The Wanheda
6 Capítulo 6 - You have no honour!
Notas iniciais
Lexa observava Clarke dormir. Não pegou no sono durante toda noite. Já era dia lá fora e perguntas pairavam sua mente. Após o surto da menina, ela parecia exausta. Lexa não fez questão de insistir no assunto, sabia quando lidava com uma alma perturbada que precisa de descanso. Em poucos minutos, a outra adormeceu. O cansaço de Clarke estava longe de ser físico, era completamente mental. Todos os sentimentos que ela evitara durante os meses que se passaram voltou repentinamente assim que encarou os olhos verdes de Lexa.
Lexa se manteve sentada ao pé da cama a noite toda. Não chamou a guarda e nem houve qualquer mero tipo de ataque após o ocorrido. Poderia dizer que a noite foi tranquila mas seu coração estava uma loucura. Não sabia o momento certo de acordar a outra pois não tinha forças pra questiona-la. O fato de ela estar aliada à Nia, causou uma ferida profunda em Lexa. Teve em mente que Clarke deveria estar absurdamente magoada com ela mas em nenhum momento cogitou a possibilidade de que ela se aliaria à assassina do seu primeiro amor.
— Heda. — Indra adentrou a tenda de Lexa e ficou perplexa quando viu Clarke em trajes de guera deitada na cama. Lexa apenas a encarou, com uma pergunta oculta que Indra não precisava nem ouvir. — O-oque? — A mulher disse em sua língua nativa.
— O que? Porque? Como? São perguntas muito importantes no dia de hoje. Não faço ideia, Indra. — Lexa a dispensou com o olhar, não poderia suportar mais um minuto com ela no local. Encarar Clarke seria mais fácil que lidar com sua fiel escudeira que nunca imaginou que deixaria passar um inimigo de tal porte.
— Heda, me perdoe...
— Chega! — A voz de Lexa veio como um grito, forte e severa. Existia ódio e angústia no olhar, talvez não direcionada à mulher mas não pôde evitar. Foi quando viu Clarke se movimentar na cama e abrir os olhos. Indra automaticamente puxou sua espada mas Lexa negou com a cabeça. Clarke estava aturdida, ainda meio desacordada e encarou Indra que a olhava enfurecida. — Pode ir. — Lexa completou. Hesitante, Indra saiu.
Clarke e Lexa se encararam por um momento. Nenhuma das duas sabia por onde começar.
— Então... Você planejou me matar, hein? Quem diria? — Lexa deu uma risada sem humor. Parecia tão desleixada e inferior sentada no chão daquela forma, Clarke pensou. Tão vulnerável. — Por onde quer começar a explicar?
— Não há nada para explicar Lexa. Você sabe porque vim até aqui. — Balançou a cabeça e se ajeitou em meio aos lençóis. Lexa precisava admitir que se sentia derrotada mesmo que Clarke não tenha realmente a matado. De todas as coisas que esperava nos últimos tempos, essa seria a última. Será que a menina sabia que fazia parte dos seus melhores sonhos?
— Qual sua ligação com, Nia? Como isso aconteceu? E porque veio até aqui sozinha? Disse que era sua única parte no plano. — Clarke mordeu os lábios, incerta se deveria contar. Uma parte dela queria ferir Lexa de alguma forma e despejar tudo que planejara por suas costas era um bom exemplo mas arruinaria qualquer que fossem as chances de prosseguir.
— Trabalhamos juntas nessa guerra. Minha função era te matar e mandar o sinal. Não conclui minha tarefa e como pode ver, é só mais uma bela manhã para você e seus soldados. — Disse irônica. Lexa ficou perplexa com o comentário dela.
— Como se atreve? Uma bela manhã? Venho passando semanas aqui discutindo sobre uma guerra que não fazia ideia de como seria enquanto tudo que você queria era me confundir pra me MATAR! — Gritou a última palavra e Clarke tremou. Lexa se levantou exasperada e serviu-se com um copo de água. Tomou um longo gole e debruçou sobre a mesa, apoiando o rosto nas mãos. A outra se manteve parada observando a cena, não era o tipo de reação que esperava. Lexa respirou fundo, acertou a postura e continuou: — Certo. Entendi que não concluiu sua missão. — Clarke assentiu mesmo que não fosse necessário. — E então me beijou. — Por esse comentário ela não esperava. A noite anterior ainda era turva pra ela, a explosão de sentimentos e sensações que sentiu foram totalmente desconhecidos e beijou Lexa por impulso.
