The Walking Dead - Rio de Janeiro
2 Capítulo Dois - Grupos Organizados
No meu primeiro ano, o professor de educação física nos mandava correr em torno da piscina duas vezes para aquecer. Os alunos o odiavam e colocavam apelidos ridículos no professor. Achávamos que aquilo era besteira, como iríamos precisar correr tanto em nossas vidas. A partir daquele momento, comecei a amar muito meu professor.
Corremos como loucos pela escola. Gabriel vinha disparado atrás de mim e não se preocupava em derrubar os alunos em seu caminho. Sophia era rápida, desviava de seus obstáculos com naturalidade. Eu não sabia em que andar estávamos, pois o mundo não fazia mais sentido.
– Isso é empolgante! – disse Gabriel – Vale a pena viver agora!
Ele era maluco. Eu também era.
Descemos o último lance de escadas e pulamos para o pátio frontal. Havia uma tremenda confusão nos portões. Os alunos corriam como loucos para dentro do pátio, chegando a se pendurar para evitar ser pisoteado. Os “zumbis” haviam chegado à multidão e avançavam como loucos mordendo os poucos que ainda estavam de pé. Mais ao longe na rua consegui avistar um monte deles devorando o que sobrou da líder de torcida que iniciara o barulho.
– Temos que dar um jeito – disse – Isso é maluquice.
Sophia nos puxou para um canto.
– As pessoas lá fora morreram – disse – Temos que fechar o portão e proteger as grades daquelas coisas. Isso é desumano eu sei, mas é nossa única chance. Gabriel, você vai até a sala do diretor e conte tudo o que está acontecendo. Eu e Hugo vamos fechar os portões.
Ele concordou com a cabeça e disparou pelo prédio.
– Eu vou para o outro lado – disse Sophia – Fique com este portão. Boa Sorte!
Eu sorri e esperei ela cruzar o prédio, depois me virei para a confusão. Pelo que eu lembrava lendo o diário de sobrevivência do Gabriel, um “zumbi” só é morto quando atingido na cabeça. Procurei algo ao redor que me ajudasse a matar aquelas coisas. Perto de onde eu estava havia uma pilha de carteiras quebradas que iam para o lixo. Puxei uma delas e joguei-a com força na parede.
O ferro que sustentava a carteira se partiu e formou uma barra afiada. Puxei-a dos destroços e corri. Alguns alunos que assistiam a cena me imitaram e juntos corremos para o portão. Aquilo era muita maluquice, mortos não andam e não comem pessoas. Eu estava apenas tendo um péssimo pesadelo.
Aproximei-me do portão e enfiei a barra no crânio de um “zumbi” que forçava a entrada. O osso se partiu e ele caiu junto à mureta. Gabriel estava certo, aquilo era empolgante. Continuei matando os zumbis até que o portão se fechou com um clique. Eu e o monitor enfiamos as correntes e prendemos um pesado cadeado que seguraria bem a situação. Logo em seguida surgiram Sophia, Gabriel e o diretor, o Sr. Bellshoff.
– O que está acontecendo aqui? – perguntou ele.
– Eu já expliquei senhor – disse Gabriel – Você não quis escutar.
Eu me aproximei do Sr. Bellshoff.
– Senhor – disse escolhendo as palavras – Os mortos não estão mortos. Estão vivos e são perigosos. Eles se alimentam de carne humana e são guiados pelo cheiro e pelo barulho. Precisamos manter a escola segura.
Ele me olhou como se eu fosse louco.
– Isso é impossível! – respondeu – Vocês estão brincando. Estão suspensos!
– Diretor – disse Sophia – Lembra-se da Juliana?
– Oh sim – respondeu ele – Grande líder de torcida!
Ela apontou para o monte de zumbis comendo a Juliana na rua.
– Ali está ela – disse Gabriel.
Ele sentiu o choque da verdade. Aos poucos foi sentando no chão.
– Acredita em mim agora? – perguntei.
– Precisamos reunir os alunos no outro pátio para organizarmos a vida aqui – disse Gabriel.
Sophia olhou para ele.
– Mas e nosso pais? – perguntou.
– A partir de hoje – olhei para ela – Considere-se órfã.
...
O Sol estava baixando quando todos os alunos se reuniram no pátio inferior. As arquibancadas explodiam de conversas em voz alta e choro de crianças desoladas. Sophia, Gabriel e Eu estávamos sentados junto ao Sr. Bellshoff e os outros professores do colégio. Ele olhava para os alunos e não conseguia dizer uma palavra. O som não saía. Gabriel se levantou e começou a falar:
– Boa noite! – fez-se silêncio absoluto – Como muitos já sabem, sem explicação nenhuma os mortos voltaram a vida e estão pelas ruas comendo as pessoas. Somos um dos poucos lugares seguros da qual tivemos notícias.
– Como podem ter tanta certeza? – perguntou alguém.
– A escola tem televisores em todos os cantos. Nenhum deles transmite imagem alguma. Os rádios daqui não pegam nada. É impossível saber – disse Gabriel – Vamos organizar grupos para melhor aproveitamento da vida que nos resta. Precisamos de pessoas corajosas para buscar suprimentos e armas. Outras podem servir como vigias para os muros da escola. Quem quiser se candidatar se inscreva com os professores no fim do corredor. Caso vejam ou ouçam algo suspeito, toquem o sinal do colégio. Iremos montar o dormitório neste pátio e nas salas.
...
Puxei meu saco de dormir para junto de Sophia e Gabriel. Havia assinado meu nome no grupo para buscar suprimentos, achei que serviria para algo. Sophia estava dormindo, pois faria o próximo turno do grupo de vigilância. Gabriel olhava para mim.
– Vi como olha para ela – disse Gabriel – Você gosta dela.
Como ele sabia?
– Não – menti – A considero apenas minha amiga.
– Sei – sorriu ele.
Gabriel era inteligente.
– Isso é tudo o que você sonhou não é? – perguntei – O mundo dominado por mordedores.
– Mordedores? – estranhou Gabriel.
– Acho “zumbi” muito feio – respondi com um sorriso.
– Ok então, mordedores! – disse ele – Sempre sonhei com isso, mas nunca achei que fosse acontecer. É muito assustador.
Ele parecia mesmo assustado.
– Vamos sair amanhã de manhã para buscar comida. Vamos sair lá fora – continuou – Não sabemos se vamos voltar. Isso me assusta. Preciso continuar vivo pelo Bernardo.
Bernardo era o irmão mais novo de Gabriel, tinha só 10 anos.
– Então transforme essa necessidade de viver em um motivo – disse.
Ele ficou encarando o teto.
– Além do mais – falei – Os muros desta escola são fortes. Estaremos seguros aqui dentro. Vamos sobreviver a isso.
Houve um grito pavoroso e o sinal soou estridente.
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