The Widow
1 A Viúva
Notas iniciais
Escuridão. Sobre essas ruas em que piso, somente a luz do luar atinge o chão. Nenhuma lâmpada, nenhum lampião. Essa é a primeira vez que saio de casa à noite depois daquele dia. O dia em que você alcançou a consagração perante eles, e eu, o desprezo.
Por que insiste em ficar perto de mim? Já lhe falei que isso não tem utilidade. Não sinto mais nada, nem sequer a dor. Você não vai conseguir o que quer.
Essa cidade é muito pacata. Posso ouvir o som de todos os meus passos.
Crac. O quê foi isso? Ah, é só um galho frágil. Croac croac. Rãs idiotas, não sabem que esse barulho irrita? Bang. Isso foi o som de... Um tiro! Não parece ter sido muito perto de onde estou, mas, como dizem, “antes prevenir do que remediar”. Tenho que me apressar, não posso me demorar muito aqui, fora do meu lar.
Viro à esquina e continuo andando. Nessa rua, havia uma luz acesa dentro de uma casa. Por uma janela, um vulto qualquer parecia estar olhando para cá, para mim. Comecei a andar com passos mais largos, quase correndo.
E você, que continua me perseguindo? Essa é a última vez que irei pedir, saia de perto de mim. Você está conseguindo me irritar, mais do que quando eu olhei aquelas pessoas andando em sua direção. Naquele dia, fitavam-me com um olhar de desprezo, como se eu fosse a vilã da história. Impressiono-me com o quanto podem ter memória curta. Naquele momento, me pareceu que se esqueceram das várias vezes que acabei no posto médico por sua causa.
Apesar de tudo o que houve, acha que não sofro? A sua voz e o arfar de seus pulmões cansados, permeiam os meus piores pesadelos. Quando fecho os olhos, ainda consigo escutar as suas tosses intermináveis.
Avisto mais uma casa. Desta vez, é a minha. Está tudo apagado, como deixei quando saí. Espere... O que é aquilo, perto da porta? Aproximo-me um pouco mais, tomando cuidado para não fazer muito barulho. Crac. O som do galho ao se quebrar soou por toda a rua, e o que quer que esteja próximo há porta, vira-se em um piscar de olhos. Maldição! Por que as árvores resolvem perder seus pequenos galhos logo nessa estação do ano? Escondo-me atrás de um arbusto qualquer e espero. Escuto um som crescente de passos. Enxergo um vulto alto e magro. À medida que ele se aproxima de mim, consigo determinar quem é. O som de seus pulmões o denuncia.
Você, mais uma vez? Pensei que já tinha ido embora. O que é isso em sua mão? Uma arma? Não pode ser... Quer se vingar? Pois então atire logo. Mas saiba que mereceu aquela bala do meu revólver.
Bang.
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