The Woman In Me
4 Capítulo IV
Notas iniciais
– Hoje é o dia da entrevista no Jornal Oficial. — anunciei durante o café da manhã.
Alguns dos selecionados murmuraram, com desgosto. Provavelmente muitos não queriam aparecer em rede nacional e, pior, dar entrevista para toda a população de Illea.
Em duas semanas, eu tinha tido a oportunidade de conhecer quase todos. Não plenamente, mas de uma forma que eu julgava necessária. Essa era uma mudança que eu tinha pedido que meu pai fizesse. Não queria simplesmente conversar com os rapazes por alguns minutos e decidir se deveria ou não mandá-los de volta para casa. A cada dia que passava, eu acabava ficando mais encantada com eles, já que cada um possuía algum talento único.
E isso me deixava ainda mais intrigada com a minha escolha. No dia seguinte, eu teria que mandar seis dos rapazes embora, e isso me dava um aperto no coração. Acho que eu estava ficando muito sentimental.
A única certeza que eu tinha era de que não deixaria Jared ir embora. Ao menos não tão cedo.
Lembrei-me da noite anterior, quando resolvera ir até o jardim tomar um ar antes de dormir e topara com ele sentado em um dos bancos, com uma caneta e um bloco de papel em mãos, escrevendo algo.
– O que está fazendo? — perguntei então, sentando-me ao seu lado.
– Ah, Aghaté... Digo, princesa... Eu... Estou escrevendo... Tentando retomar um pouco do que eu fazia antes de vir para cá... — ele murmurou, e sua face enrubesceu.
– Por favor, me chame de Aghaté... — suspirei. — Já estou cansada de tanta formalidade... Sobre o que está escrevendo?
– Tudo bem, hã... Aghaté... Estou escrevendo sobre esse lugar... Acho que para ter registros quando eu sair daqui...
– Sair daqui? — perguntei, espantada.
– Aghaté, por favor... — ele suspirou. — Existem opções melhores para você nesse palácio do que eu... Não acredito que eu continue aqui até o fim.
Não consegui encará-lo, então desviei meu olhar para os meus pés.
– Jared... — suspirei. — Eu não estou me importando tanto com a classe social ou com os talentos dos selecionados, mas sim pela pessoa que cada um deles é. Não esteja tão convicto de que vai sair logo. Eu realmente gosto de você, Jared... — senti minhas maçãs do rosto esquentarem com a última frase e evitei voltar o olhar para ele novamente.
– Aghaté, você...
– Desculpe, Jared. Voltarei para os meus aposentos. Nos vemos amanhã. — falei, e então corri para o meu quarto.
Eu não sabia o que tinha dado em mim, e talvez me arrependeria de ter falado aquilo tão abertamente logo no início da Seleção, mas no momento eu não me importava.
Deixei de lado os meus devaneios e prestei atenção em cada um dos rapazes que estavam sentados ao redor da mesa.
Após a refeição, me dirigi ao meu quarto, aliás, a entrevista é hoje e tinha certas coisas a resolver. Porém, meus pés me levaram a outro caminho, por mais que eu fosse responsável e gostaria de cuidar dos preparativos para a entrevista o mais rápido possível, minha mente queria um descanso da euforia do dia. Me encontrei na sala de músicas, em frente a um piano de cauda envernizado. Não era igual ao do meu quarto mas era muito útil no momento. Deslizei meus dedos sobre as teclas enquanto deixava a suavidade da música levar meus pensamentos para longe do palácio, para longe de Illéa... um lugar onde não havia Seleção, onde as princesas pudessem sair pelo mundo e conhecer seu futuro marido por acaso. Mas não era assim que funcionava. E meu pai não deixaria isso acontecer nunca. Ah, se eu soubesse como era difícil...
Mika entrou apressadamente na sala, numerando todas as coisas que eu devia fazer para aquela noite, senão eu me atrasaria.
Sorri com seu desespero, e segui-a para meus aposentos, onde a banheira estava preparada, com loções para banho, perfume de flores e pétalas de rosas por cima, é claro.
Três criadas lavaram meu cabelo com muito capricho, enquanto outras duas pintavam minhas unhas de uma cor linda, mas não chamativa, delicada e leve, como uma princesa deve ser.
