The real magic

3 Capítulo I - Schnee


Notas iniciais
Bem, esse é o primeiro capitulo da história e se segue pós cinco anos do prologo.

15, janeiro de 2085 – Cinco anos após o incidente em Copacabana.

Desde que o novo período de glaciação começou, o mundo viu que a dinâmica atmosférica havia mudado e junto com ela o clima, principalmente nas regiões em que nunca havia ocorrido um inverno forte o suficiente que fizesse as temperaturas caírem abaixo de zero.

Porém, tudo possui um lado bom ou no caso um lado belo, já que a neve que caia nas regiões sul, sudeste e centro-oeste do país criava paisagens belíssimas como aquela serra pela qual o nosso trem estava passando.

O topo das montanhas daquele planalto estava completamente coberto de neve enquanto sua base apresentava uma vegetação que não era natural dali, ao menos não era antes da glaciação.

Ali havia sido construída uma floresta temperada, claro que não era natural e sim uma das proezas da engenharia ambiental daquela era.

Desde o início do período de Glaciação, o Brasil sofreu com a destruição de vários biomas nativos por causa do rápido resfriamento o que resultou em um processo de desertificação, porém depois de alguns anos, foi instituído uma série de projetos de reflorestamento artificial que visava construir novos biomas que seriam mais propícios aquele novo clima e fazer com que a desertificação retrocedesse. O projeto havia funcionado.

Aquele trem havia desacelerado durante sua passagem por aquela serra que deveria estar localizada em algum lugar do Paraná, afinal, a neve evitava que aquele trem atingisse sua velocidade máxima.

Eu havia sugerido para Nicolas que ele pegasse um trem Maglev, porém ele preferiu um dos modelos antigos que ainda usava trilhos apenas para observar a paisagem passar mais lentamente, mas ele havia caído no sono assim que passamos da divisa entre a Argentina e o Rio Grande do Sul, agora o garoto estava desacordado, como a cabeça apoiada em minhas pernas.

O garoto de cabelos negros estava a dormir serenamente, bem não o culpava por dormir em uma viagem de trem que começou no Sul da antiga república argentina no começo da manhã, mais precisamente as sete horas da manhã. Ele tratava assuntos da sua família com empresas daquela região.

Deveríamos chegar em São Paulo por volta das onze ou doze horas da noite.

Realmente, era uma viagem cansativa para ele, mas ele teria que lidar cada vez mais com esse tipo de coisa já que a família dele é uma das mais ativas na economia e não se limita a região que do Antigo Brasil.

Quando digo “Antigo Brasil” me refiro as antigas fronteiras do pais que foram rapidamente expandidas durante o chamado “Massacre andino” que fora o conflito entre o Brasil e os demais países da América do Sul.

Todos os países da América do Sul uniram forças para invadir o Brasil e também receberam apoio externo para tal, porém, o Brasil a fim de se proteger, iniciou um processo de invasão a todos os países da américa do Sul, o que resultou na aniquilação de noventa por cento da população daqueles países. No fim do massacre, o Brasil clamou para si os territórios dos países derrotados e passou a coloniza-los. A argentina em especial era um dos locais mais lucrativos para a família de Nicolas e por isso ele havia ido até lá a negócios já que ele era um dos representantes da família e quem sabe o futuro líder da Casa Maya.

– Para de se mexer Nate, quero dormir – gemeu ele se contorcendo para achar uma melhor posição para sua soneca. Apenas estendi a mão para acariciar os cabelos do garoto que estremeceu com o toque.

Seus cabelos eram macios e extremamente negros, creio que fazia parte da herança genética que o ramo principal da Casa Maya carregava, porém, para mim essa aparência extremamente negra de seus cabelos era causada pelo contraste entre sua pele branca com seus cabelos negros o que fazia com que ambas as características ganhassem força. A verdade era que a pele dele era tão branca quanto a minha o que fazia com que ele ganhasse algumas pequenas sardas na região do nariz e próximo aos olhos o que para mim era muito bonito.

