The Woman In Me
7 Capítulo VII
Notas iniciais
POV Aghaté
Resolver finanças com certeza não era a minha parte favorita na vida de princesa. Cálculos e mais cálculos... Observar, de longe, a situação das castas, sem nada poder fazer para resolver a vida daqueles que não possuíam sequer um lugar para dormir ou o suficiente para viver de forma digna.
– 592... — murmurei, enquanto fazia uma contagem da população em um relatório. Não que eu fosse ruim em matemática, muito pelo contrário. Mas não era nada divertido fazer isso sozinha.
– Falando sozinha, senhorita?
Me virei e deparei com um dos selecionados que eu ainda não tinha reparado muito. Um daqueles que eu precisava me aproximar mais pra não ficar focada em dois ou três. E Jared, claro.
Ele era alto. Não do tipo alto-jogador-de-basquete, mas um pouco maior que eu. Lembro-me de ver seus cabelos pretos e encaracolados na mesa das refeições, e tendo aulas com Gwydion. Mas não lembrava seu nome.
– Serkan... Jones. Casta 3. — Li seu crachá em voz alta. Ele assentiu e sorriu. Seus dentes da frente eram levemente inclinados pra frente formando um "v" e ele possuía uma pinta no canto esquerdo do queixo. Devo ter ficado reparando demais sem disfarçar, pois ele tossiu e repetiu a pergunta:
– Então a senhorita fala sozinha? — ele riu chacoalhando os ombros e exibindo os dentes.
– Bem, quando estou distraída e penso estar sozinha... — encolho os ombros demonstrando falso descaso.
– Oh, desculpe-me por isso. Ouvi a senhorita murmurando números. Há algo em que eu possa ajudar?
– Sabe, pode me chamar de "você". Ou Aghaté. — Sorri de canto — Então, Serkan, está interessado nos negócios do palácio, hum? — carrego a frase de ironia. Ele percebe o que eu quis dizer e assume um tom avermelhado quase roxo de vergonha.
– N-não foi isso o que eu quis dizer... Eu fui sincero com minhas intenções de ajudar. Meus pais são professores de matemática.
– Oh. — Foi minha vez de ficar vermelha. Eu praticamente tinha jogado na cara dele que ele estava interessado na coroa e não na Seleção... ótimo. Não sabia onde enfiar a cara. — Bem... Sim. Aceito sua ajuda — Era o mínimo que eu podia fazer pra consertar minha boca grande.
Ele tirou um par de óculos do bolso e colocou no rosto, chegou mais perto, ao meu lado e pediu os papéis. Depois de uma breve olhada, ele foi me dizendo os resultados de cada um, e onde eu deveria colocar mais números em pontos estratégicos. No caso, pra alguns negócios renderem mais. Não que eu estivesse deixando ele fazer tudo, a parte dos negócios ele falava seu ponto de vista e de como poderia obter maior rentabilidade, e na maioria das vezes era o mesmo ponto de vista que eu tinha, então, eu concordava.
Ficamos apenas por mais alguns minutos resolvendo contas, a maioria ele fazia de cabeça e já colocávamos o resultado. Por fim, terminamos de resolver o que era pra ser resolvido. O que deveria levar algumas horas, com a ajuda dele consegui resolver em meros minutos.
– Agora que seu dever está feito, aceita dar uma volta comigo? — Serkan sorri estendendo o braço.
– Estou começando a achar que foi armação sua para que eu tivesse mais tempo livre. — Retribuo o sorriso aceitando seu braço.
– Eu poderia te ajudar mais vezes. Se quiser, é claro.
– Eu adoraria. Pelo menos tem um ponto positivo nisso. — sorri enigmaticamente. Ele riu e abaixou a cabeça levemente corado.
Seguimos conversando sobre assuntos variados pelos corredores do palácio. Estava me sentindo bem, conversando com Serkan e rindo, tinha me esquecido dele por um bom tempo.
De repente, virando um corredor, me deparei com ele. Não queria encontrá-lo assim por acaso pois trazia a tona todo aquele turbilhão se sentimentos que eu não entendia e não sabia resolver. E eu odiava não saber resolver algo. Porém, era inevitável.
– Jared.
– Aghaté...
– Senhorita...? — tosse forçada.
– Ah, bem... Com licença, acabei de lembrar que preciso resolver mais umas coisas... — soltei o braço de Serkan e segurei o vestido levantando um pouco a barra. — Vejo vocês no almoço. — fiz uma leve reverência a qual eles retribuíram, ambos com expressões de confusão no rosto e saí a passos apressados, quase correndo.
***
Eu precisava parar de ficar fugindo continuamente dos selecionados a cada situação embaraçosa que passava. Já começava a ficar feio para o meu lado.
