The Walking Dead - Rio de Janeiro/ Temporada II
1 Capítulo I - Junior
Notas iniciais
O barulho quente e acolhedor que estalava na fogueira afastou as preocupações de Junior.
Haviam montado o acampamento no topo de uma pequena montanha no coração da Floresta da Tijuca. Os dois irmãos puseram-se a trabalhar ainda de madrugada, montando as barracas e falando pouco. Era um dia quente de verão e os insetos zumbiam inquietos, mas Junior não para nem sequer para descansar. O Sol já estava baixo quando enfim sentaram junto à fogueira.
Junior sentia falta de conversar com a irmã. Clara sempre fora sua melhor amiga, mesmo antes do fim do mundo. Mas a menina de olhos azuis e cabelo castanho sentada ao seu lado não parecia mais sua irmã. A guerra havia destruído o que restara de Clara.
Aquele dia ainda fazia Junior acordar suado e trêmulo. Ele, sua irmã e o resto do grupo de sobreviventes em que estavam foram obrigados a participar de uma guerra e invadir a base do inimigo. Apenas os dois escaparam com vida. Sinceramente, nenhum dos dois realmente tinha certeza se os outros haviam morrido, mas não tinham visto mais ninguém durante a fuga do prédio em chamas.
Mas o pior de tudo era saber que aquele rosto nunca sairia de seus sonhos. Os dois irmãos haviam encontrado Zeus, o líder do inimigo, estirado no chão, afogando-se em agonia na própria poça de sangue. Um tiro perdido havia arrancado um pedaço de sua perna e sua orelha direita era apenas destroços ensanguentados. Ele chorou por misericórdia, implorou perdão e usou as últimas forças para pedir ajudar. Mas Clara sorria quase amigavelmente. Sem um único aviso, descarregou o resto do pente do rosto do moribundo. Desde aquele dia, Junior começara a perceber o quão pouco conhecia sua irmã agora.
Mas agora ele estava ali, sentado junto a uma fogueira aconchegante no meio de uma floresta.
E o pior de tudo, nem percebe a aproximação de dezenas de mortos guiados pela luz da fogueira e pelo cheiro de carne fresca.
A horda de cadáveres é completamente formada por ex-médicos e pacientes de um hospital em ruínas a poucas quadras de distância. A maioria está vestida com batas ensanguentadas e manchadas de vômito que escondem a finura de seus corpos apodrecidos. Alguns se deslocam do grupo principal e vagueiam sem rumo pelas ruas do centro, mas a massa popular ultrapassa o limite da cidade e começa a subir vagarosamente o morro em direção ao foco de luz brilhante no cume.
Junior ouve um deles pisar em um galho a poucos metros da clareira aonde está acampado. Ele tira os olhos cansados da fogueira e espia por entre as árvores escuras.
– O que foi isso? – pergunta ele, após concluir que o barulho era de fato real.
Clara está olhando para a direção oposta, mas se levanta no mesmo instante.
– Não sei – responde ela.
Junior puxa sua pistola e Clara faz o mesmo. Ambos se viram para ouvir a floresta.
O silêncio reina por alguns instantes.
– Pode ter sido só um pássaro – conclui ela, depois de alguns minutos – Ou apenas o vento.
Junior mantém a arma apontada para a escuridão mesmo assim.
– Podem haver mordedores nas redondezas.
Clara dá uma última espiada para a escuridão.
– Pouco provável – responde ela, fitando a fogueira – Demos duas voltas nas redondezas e nada...
O primeiro atacante salta da floresta babando e rosnando. Clara é pega no susto e cai de cabeça no chão duro. Junior, na fração de segundos que resta, tenta se dirigir até a irmã indefesa, mas sua ação é impedida pela chegada repentina de mais três outros mordedores que surgem da escuridão. Uma mulher e dois homens, todos com baba escorrendo pelo queixo e pingando nas vestes encardidas.
Junior age com extrema rapidez. Com um único movimento, ele tira a faca de caça do cinto e enfia a lâmina na têmpora da ex-paciente. Enquanto o corpo desaba no chão, o outro já se aproxima estalando a mandíbula a poucos centímetros da orelha de Júnior. Ele, rápido novamente, coloca o peso no pé direito e gira o corpo, acertando com toda a força o crânio do segundo mordedor. Sangue e fluidos cerebrais escorrem por sua mão.
O terceiro morto-vivo – um gordo enorme com metade do ombro em falta e tendões expostos – está perto demais para tentar qualquer golpe. Junior tenta saltar para trás e ganhas distância, mas acabada tropeçando em uma das lenhas em brasa e cai feiamente contra o chão.