– Que horas são Nate? – Perguntou ele por entre bocejos. Ele deveria estar perguntando porque daqui a algumas horas chegaríamos a São Paulo e ele teria que confirmar nossa reserva no hotel, porém era tempo suficiente para ele tirar mais um cochilo.

– São dez horas Nico – Respondi ainda acariciando calmamente seus cabelos – Ainda faltam duas horas para chegarmos, você pode dormir mais.

Ele apenas gemeu em resposta e virou o rosto para me encarar.

– Acordado que não vou ficar com você fazendo cafuné – Riu abrindo lentamente seus olhos e bocejando. Seus olhos possuíam uma cor raríssima, era algo que beirava o azul escuro ou seria violeta? Não sabia a cor exata, apenas sabia que era algo lindo.

– Dorme logo! – Disse apertando levemente as bochechas dele o que deixou o local do aperto levemente vermelho. Ele inflou as bochechas antes de rir novamente.

Não se passou nem um minuto completo e ele havia caído no sono novamente, não pude evitar de dar um leve riso, afinal, cafune era seu ponto mais fraco.

Às vezes me pergunto qual o momento exato em que nos aproximamos tanto, afinal, nossa relação nem sempre fora assim. O tempo havia destilado pouco a pouco nossa relação até que chegou em um momento em que poderíamos ser considerados irmãos.

Não pude evitar sorrir mais ainda com esse pensamento.

O trem havia deixado o planalto rapidamente e seguia caminho por um trecho em que a floresta acabava. O trem fez uma leve curva e seguiu paralelo a uma rodovia asfaltada que provavelmente levaria a nossa próxima parada, Curitiba.

O trem desacelerou assim que entrou na fronteira da cidade, pouco a pouco perdendo velocidade até que com um leve solavanco, ele parou em uma estação curitibana.

Pela janela do trem dava para perceber que estava ocorrendo uma forte tempestade de neve que em alguns minutos conseguiu cobrir boa parte dos trilhos do trem, mas acho que isso não seria um problema, afinal todos os trens possuem métodos de lidar com a neve ou com o gelo.

As cabines do vagão lentamente começavam a lotar, essa era a última parada antes de São Paulo e as viagens de trem eram muito cobiçadas principalmente pelo conforto e também pela chance de apreciar as paisagens brasileiras.

Muitos dos passageiros eram magos que estavam a caminho da USP, assim como nós. Amanhã seria um dia de glória para todos os aprovados no curso de magia da universidade de São Paulo, amanhã seria a cerimonia de entrada.

Haviam jovens acompanhados de seus pais que provavelmente estavam orgulhosos da conquista do filho e iriam acompanha-los, também haviam casais assim como pessoas sozinhas.

Gostaria de ter conhecido meus pais... Era um tanto quanto estranho, pois não sentia falta de uma figura paterna ou materna, apenas gostaria de conhece-los.

Decido parar de pensar em coisas mundanas e volto a ler o livro que eu havia começado a ler no início da viagem, já estava quase terminando de lê-lo, faltavam apenas algumas páginas, porém antes que pudesse reiniciar a leitura, ouço o som de batidas na porta de vidro da cabine.

– Com licença – Disse ele abrindo a porta da cabine silenciosamente para não acordar Nicolas. Calmamente ele pós sua mala no compartimento acima da janela.

Os assentos daquele trem eram numerados então já era esperado que em algum trecho da viagem tivéssemos que dividir a cabine com alguém

Assim que pus os olhos nele, a primeira coisa que percebi era que ele usava um bracelete dourado no braço direito que provavelmente era seu braço dominante. O bracelete era um CAS (Casting Assistant System) ou como era conhecido nesse pais: Sistema de auxílio ao mago, porém por questão de estética, a sigla em inglês era mais atraente.

