The curse among us
1 Radioactive
Essa é a minha última flecha.
É a última bendita flecha que pode abolir a minha fome e deste modo garantir a minha própria sobrevivência nesse mundo a qual fui predestinada. Se ela não for certeira, eu morrerei em poucos dias. Posso prever o meu próprio extermínio nos sons disformes que meu estômago canta de vez em quando — não quero que ele se acostume com isso.
Se aquelas coisas não te matam, a fome faz isso por elas.
Me separei de meu pai na última leva de adolescentes sadios que os militares instituíram. Nós estávamos sendo arrastados para morar na quarentena de Los Angeles quando deu tudo errado... fomos atacados pelos infectados nas linhas ferroviárias e foram poucos os que conseguiram fugir daquela carnificina.
Ainda consigo sentir o cheiro de podridão que os infectados costumam exalar.
Onde meu pai pode estar? Ou melhor, na realidade em que vivo, a pergunta mais adequada é "será que meu pai está vivo?". Não aguento mais correr, sentir fome, dormir com um dos olhos bem abertos para o caso de um infectado arrancar as minhas tripas durante a noite... ainda penso que isso pode nunca acabar.
Lily. Até meu nome insiste em me lembrar de que sou uma florzinha covarde.
Olho para o relógio no meu pulso. Ainda não me acostumei com o fato de que a energia de suas pilhas acabaram e que preciso me guiar sozinha entre o dia, a tarde e a noite. Por incrível que pareça, hordas de infectados aparecem mais frequentemente em uma hora específica do dia nesta floresta, o que me faz querer achar pilhas que funcionem. Afinal, nunca fui muito boa com horários.
Devo encontrar uma daquelas cidades dizimadas, com certeza posso achar nelas algo que me seja útil. Nos últimos dias, o único cenário que consegui contemplar são árvores e mais árvores. De quando em quando tenho a sorte de encontrar uma nascente para me banhar e matar a sede. E o pior é que não pareço estar dividindo a floresta com nenhum animal. Tanta fome...
Me arrasto pelas árvores, tão tonta que não me espantaria de sair rolando por estes declives abrasadores. Minha cabeça arde com tanta intensidade que pensar é uma tarefa complicada. É triste saber que minha aljava está bem mais leve que de costume, mas é ainda mais deprimente o meu estômago estar na mesma situação.
Ouço, distante, um galho se partindo. Isso quebra de vez a minha linha de raciocínio — como se eu estivesse, de alguma maneira, raciocinando. Entretanto, me desespero ainda mais quando o som do galho se partido é prosseguido por uma série de estalos. Infectados.
É muito bom eu estar cercada de árvores, porque o único jeito de escapar deles com vida é escalando uma delas. Tudo bem que estou faminta, mas subir árvores sempre foi uma tarefa fácil para mim, ainda mais porque estou usufruindo dessa capacidade em todo o caminho desses últimos cinco anos.
Quando a apocalipse estourou, eu tinha somente onze anos. Minha ingenuidade foi embora, assim como minha mãe. Assisti à sua destruição, impotente dentro do guarda-roupas. Cinco infectados arrancando seus órgãos e eu me forçando a permanecer em silêncio. Mesmo com o cheiro de podridão... o cheiro de sangue...
No momento em que chego no pico da árvore, meu próprio sangue congela. O frio eclode pelas minhas entranhas, mas é bem melhor do que ser morta por aquelas coisas e me tornar um deles logo após. Me permito estreitar os olhos pelas fronteiras da floresta e não me espanto de contemplar um trio de infectados rastejando por entre a mata. Um deles é um corredor: ele parece um ser humano normal, se não guardasse uma expressão doentia e uma pele levemente esverdeada da mais pura podridão. Os dois outros são estaladores: a cabeça deles parece ter explodido de dentro para fora e portanto não podem enxergar, mas a audição é completamente aguçada, o que me obriga a fazer o máximo de silêncio possível.
Anseio até o último segundo que aquele corredor não me aviste, afinal, não demoraria para ele produzir um daqueles berros congelantes que com toda a certeza alarmaria a dupla de estaladores. Bem, os corredores são bem mais fáceis de matar com qualquer arma, desde um cano de construção até um fuzil de assalto, mas são rápidos e fugir deles é complicado. Já os estaladores, a cabeça deles é bem endurecida e socos não funcionam com eles — a não ser que tenha punhos de aço. É necessário contorná-los em um silêncio tão mórbido que até prefiro prender a respiração. É melhor prevenir do que remediar.
Como tenho apenas uma flecha e estratégia de combate não é comigo, sou obrigada a ficar bem aqui até que eles abandonem o perímetro. Uma coisa que pensei é saltar no corredor e matá-lo com o impacto. Provavelmente os estaladores escutariam e eu teria que atirar uma flecha em um deles, mas... o que eu faria com o outro?
Teria que descobrir agora.
Uma parte de mim se divertiu em saltar certeiramente no corredor, mas fico atordoada o suficiente para que os estaladores estejam próximos de mim a ponto de eu conseguir sentir seus hálitos contaminados. Puxo uma flecha da aljava pela pena e a acomodo na corda do arco, dando uma cambalhota para trás. Atiro na cabeça do infectado da direita. Agora preciso pensar rápido.
Analiso o perímetro enquanto me esgueiro para trás o mais veloz que consigo. O infectado se contorce na minha direção, resmungando em seu idioma indetectável. Não tenho muito tempo, não tenho muito tempo. Vamos, Lily, pense! Eu vou morrer... é só questão de segundos...
Não sei, definitivamente, se é sorte ou azar quando tropeço em uma pedra e o estalador se atira em cima de mim. Ele tenta arrancar o meu rosto com os dentes e consigo enxergar uma poça de sangue inundando o interior de sua boca. Eu nunca havia visto um estalador tão de perto... é sem dúvidas a coisa mais feia que eu já pude contemplar. Chuto o joelho do infectado e ele guincha em supressão, mas não estou satisfeita com isso, jamais estaria.
A pedra em que tropecei é perfeita e bastante resistente, por isso a dúvida entre sorte e azar. Sem mais delongas, empunho a superfície grosseira do pedregulho e a açoito no rosto deformado do estalador tantas vezes que meus dedos se entopem do sangue escuro e pegajoso dele. Eu diria que doeu mais em mim do que nele se eu não odiasse aquelas coisas tanto quanto odeio o fato de estar longe de meu pai. Se eu estava com fome antes, agora eu tenho uma fenda no lugar do estômago. Que sensação "agradável"...
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