Megan entrou no toilette com meu vestido pendurado pelo cabide. Era tão lindo que esbocei um enorme sorriso ao ver a renda trabalhada tão bem no carmim do vestido. Era simples na parte superior, no modelo tomara que caia, e de cintura baixa, modelando bem minha cintura. Atrás era quase sem tecido, a maior parte das costas ficariam de fora, não fosse pela parte mais inferior que fazia lindos detalhes em renda. A saia não tão rodada e cheia de babados rendados dava um ar esvoaçante e delicado. Bem, delicado do tipo que me deixava mais velha e madura. Realmente, tinha gostado muito desse vestido.
– Vamos logo, princesa. Seu pai não quer que você se atrase.
Assenti com a cabeça e saí do quarto, indo em direção à sala onde seria gravado o Jornal Oficial, com a coluna ereta e o olhar para o horizonte.
– Aghaté, sente-se. — Clarkson chamou, já sentado em seu trono com um terno azul escuro risca de giz.
Andei até a cadeira grande e enfeitada que estava à minha disposição e sentei-me, esperando Gavril e os selecionados.
Respirei fundo, alisando a renda do vestido, meu peito subindo e descendo um pouco mais rápido que o normal. Fechei os olhos e lembrei que a finalidade daquela entrevista era conhecer melhor os Selecionados, mas por que então eu estava tão nervosa? Estaria eu sentindo o nervosismo deles? Estaria eu com medo? Mas medo de que? De que descobrissem que Jared me lembrava de alguém e que eu estava muito interessada nele? Isso era loucura. Não havia o porquê de eu estar tão nervosa. "Relaxe, Aghaté. É só uma entrevista como tantas outras."
Vi os rapazes passarem pela porta e andarem em direção às suas cadeiras. Jared olhou uma vez para mim e sorriu. Não pude deixar de perceber o quanto o terno azul marinho com caimento perfeito lhe deixava com uma aparência principesca.
– Senhorita Aghaté, gostaria de dizer alguma coisa antes de começarmos as entrevistas? — Gavril perguntou, olhando diretamente em meus olhos azuis. Engoli em seco, mas sorri, para disfarçar o fato de que estava nervosa.
– Bom, eu só gostaria de dizer... Olá, povo de Illéa! Esta noite, nós iremos conhecer melhor os selecionados, e devo lembrar que um destes belos rapazes será o próximo rei desse admirável país! — anunciei, e tentei evitar que o rubor tomasse conta de minhas maçãs do rosto.
– Belas palavras, princesa! — fala Gavril com sua voz entusiasmada — Agora, quem será o primeiro selecionado? — ele ri e chama um nome – Klaus Büttinger.
Klaus se aproximou de Gavril, com um sorriso fascinante no rosto. Seu carisma era realmente cativante.
– Olá, povo de Illéa! — exclamou, virando-se para o público.
– Uau, já começou bem! — exclama Gavril com sua animação fora do normal — Bem, primeira pergunta, Sr. Büttinger: Qual foi o real motivo para você ter decidido se inscrever na Seleção?
– O lindo prêmio que tenho a oportunidade de ganhar. — seu olhar se encontrou com o meu, e ele me lançou um piscar de olhos. Sua fala foi seguida de um riso sarcástico. — Esses olhos da cor do céu de verão me deixam hipnotizado... Se surgiu a oportunidade de vê-los pessoalmente, não pensei duas vezes antes de aproveitar.
– Palavras dignas de um príncipe, Sr. Klaus. — Gavril lançou um olhar de aprovação em minha direção. Como se eu precisasse da aprovação dele...
– Segunda pergunta — continuou Gavril — O que falou para a princesa na primeira vez em que conversaram?
– Bem, a primeira vez em que nos falamos foi nos estábulos, ela estava em sua aula de equitação... — ele abre aquele sorriso ofuscante — E eu, bem, perguntei se... Não me deixe mentir, princesa. — ele olhou rapidamente para mim, e voltou-se para Gavril. — Perguntei se ela tinha perdido alguma coisa. — Gavril riu, assim como os outros selecionados.
– Desafiando a senhorita Aghaté, heim? Ouvi dizer que ela não gosta de ser desafiada. — Gavril sussurrou de uma forma audível, e foi minha vez de soltar uma risada. Ri de uma forma quase imperceptível, mas que os outros puderam notar.
