The first snow
16 Luz e sombra
Notas iniciais
— Ichinose-sama, você deveria descansar um pouco, seu rosto está muito pálido.
— Estou bem. Respondo sem tirar os olhos de Lavi, estou a cura-lo a mais de hora e nem sinal de que ele vá acordar.
Ouço a enfermeira suspirar e se afastar, não pretendo parar até que ele mostre algum progresso real, acho que os meses em cativeiro o enfraqueceram demais. Bookman havia acordado após cerca de meia hora, o que só me faz ficar ainda mais preocupada com Lavi.
Olho o relógio, duas horas e quinze minutos se passaram, não vou aguentar por muito mais tempo, meu corpo parece completamente esgotado, respiro fundo me concentrado, isto conta como uma situação de urgência, certo?
Fecho os olhos, 40% já deve fazer efeito, da última vez eu não controlei direito o poder, mas sei que consigo, desta vez estou preparada. Meu corpo se torna leve como uma pluma, uma sensação de serenidade faz com que eu sorria, abro os olhos, a luz que antes estava concentrada em minhas mãos, agora recobre o corpo do ruivo.
— Fuyuki, já chega. Ouço alguém dizer, porém não dou ouvidos, esta sensação é tão maravilhosa, me sinto nas nuvens.
Lavi tosse, volto minha atenção para ele, deveria ter feito isto antes, assim é muito mais rápido.
— Fuyuki! Sinto-me sendo puxada, por que, não quero sair, ainda não quero parar, tento me soltar, mas a pessoa me tira do chão, debato-me.
— Não! Digo quando a pessoa contém meus braços e minhas pernas. — Me solte.
— Desative a inocência! Chacoalho a cabeça, ainda lutando inutilmente para me soltar. — Agora Fuyuki!
Sinto como se algo tivesse se quebrado dentro de mim, desespero-me a procura de ar, de repente parece que uma força esmagadora está me atingindo por todos os lados, quase como se estivessem tentando me espremer para que coubesse em uma caixa e então tudo fica preto.
Abro os olhos lentamente, a luz filtrada pelas folhas da arvore, atingem meu rosto. Pisco algumas vezes e não consigo conter um bocejo, me espreguiço e levanto-me, não me lembro de ter dormido sob uma arvore.
O cenário a minha volta também não é nada familiar, parece um prado, mas o que estou fazendo aqui?
— Ah, vejo que finalmente acordou. A voz vem de trás de mim, viro-me e encontro uma mulher de cabelos loiros e olhos castanhos, tenho a sensação de que já a vi antes, contudo não consigo me lembrar de onde. — Está dormindo em pé?
Nego com a cabeça e ela ri, sorrio, sua risada é agradável, ela se senta sob a sombra da árvore e bate ao seu lado, indicando que me sente, faço-o.
— Aqui é agradável, não? Aquiesço, ela me analisa por alguns instantes e suspira. — Me sinto em um monólogo.
Sinto minhas bochechas esquentarem, não sei por que, mas nos últimos tempos tenho andado muito monossilábica.
— Desculpe. Digo torcendo uma mecha de meu cabelo no dedo. - Onde estamos?
Sinto-me constrangida de lhe perguntar se a conheço, uma vez que ela parece me conhecer bem. Ela ri, virando-se para trás e apontando para baixo, percebo que estamos no topo de uma colina.
— Ali será construída a mansão. Pisco algumas vezes, que mansão? — A mansão Ichinose obviamente.
Será que eu falei alto, jurava que tinha apenas pensado. Espera, será construída a mansão, levanto-me e olho melhor para o terreno, está bem diferente, porém eu reconheceria aquela cachoeira em qualquer lugar, estamos nos terrenos da mansão Ichinose, isso quer dizer que ela ainda não foi construída, mas como?
— Voltamos ao silêncio. Olho para ela, que me sorri brincalhona.
— Hum... Procuro por algo para dizer, honestamente tenho bem poucas ideias. — Você é uma Ichinose?
— Claro que sim. Ela diz rindo, sinto-me idiota, mas ao mesmo tempo me pergunto por que ela fez soar como se fosse algo obvio. — Meus cabelos.
Pisco algumas vezes, ela está lendo minha mente, mas ainda assim não explica nada.
— É a marca registrada dos Ichinose. Olho bem para seus cabelos, de fato são do mesmo tom que os de Lizzy, em compensação, eu e Aki, Natsu e minha mãe temos cabelos castanhos, por quê? — O gene Noah, vocês são muito parecidos ao 14º.
Como ela sabe disso? Quem é essa garota? Onde eu estou? O que está acontecendo?
— Calma! Calma! Uma pergunta de cada vez. Aquiesço, ela estica a mão e levanta um dedo. — Eu sou uma Ichinose, como você bem sabe, porém não pretendo dizer mais que isso, tire suas próprias conclusões.
Isso não respondeu nada, penso e ela ri, balançando a cabeça, a loira levanta outro dedo.
