Notas iniciais
Olá caros leitores,

É uma pequena oneshot que criei no meu momento atormentado da fantástica vida de Étoile, Espero que gostem. Não informei muita coisa nem dei a devida importância aos personagens, preferi dar enfase ao tema em si.

Boa leitura.

"Quando era jovem, eu vivia deprimido. Mas, agora, o suicídio não era mais uma saída pra mim. É o que parecia. Na minha idade, já não sobrava muito que matar."

Charles Bukowski

Não me recordo precisamente em que passagem de tempo eu me encontrara. Mas sentia o peso de excruciantes longos anos. O ataúde molestava minhas entranhas, o ar era rarefeito, asfixiante, sentia-me numa altitude de 3 km, numa pressão de 700 g por metro cúbico, causando o estorvo o qual me encontrara. Não distinguira quando alvorecia ou anoitecera. Era sempre enegrecido e incessantemente minhas cavidades respiratórias detectavam matérias fétidas, lembrando-me a fuligem. O Féretro era estreito, causando-me claustrofobia. O manto o qual revestia aquela velha urna emadeirada, estava desgastado com inúmeros vermes que além de alimentarem-se do manto, nutriam-se do meu corpo jazido.

Uivos desesperados, enfurecidos e de sofrimentos que martirizavam a audição eram ouvidos no exterior do meu esquife. Perdi as contas das vezes em que acordava assustada. Vez ou outra, uma pessoa vinha depositar flores em meu túmulo. Deveras queria compensar aquele singelo gesto caridoso. Aquelas flores amenizavam o odor dos ossos daquele lugar. Confortava-me com seu aroma adocicado, o que era deveras um bálsamo para mim. Sonhei várias vezes em encontrar esta pessoa e agradecer por sua ternura para comigo. Sabia que não era alguém conhecido de minha antiga vida terrena, pois jazi sem ter amigos ou familiares. Foi uma das contribuições para o meu padecimento. A míngua fraternal e familiar atribuíram o anelo para a autoquíria.

Presa naquele ataúde onde tornara a minha nova morada perguntava-me:

- Quem será a minha salvadora que ameniza os meus dias mirrados?

Eu estava presa ali, Mas tinha a intuição que em determinado momento eu sairia dali. Era uma questão de tempo. Não sei quanto tempo se passou, Mas notara que a minha salvadora não comparecera ao meu túmulo como fazia diariamente. Sentia-me angustiada, ansiava por sua visita e almejava ouvir um pouco da doce melancolia de sua voz. Idealizava uma jovem nos seus estonteantes 19 anos, período o qual cometi autocídio. Quando ouvi uma voz aveludada despertando-me dos meus devaneios, chamando-me:

- Por quanto tempo você pretende permanecer aí? Seu corpo já apodreceu garota! Conserva-se nesse buraco não irá te transportar para o mundo dos vivos. Venha, saia daí querida.

De repente uma força desconhecida impeliu meu corpo da minha “morada” e demorou um tempo para que eu recobrasse meus sentidos. Eu havia saído daquele lugar? Minhas cavidades oculares demoraram se amoldar naquela luminescência do ambiente. Senti uma mão tocar meu ombro e eu me virei em sua direção. Era uma mulher loira e risonha, jovem que andaria pelos 25 anos de idade, sua fisionomia embaraçava-me. Olhei para meu corpo decrépito e envergonhar-me-ei por esta diante de considerável presença tão alegre e radiante.

- Perdoe-me, te assustei? Não tenha medo. Eu sou a encarregada das almas deste lugar. – Ao menos foi à responsabilidade o qual me deixaram – Eu sou Elena Volkov. Americana nata, mas de origem russa. O velho espírito americano nunca saiu de mim. Nem mesmo após a morte. Esteve sempre dentro do meu coração, Jamais pude esquecer-me dos meus aventurosos dias nesta terra tão abençoada. Mas os fados me arrastaram para Rússia, berço natal de minha amada mãe, Yulia Sergeevna Volkov... Bem, é com tamanha satisfação que a convido a conhecer a vizinhança.

Elena possuía um sotaque russo forte que era ressaltado no início e final de cada palavra, soava às vezes confuso, Mas ela estava disposta a esclarecer minhas dúvidas. Andamos por aquele imenso cemitério de solo úmido, pastoso com um ar pesadíssimo com espíritos ergastulados. Olhei para o céu e os gloriosos raios solares – dádiva celeste concedida por Hélio, deus do sol na mitologia grega – Iluminava aquela necrópole.

- Por obsequio, Onde posso me lavar? Minhas vestes estão sujas com esses vermes horrendos, Preciso me limpar. – Falei como suplicio para a gentil Elena que simplesmente sorrio ao ouvir o tormento que dissera. Caminhamos para fora do cemitério a passos curtos.

- Querida não há vermes em suas vestes. – Não é a primeira que afirma ver vermes pelo corpo. – Na rua as pessoas passavam por dentro de mim, eu não existia! Entrei em desespero por um momento e fui consolada pela jovial Elena. – Por aqui Bridge, este hotel proporcionara seu deleito.

Entramos em um hotel grandioso no centro daquela povoação de arquitetura vitoriana do século XIX. O local era reconfortante e amistoso, com pessoas instruídas, bem trajadas e educadas. Retrai-me com tamanha sofisticação.