— Certo. — Logo calou-se, não sabia muito bem o que dizer. Abaixou a cabeça ciente que Lexa ainda a olhava, até que a mulher se aproximou e se sentou em frente à ela na cama.
— Clarke, suas ações não fazem sentido. Ontem chegou parecendo a morte em pessoa, de repente se jogou em meus braços, em seguida começou a chorar, adormeceu e acordou totalmente calma. O que está acontecendo com você? — Lexa realmente parecia preocupada e isso causou irritação na menina. Não queria ter empatia por ela, nem um só minuto. Não teve coragem de mata-la porque percebeu que não aguenta mais sangue em suas mãos. Por falar em mãos, reparou que Lexa tocou as delas. Recuou na mesma hora.
— Eu estou bem Lexa. O máximo que alguém pode ficar depois de ser abandonada para morrer. Estou vivendo. — Ironizou as palavras.
— Entendo que esteja magoada, Clarke. Mas pensei que fosse compreender que minha decisão não teve nenhuma relação com você. Precisei me guiar pela minha cabeça, tenho um dever com meu povo porque se fosse seguir meu coração, eu teria seguido em frente e lutaria com você. Acredite em mim. — A menina se sentiu tocada, cogitou essa possibilidade diversas vezes mas ouvi-la era mais assustador. Não podia confiar em Lexa, não depois de tudo que aconteceu.
— Me fez derrubar a montanha, Lexa. Pessoas me caçam por isso.
— Clarke, não te fiz tomar nenhuma decisão, assim como você não me forçou a fazer a minha. Precisava ser feito e fizemos! E é isso que os líderes fazem. Não importa as alianças, seu povo vem em primeiro lugar. — Lexa disse com o rosto franzido como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Clarke ficou horrorizada e explodiu.
— As alianças importam, Lexa pois são um COMPROMISSO! Você não tem honra e eu jamais irei te respeitar depois do que fez. Nia estava certa o tempo todo, você não merece governar! — Disse a última frase com o intuito de magoar e conseguiu. Sabia que no momento que citasse a mulher, isso iria derrubar Lexa.
— Então era isso que Nia queria o tempo todo? Que eu morresse para outro assumir meu lugar? Declarou uma guerra e enviou o exército de um homem só? — A outra rebateu. Tentava disfarçar a dor de suas palavras pois ainda queria arrancar de Clarke o plano central. Permanecia no escuro sem ideia com o que estava lidando.
— Claro que não, Lexa! Eu iria matar você e Nia declararia que foi ela. Tomando seu direito de comandante. Assumiria seu lugar e eu poderia viver em Polis em paz, com uma nova identidade, nova vida. Uma nova chance! — Clarke quase chorava. Chegou a suspeitar que sua dor era muito maior do que ela pensava. Seu coração se apertava cada vez mais. Esperava se sentir melhor diminuindo Lexa e tentando mostrar que ela era inferior à inteligência dela. De alguma forma, precisava vencer. Mas a satisfação nunca chegava.
— Nia sempre foi covarde, disso nunca tive dúvidas. Mas você, Clarke... Realmente acredita que uma líder que não é capaz de lutar sua própria guerra merece ser uma heda enquanto outra que sacrificou sua paixão por todo seu povo, não? — Clarke se surpreendeu quando Lexa admitiu que tinha sentimentos por ela e mais ainda com o tom de voz da dela. Falava tudo calmamente, como se fosse apenas uma conversa banal. — E quanto à Polis, sempre foi bem vinda lá.
— Se posso escolher, prefiro minha punição agora. — Clarke declarou. Não conseguiria ouvir mais declarações de Lexa, preferia a morte. Não queria enfrentar a realidade e aquele encontro estava longe do que ela esperava. Se não fosse Lexa morta, ao menos que se ajoelhasse por seu perdão — que seria negado — mas tudo que a menina fazia, era justificar os seus atos e isso a deixava louca.
