The last Moonlight Sonata for Elise
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O som de seu piano ainda ecoa claramente em meu cérebro.
Inspiro lentamente e sinto meus pulmões queimarem. Ao recostar minhas costas na velha cadeira de balanço, ela range. Assusto-me com o som brusco e agudo que foi exprimido.
Isso formou uma nota musical.
Não há mais escapatória, tudo que acontece me faz recordar dela. Meu peito dói.Já não sei mais diferenciar a dor física de dor psicológica. Neste exato momento, eu reparo que essa casa nunca foi tão vazia. Era ela, com seu sorriso, com suas lágrimas, com suas notas musicais que preenchia essa casa. Era ela, que preenchia o imensurável vazio dentro de mim.
Esforço-me para levantar de meu assento e chegar até as escadas exuberantes com corrimões de marfim, que costumavam ser impecavelmente polidos, mas agora, estão abandonados e empoeirados.
Começo a tossir freneticamente, e sinto como se milhões de agulhas perfurassem minha garganta. Cubro minha boca para tossir, embora não haja ninguém por perto, é um hábito e questão de educação. Após as tosses relativamente cessarem, removo minha mão da boca e vejo que há sangue nela. Limpo a mão em minha camiseta e continuo a descer vagarosamente pelos degraus, meus pés e mãos tremem. Não sei mais o que sinto. Medo, angústia, saudade, dor... Simplesmente não sei.
A primeira coisa que vejo ao chegar à sala é a Lua. Ela está cheia, e podem-se notar múltiplas estrelas no céu. Tão peculiarmente luminosas e encantadoras. Sinto que não vi um luar tão belo assim há anos. Mas, pensando claramente, eu deixei de reparar no céu desde quando ela partiu.
A luz da Lua reflete exatamente onde o piano está posicionado. É quase como se a Lua estivesse me convidando para tocar. Sento-me no banco abaixo do piano e observo minhas mãos. Por conta da idade e por minha falta de cuidados, elas não são mais as mesmas.
Eu ainda sinto receio em tocar naquele piano, pois é tudo o que me restou dela. Neste recinto, eu quase consigo sentir sua presença. E o seu cheiro de rosas recém-desabrochadas ainda está impregnado em minha memória. Pego uma garrafa de vinho aleatória dentro das múltiplas opções espalhadas pela casa, e tomo um gole. O que antes costumava ser deleitável, agora me dá enjoo.
Eu tento beber para esquecer, mas não consigo. Nem mesmo o álcool é capaz de me conciliar.
— Elise... Por que me deixastes só neste mundo cruel e amedrontador? Tu eras as cores do meu firmamento. Achas que tem direito de simplesmente partir para o outro lado?
Todos esses pensamentos repetem-se integralmente em minha cabeça, de maneira infatigável. Começo a questionar minha própria sanidade.
Eu continuo ingerindo uma quantidade absurda de álcool, e ainda, a dor não vai embora. Neste caso, preciso sentir outra dor para esquecer esta que assola meu peito.
Cambaleio até uma cristaleira próxima do piano, além de taças e pratos, eu passei a guardar facas e bebidas ali. Elise com certeza iria implicar comigo, se a mesma ainda estivesse aqui. Apanho o primeiro canivete que encontro e brutalmente faço mutilações profundas em toda a extensão de minhas duas mãos. Jogo o canivete no chão.
Estico minhas mãos para que o sangue escorra, e que eu possa escutar o som do impacto das gotas de sangue contra o chão. E como esperado, elas criaram uma melodia sublime, que me fez sorrir.
Ao voltar para o piano, decido compor uma música. A minha última música para Elise.
Encosto na primeira tecla lentamente, com o temor de fazer um som ruim. Mas o oposto ocorre, sinto-me completamente satisfeito com a nota musical. Logo começo a ficar eufórico, e uma música começa a surgir.
A cada vez que toco uma tecla, sujo-a com meu sangue e dou sequência à melodia, eu tenho flashes de memória com Elise. Quanto mais ensanguentado o piano se torna, mais eu recordo de Elise.
O jeito que ela sorria. A graciosidade com qual ela tocava o piano. Seus olhos verdes estonteantes. Como ela ficava irritada quando seus lindos cabelos castanhos caíam sobre seu rosto. Sua expressão enquanto eu a esfaqueava incansavelmente.
Suor escorre por minha testa. Apesar de tenso, não estou mais tremendo. Eu terminei a música. Olho para a Lua, ela parece estar sorrindo pra mim.
— E esta foi minha última sonata sob a luz da Lua dedicada à você, Elise.
Observo o brilho das estrelas oscilarem. O Luar realmente me enfeitiça, porém não tanto quanto Elise fazia.
Por que ela teve que morrer tão rápido?
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