The (my) Bodyguard
5 #5. Quero ser seu Amigo.
Notas iniciais
Quatro
Acordei exausto e com o pescoço latejando. Abri os olhos devagar e encarei o teto branco acima de mim franzindo a testa. Meu quarto — aliás, o teto do quartel inteiro — era cinza e não branco... Demorei uns bons cinco minutos para me lembrar de que estava na casa de Andrew. No tapete da sala de estar, para ser mais especifico.
Me espreguicei bocejando de sono e me virei para dar de cara com uma Tris esparramada no sofá. As lembranças da noite passada invadiram meus pensamentos na mesma hora: Tris berrando no meio da sala, Tris no escuro tocando em meu peito, Tris dizendo para eu ir vestir uma roupa á cada cinco minutos e Tris me chutando no meio das pernas. Eu confesso que na hora eu até pensei na possibilidade dela fazer, mas não achei que ela fosse capaz. Contudo, agora sabia que Beatrice Prior era completamente louca.
Encarei seu rosto por mais um tempo. Quem via essa garota dormindo agora, diria que ela é a pessoa mais inocente e angelical deste mundo. Quem não conhece acredita...
Ainda me lembrava da primeira vez que vi Tris. Ela tinha oito anos e seu pai a levara no escritório, eles nem sequer sabiam que eu existia. Me lembrava do jeito que sua trança estava amarrada, de seu vestido de bolinhas e de seu sorriso banguelo quando Andrew lhe disse algo. Eu tinha certeza de que aquele sorriso poderia curar qualquer coisa. E agora dez anos se passaram e eu estava aqui com ela novamente, a garota na qual depois daquele dia, há dez anos atrás quando eu tinha onze anos, eu passei a sonhar todas as noites.
Tris. Eu sempre adorei pronunciar esse nome. Sempre adorei a forma de como o som sai de minha boca ao dizer Tris. Agora o meu? Eu sempre odiei meu apelido e sempre odiei Erik, a pessoa na qual me deu ele. Por causa dele não consigo deixar o passado que tanto quero esquecer para trás. Por causa dele todas as vezes que ouço a palavra Quatro eu tenho que me lembrar de que sou um assassino.
– Tobias. — Murmurei. — Meu nome é Tobias, Tris. — Mesmo estando dormindo, eu me senti um pouco mais aliviado dizendo isto.
Me coloquei de pé e fui para o banheiro. Eu não queria pensar mais no passado. Queria pensar somente no presente. Mesmo sendo seu guarda-costas, eu ainda tinha Tris.
Voltei à sala para verificar se Tris ainda estava dormindo. Até pensei em levá-lá para seu quarto, mas já eram dez da manhã. E ela provavelmente iria me esfolar por ter sido levada no colo. Então desisti da ideia e fui para a cozinha fazer o café.
Peguei frigideira, pratos, ovos, bacon e achocolatado. Pelo menos no quartel eu tinha aprendido a cozinhar. Coloquei os ovos e o bacon na frigideira, bem, a intenção era fazer ovos fritos, mas acidentalmente eles viraram mexidos.
Tudo bem, talvez eu não tenha ido tão bem no lance de cozinhar no quartel...
– Ok, isso já está ficando constrangedor. Vá colocar uma roupa agora, Quatro. — A voz sonolenta de Tris surgiu na cozinha. Eu tinha certeza que a primeira coisa que ela diria ao me ver seria sobre minhas roupas. Abri um sorriso, Tris não podia ver já que eu estava de costas.
– Bom dia, Tris.
– Bom dia nada. Eu durmi no sofá! — Ela exclamou entre bocejos. Me virei para colocar os ovos no prato, mas a loira estava praticamente jogada em cima deles no balcão.
– Xô, baixinha. — Empurrei seu braço com o cotovelo. Ela se endireitou e olhou para a frigideira com uma sobrancelha arqueada.
– Ovos mexidos e bacon? — Ele perguntou, cética.
– E achocolatado. — Acrescentei.
– Você — Ela apontou para mim. — é uma caixinha de surpresas.
Eu sorri. Mal ela sabia que o mexido foi uma tentativa fracassada de fazer ovos fritos. Encolhi os ombros modestamente.
– Sou um homem prendado. — Expliquei. Tris riu em deboche.
Coloquei os ovos no prato, me sentei na bancada e comemos em silêncio. Se eu nunca fui muito bom em puxar assuntos com homens, imagine com Tris?! Vai saber se ela é mau-humorada de manhã. Assim como é de tarde, de noite, de madrugada...
– Então, Tris. — Arrisquei. — Você por acaso sabe como eu fui parar no tapete hoje de manhã?
– Eu? Não. — Ela negou, de boca cheia.
– Ah, estranho...
– Muito. — Ela assentiu e voltamos a comer. Aquele silêncio constangedor pairando no ar. Ela terminou de comer e pulou de seu banquinho.
– O que foi? — Perguntei.