Meus pés me levaram ao meu quarto, onde encontrei Megan trocando os lençóis. Sentei-me na cadeira da escrivaninha e me encarei pelo espelho. Eu tinha que resolver logo a situação do Jared. A melhor opção seria ignorá-lo, mas pensando melhor nisso não tinha porquê fazê-lo. As visitas logo chegariam trazendo os príncipes da Grécia e... Anthony. O qual Jared compartilhava uma enorme semelhança. Talvez eu conseguisse pelo menos ficar neutra em relação a ele enquanto atendia os visitantes. Outra pergunta me perturbava toda vez que eu pensava nesse caso e na organização da recepção dos príncipes: "Quem eu teria que mandar pra casa dessa vez?" A única coisa que eu sabia era que não queria mandar Jared pra casa. Não sei porque...
***
Sentei-me na mesa do almoço esperando os outros selecionados para começar a refeição. Não que eu quisesse esperar, era um caso de educação mesmo... na verdade eu queria mesmo almoçar sozinha, sem ter que enfrentar aqueles pares de olhos pelo menos uma vez. Mas uma verdadeira princesa tinha que sacrificar alguns prazeres pessoais como almoçar sozinha e em paz. Pois é. Nem tudo era às mil maravilhas.
Assim que todos chegaram, comecei a comer também. Uma vez ou outra me deparava com Jared me encarando. Ou Klaus. Ou Vincent, Bryan, Serkan e mais da metade dos rapazes que ali se encontravam.
Terminada a refeição, me levantei devido a um sinal de meu pai para dar o aviso final:
– Como Gwydion deve ter alertado vocês, faltam apenas dois dias para a chegada dos visitantes da Grécia e esperamos muito que a recepção seja tão bem feita quanto foi elaborada. De uma forma ou de outra haverá uma eliminatória para aqueles que não se dedicarem a fazer nossas visitas se sentirem confortáveis. Então... se esforcem, certo? — Ouvi o burburinho que se formava com a ideia de alguém ter que ir embora, eles estavam um tanto... apavorados.
Todos saíram comentando afobados sobre meu aviso, e estava saindo logo atrás quando o rei me chamou:
– Aghaté, filha, venha aqui.
– Sim? — Dei meia volta e fiquei diante dele.
– Você já terminou de resolver as finanças?
– Sim. — Franzi as sobrancelhas — Por que?
– O que? — Ele parecia um tanto surpreso. — Traga-o para mim então.
Ordenei que uma das criadas trouxesse os papéis para meu pai já que eu tinha que dar atenção pra alguns rapazes muito mais interessantes que os assuntos do rei... Desculpe, pai.
Dei meia volta e já estava a caminho do corredor quando a criada chegou com os papéis e minhas contas, e meu pai me chamou de volta. Droga, estava começando a achar que não teria mais paz.
– Huuum... — O rei Clarkson passou a mão em sua barba analisando cuidadosamente cada detalhe do raciocínio meu e do Serkan, que me ajudou. — Isso está muito bom. — Ele exibiu um sorriso sincero e com afeto. Um sorriso de pai, e não de rei.
– Será uma ótima rainha, Aghaté... — Aquilo me fez enrubescer e embaralhar minha mente. Meu pai, o soberano de Illéa que não aprovava a ideia de uma mulher governando seu reino tinha acabado de falar que eu governaria bem...?
– O-obrigada. — Tossi — Mas Serkan me ajudou. Serkan Jones.
Eu não devia ter falado aquilo. Definitivamente não. Nunca. Devia ter mantido a matraca fechada. O olhar que ele lançou em seguida foi um que eu só tinha visto uma vez na vida: quando ele havia descoberto que seu conselheiro real e até então melhor amigo e companheiro estava bancando um desfalque bem debaixo de seu nariz durante anos. Eu tinha doze anos na época e nunca tinha visto meu pai tão furioso com algo como daquela vez no julgamento do conselheiro real. Seu olhar possuía um brilho diferente, frio e cruel, um olhar de... traição. E era com esse mesmo olhar que ele me encarava, ali no salão de refeições, como se eu o tivesse traído com uma punhalada nas costas.
Meu pai cerrou os punhos e se levantou de seu trono, vermelho de fúria, os olhos mostrando tal voracidade que recuei alguns passos para trás chegando a tropeçar em meu próprio vestido.
Não. Eu não iria me rebaixar desse jeito perante um homem mesmo ele sendo meu pai e o rei. Ergui a cabeça e o encarei com o resto de coragem que me restava. Mais tarde perceberia que aquela era a pior hora para decidir enfrentar meu pai.
– Você ousou expor a economia do país para um simples garoto interesseiro que poderia passar a mão no dinheiro do povo e facilmente escapar causando nossa queda? — Sua voz saiu calma e fria, o qual provocou calafrios e me deixou com mais medo. Tentei argumentar:
– Pai, ele me ajudou de verdade!
– Não! — vociferou ele — Tola! Não devia ter deixado você responsável por isso, eu sabia, sabia que você não era capaz. Você não está pronta pra isso Aghaté, temo que terei que tomar uma providência radical quanto a isso. — ele disse sério.
Esperei ele continuar a falar, quando a verdade me atingiu em cheio.
– Você não vai...
– Sim, Aghaté. A Seleção acabou.
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