Notas iniciais
Boa leitura!

Na manhã seguinte, acordei quando o sol I estava a pino e a movimentação no convés já era bastante.

Sai para o sol quente, iluminando um dia bonito de céu e mar.

— Bom dia. – Saudei o grupo perto da porta, composto pelo trio Betrus, Pinsley e Rupert.

Eles responderam animados, e de bom humor. Claramente a tempesatade passará e levará consigo todo o agouro do barco.

— White está com o capitão. – Pinsley disse – Já comeu?

— Ainda não. Mas não estou com fome agora. Tem algo que eu possa fazer? Ou já devo preparar o almoço?

— Nah! Ainda não. Acabamos de tomar o desjejum. Pode me ajudar a limpar o convés, se quiser. – Rupert ofereceu.

— Achei que esse era o trabalho do Aldo.

— Ah, bem ele está de frescura e tem dor nos quartos. Trocamos de tarefas e ele irá ao mercado no porto amanhã.

— Iremos ao porto amanhã? – perguntei enquanto nos muníamos com esfregões, baldes e sabão.

— sim. Pararemos em Portsmouth para reabastecer o que os bastardos de ontem destruíram.

Rupert pegou os esfregões e começou a limpar o chão. Era uma imagem um tanto quanto cômica: um homem daquele tamanho e força empurrando um fino esfregão para frente e para trás. Tão delicado quanto ele podia ser. Eu mesma peguei um pano e molhei-o com sabão, limpando a beirada do navio de cocos de pássaros e eventuais manchas de sangue. Era um trabalho árduo, esfregar com força s procurar quaisquer imperfeições. Mas eu o fazia com vontade e entusiasmo por realmente fazer alguma coisa.

— Garota, não vamos vender o navio. Não precisa polir a amurada! – Rupert zombou.

— Ah, não gosto de fazer as coisas mal feitas. Além disso, não é sempre que eu tenho algo pra fazer.

Rupert riu e concordou.

— Faz muito bem feito mesmo. Há tempos que eu não comia uma comida tão boa quanto a que você faz. Como aprendeu a cozinhar num

palácio com centenas de empregados?

Expliquei a ele a história de como gostava de ajudar Anelize e as outras nas tarefas, já que o machismo exacerbado e as ignorâncias do Rei não me deixavam fazer outra coisa a não ser ler e andar pelo castelo.

— Mas e você? – perguntei – como aprendeu a tocar banjo num navio cheio de brucutus?

Ele riu ruidosamente e quase se engasgou.

— Boa pergunta. – concluiu – Na verdade não aprendi aqui.

— Você também já viveu fora daqui? – perguntei surpresa.

— Garota! Todos nós já tivemos uma vida antes desse navio! Mas poucos de nos a viveram longe da pirataria. Apenas eu, White e Betrus, para ser exato, vivemos em outros lugares.

— E você vivia aonde então?

— Num internato em Guidford.

— Você era rico??? – Quase gritei.

— Não. Eu vivia lá porque meus pais trabalhavam lá. Como empregados. Eu os ajudava nas tarefas e brincava com alguns alunos no tempo livre, mas os outros pais e as professoras não gostavam de mim por lá. Apenas uma professora, a de música, conversava comigo. Ela contava sobre as experiências que ela tinha na orquestra da corte e sobre seus conhecimentos musicais, ela que me ensinou a tocar banjo e até me deu um de presente. Eu gostava muito dela e acho que ela de mim. Não era muito mais velha que vinte anos, e apenas 5 anos mais velha que eu. Acabei me envolvendo com ela, nos apaixonamos. Eu era um jovem de dezoito anos, pobre é sonhador, e ela, uma mulher linda e apaixonada por música. Nos encontrávamos nos intervalos dos alunos e em suas horas livres, e eu escapava sempre que podia pra desfrutar de seu amor. Acabamos sendo flagrados pela diretora. Depois disso fui expulso dali e perdi meu emprego. Não consegui notícias dela, e nem sei para onde ela foi. Desolado, acabei encontrando um um amigo que dizia ter negócios no porto. Fui com ele para Southampton e virei pirata lá. Dai fui passando de navio em navio.

— Estou percebendo que vocês sempre vão parar na pior por causa de uma mulher.

— Ah, sim! Betrus deve ter te contado da ex mulher dele. Nem queira perguntar para Aldo, então. Esse sim tem uma lista de amores passados. – ele comentou ao que eu ri – Mas a oral da história eu já te adianto: mulheres são a desgraça dos homens. – Rupert segredou-me.

— E como! – Gregory comentou atras de nos, finalmente aparecendo.