Algo que substituía o uso de qualquer outro médium para a invocação de um evento magico, tais como varinhas, amuletos, selos, totens e afins. Enquanto usando elementos de magia clássica a magia mais simples poderia demorar em torno de dez segundos, tempo que poderia ser elevado para minutos caso a magia fosse mais avançada, com um CAS qualquer magia tinha seu tempo de invocação encurtado até algo que oscilava entre meio e dois segundos.

Embora existam poucos magos que não usem qualquer tipo de CAS, qualquer mago que busque velocidade e estabilidade que um sistema daqueles poderia trazer tratava de usá-lo. Isso o popularizou entre os técnicos em magia do mundo todo.

Porém não é porque ele era algo “popularizado” que qualquer um que possuísse um CAS poderia utiliza-lo para produzir magia, a realidade era que um CAS era apenas uma ferramenta e o verdadeiro potencial de invocação provinha do próprio mago, afinal, aquele dispositivo apenas ofertava os códigos de ativação.

Além do fato que aquilo era um dispositivo militar e apenas pessoas autorizadas poderiam portar um deles, assim como armas de fogo, havia uma rígida regulamentação de qualquer dispositivo relacionado a magia. O que significava que aquele homem já deveria estar estudando magia.

Novamente olhei para ele, ele usava um sobretudo branco com a parte inferior pintada em vários tons de verde. Aquele era o símbolo dos estudantes do curso de magia, porém seu “uniforme” não era o usual, ele possuía o tradicional símbolo das cinco estrelas do cruzeiro do Sul em seu peito o que significava que ele era um aluno efetivo ou da primeira classe que era como os chamavam.

O ensino de magia é um privilégio que naturalmente te torna um indivíduo pertencente a alta sociedade, porém o processo de aprendizado de magia é complicado, afinal, apenas uma parte dos aprovados possui o real talento para a magia e essa parcela são efetivados como alunos permanentes da universidade, ou seja, não podem ser expulsos por quase nenhum motivo e para simbolizar isso eles possuem essa insígnia bordada em seu peito.

Além do mais ele carregava uma braçadeira em seu braço direito, verde e amarelo. Isso significava que ele fazia parte do conselho estudantil, logo ele era um mago talentoso.

Parecia não haver nenhum tipo de desconforto da parte dele em estar com a presença de estranhos. Entretanto eu não me via envolvido em uma conversa com alguém que parecia ser um membro importante do conselho estudantil, afinal, qualquer coisa que eu falasse poderia me afetar ou afetar o Nicolas.

Tinha quase total certeza que seria ofertado ao Nicolas uma vaga no conselho estudantil visto que ele teve a maior nota nos testes práticos nesse ano. Por esse motivo decidi voltar a leitura e permanecer em silencio.

– Impressionante, é um livro do tipo físico? – Perguntou ele com certo tom de surpresa. Parecia que ele não via a situação da mesma maneira que eu.

Parecia que não seria possível evitar a socialização, fechei o livro e ergui a cabeça para olha-lo nos olhos. Para minha surpresa, ele era tão alto quanto eu o que fazia com que o simples ato de levantar a cabeça já me fizesse encara-lo, seus olhos se encontraram com os meus e pude perceber que os olhos dele tinham uma coloração acinzentada o que era uma característica única naquele pais.

Outra característica que era marcante nele eram seus cabelos que possuíam um tom loiro claro que mais parecia branco sob a luz.

– Desculpe-me pela falta de educação, sou o Presidente do conselho estudantil, Weiss Schnee. Prazer em conhece-lo – Desculpou-se o garoto atrevendo-se a dar uma pequena piscadela com o olho direito.

Não havia dúvida de que ele ocupava o carco de presidente do conselho, sua aura era de um líder, carismático e amigável. Sua voz não possuía qualquer sinal de hesitação.