– Obrigado pela colaboração, Klaus. Agora vamos para o próximo selecionado: Bryan Chevalier.
– Me sinto honrado por estar aqui, Gavril. — Bryan sorriu. Seus olhos acinzentados brilharam. — Olá, Illéa!
– Ora, ora, vemos outros modos de príncipe aqui? — Gavril questionou de forma retórica. — Vamos para a primeira pergunta: Como um 5 de nascença, você sente que tem chances?
– Por mais que digam o contrário, não é a minha casta que irá definir quem eu sou. Posso ter nascido e crescido com pouco dinheiro, mas meu caráter foi moldado de tal forma que muitos de castas superiores não conseguiriam superar.
– Boa resposta, rapaz, ótima resposta — Gavril deu ênfase nos elogios — Agora a segunda pergunta: Como se sentiu quando recebeu a notícia de que fora selecionado?
– Talvez eu poderia dizer que tinha quase certeza de que não seria escolhido... Mas eu estava confiante. Quando recebi a notícia, eu estava tocando saltério em meu quarto e minha mãe entrou para avisar. Não foi exatamente um choque, pois eu sabia que isso poderia acontecer, mas foi uma pequena surpresa, já que a probabilidade era baixa. Porém, além de tudo, a felicidade foi imensa, e só tenho a agradecer.
– Muito bem, Sr. Bryan, muito bem! — Gavril fala para as câmeras — E o próximo entrevistado é... — Ele chamou cerca de uma dúzia de selecionados que responderam coisas parecidas para perguntas parecidas.
E então chegou a vez de Jared. Seus olhos buscaram os meus por um instante, até que ele se voltou para Gavril.
– Boa noite a todos! — falou, sorrindo.
– Olá, Jared. Vamos para a primeira pergunta?
– Fique à vontade.
– Por que você se inscreveu para a Seleção?
Ele enrubesceu.
– Quando a vi pela televisão, não pensei duas vezes. Aghaté, além de linda, tem uma personalidade marcante. E, quando cheguei aqui, percebi que não estava errado. — ele suspirou. — Ela é o tipo de mulher com quem eu sempre sonhei.
– Resposta impressionante, Sr. Moore. Próxima pergunta: O que você fará para conquistar o coração da princesa?
– O que eu farei? Farei o possível e o impossível. Para conquistá-la, eu moveria montanhas. Mas, agora, resta apenas a ela decidir se irá me dar uma chance ou não.
Gavril balança a cabeça em concordância enquanto o restante que está assistindo exclama em coro.
– Ótimo, rapaz! — ele se vira para as câmeras — É exatamente isso que esperamos de um rei! Palmas para Jared!
Os outros selecionados foram sendo entrevistados, mas eu não consegui mais prestar atenção. Depois do que Jared tinha dito, minha mente entrou em pane, não conseguia pensar em algo, não conseguia raciocinar o que tinha acontecido. Meu coração batia acelerado, e eu fazia o máximo para controlar a minha respiração para um ritmo normal.
O resto da noite passou por como um flash pra mim, cada palavra, cada comentário após o que ELE disse ficou embaralhado em minha mente. Lembro-me de minhas criadas me arrumando para dormir e me perguntando se estava tudo bem. Lembro-me de olhar ao espelho enquanto Mika desfazia meu penteado. Então, lembro-me de demorar a dormir, e acordar na madrugada fresca, ir até a sacada para tomar um ar.
Olhei para o jardim florido lá embaixo, avistando apenas mais dois exemplares da tulipa vermelha que Jared havia me dado. Voltei para dentro do quarto e abri novamente aquela gaveta onde se encontravam minhas joias. Não, não as joias de ouro, prata e pedras preciosas. As joias mais simples. Apenas uma foto e uma flor, que poderia murchar a qualquer momento. E aquelas mesmas joias confundiam minha cabeça, fazendo com que eu me perguntasse por quem, afinal, ia acabar decidindo.
Tinha muitas opções maravilhosas, e apenas uma fazia com que meu coração batesse acelerado com suas palavras doces. E as palavras eram as coisas que ele mais dominava no mundo.
Suspirei guardando a tulipa de volta na gaveta e deitei para dormir, embora não conseguisse, de jeito nenhum. Me revirei na cama repetidas vezes, e, quando finalmente consegui dormir, foi pensando em suas palavras...
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