Notas iniciais
Boa leitura ; *

Isso não me parece muito promissor. Digo olhando para o bordado em minhas mãos, Natsu tentara me ensinar, mas parece que essa não é exatamente a minha área.

Está melhorando. Fala Lenalee olhando por cima de meu ombro, lhe dirijo um sorriso de agradecimento.

Estou cansada de bordar. Suspiro colocando o tecido e a linha na mesa e me levantando. — Podemos fazer algo mais interessante?

Pisco os olhos da maneira mais doce que consigo, sinto que poderia morrer de tédio se passasse mais um segundo bordando.

O que gostaria de fazer, senhorita? Questiona Layla também se levantando do sofá, me pergunto o como as duas não se entediam de passar o dia ao meu lado.

Por que não passeamos pelo jardim, está um belo dia lá fora. Honestamente preciso de ar livre e creio que tanto elas quanto os meninos sintam o mesmo.

Como se não bastasse me arranjar duas damas de companhia, meu irmão ainda obrigou dois de seus escudeiros a me seguir para cima e para baixo, para eles deve ser como uma tortura.

Creio que possamos fazê-lo, contudo você deve vestir algo mais quente, o tempo está extremamente frio. Responde a morena indo a meu guarda roupa, suspiro resignada, não adianta discutir, mesmo que eu não tenha demonstrado nenhum sinal de ainda estar doente, os cuidados continuam exacerbados.

Observo o jardim pela janela, essa paisagem me faz lembrar dos estranhos sonhos que tenho tido, os esqueço logo que acordo, porém eles me garantem madrugadas agitadas e sempre acordo com o coração acelerado e a respiração pesada. As meninas me tiram de meus devaneios me puxando para frente do espelho, depois de me enxerem de roupas e rearrumarem meu cabelo, finalmente aceitam que estamos prontas.

Prontos para um pouco de ar livre? Indago assim que abro a porta, Walker-kun me sorri de modo amável, ao que correspondo.

Seguimos para o jardim em silêncio, apesar de gostar de conversar, não consigo pensar em nada para falar, sempre tenho uma estranha sensação perto das pessoas, com exceção de meu irmão, parece que estou perdida no tempo, o que faz muito sentido, porém é extremamente desconfortável. Foi-me dito que todos temos a mesma faixa etária, ainda assim, meu cérebro não “funciona” como o de uma garota de dezessete anos, nem tenho ideia do que deveria fazer ou falar na metade do tempo, é terrível, sinto-me como se estivesse em um mundo separado do das outras pessoas.

Senhorita Ichinose. Havíamos chego ao primeiro andar da casa e o Walker se aproximara de mim. — Gostaria de comer ao ar livre?

Pisco algumas vezes, ponderando a questão, parece uma boa ideia, nós fizéramos piqueniques em família algumas vezes, obvio que não era um programa muito frequente, uma vez que eu mal era permitida a sair de meu quarto, por sinal, parece que mesmo tendo crescido não mudou muita coisa.

É uma ótima ideia Walker-kun. Respondo sorrindo, ao que ele anui e se afasta, provavelmente para arranjar a comida.

Finalmente chegamos ao lado de fora, infelizmente o vento está enregelante, fazendo assim com que eu me arrepie e encolha-me contra minhas roupas.

Tome. Levanto os olhos para Kanda-san que me estica seu casaco, balanço a cabeça negativamente, enterrando mais o rosto em meu cachecol. — Você vai congelar.

Estou bem. Minto lutando fortemente para não estremecer, o moreno arqueia uma sobrancelha. — Se caminharmos irei me esquentar.

Sem lhe dar chance de contrariar saio andando, sem dúvida o jardim dos Campbell é muito bem cuidado, porém infelizmente não há muitas plantas que resistam ao frio, mesmo tendo acordado há poucos dias, já notei que o inverno deste ano está rigoroso.

Lembro-me claramente que “desmaiei” em dezembro, sei disso por que minhas últimas lembranças envolvem preparações de natal, nosso aniversario havia sido a pouco tempo, mas mal acabávamos de comemora-lo e já começávamos a pensar no natal. Eu adorava festas, eram das poucas épocas em que eu era permitida a fazer outras atividades, obvio que não diminuíam o monitoramento, porém seria muita crueldade impedir uma criança de montar a arvore de natal, ou escolher decorações, presentes, roupas, etc…

Essas, obviamente, eram as únicas épocas na qual me sentia normal, eram os únicos momentos no qual eu era uma criança como qualquer outra. Detesto ser tão mesquinha, mas não consigo deixar de pensar se tudo isso era mesmo necessário, quer dizer, tudo bem que eu estive dormindo pelos últimos dez anos, contudo, será que teria feito muita diferença, se tivessem me deixado sair mais, brincar mais ou até mesmo fazer atividades diferentes dentro de casa?

Senhorita. Volto os olhos para albino, que sorri e levanta uma cesta, sou incapaz de conter um sorriso.

O que conseguiu nos arranjar? Pergunto curiosa.

Sanduíches, bolo de laranja, geleia, torradas e café. Franzo o nariz. — Me perdoe, não sabia que não gostava de café.

Como sabe que não gosto de café? Lhe olho espantada.

Sua expressão! Ele da um sorriso incerto, por algum motivo não parece estar sendo totalmente honesto. — A senhorita deixou bem visível que não gosta, voltarei lá e trocarei por chá…

Não faça isso. Seguro seu braço, impedindo-o. — Nem eu sou tão insensível a ponto de fazê-lo retornar apenas por que não gosto de café. Posso enchê-lo de açúcar, devo ser capaz de bebê-lo assim. O que foi?

Kanda-san havia parado a nosso lado e me olhava de forma muito estranha, não que sua expressão constantemente fechada fosse a coisa mais normal do mundo, porém agora ele parecia, não sei, “decepcionado” ou algo assim, será que falei algo errado?

O moreno simplesmente balança a cabeça e volta a andar, suspiro e o sigo, é exatamente por isso que não gosto de sair de meu quarto, sempre parece que as pessoas esperam algo de mim e suas constantes expressões decepcionadas me cansam.

Encontramos um banco de pedra, sentamo-nos nele e começamos a aproveitar o lanche, mesmo não gostando do sabor amargo do café, agradeço imensamente por seu calor.

Ahm! Viro-me surpresa, Walker-kun havia colocado seu casaco em volta de meus ombros, sorrio segurando-o com as duas mãos. — Não ficará com frio?

Não. Garante o albino, com um sorriso gentil.

Certo então, obrigada!

Exceto por alguns comentários aleatórios sobre o frio, o jardim ou a comida, passamos o lanche em silêncio. Momentos de silêncio são ótimos para se observar as pessoas, Layla sempre parece extremamente desconfortável com o silêncio, porém não se esforça para muda-lo, ela me passa a impressão de que só faz seu trabalho por obrigação e que se pudesse, estaria bem longe de mim. Lenalee muito provavelmente fora escolhida como minha dama de companhia para que eu tivesse um perfeito exemplo de como uma dama deve se portar, ela passa exatamente essa impressão, a dama perfeita. Kanda-san é provavelmente a pessoa mais silenciosa que já conheci até hoje, sua interação com as pessoas é mínima, e as únicas vezes em que o vi falar foi exclusivamente comigo, por mais que nunca seja mais que meia dúzia de palavras. Entre todos, Walker é o meu favorito, ele sempre está sorrindo e me lembra um pouco Aki, sempre atencioso e gentil, o albino muitas vezes parece até mesmo ler minha mente, o que só o torna ainda mais semelhante a meu irmão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.