Mas ainda assim, não pude evitar franzir as sobrancelhas ao ouvir aquele sobrenome. Ele era um Schnee.

As qualidades de um mago são muito influenciadas por sua carga genica e nesse pais, as famílias que possuem uma linhagem superior possuem sobrenomes característicos.

E de todas as dez grandes Casas que possuem linhagens com várias características hereditárias, a Schnee é uma das mais poderosas nesse momento. Aquele garoto que se dizia Presidente do conselho estudantil deveria fazer parte da linhagem principal daquela casa, em outras palavras ele pertencia à elite da elite.

– Me chamo Nathan, Nathan Maya – Respondi educadamente retribuindo o sorriso.

– Maya... Então vocês são os irmãos Maya – Assentiu o Presidente do conselho estudantil. Seus olhos naturalmente se arregalaram em surpresa.

Bem, não somos realmente irmãos, havíamos sido matriculados como tal apenas para facilitar minha função de Guardião, afinal se não fosse feito tal era provável que nossos dormitórios fossem separados o que seria um problema.

Novamente permaneci em silencio.

– Vocês são um dos assuntos mais comentados entre o conselho – Disse ele com um sorriso com um sorriso brincalhão.

A causa dos comentários deveria ter sido causada pela nítida diferença entre nós, não era comum ter irmão com habilidades tão antagônicas como Nicolas e eu, afinal eu era o aluno com a maior nota no teste analítico-discursivo enquanto Nicolas havia tido a maior pontuação possível nos testes práticos.

Entretanto, não via nenhum sinal de sarcasmo ou ironia em seus comentários. Ele não tinha a intenção de ofender ou depreciar, tinha sido apenas um comentário inocente.

– O processo seletivo para a entrada no curso de magia é totalmente independente e é provavelmente o mais difícil do pais, afinal ele conta com duzentas questões sobre todos os sete assuntos mais recorrentes da magia. Há alunos que conseguem o incrível feito de fechar totalmente um ou dois desses assuntos completamente, há casos de alunos que já conseguiram fechar cinco dos assuntos. – Ele havia apoiado seu queixo em sua mão a fim de me encarar – Entretanto ouve apenas um único caso em toda a história do campus em que um aluno conseguiu acertar todas as duzentas questões, fechando todos os sete assuntos do teste e essa conquista pertence a alguém chamado Nathan Maya.

– É apenas o resultado de um teste analítico-discursivo, um entre todos os testes do sistema de avaliação – Respondi tentando parecer o mais indiferente possível. Não estava mentindo, a avaliação dos alunos era feita principalmente com base nos exames práticos, ou seja, o teste analítico-discursivo quase não tinha valor.

Sorri amargamente para ele, não era possível que o presidente do conselho estudantil não compreendesse.

No entanto ele apenas balançou a cabeça, negando minhas palavras com aquele sorriso amigável.

– Você está totalmente certo e errado ao mesmo tempo. – Riu ele – é verdade que a academia considera o exame pratico como mais importante, dando a ele um peso gigantesco na avaliação final, mas isso não é motivo para mascarar um grande resultado como o seu, para ter uma ideia, nem mesmo eu seria capaz de reproduzir seu grande resultado, na verdade, de todos alunos que já passaram por aquele campus, nenhum seria capaz disso entende?

Não havia qualquer resposta possível para contradize-lo, afinal, aquilo era apenas a mais pura verdade.

– Acho que chegou minha hora – Disse o Presidente se levantando e se aproximando – Eu menti sobre essa ser a minha cabine, na verdade eu estou no outro vagão, foi um prazer conhece-lo Nathan. Espero que estudemos juntos

Dito isso, ele pegou sua mala e saiu, calmamente cantarolando.

Em algum lugar, bem fundo em meu ser, eu sabia que as palavras daquele garoto sorridente haviam feito eu entrar em pânico.

Minha cabeça estava totalmente branca, talvez fosse hora de refletir sobre algumas coisas.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.