— Não haverá nenhuma punição, você pode ir. — Lexa se virou e pegou um líquido vermelho, desta vez era vinho. Não podia prosseguir aquela conversa sem isso. Manter seu auto controle estava deixando-a louca.
— Como assim? Vim até aqui matar uma heda. Não tenho conhecimento total de suas leis mas acredito que a punição pra isso seja a morte. — Clarke estava completamente confusa com a reação da mulher à sua frente. Se sua missão era irrita-la, de fato não havia conseguido.
— E é. Mas considere isso meu pagamento pelas coisas que você diz que a obriguei fazer. Realmente sinto muito, Clarke. — Disse enquanto bebia seu vinho, de costas para a menina.
— Acha que isso é o suficiente? — Clarke disse calma. Mais do que se sentia por dentro, estava na verdade em transe com a forma que a conversa era levada.
— Nada será o suficiente, Clarke. Você nunca vai me perdoar se não considerar perdoar a si mesma primeiro. Mas se posso fazer alguma coisa, que seja isso. Pode ir. — Praticamente a expulsou e Clarke ficou sem reação. — Ah, mande beijos para Nia por mim, tenho certeza que ela ficará muito feliz em lhe ver sem minha cabeça em mãos.
— Talvez ela me perdoe. Afinal, estamos juntas. — Lexa se engasgou com o vinho e virou-se abruptamente para Clarke, os olhos completamente arregalados. E a menina sorriu, um sorriso tão largo que poderia apodrecer seu corpo inteiro. — Inclusive, de uma forma que eu e você nunca estivemos.
— Você não faria... Não seria tão baixa... — Lexa falava entre dentes. Clarke riu.
— Eu sou Lexa, acredite. Você não faz ideia do quão baixa você se torna quando não tem nada a perder. Mas acredite, é bem prazerosa a situação com ela... Nia sabe exatamente tocar lá em BAIXO. — Lexa avançou para cima dela e a segurou pelos ombros:
— NIA MATOU COSTIA! ELA A TORTUROU POR DIAS SÓ PARA ARRANCAR INFORMAÇÕES QUE PUDESSEM ME ENFRAQUECER ATÉ QUE CORTOU SUA CABEÇA E VOCÊ SABENDO DISSO, ROLOU EM LENÇÓIS COM ELA. DE QUE FORMA ISSO TE FAZ CRER QUE É MELHOR QUE EU, WANHEDA? — Lexa gritava. Não se importava em quem pudesse estar ouvindo e chorava copiosamente. Balançava o corpo de Clarke em meio ao discurso, que estava paralisada. Seu rosto demonstrando horror e choque. Até que finalmente a soltou. A menina percebeu que havia chegado longe demais. Queria machucar Lexa fazia tempo mas quando finalmente conseguiu, percebeu que não era capaz de ser tão cruel e sentir prazer nisso. Se sentiu mais suja do que quando perambulava sozinha na floresta, uma carne podre. Nia parecia sempre tão dócil com ela que pareceu esquecer suas atitudes em guerra. E foi então que viu certa verdade no que Lexa havia dito, Nia era de fato cruel e covarde. Havia deixado que ela fizesse tudo sozinha quando na verdade você precisa fazer por merecer o posto de comandante. Não respeitava as leis e crenças de seu povo. Como poderia governar?
— Lexa, eu... — Clarke tentou argumentar, pela primeira vez de forma realmente sincera. Mas Lexa estava irredutível, a dor em seu olhar era gritante.
— Saia! Apenas saia! Pegue minha desculpas, pesares e o que mais quiser levar de minha alma mas SAIA! — Clarke se perguntou a que ponto as coisas chegaram ali. Tudo o que ela queria era sentir a dor de Lexa, pensou que haveria prazer mas tudo que sentia era culpa. Sem mais o que dizer, assentiu e se dirigiu à saída. — Espere, Clarke. — Lexa disse enquanto secava suas lágrimas e Clarke fitou seu rosto. — Quero que mande uma mensagem para a Rainha do Gelo. Os termos mudaram e eu decido as regras agora. Avise-a que me encontre hoje mesmo, antes do pôr do sol na ponte ao Oeste. — Clarke assentiu. — E mais uma coisa...
— O que? — Clarke finalmente perguntou. Lexa a olhou com total desprezo e nojo ao dizer:
— Diga que a mandei ir à merda.
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