhei para Finn ansiosa após concluir a minha explicação.
—Então você quer que eu sente, feche os olhos e pense? -Ele questionou, estranhando.
—Basicamente. Eu juro que ajuda. Faz parte do meu... hum... Jedi e tal. -Diante da minha resposta não muito clara, ele riu, suspirou, fechou os olhos, e eu fiz o mesmo. Estávamos de frente um para o outro, de pernas cruzadas e mãos dadas, caso os pensamentos que venham sejam muito pesados, percebamos que não estamos sozinhos.
Inspira, expira.
Inspira, expira.
"Quem é esse?"
"Finn?"
"Se esse é o nome dele."
"Ben, sai, eu 'tô tentando ajudar um amigo e você não tá facilitando."
"Amigo..."
—Rey? -Ouvi a voz do Finn, e abri os olhos.
—E aí, ajudou? -Perguntei, ainda sobressaltada por conta do Ben. -Eu sei que passou menos de uma hora, mas me ajuda bastante quando me sinto agitada.
—Na verdade, ajudou, sim. -Ele respondeu sorrindo, e apertou a minha mão levemente, fazendo meu rosto esquentar. Até aquele momento havia me esquecido que estávamos de mãos dadas. -Obrigado... -Ele disse, constrangido, soltando a minha mão. Eu podia sentir a respiração dele no meu rosto de tão próximos que estávamos.
—De nada... -Respondi, me levantando. -Eu tenho que treinar agora. Sabre de luz...
—Ah, claro. Sem problemas. -Ele disse, saindo do cômodo. -Rey?
—Sim?
—Obrigado. De verdade.
—Sempre que precisar. -Sorri.
Antes de treinar, pensei em falar com Ben. Ele parecia bravo.
— Oi, Ben. Aconteceu algo?
— Não. -Ele respondeu, seco. -Pode voltar para o seu amigo.
— Qual é o seu problema? -Perguntei, já com raiva.
— Olha, Rey... só não precisava fazer o teatro todo de que se importa comigo.
— Eu fiz teatro? Por que eu estava com um amigo? -Ri de escárnio. -Você literalmente me usou para comandar a Primeira Ordem. Você me entregou numa bandeja de prata pro Snoke! Como você pôde? -Perguntei o que estava entalado há semanas.
— E depois eu matei ele pra te salvar e ofereci a galáxia inteira para você numa bandeja de cristal! -Ele se irritou.
— Você não teria que fazer nada disso se não tivesse me enganado! Eu arrisquei a minha vida indo atrás de você, atrás do seu lado bom. Você pensa que ninguém acredita em você, mas eu acredito. Desde quando você me contou tudo, eu acreditei em você, Ben. E não valeu de nada pra você.
— O lado negro me acolheu de braços abertos, Rey. Eu só queria te mostrar o outro lado da moeda. Você só foi para o lado bom porque é considerado certo, você nem se deu ao trabalho de entender os dois lados. Só correu para um e ignorou totalmente o outro!
— Para mim, fazer a coisa certa é o suficiente. -Respondi, calma.
— Você acha que eu sou um monstro, mas pelo menos eu sou alguém. Eu sou o Líder Supremo. Eu mando na galáxia. E você sempre vai ser a órfã pobre de Jakku que se apega a primeira pessoa que te dá uma migalha de carinho, como um vira-lata. Eu te ofereci ser alguém, você não quis. Agora esse é seu destino.
Eu o olhei perplexa. Senti lágrimas nos meus olhos, a garganta queimando. Não. Eu não vou chorar. Não com ele aqui.
—Vá embora. -Murmurei, com raiva.
—Rey, eu não sei porque eu disse isso. -Ele se aproximou. -Você não é ninguém, você... -Ele tentou pegar a minha mão.
—EU MANDEI IR EMBORA! VÁ EMBORA! -Ele se afastou, assustado com a minha raiva. -E nunca mais volte, Kylo Ren.
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