A explosão de cores confunde os olhos de Júnior. Alguns pedaços da fogueira pisoteada saem voando pela escuridão da clareira. Mais mortos surgem da floresta. Junior procura sua irmã e a encontra a poucos metros de si, brandindo uma faca com uma mão e estancando o corte na cabeça com a outra. Ele tenta se levantar e correr atrás da irmã, mas o cadáver do gordo se joga sobre ele antes que consiga sequer mexer os olhos.
Por instinto, Junior coloca o antebraço contra a garganta do cadáver, impedindo a aproximação das mandíbulas negras. A faca de caça que herdara de seu pai sai voando de sua mão e aterrissa fora do alcance de visão. Ele tenta se concentrar e não perder o juízo, mas o cheiro de decomposição entope suas narinas e embaraça seu cérebro. Baba preta e gosmenta pinga em seu rosto, fazendo com que o estômago gire e o vômito suba para a garganta. Junior começa a entrar em pânico. Seus pulmões, comprimidos pelo peso do cadáver, gritam por ar. Sua mão livre arranha a terra batida à procura da faca.
Finalmente, seus dedos encostam-se à lâmina fria.
Junior rasga a garganta do cadáver com um único grito primitivo. Sangue escuro espirra pelo chão e cega parcialmente seus olhos. Ele rola para longe do cadáver e engatinha para o centro da clareira. O morto-vivo degolado se arrasta em sua direção, esticando as mãos retorcidas para a presa.
Junior retira a pistola do coldre improvisado, e dispara cinco vezes contra a testa podre do defunto obeso.
Nos quarenta segundos que ele levou para derrotar aquele mordedor, o acampamento improvisado explodiu em caos. Uma vintena de mordedores se encontrava na clareira e mais pareciam surgir a todo o momento. Clara já havia derrubado cinco e se aproximava para fincar sua faca no sexto. Era mais veloz e mais hábil que Junior. Descrevia arcos e giros ao redor da multidão, abatendo vários de uma única vez. Assim que o sexto corpo caiu no chão, Junior achou seguro voltar a ficar em pé.
– Economize as balas! – gritou Clara, indo se juntar ao irmão – Podemos resolver apenas com as facas.
Uma das barracas desabou e foi pisoteada pela multidão. Junior desobedeceu a irmã e disparou novamente contra os mortos. Quatro deles caíram, salpicando o chão de sangue escuro. Mas, a cada um que caia, cinco tomavam seu lugar.
– Se usarmos as facas, vamos morrer hoje! – gritou ele – Precisamos de um plano agora!
Clara destravou seu revólver e gastou a munição inteira numa fileira de cadáveres com roupa de enfermagem. Seus olhos azuis disparavam por todas as direções, procurando uma saída. Junior quase podia ver as engrenagens do cérebro da irmã girando loucamente.
– Fogo – respondeu ela, depois de mais uma sessão de tiros – Pegue aquele galão de gasolina. É tudo o que temos, mas vai servir.
Junior abriu caminho pela massa de mortos-vivos até a sua mochila de viagem encostada junto a um tronco nodoso. Ele espalhou o conteúdo da mochila pelo chão da clareira enquanto Clara se posicionava nas suas costas e lhe dava cobertura. A garrafa plástica contendo o resto da gasolina que tinham foi a última coisa a cair. Junior entregou-a para sua irmã e se pôs de pé novamente com a pistola em mãos. Juntos, os dois se puseram a rodar pela clareira, derrubando o maior número de mordedores possível.
– Quando a explosão acontecer – começou Clara – Corra o mais rápido que puder. Se nos perdemos, eu encontro você.
Junior abriu a boca para questionar, mas sua irmã já havia lançado a garrafa para dentro da multidão. Nem três segundos se passaram, e então o revólver de Clara fez o disparo.
A explosão atirou Junior contra a encosta do morro com uma força estrondosa. Uma enorme bola de fogo coloriu o escuro da noite. Mordedores foram lançados para o ar como se fossem enormes e horrendas bonecas de trapos. Ele tentou se por em pé, mas continuou caindo e rolando pela encosta. A visão estava embaçada e muito do que via era vermelho, amarelo, laranja e quente.
A consciência foi voltando aos poucos. Estava deitado de bruços na floresta. Seu rosto esta gosmento e pegajoso, informando-o que abrira a cabeça. Seus ouvidos estavam surdos e seus olhos viam duas coisas no lugar de uma. Junior engatinhou até uma árvore e usou o tronco para se levantar. O cume do morro estava a alguns metros de distância, completamente em chamas. Ele apertou os ouvidos contra a cabeça, mas a dor não diminuía. Ele começou a considerar seriamente a possibilidade de surdez.