– Droga, eu tinha marcado de ir na casa de Chris hoje! — Ela bateu suas mãos na testa.
– Quem raios é Chris? — Interroguei, pegando nossos pratos e colocando na pia. Tris olhou para mim por um tempo antes de responder.
– Minha melhor amiga. Tenho que estar lá ás 13:00, então faça seu papel de guarda-costas e vá tomar um banho para ir comigo. — Ela respondeu, correndo para as escadas. — Não precisa lavar os pratos, temos empregada para isto!
Larguei os pratos e fui para meu quarto. Estava surpreso por Tris não ter feito seu melodrama sobre eu ter que acompanha-la até a casa de sua amiga. Subi as escadas e parei na porta de meu quarto que era ao lado do de Tris. Ok, eu tinha sido um canalha por ter dito a ela que Andrew tinha me dado o quarto bege. Uma vez Andrew tinha me dito que o quarto bege, como ele sempre chamara, era o melhor quarto de hóspedes da casa e era ao lado do de sua filha, tinha certeza de que ele não iria se importar.
Andrew sempre foi como um pai para mim, acho que se não fosse ele eu ainda seria aquele garoto sem família e sem teto. Eu devia minha vida à ele, por isso estou aqui hoje, cuidando de sua filha rebelde. Sua filha rebelde na qual eu gosto em segredo.
Mas se eu vejo Tris como uma irmã? Deus, eu iria ser um irmão muito estranho, já que tenho fantasias com ela desde os onze anos e quase tive um infarto quando vi a garota ontem de pijama.
Tobias, você é um pervertido.
Ri de mim mesmo e entrei em meu quarto. Tomei banho, vesti uma camiseta preta, jeans — para a felicidade de Tris — e desci para esperar a baixinha na sala.
– Quatro! — Ela gritou, pulando os degraus. — Você é meu primo, ok? Nada com esse lance de guarda-costas com meus amigos, apenas Chris sabe que tenho uma babá.
– Primo? — Pior do que ser o guarda-costas de Tris seria ser parente dela. Eu não iria suportar isto de jeito nenhum. — É... Não. — Concluí.
– Não?! — Ela repetiu, chocada. Respirei fundo e manti minha cara neutra para Tris, que estava de jeans, regata preta e saltos. Ela estava linda, mas não consegui segurar a risada quando olhei para seus pés.
– O que? — Tris arqueou uma sobrancelha.
– Você só está usando esses sapatos pois eu te chamei de baixinha, né?
– Ein? Eu sempre usei saltos e não tem nada a ver com esse lance de baixinha, eu gosto deles. — Ela mentiu. Eu sabia que ela estava mentindo pois ela não olhou para mim quando explicou. Tris é ousada, sempre olha alguém nos olhos, em desafio.
– Ok. — Deixei passar. — Mas eu não sou seu primo.
– Droga, Quatro, você vai ser o que então? — Ela questionou, impaciente.
– Que tal seu amigo? — Sugeri. Ela olhou para mim pensando na possibilidade.
– Meu vizinho, amigo do meu irmão. — Ela sugeriu, por fim.
– Fechado. — Concordei, pensando em Caleb e em quanto tempo não o via.
– Agora vamos. — Tris me chamou e eu a segui para a porta de casa, mas quase cai em cima dela quando ela parou de repente, sugando o ar que vinha de fora.
– O que é agora?
– Ah, como eu amo o vento! — Ela suspirou para si mesma, me ignorando e finalmente saindo da porta. Tris correu em direção ao carro e eu fiquei realmente impressionado, ela estava com saltos terrivelmente altos.
– Passa as chaves. — Pedi. Tris olhou para mim com o mesmo olhar que me dera no escritório.
Bufei, sabendo o que ela quis dizer.
– Você pode, por favor, me passar as chaves? — Tentei de novo, revirando os olhos.
– Muito bom, Quatro. Se superou. — Tris zombou, colocando as chaves na minha mão. Foi minha vez de olhar para ela severo. Eu já tinha lhe dito diversas vezes para não me chamar de Quatro. — Muito bom, amigo. Se superou. — Ela praticamente cuspiu as palavras.
– Bom. — Assenti.
– Que se foda. — Tris deu a volta no carro, entrou e bateu a porta com força. O que raios eu tinha feito agora? Entrei no carro e o liguei em silêncio.
– Por que eu não posso saber seu verdadeiro nome?! Você é o que? Um espião? — Tris gritou furiosa.
– Não, Tris. Eu não sou a porra de um espião. — Respirei fundo.
– Cacete, Quatro! Você não confia em mim? Olha, você é legal e eu não esperava de jeito nenhum por isso. Eu não quero essa coisa de guarda-costas e protegida, eu realmente quero ser sua amiga, mas como raios você quer que eu faça isso sendo que nem seu verdadeiro nome eu sei!
– Ok. Você vai descobrir de qualquer jeito mesmo. — Bati no volante com força. — Meu nome é Tobias, caralho. Tobias.
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