— Ah, olá White. – cumprimentei-o.

Ele estava prestes a dizer alguma coisa, mas o Capitão apareceu na porta e o chamou. Ele se foi e eu me virei pra Rupert.

— Não olhe para mim! – Ele disse – White é o cachorrinho do Capitão. Todos nós somos, na verdade. Mas White é o cachorrinho-mor.

— A verdade, — Pinsley chegou ofegante, carregando um enorme e pesado barril – é que o capitão Tatcher acha que é o rei. E elegeu White como o conselheiro real. Tudo que ele faz é antes consultado ao rapaz.

— Então quem manda aqui é o Gregory? – perguntei.

— Também não é assim, — Pinsley respondeu, as barbas ruivas voando com a brisa que batia – Tatcher Ainda é o capitão. E White sabe melhor do que ninguém que deve respeitá-lo e fazer tudo o que ele quer. Você ainda não conheceu esse lado do capitão, mas ele pode ser bem sanguinário se quiser.

— Assim como vocês. – Eu disse – e ainda assim se deixam ser comandados por alguém que se acha superior?

— Olha, olha, garota! Não esqueça de quem é esse navio...- Rupert avisou-me.

— Não é de todo ruim. Ele não se mistura muito, mas é um ótimo capitão e é muito inteligente.

Pinsley dizia. Agora eu já tinha terminado a amurada direita e sentara nela, apoiada num mastro para ouvir Pinsley e descansar.

— Em táticas e estratégias, ele é imbativel. Foi ele que orquestrou todo o plano do seu sequestro. E organiza muito bem as paradas que fazemos, com ajuda do White. Pode não ser uma boa pessoa e mandar no rapaz como se ele fosse inferior, mas Gregory aceita porque não tem nada melhor a fazer.

— Você parece conhecê-lo bem. – eu disse.

— O capitão? Conheco- desde que ele não era capitão Ainda.

— Ah, sim. Mas eu me referia ao Gregory.

— Bem, está tudo interligado – Ele disse, olhando em volta para ver se ninguém escutava – você deve saber que Tatcher era o irmão da Adelaide, a mãe de Gregory. Eu era vizinho da família deles em Leyton, antes mesmo de Adelaide e Tatcher serem adultos. Éramos todos jovens e eu e o capitão gostávamos da mesma garota, e apesar de não ser uma grande briga, nunca fomos muito próximos, até depois de ele ser meu capitão. Enfim, viemos para Brighton Ainda crianças, com nossos pais, para tentar melhorar a vida. Adelaide conheceu Graham, o pai de Gregory e ele se juntou a nossa turma. Ainda crianças, vivíamos no porto, onde conhecemos os piratas. A medida que a situação financeira em casa piorava, mais nos aproximamos da pirataria. Então, logo que Adelaide e Graham se casaram, eu e Tatcher tentamos a vida sozinhos em uma tripulação pequena. Andamos pela Inglaterra, nos ingressando cada vez mais na pirataria. Ficamos anos sem voltar para Sussex e quando o fizemos, encontramos Gregory, já na idade de seguir os negócios da família.

— E o pai de Gregory? Ele não se tornou pirata?

— O pai de Gregory é um assunto mais delicado e não cabe a mim falar sobre ele.

— Entendo. – eu disse, pensando em toda a informação que recebera.

— Sabe garota, não é por nada não, mas aquele almocinho cairia bem agora.... – Rupert voltou para junto de nós, exausto após a tarefa de limpar todo o chão.

— É pra já! – eu sorri é fui para a cozinha.

Mais tarde, eu estava lendo o livro de mitologia no convés quando Betrus se aproximou.

— Olá, princesa.

— Olá, Betrus. – sorri e olhei para ele.

Segurava um pedaço de papel manchado e escrito e estampava uma expressão de apreensão no rosto.

— precisa de ajuda em alguma coisa? – perguntei.

— Bem, sim. – disse, envergonhado – Minha irmã me escreveu semana passada. Recebi a carta na vila mas ainda não tive a chance de ler. Pode ser que tenha algo pessoal, então sempre peço para Gregory ler para mim, mas hoje ele estava um pouco avoado. Será que você poderia....

— Ler? Ah, claro que sim! – eu disse, abrindo espaço no banco para ele sentar.

A peça de madeira rangeu sobre seu peso, e ele me entregou o papel, agora meio amassado.

Querido Bert,

Estou escrevendo para desejar-lhe um Feliz Aniversario e tudo de bom. Não há um dia que passe sem que eu pense em você, meu querido. Lembro-me até hoje de como te vi pela última vez, tao triste e solitário, e espero de coração que você não esteja mais assim.

