The Witchcraft
2 Mandala de Sangue
Notas iniciais
Aqueles que a noite observasse a cidade do meio em uma visão aérea poderá perceber a maior concentração de luzes totalmente centralizadas, ali estava o cérebro de todo o sistema e seus comandantes. Em meio às trevas ergue-se uma construção imponente, suas luzes pálidas contrastavam com a noite sem estrelas e nuvens carregadas e poluídas. Ao redor do imponente edifício, prédios menores salpicavam a área, era como um labirinto de pedra, cheio de setores, módulos e pavilhões, tudo isso era cercado por uma muralha com paredes inclinadas e repletas de androides altamente armados e câmeras que circulavam por toda a parte, como esferas negras voadoras. Ainda na muralha, podia-se ver uma rede eletrônica que era usada como um enorme campo de força, bloqueando também influências de ondas espiãs e o mais importante, bloqueava campos externos de probabilidade alterada, carregados de energia quântica, ou seja... Magia.
No prédio principal que também era o mais alto, estava preste a ocorrer um acontecimento apocalíptico, em seu interior centenas de pessoas trabalhavam sem parar nem mesmo por um instante, todas bem vigiadas por câmeras e supervisores. Em andares mais a cima, jovens tecnopatas estavam presos a seus computadores, máquinas tão racionais quanto qualquer ser humano, de lá eles monitoravam todos os estados.
Subindo mais andares, salas e passagens escuras secamente decoradas, no final de um longo corredor coberto por placas de aço polido, havia uma sala de reunião; seus móveis e decoração davam-lhe um requite especial; Da base da parede até a metade era coberto pelas mesmas placas de aço do corredor, a parte de cima era pintada de bege. No ponto de junção entre as paredes e o teto, havia uma fenda luminosa na qual se passava muito fios eletrônicos. Um quadro com flores roxas pintadas tentava dar um pouco de vida a sala, tentava em vão. No centro uma mesa comprida de madeira escura e muito limpa, brilhava na fraquíssima iluminação, estava cercada por muitas cadeiras metálicas sem pés, que flutuavam todas vazias e paradas. Havia uma única figura presente, estava em pé ao lado da mesa, os braços cruzados e cabeça baixa davam-lhe um ar soturno. Era um homem vestido socialmente em um terno negro inglês de lã fria, como a maioria das pessoas dali. No rosto uma expressão de total preocupação estava estampada, mordia o lábio superior e a respiração era pesada, estava claramente em confronto.
A pouca iluminação do local vinha das fendas nas paredes e do fraco luar que entrava por uma enorme janela de vidro tomando toda uma parede; dessa janela dava para observar grande parte do complexo da cidade do meio, a altura elevada fazia com que as pequenas edificações que rodeavam o prédio principal parecessem caixas de papelão como um labirinto geométrico, todas tomadas pelo negrume da noite e do ar poluído.
Na penumbra o homem finalmente se meche, o rosto conflitante ganha um ar decidido, ele olha pela janela, sério, como se afirmasse algo a si mesmo. Bruscamente descruza os braços e vai até um dos cantos da sala. Na parede em que uma enorme tela negra estava fixada, havia uma pequena mesa de canto redonda em madeira e sobre ela, uma esfera lisa prateada tomava todo o tampo da mesinha. O homem para em frente a ela estendendo sua mão direita, mas em um instante cessa seu movimento, estava hesitante... Suspirou profundamente e sem ouvir suas vozes internas, coloca a palma direita a centímetros da esfera; aparentemente nada acontece, ele olha tenso para a parede na sua frente e dá três passos para trás, em segundos a parede transforma-se em uma malha digital que vai desaparecendo aos poucos, logo era como se nunca existisse ali... Agora mais um escuro corredor encarava-o.
Os passos solitários ecoavam macios, porém firmes, ele não desistiria agora. No final do corredor, virou a direita para passar por mais um corredor menor e finalmente chegar a um saguão com um balcão vazio cheio de computadores, três salas trancadas e mais recuado o que parecia um elevador de cargas cercado por grades. Forçando um pouco ele puxa uma das grades, entrando logo após; um pequeno aparelho no teto do elevador é acionado, lembrava uma câmera, ele projeta uma luz, como um scanner que atinge a cabeça do homem e sem precisar acionar nenhum comando eles partem vários andares a baixo até o subsolo. Lá havia mais e mais setores secretos, eram cômodos escuros iluminados discretamente, ele andava a passos rápidos, passava por salas de portas trancadas com escotilhas de vidro; em uma das salas podia-se ver através da escotilha, pequenos andares formados por grades e neles milhares de telas computadorizadas, jovens sentados em fileiras em frente a essas telas, todos carecas, sem expressões alguma, não tinham braços, vestiam todos, malhas brancas na quais tubos e fios os ligavam a mais máquinas... Apenas olhavam para as telas, enquanto milhares de números eram computados; outra sala, porém estava repleta do que pareciam provetas gigantes, encontrava-se escura, a única luz vinha de um líquido verde fluorescente das provetas. Mais e mais passo, agora passara por um espaço grande apinhado de androides humanoides, ao fundo mais uma porta pesada com escotilha, os robôs a guardavam e não se interessava a olhar para o homem que continuava a andar com firmeza por um caminho bem conhecido, o rosto sem expressões afastava qualquer pensamento que o desencorajasse.