- Elena, eu não possuo dinheiro para insinuar-me em tamanha magnitude ambiental.

- Bridge, minha querida estais morta. Não é necessário montante para seres como nós de puro éter. Vai e limpa-te de tais vermes o quais relata.

Dirigi-me a recepção e articular-me-ei com a atendente que recebera a todos ali com um sorriso esboçado. Jovial e bem atraente aquela beldade caminhara na casa dos 30 anos de idade. Com madeixas enegrecidas do mais puro ônix que contrastava com a lividez da derme suave. Ela não olhara para mim um instante sequer. Estava morta! E a realidade de uma aparição é lancinante.

- Não adianta falar com ela, não pode vê-la. Estamos desencarnados Bridge e o que seres como nós devem entender é que eles não podem nos ouvir ou ver. Estamos em outro nível. Venha, vou leva-la para outro cômodo.

Caminhamos por largos corredores de longos carpetes felpudos encarnados, até a entrada da suíte imperium. Um quarto aconchegante com uma cama king size preparada dos mais alabastrinos lençóis. O assoalho cintilado refletia o revérbero dos móveis. A iluminação dos lustres clareava todo o entorno, possibilitando uma atmosfera pacifica. Dirigi-me para o toalete adentrando o arrabalde sofisticado. Um lugar de estrutura retangular que possuíra um ofurô nas proximidades da janela. Eu precisava me limpar daqueles vermes, sentei-me na banheira e aquele banho fora como um bálsamo para o meu corpo fadigado. No fundo eu sabia que meu novo corpo não necessitava de ações terrenas.

- Os vermes o quais falas-te, saíram?

- Absolutamente.

- Cara Bridge Sinto que queres indagar algo. E tenho a impressão que seja a respeito da donzela que durante tempos comparecera a teu tumulo, correto?

- Certamente. Anseio saber notícias da jovem. Por qual circunstância não vira me visitar.

- Minha amiga, a beldade a qual desejas ver mora do outro lado daquela ruela, vai visitar a jovem dama.

Fiz o que Elena dissera e caminhei pelas calçadas, vaguei por muito tempo. Algumas pessoas conseguiam me ver e outras não. Percebi que algumas delas eram espíritos desencarnados como eu. Era um grande número de almas entre os seres encarnados, fiquei deveras assombrada com tamanha revelação. Quando me aproximei de uma casa de estilo inglês rústico meu corpo foi transportado para outro aposento. Onde se encontrava a linda jovem fitando a janela.

“- Os espinhos das flores de laranjeira doem... Verdes, verdes... Espinhos pontudos...”

Uma afável melodia atenuadora cantada pela jovial beldade de madeixas de tonalidades rubras e pele pálida. Semblante melancólico debaixo de um olhar topázio entristecido. Ansiava ouvir mais daquela serena sonância.

- Quero partir desta orbe enegrecida e melancólica. Minha mente fornece diversificadas sugestões para o autocídio, saciando minha angustia. Mas são tantas opções que não consigo me decidir.

“- O suicídio é uma teia envolvente em que a vítima – o suicida — só se debate para cada vez mais confundir-se.”

- Quem disse isso?

- Você consegue me ver? – Tartamudeava em espanto e dúvidas.

- Certamente. Você é real?

- Receio que sim, Mas já não vivo entre os seus. Você é a jovem a qual fazia aqueles singelos gestos de carinho ao por flores em minha lápide correto?

- Você é a Bridge Spencer? A garota que autodestruiu aos 19 anos? É você? Sempre me perguntei como era a sua fisionomia. Deveras é pálida como assim pensei, seu cabelo longo e sedoso como veludo, mais esbranquiçados que sua própria derme em si. Olhos deprimidos e fundos, seu pulso ainda possui a marca a qual esvaiu a vida. Queria entender se você passou pelo mesmo que eu.

- Minha covardia induziu-me ao suicídio, forçando-me a retroceder. Seres inferiores alimentavam minha mente com tais sugestões. Eu esperava livrar-me de sofrimentos e problemas considerados insolúveis. Eu idealizei a minha remição glorificando-me a fronte. Porém, Enganei-me, batalhas acirradas esperavam-me mais adiante e mais ríspidas esperavam-me adentro do ataúde. Até que o alvorecer surgiu quando você diariamente me visitara. Senti um abrandamento em meu peito. Suas flores e doces palavras amenizaram o meu martírio o qual carregara por longos anos. E aqui estou para agradecer-lhe por todos estes gestos. Não seja covarde doce jovem “Uma mente saudável deveria ser uma usina de sonhos, pois os sonhos oxigenam a inteligência e irrigam a vida de prazer e sentido” não faça o que eu acabei fazendo. Não chegou a hora do seu fio vital ser cortado pelas três Moiras.

A ruiva a minha frente largou o pequeno objeto metálico o qual segurava levemente, deixando-o cair no assoalho.

- Você esta certa. Mas é preciso repensar em tudo o que acabara de me dizer.

A partir de então comecei a conviver com aquela garota que salvou o meu espírito da putrefação que passara meu corpo. Diligenciando-me a suprir a força que ela me forneceu e mostrando-lhe que o autoextermínio nunca era uma chave e sim um verdadeiro niilismo.

"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos."

Charles Chaplin

Notas finais
Gostaram? Ficarei eternamente grata e feliz se comentarem ou criticarem... Responderei brevemente.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!