Acho que gostará de saber que recebi notícias de Eveline e Valerie, elas continuam na fazenda do marido de Valerie, e estão bem. Eveline tem uma filha mas não está casada. As duas estão bem de vida e não passavam necessidades. Joseph também segue seu caminho no exército e está prestes a ser promovido. Eles perguntam por você, e eu também. Como está indo? Soube que a Princesa foi sequestrada, o reino está uma loucura e há boatos de que ela está com piratas. Você não está envolvido com isso, esta? Pode ser perigoso, a marinha já está atras de todos os navios piratas que encontra.

Espero ter uma resposta breve e uma visita planejada para o Natal. Sinto saudades, e Philip e Roselyn querem conhecer o tio! As coisas estão muito boas para nos também, não se preocupe. Amamos você!

Com carinho,

Mathilda

Terminei de ler a carta e encontrei Betrus dividido ente um sorriso e uma careta. Ele pensou por um instante e eu me ofereci para escrever a resposta. Ele ditou um bilhete simples:

Querida Mathilda,

Também estou com saudades e penso em todos a cada dia. Estou bem e não se preocupe com a questão da Princesa, logo tudo estará resolvido. Mande lembranças minhas a Valerie, Eveline e Joseph, e dê um beijo em meus sobrinhos. Não acho que poderei vê-los tão cedo...

Com amor,

Betrus

Quando acabei, tive uma ideia para tentar animar Betrus.

— Ei, por que você mesmo não escreve algo?

— Não sei ler nem escrever, princesa.

— Mas eu sei. Posso te ensinar. Venha, escreva algo pequeno. – chamei-o.

Com relutância, ele concordou e arranjamos mais papel para ele praticar.

Ensinei –o algumas formações básicas e depois de um bom tempo, Betrus conseguiu ler e rabiscar algumas palavras. Ele então, empolgado, escreveu no fim da carta:

Amo vocês!

Não era muito, mas Betrus ficou imensamente feliz.

— Falando em feliz....é seu aniversário hoje? – Perguntei.

—Não, amanhã. Mathilde provavelmente achou que a carta chegaria mais tarde.

— Hum, temos que fazer algo especial, então!

— Não há necessidade de comemorar o envelhecimento, em meu ponto de vista. Estou um ano mais próximo da morte. Nao se deve celebrar a morte.

— Mas deve se celebrar a vida. Pode ser um ano mais próximo da morte, mas foi um ano cheio de vida também. Deve-se celebrar em agradecimento a isso, e mesmo que você não goste de como sua vida está, é uma ótima oportunidade de transformar as coisas ruins em coisas boas.

— Sim, você tem um ponto. Prometo que vou pensar nisso, mas agora eu gostaria de ver este livro que você estava lendo. É sobre o que?

— Mitologia. Estava lendo o conto de Vênus, a Deusa do amor e da beleza.

— Ah, eu conheço essa história! Tínhamos um livro com gravuras dela na fazenda.

— Quer ler? Eu posso te ajudar.

Betrus ficou tão agradecido que nem parecia o pirata que eu conhecera. Passei o resto da tarde e noite ensinando-o a juntar as letras em palavras e a entendê-las. No fim, fizemos um belo trabalho. Após o jantar, Betrus quase conseguirá ler um capítulo inteiro. Tudo bem que o livro era infantil, mas ainda assim ele estava indo muitíssimo bem.

Eu estava lá fora com ele, no mesmo banco de antes. Uma pequena luminária mostrava as letras nas paginas amareladas, já que a noite sem luar não fazia o serviço. Um vento batia ali, fazendo com que meus pensamentos divagassem enquanto Betrus engasgava em algumas sílabas.

Pensava a carta da Irma de Betrus. O Rei estava mesmo procurando por mim? Como eles não haviam me encontrado ainda? Se estavam atras de todos os navios piratas que encontrassem, não iria demorar até encontrar a tripulação de Tatcher. E quando o fizessem....o que aconteceria com aqueles estranhos homens? Seriam julgado se decapitados? Ou conseguiriam seu ouro e iriam embora? Um calafrio percorreu meu corpo quando eu pensei no futuro, seguido de um arrepio geral. Percebi que meu corpo também me avisava que alguém se aproximava.

— Ah, aí estão vocês! – Gregory disse à minha frente, assustando-me – o que estão fazendo nessa ventania?

Eu abri a boca para dizer alguma coisa, mas Betrus já tinha levantado e jogado o livro fechado em baixo do banco.

— Nada, não estamos fazendo nada. – Disse nervoso.

Gregory estava com um olhar desconfiado e eu decidi ajudar.