— Sei disso, pois como você bem notou, eu leio mentes. Ela levanta outro dedo. — Estamos no lugar onde futuramente será a mansão principal da família Ichinose e por último, nada demais, apenas quero lhe falar um pouco, gostaria que me ouvisse com muita atenção, uma vez que isso pode mudar completamente o futuro.
Ela abaixa a mão e me sorri, no final ela não explicou muita coisa, porém algo em seu tom faz com que eu não discuta.
— Ótimo, dê-me sua mão. Diz a loira me esticando uma mão enluvada, respiro fundo e aceito-a. - Feche os olhos.
Faço como pedido, sinto uma leve brisa soprar meus cabelos, sua mão é tão quente, é estranho, mas sinto uma afinidade inexplicável por esta mulher, talvez seja por que somos da mesma família.
— Abra-os. Ao fazê-lo sinto meu equilíbrio sendo posto a prova, estamos em um cume estreitíssimo, tudo abaixo de nós está em um estado catastrófico, é quase como se um furacão e uma enchente tivessem se juntado e destruído o local. — Este é o mundo no futuro.
Meus olhos se arregalam, isso não é possível, porque o mundo está neste estado, o que houve?
— Este é o futuro em que a inocência coração é destruída. Sinto-me tonta, não pode ser verdade. — Feche os olhos.
Fecho-os, porém sinto eles se encherem de água, então eu não tenho chances?
— Pode abri-los novamente. Desta vez estamos no topo de uma colina, abaixo de nós um vilarejo é engolido por chamas, sinto dificuldade de respirar. — Este é o mundo no futuro. Neste futuro a matéria negra foi destruída.
Não faz sentido, isso quer dizer que independente do resultado, tudo que nos espera é um apocalipse? Quer dizer que não importa o quanto eu lute, estamos fadados a destruição.
— Feche-os novamente, por favor. Faço como pedido, porém desta vez as lágrimas correm por minha bochecha. — Pode abrir.
Estamos em Londres, perto da estação de trem, pessoas correm para pegar o próximo trem, alguns se despendem, outros chegam, parece uma cena comum, apenas mais um dia tranquilo em Londres, mas que cenário é este?
— Este é também um mundo no futuro. Olho para ela, o que aconteceu nesse futuro? — Ambas, inocência e matéria negra foram destruídas.
Isto quer dizer...
— Feche-os uma última vez. Sinto-me muito confusa, contudo sigo sua instrução, após alguns instantes e mais uma brisa suave. — De volta.
De fato estamos novamente na colina atrás da mansão Ichinose, viro-me para ela.
— Veja Fuyuki. Ela aponta para o chão, olho-o, porém não identifico nada de diferente. — A sombra.
O sol continua a ser filtrado pelas folhas, fazendo sombras no chão, porém o que há de mais nisso?
— Não há sombra sem luz. Levanto os olhos para ela, isso me parece bem claro, contudo, me pergunto o que ela quis dizer. — A sombra é a ausência da luz, a completa ausência da luz gera a escuridão. A sombra se infiltra onde não há luz, ela nunca é convidada, porém uma vez que ache uma brecha, é capaz de se expandir, dominando tudo a sua frente, assim fazendo com que a luz se esvaia.
Minha cabeça tombou para o lado, isso é um tanto filosófico, mas o que tem a ver com o que vimos momentos atrás, no que isso se encaixa com o futuro do mundo.
— Originalmente tudo era luz, porém o ser humano se deixou contaminar pelas sombras. Ela me olha, parecendo verdadeiramente triste. — Ele decaiu tanto ao ponto de macular até mesmo algo sagrado como o primeiro cristal de inocência.
Meus olhos se arregalam, a história que Natsu me contou meses atrás volta a minha mente, ela está falando do Conde.
— Sim, estou falando da atual matéria negra, originalmente ela era também uma inocência. A loira baixa os olhos e por algum motivo sinto-me a beira de lágrimas. — Porém, destruí-la reiniciaria o ciclo, a única maneira efetiva de se acabar com tudo de uma vez é destruindo ambas.
— Você quer dizer… Minha voz treme, estou com medo da resposta.
— Este poder nunca deveria ter caído nas mãos humanas para início de conversa, o poder torna os humanos gananciosos e faz com que se voltem uns contra os outros, então a única maneira de se colocar um fim definitivo a esta guerra de milhões de anos, é evitando que ela volte a acontecer. Ela me sorri de maneira complacente. — E só você pode fazer isso.
Por que eu, isso não faz sentido, eu nem mesma fui testada para sincronizar com a inocência.
— É justamente por isso. Na verdade, você não passaria de qualquer jeito. Pisco algumas vezes, isso foi um elogio, ou uma ofensa? — Mas esta não é a questão. Quando digo que você é a única que pode fazer isso, me refiro ao sangue que corre nas suas veias.
Ichinose?
— Meio Ichinose, meio Noah. Aki e Natsu também tem o mesmo sangue, ela ri e se vira, descendo a colina. — Mesmo na mais completa escuridão, um único feixe de luz torna possível enxergar, e com o tempo, seus olhos se acostumam, fazendo com que você veja muito mais longe, fazendo com que se expanda a claridade. Este é o poder da luz.
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