Finalmente chega ao seu destino, mais uma porta idêntica as demais, parada a sua frente, o homem puxa por debaixo da gola abotoada um cordão com um saquinho de fibras amarrado ao pescoço, algumas partes do saco estavam escuras como se algo apodrecesse ali dentro; ele põe o saquinho entre as mãos perto do peito, fecha os olhos e diz com uma voz alta e firme “Hannibal Ad Portas”. Quando volta a abrir os olhos nada mais impedia sua entrada na sala... Dessa vez caminhava com mais cautela, até se encontrar em uma sala vazia e totalmente escura, como uma caixa negra, a porta que outrora existia em suas costas não estava mais ali, só havia o vazio e o silêncio perturbador.
Respira fundo e lentamente caminha para o nada, as trevas eram tamanhas que quase podia ser sentida na pele. Agora não tinha mais volta, teria que fazê-lo; a mão trêmula tira do paletó uma faca mediana de lâmina grossa e cabo preto, a julgar pelo metal tão reluzente, aquela lâmina jamais cortara nada. Segurava com muita força o cabo porque a mão tremia exageradamente, com a testa enrugada e olhos apertados, corta-lhe o dedo anelar da mão esquerda em um gemido mudo. O dedo cai rolando no que seria o chão e o espaço decepado da mão jorra um jato fino de sangue espesso e escuro; o líquido é instantaneamente absorvido pelas trevas como uma esponja, alguns segundos depois, o homem enrola a mão em um lenço que carregava consigo enquanto sob seus pés, inscrições e símbolos antigos começam a se formar, eles brilhavam em uma luz púrpura, até formarem uma enorme mandala no qual o homem era o centro. Ele observava tudo muito sério, como se não importasse com nada, o cheiro inebriante do sangue incensava o local, um arrepio toma-lhe o corpo para terminar na nuca, aos poucos a mente do homem se torna cada vez mais lenta, como se embebedasse da própria situação, vai perdendo o tato até que entra em um estado de consciência alterada.
Em transe, perde a noção de tempo e espaço, não sabe quanto minutos ou horas estava ali em pé e aos poucos retoma a consciência, porém não se encontrava no local de antes. Podia sentir um vento tão frio que cortava-lhe o rosto, seus pés pisavam terra fofa e grama, o ferimento da mão estava dormente. Encontrava-se em um campo aberto, sem árvores ou sinal de animais, apenas dunas verdes. O céu escuro não tinha estrelas nem a própria Lua, ainda era o centro da mandala, mas agora não estava sozinho... Em sua frente formava-se um círculo vertical feito de vapor, nele havia presa uma garota nua, com braços e pernas abertas; a pele dos membros estava roxa, como se ali houvesse correntes apertadas, os cabelos loiros escuros caiam como ondas pelos seios, então suspende a cabeça olhando diretamente para o homem.
— Este é o último encontro, tenha consciência de que tudo o que fizer agora, seja a desistência ou a corajosa continuidade, mudará a sua vida e da sua geração para sempre. — A garota dizia, mas a voz que saia de si era masculina.
— Estou completamente decido, e a mim, seu amo, deve obediência! — O homem afirmava tentando parecer o mais firme possível!
— A preparação fora longa, os sacrifícios aceitos, mas nada mudará sua condição medíocre e submissa no universo! — Neste momento o homem, sentia inúmeras presenças fora do círculo e ouvia gemidos tenebrosos, mas esforçou-se para não se intimidar e dar atenção.
— Nesta existência seus poderes me pertencem, não pode me desobedecer! — O homem ainda com o olhar fixo na garota, tateia o paletó e tira uma vara de madeira bifurcada como um “Y” do seu bolso interno, fazendo um desenho no ar; sua mão estava trêmula.
— Cumpriu corretamente como escrito pelos seus, a milênios atrás, mérito lhe são dados. Pelo pesar, agora domina os espíritos e Djinn do ar e da terra... Não volte a me torturar com a vara! — A voz parecia um pouco amedrontada do que anteriormente.
— O pacto deve ser confirmado! Hoje assino a última sentença. — Risos poderiam ser ouvidos fora do círculo. O homem mais uma vez mete a mão no bolso e tira uma moeda dourada dele, atirando-a com força para fora do círculo. No mesmo instante os risos e gemidos sessão.
— Humano; pela magia de seu mundo, pelas chaves empregadas e pela ligação sanguínea com o receptáculo... O pacto está feito!
O homem caminha trêmulo até a garota e a golpeia com a faca ainda melada com o seu próprio sangue diretamente no coração da menina, instantaneamente o vento se enfurece e a mandala de luz apaga-se... A garota jazia ao chão com a respiração pesada, o homem corre até ela, ajoelhando-se, afagando-lhe a cabeça.
— Papai, eu fiz tudo o que pude... Eu-eu não queria ser assim... Vo-você se perdeu por minha... Cau-sa papai... Agora saiba usar o que tem...
O homem não lhe dizia nada, apenas acariciava sua testa e cabelos observando-a, então como o despertar de um sonho, ele se viu sozinho e ferido, de volta ao subsolo da cidade do meio, mas agora, não sentia mais dor.
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