Seus pés doloridos começaram a seguir na direção contrária ao incêndio. O vento gelado da noite lhe dizia que seu casaco havia sido queimado e rasgado no meio. Maldita Clara pensou ele Já não basta explodir o irmão, precisa sumir também? Ele tentou gritar por ela, mas a dor nos tímpanos piorava a cada som que fazia. Desorientado, Junior se viu descendo o morro aos tropeços, parando aqui e ali para pegar um ar. A irmã não estava em lugar nenhum, nem os mortos-vivos.
Uma linha rosa já iluminava o horizonte quando enfim conseguiu descer toda a encosta e chegar a uma rua asfaltada. Era uma parte comercial do centro, repleta de lojas escuras e vitrines estraçalhadas. Um mordedor parado junto à um hospital em ruínas prestou atenção em Junior e começou a seguir em sua direção. Junior quase agradeceu por ele estar ali. Iria por um fim no sofrimento. Todo o seu corpo estava repleto de machucados, seus amigos todos haviam morrido e sua irmã também, ou pior. Cada passo que o mordedor dava parecia uma infinidade.
A poucos metros de distância entre os dois, o mordedor foi atingido por um tiro certeiro e caiu com um barulho aquoso no chão.
Clara saiu de dentro da floresta e se aproximou do irmão. Pelo que Junior via, estava numa situação melhor que a dele. Suas roupas estavam chamuscadas em vários pontos e um arranhão cobria metade da sua bochecha. Mas parecia bem, quase feliz.
– Não seja tão melodramático, Junior – disse ela, abraçando o irmão – Eu ainda não morri!
Ele sorriu para Clara e tomou um gole da garrafa de água que ela oferecia. Ao longe, todo o topo do morro ardia em chamas.
– Para onde vamos agora? – perguntou ele, bebendo mais um pouco – Perdemos todos os suprimentos e roupas.
Ela lançou um olhar para a rua que se estendia atrás da dupla.
– Não sei – respondeu – Podemos fazer uma varredura nessas lojas aqui perto, mas acho pouco provável que acharemos algo útil. Mas antes disso, preciso entrar nesse hospital e pegar algo para parar o seu sangramento.
Ele apertou a palma da mão contra o corte que tinha acima da orelha. Clara bebeu um último gole e fez sinal para que Junior a seguisse hospital adentro. Juntos, os dois irmãos invadiram a recepção da clínica odontológica apontando as armas para os corredores escuros e a escada. Ele se aproximou das portas de um elevador e bateu com toda a força. O som foi alto o suficiente para acordar um gigante. Juntos, os dois esperaram. Nada.
– Acho que não ninguém aqui – respondeu ela, aos sussurros – Nem vivo nem morto.
A resposta dele foi interrompida por um lamento esganiçado e repleto de dor. Os dois irmãos trocaram olhares compreensíveis e subiram as escadas, seguindo o som. Ele os levou até um corredor escuro e sem fim, repleto de portas e escombros. O som aumentava cada vez mais até que os dois perceberam que se tratava de um homem chorando baixinho num dos consultórios. Junior esticou a mão para a maçaneta, mas Clara segurou sua mão e mostrou-lhe a arma. Seja o que for disse ela mentalmente esteja armado.
A sala estava escura e as paredes verde-limão estavam manchadas de sangue. O produtor daquele choro estava estirado no chão, segurando a perna esquerda que sangrava profusamente. Clara e Junior se aproximaram do moribundo.
– Fique calmo, senhor – começou Clara, estancando o sangue do homem com as próprias mãos – Estamos aqui, vai ficar tudo bem.
O homem abriu os olhos, um par de profundos lagos verdes.
– Graças a Deus – suspirou ele – Minhas preces foram atendidas. Dois anjos vieram me levar para o reino do criador.
Clara olhou para Junior pedindo ajuda.
– Ah... senhor – tentou dizer Junior – Está bastante ferido e...
O homem segurou nos ombros de Junior.
– Não importa – sua voz estava carregada de dor – Só prometam uma coisa, cuidem do Ned... Jurem por favor. Vocês vão cuidar do menino. Ah Ned, meu menino... meu menininho.
Clara afastou as lágrimas com a palma da mão.
– Podemos tentar salvá-lo senhor, mas vai ser doloroso – disse ela – E não temos certeza se vamos conseguir.
O homem olhou para o teto.
– Não importa agora – disse ele – Só cuidem do meu meni...
As últimas palavras se perderam no vazio.
Junior se levantou a ajudou a irmã a fazer o mesmo.
– E agora, o quê faremos? – perguntou ele – Temos que dar um fora daqui. Se não percebeu, aquilo era um ferimento à bala muito sério. Quem fez aquilo pode querer voltar para ter certeza.
Ela concordou.
– Mas antes – disse – Preciso fazer uma coisa terrível...
Antes que Junior pudesse intervir, Clara disparou contra o crânio do falecido provocando no irmão um enorme “déjà vu”.
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