— A irmã de Betrus escreveu para ele. Estava lendo a carta dela, já que você estava ausente. – Eu disse, soou um pouco acusador, mas não liguei.

— Fizeram isso a tarde inteira?

— Não, na verdade.... — Betrus dizia.

— Isso não é relevante. Quer algo de nos sr. White?

Gregory ficou um pouco desajeitado com minha repentina mudança de comportamento. Eu inclusive fiquei – talvez meu período estivesse chegando, era uma boa coisa que parássemos no porto no dia seguinte.

— Hum, não. Só vim ver se precisavam de algo e trazer sua casaca. Esta um pouco frio.

Antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa, Betrus se levantou e se despediu, saindo como um raio.

Gregory Ainda estava desconfiado, e agora olhava para mim na esperança que eu o iluminasse. Tentei pegar o manto de seus braços estendidos, mas ele me fez virar para colocá-lo em mim. Seus dedos hábeis tocaram a pele nua de meu pescoço, me fazendo arrepiar. Eu nem tinha reparado em como estava...

— Fria! Está congelando! – Gregory se exaltou.

— Bem, não seja exagerado. É só uma brisa. Já vou entrar. – Respondi e segui para o interior do navio.

Gregory me alcançou rapidamente.

— Fiz algo errado?

— O senhor? Não.

— Algo que a tenha irritado?

— Não.

— Precisa de alguma coisa?

— Não.

Ele pensou por um instante.

— por acaso está se recusando a dizer sim?

— Não! – eu segurei o riso é apressei o passo.

— Garota!

— Katherine! Meu nome é Katherine!

— Katherine.... o que houve? Esta brava comigo? Esta sendo muito rude, se me permite dizer.

— Não é nada com você Gregory. Só estou cansada.

Entrei no meu quarto e fechei a porta, mas Gregory a impediu com o pé.

— O que eu fiz? – ele parecia realmente confuso.

Eu soltei o ar, em reprovação e me virei para encara-lo.

— Você não fez nada Gregory! E este é o problema. Chega a ser revoltante ver como você obedece cegamente o seu tio.

— Mas ele é meu capitão.

— E não seu dono! – respirei – você seguiu ele o dia inteiro, andou pra lá e para cá ao que ele pedia. Como um servo ou algo assim.

— Ei, garota, calma aí..

— Os outros não viram ou simplesmente ignoraram, mas eu vi você levando bebida e comida para o gabinete dele, e não saiu de lá um instante! Isso beira o ridiculo. Você tem muito mais capacidade do que ficar obedecendo um velho ignorante. – Eu soltei as palavras sem pensar.

Num segundo, eu estava encarando Gregory, no outro, ele me prendia colada à parede e me lançava um olhar severo e malicioso.

— Você devia prestar mais atenção a sua boca, garota. Acha que tem alguma autoridade aqui? Só porque fez alguma piraras gostarem de você não significa que pode dizer o que quiser por aqui, principalmente ao que diz respeito ao capitão.

— e o que você vai fazer? Correr até ele para contar e depois me fazer andar na prancha? Talvez você é seu capitão não tenham percebido mas eu tenho mais autoridade do que pensam por aqui. As tropas inglesas já estão atras de todos os navios piratas da costa, a notícia esta se espalhando pelas províncias e as pessoas não vão demorar a me reconhecer. Vocês precisam de mim viva, não irão me matar. Eu vou acabar bem de qualquer forma. Ou vocês me entregam, ou eles me encontraram. Já vocês só tem a opção de fugir a tempo. Então pense melhor e não venha me pressionar quanto aos meus direitos por aqui.

Gregory riu alto e retomou sua expressão séria.

— Tem razão. Estaremos em desvantagem quando isso acabar, mas por enquanto você está presa num navio com uma tripulação de homens violentos e sanguinários que estão a um passo de receber o ouro da vida deles. Não ache que estamos brincando de piratas malvados por aqui. Não podemos matá-la, é verdade, mas isso não significa que não podemos toca-la. – ele disse quase rindo, desafiador, esquadrinhando minha figura com os olhos.

Não havia conhecido esse lado de Gregory. Só sabia que ele me causava arrepios.

— Você não é louco de tocar em mim, White. E creio que já passamos da fase das ameaças. – eu disse, me soltando de suas garras e quebrando aquela situação – Agora eu quero que se retire. Vou dormir, amanhã teremos um dia cheio pelo que percebi.

— Muito bem. Boa noite, princesa. – Ele disse e saiu, não sem antes me encarar desafiadoramente.

Com muito custo, consegui dormir logo em seguida, vencida pelo cansaço.