The Young Wolf
2 O Herdeiro de Winterfell
Notas iniciais
O herdeiro de Winterfell nasceu em Correrrio. Há quem diga que era um Tully dos pés a cabeça. Com seus pequenos cachos ruivos e olhos tão azuis quanto os da mãe, não era difícil deduzir que o primogênito de Eddard Stark tinha muito pouco do pai em si. Não poderiam estar mais enganados. Embora família, dever e honra fossem se tornar preceitos muito importantes para o pequeno Lorde, Robb tinha o Norte em sua alma. Isso, contudo, demoraria alguns anos para se tornar evidente, ainda assim, não há dúvidas de que o rapaz era filho de seu pai e, assim como seu progenitor, a honra fora sua grande ruína. No entanto, acredito que estou me precipitando e podemos deixar as lágrimas para outro momento.
Para a jovem senhora Stark, o filho fora sinônimo de alegria, um verdadeiro presente dos deuses para preencher seus dias vazios e toda espera a qual fora condenada. Talvez Catelyn Tully – agora Stark – já devesse estar acostumada à dolorosa agonia de esperar que os homens de sua vida voltassem de viagens ou batalhas. Ainda assim, algo lhe dizia que sua alma jamais conseguiria se aquietar durante suas longas e silenciosas vigílias. Era estranho esperar pelo marido, e orar fervorosamente por seu retorno, enquanto parte de si ainda estava em luto pela morte do noivo.
Fora prometida a Brandon por tempo suficiente para amá-lo, o rapaz era charmoso, galante e a fizera suspirar por anos, imaginando como seria a vida ao seu lado e os filhos que iriam ter. No entanto, o Rei Louco não se importara com nenhum de seus estúpidos sonhos infantis ao assassinar o rapaz, partindo em pedaços o coração da pequena Cat. Independe de seus sentimentos, no entanto, a aliança entre Tullys e Starks se mantinha e precisava ser selada. Catelyn sabia disso e não fez objeções a se casar com o irmão de seu noivo. Eddard. Um homem que ela mal conhecia e que parecia tão fechado e frio quanto o Norte. Ainda assim, a ruiva cumpriu seu dever, se casando por sua família e honra.
Sequer tivera tempo de conhecer o marido, que partira para a guerra pouco depois de fazerem os votos de matrimônio. Estava casada com um estranho, aguardando seu retorno e sentindo-se confusa sobre como tudo aquilo acontecera e o que viria em seguida. Seu mundo estava em chamas, mas Robb viera apaziguar todos os demônios que se instauraram em seu coração. A descoberta da gravidez lhe dera algo a que se agarrar e, por mais que também lhe condenasse a meses de espera, era maravilhoso sentir aquele pequeno ser humano crescendo dentro de si.
O garoto viera ao mundo a sangue e dor, pequeno, vermelho e perfeito de todas as formas possíveis. O filho fora tudo o que a mulher precisava para seguir em frente, ainda assim, a criança não era suficiente para fazer seu medo desaparecer. Pelo contrário. Rezava todos os dias para que Robb viesse a conhecer o pai. Ned deveria ensiná-lo a ser um homem, a ser um guerreiro, a ser um Lorde. Acima de tudo, Ned deveria ser um pai, o filho merecia conhecer uma figura paterna. Os medos de Catelyn, contudo, iam muito além. Não havia um dia em que ela não se questionava o que aconteceria se o marido perdesse a guerra. Se aquela rebelião falhasse estavam todos condenados, o Rei Louco teria prazer em vê-los queimar. A moça sabia que não seria poupada, mas já não se preocupava consigo mesma, todas suas preocupações e medos envolviam seu bebê.
Foram meses e meses de agonia, até que tudo se resolvesse. A guerra finalmente acabara, haviam saído vencedores – ou tão vencedores quando possível, considerando todas as perdas sofridas – e Ned retornara para Catelyn. Com um bastardo nos braços. A mulher não pode evitar a raiva. Passara meses esperando fielmente por ele, ansiando pelo momento em que o apresentaria a Robb. Ela havia dado ao marido um filho, um herdeiro homem que continuaria seu legado, uma criança linda, saudável e forte. Havia dado a ele tudo o que um Lorde poderia querer, havia lhe esperado pacientemente e orado por seu retorno. E ele lhe retribuíra, trazendo a criança de outra mulher para casa.
Enquanto a ruiva passava noites em claro, cuidando do filho de ambos, o marido se deitava com outra. Aquela imagem a perseguiu por anos. Catelyn poderia perdoar a traição, poderia perdoar um milhão de traições – afinal, homens eram homens e ela queria fazer seu casamento dar certo –, se não fosse forçada a encarar todos os dias o fruto dela. Se não soubesse que fora o filho da outra que Ned conhecera primeiro, carregara primeiro, amara primeiro... Um bastardo qualquer se sobressaindo a seu precioso Robb, o herdeiro legítimo. Isso ela jamais aceitaria.
Ned, por sua vez, guardara seus segredos, abrira mão de sua honra e cumprira a promessa que fizera a irmã em seu leito de morte. Criaria o filho de Lyanna como se fosse dele, o protegeria e amaria, Jon, afinal, era sangue de seu sangue. Robb, no entanto, era o filho que ele queria conhecer desde que recebera a carta informando sobre a gravidez da esposa. Era seu herdeiro, a criança que muitas vezes imaginou que nunca chegaria a conhecer, o fazendo implorar aos deuses parar ter a chance de segurar o garoto nos braços ainda que por uma única vez. Passara noites em claro imaginando como o menino seria, idealizando cada um de seus detalhes, imaginando como seria ser um pai.
Sendo assim, finalmente conhecer o filho lhe causou uma comoção que ele não poderia descrever. De repente, todas as perdas de guerra se tornaram pequenas e tudo o que o homem conseguia ver era o bebê que lhe sorria calorosamente. O menino se parecia com Catelyn, mas Eddard sabia que havia algo de si no pequeno Lorde. Seu herdeiro, que não nascera em Winterfell, mas crescera ali e aprendera a amar cada pedra do castelo, cada pedaço de terra e cada floco de neve que caía no Norte. Que cresceu sabendo que precisava se preparar, porque o inverno estava chegando e que aprendeu, desde muito cedo, que a honra era a maior das virtudes. Porque Robb Stark poderia até parecer com uma truta, mas sua alma sempre fora de lobo.
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