Um dos horizontes que ele mais gostava de admirar no mundo era a visão de Punjam Hy Loo, acima das nuvens, o dourado ficando em um tom de mel, o ar fresco o fazia se arrepiar e essa sensação do arrepio era uma das coisas novas que ele ganhou ao ser mais do que um espirito. Mais do que apenas Jack Frost, ele era o príncipe e mensageiro da Mãe Natureza, sua segunda mãe que o deu a vida, o tornou aquilo que era.

Não queria sentir apenas o dever de retribuir o que foi feito a ele, queria ser mais... Sempre queria. Talvez... Um dia ele fosse o suficiente para ser apenas um ser comum, não ver o caos e destruição, a harmonia de ideais. Ele não tinha uma luta, algo para se agarrar.

Cansado de olhar para o horizonte ou de olhar para a longa queda que se tinha ali do palácio, se levantou e caminhou para dentro, vendo as várias fadinhas em suas tarefas, o barulho de asas já era algo comum para ele, se acostumou e tornou aquilo uma das várias rotinas dele.

Sorrindo a fadinha que o acompanhou na jornada contra o Breu da segunda era das trevas, ficava melancólico apenas de ver a mesma e lembrar da sua irmã de séculos atrás, agora reencarnada em uma das fadas de Dentiana. Jack tinha o conhecimento que todos aqueles seres pequenos eram apenas extensão de Dentiana, parte dela em miniaturas, algumas até tinham traços de crianças que era guardou dentes importantes, mas de tantas “ajudantes”, não se tinha outra irmã do voo ali, apenas ela, apenas Dentiana.

Nunca perguntou do porque ela ser a única ali, não queria trazer dor e sofrimento de lembranças desagradáveis.

— Você a viu em algum lugar, pequena? — perguntou, a vendo acenar de forma positiva, sorrindo e seguindo voo pelas várias pilastras gigantescas e de traços e significados de uma cultura antiga de países da região, não deixando de acompanhar a pequena e se cansando, sentindo o rosto arder pelo esforço.

Uma das desvantagens em ser filho da Mãe Natureza era ter traços do povo lumar e da raça humana, se cansar pelo esforço de voar, mesmo que se utilizasse do seu dom e poder vindas do cajado.

Quando chegaram em umas das pilastras mais altas do palácio, Jack pôde admirar a sua amada Dentiana, sorrindo com a calma e tranquilidade dela em arrumar os dentes, cercada da várias capsulas que guardavam tais preciosidades de memórias.

Suas asas tinham a mistura do selvagem com o belo, a mistura de uma irmã do voo com uma fada anterior, a fada que ele conheceu ao se tornar guardião. De cada lado e embainhadas, dois sabres como sua defesa, mortal e bela, era Dentiana.

— Fadinha? — ela sussurrou, voltando talvez a realidade e olhando para sua ajudante e depois para trás, para Jack — Achei que estaria na América do Norte... — sorriu ao vê-lo, se levantando e voando para o abraçar, sendo agarrada e apertada nos braços de Jack — Aconteceu alguma coisa? Está ferido?

— Ei, quantas perguntas — deu uma risada, beijando a testa de Dentiana e a acompanhando para se sentar, não expulsando a fadinha de seu ombro — Vim apenas ver minha adorável Dentiana, a América está fria demais essas semanas e os deveres que a Mãe deu a mim estão quase finalizados — contava, vendo a desaprovação de Dentiana com a novidade — A não, de novo não...

— Jack, ainda não acredito que ainda escuta essa criatura — esbravejou em um tom bravo, as bochechas estufando em birra e Jack apenas as cutucou, a fazendo suspirar — Ela poderia tê-lo matado, pior, feito algo semelhante como o Breu teria feito — comentou, indicando a mão de Jack, essa que estava enluvada.

— Sendo parecida com o Breu ou não, está feito... — declarou, suspirando e erguendo o rosto dela para que o encarasse — Sabe que não gosto quando fica assim, estou aqui... Não fui excluído da existência... — e novamente, deixou um beijo casto na testa de Dentiana, a ouvindo suspirar para então ousar a beijar tenramente os lábios — Não deixei você...

— Não era por mim que deveria falar — ela sussurrou — E sim por você, é importante... Para todos.

— Sei que não era só por você — deu uma risada, recebendo a clara cara de desaprovação de Dentiana — Norte teria me trazido de volta para soltar umas boas verdades na minha cara, já o Coelhão... Ele teria soltado as verdades na minha cara e depois me levado a excluir da existência novamente — deu de ombros, recebendo um soquinho de Dentiana — Estou mentindo? — deu uma fraca risada, tentando ganhar outro beijinho, mas sendo recusado por ela.

— Todos gostamos de você, não pense dessa forma — ditou, séria demais para aceitar um beijo sequer — Nunca, me ouviu? — e Jack concordou — Agora, quero que me ajude a guardar isso tudo — sorriu.

Com um suspiro, ele se colou a levantar e pegar todas as capsulas que poderia e segurando seu cajado com a outra mão, a acompanhava nas pilastras que guardavam todos aqueles dentes, vendo que eram separadas por épocas e eras, alguns tão antigos e velhos quanto ele e entre eles, viu a capsula de dentes de Karma e uma do... Coelhão.

— Por que você tem os dentes do Canguru? — perguntou, terminando de ter guardado tudo e apontado para a capsula com o desenho do amigo da páscoa.

— Uh? A, sim... O único dente de leite dele que confiou a mim para guardar — ela contou, ficando ao lado de Jack e tomando a capsula de Coelhão em mãos — Ele já contou que consegue viajar no tempo? Ir e voltar entre eras? — perguntou e Jack a olhou, confuso — Ele perdeu essa habilidade de ir e voltar ao se tornar parte do planeta e faltava um dente de leite dele... Como ele não queria que esse segredo do povo dele caísse em mãos erradas, confiou em mim para guarda-los...

— Mas por que... Era apenas destruir — fez uma leve careta, viagens no tempo nos “filmes” era algo confuso demais, enjoativo.

— Ele não pensa dessa forma, é a única coisa que o liga ao povo dele — explicou, abrindo a capsula e mostrando a única presa ali.

— E o que ele deve pensar, é só trazer coisas do antigo povo, não faz... Sentido — comentou, vendo a mesma guardar a capsula no seu devido lugar e se voltar para Jack.

— O povo dele foi exterminado da existência, Jack.... Houve um genocídio com todo o planeta dele e o Coelhão.... Ele foi o único sobrevivente — sussurrou, o peso nas palavras sendo algo cruel e ele pode sentir o peso delas.

Ser sozinho... Talvez fosse isso que ela deveria ter sentido quando o conheceu ao quase ter se juntado ao Breu. Talvez... Aquele fundo de história fosse algo que ela conhecesse e sentisse empatia por ter passado por aquilo.