The Walking Dead - Rio de Janeiro

17 Capítulo Dezessete - Verdade Limpa


Notas iniciais
Oxe, nenhum comentário nos capítulos anteriores =(

O corpo inerte de Bruno caiu estatelado no chão. Chamas vivas englobavam o herói como um abraço quente. Nem parecia ter sentido a dor do fogo. Morreu assim que a tocha tocou a ponta de seu pé. Era melhor assim. Morreu sem ser derrotado. Apenas fechou os olhos e descansou para sempre.

A multidão urrou de alegria ao ver o vencedor morto. Para eles, não importava o vencedor. A única coisa realmente importante eram as mortes, quanto mais sofrida melhor. Eu e os outros continuamos a olhar estupefatos para a cena. Não podia ser verdade. Menos um herói para lutar. Menos um sobrevivente para contar a história. Menos um amigo.

Segundos depois, Clara desenvolveu um choro fraco e suave com poucos soluços e sem se tremer. Lágrimas salgadas escorriam pelo rosto arranhado da menina formando um caminho na poeira. — Pobre menina! — Havia perdido mais do que pudesse ganhar. O mundo a estava forçando a ser o que ela não queria. Ele estava forçando todos nós.

– Bem – disse Zeus com um sorriso amarelo assim que a algazarra terminou – Isso foi surpreendente!

Gabriel se levantou. Reparei que, como Clara, tinha o rosto marcado pelas lágrimas.

– Seu Grande Filho da Mãe! – gritou ele – Você é um assassino!

A confusão explodiu nas arquibancadas com xingamentos e vaias. Zeus teve que atirar para o alto três vezes para restaurar o silêncio. O som das balas parecia ser uma marcha fúnebre para nós três.

– Agora sim, bem melhor! – sorriu Zeus – Peço que todos vocês permaneçam em silêncio para as notícias de hoje!

Ninguém se manifestou.

– Como já devem saber, a Nova Ordem não perdoa os culpados. Infelizmente, o garoto que venceu a luta estava destinado à punição. Isso tudo é o destino que os deuses traçaram para nós. Eu fui apenas o agente causador da punição.

Clara fitou o homem que falava. “Nova Ordem”, “punição”, “destino traçado”?! Este homem havia perdido a sanidade. Infelizmente, havia perdido a humanidade também.

– Para comemorar a celebração dos direitos – disse Zeus ao público – Vamos iniciar a missão “Ficha Limpa” esta noite. Peço que se arrumem para a viagem e consultem o oráculo antes. Boa noite.

As arquibancadas se esvaziaram com extrema rapidez. Os capangas de Zeus saíram do salão animados e agitados com essa “missão”. Talvez não fosse uma ideia ruim ter quase todo o exército fora por alguns dias. Esse curto espaço de tempo poderia ser a chance de escapar do shopping.

Tentei comunicar os outros, mas eles já haviam sido arrastados para a sala de cinema. Antes que eu pudesse me dirigir a cela, uma voz familiar me chamou por entre a multidão.

– Ei você, Hugo não é? – gritou Zeus – Preciso falar com você.

Fechei minhas mãos com força ao ouvir aquela voz. Minha chance se aproximava. Estaria sozinho com Zeus em seu escritório e seria fácil matá-lo. Encaminhei-me à loja que servia para ele de aposento e me sentei em uma das cadeiras plásticas roubadas da “Casa & Vídeo”. Ele entrou logo depois ainda com o sorriso feliz estampado na cara.

– Primeiramente devo apresentar meus pêsames! – disse ele com uma falsa cara de tristeza – Mesmo sendo eu o culpado pelo crime.

Tentei fazer uma cara de consolação, mesmo sabendo que meu desejo era enfiar o cano do revólver em sua narina esquerda.

– Em segundo lugar, peço a você que me diga aonde se manteve escondido todo este tempo – ordenou Zeus – Agora!

Dei uma risada forçada.

– Você pensa que depois da morte de Bruno eu lhe conte alguma coisa?! – respondi ardendo – Seu babaca escroto!

Zeus agiu por impulso e bateu com as costas da mão em minha bochecha. Caí da cadeira com estrondo e senti um dente se partir.

– Nunca ofenda um representante da Nova Ordem! – disse Zeus com raiva, se levantando – Agora, me diga!

– Vai...

O soco de Zeus atingiu a mandíbula inferior e travou os dentes. Logo depois, outro punho esmagou meu nariz fazendo o sangue brotar pelo carpete. Tentei atacá-lo também, mas fui impedido por um murro no olho direito.

– Seu desgraçado! – gritei com a boca ensanguentada. Atingi o rosto de Zeus e ele caiu por cima de sua mesa levando consigo uma pilha de livros encadernados. Levantei-me em um pulo e corri para um dos livros na intenção de jogá-lo contra Zeus. Infelizmente, uma enciclopédia pesada acertou meus pulmões com força. Todo o ar que eu tinha foi expulso para fora, dando tempo de Zeus se levantar e se recuperar para outra.

– Você podia ter me contado sem tudo isso – disse ele apontando para o sangue – Mas ainda posso usar seus amigos para meu plano!

Investi para ele gritando, mas fui impedido por um chute certeiro na boca do estômago. Senti minhas costelas quebrando e desabei direto no chão. Minha visão ficou turva e escurecida. O inchaço no olho diminuía ainda mais a visibilidade.

– Guardas, levem-no daqui! – gritou a voz de Zeus para seus capangas.

Duas mãos nada gentis me ergueram pelos braços e me carregaram para longe do escritório. Lembro-me de escutar o som das risadas distantes e dos passos ecoando até a sala do cinema. No caminho, ouvi alguns capangas comentando sobre a missão “Ficha Limpa”. Pelo que pude entender, envolvia algo parecido com “crianças” e “mortos”.

Instantes depois, fui jogado em uma sala escura onde vozes alteradas exclamaram de surpresa ao me ver. Clara e Juliana buscaram um pano úmido e depositaram ao redor do olho. O marinheiro, Oliver, saltou sobre as duas e bateu contra a porta xingando os capangas que haviam acabado de sair.

– Cara, o que aconteceu? – perguntou a voz de Gabriel – Vimos você entrando no escritório de Zeus e demorando a sair. Pensamos que talvez...

David me ajudou a levantar e me pôs em uma das cadeiras da sala.

– Ele me pediu para dizer onde nossos amigos estão – respondi com dor – Eu acho que a resposta que eu dei não foi muito convincente.

Clara tapou a boca com as mãos, horrorizada.

– Ele fez isso com você? – perguntou.

– Foi – respondi – E pretende fazer o mesmo com vocês também!

Juliana prendeu a respiração.

– Então nós aguentaremos – disse Gabriel – Vamos lutar!

Clara concordou em silêncio.

– Afinal, por que ele precisa saber do hotel? – perguntou Gabriel – Será que serve para essa tal de missão “Ficha Limpa”?

David trocou olhares com Oliver e Juliana.

– O quê vocês sabem sobre isso? – perguntou Clara para os adultos.

Juliana respirou fundo e olhou para a tela escura do cinema.

– Bem, assim que a cidade foi mantida em quarentena eu e os outros estávamos em um acampamento enorme perto da Avenida Brasil – contou Clara – Fomos sequestrados pouco tempo depois e ouvimos muito sobre esta missão. Felizmente, um dos guardas que traz a água era um pouco tapado e deu com a língua nos dentes. O verdadeiro objetivo da missão é limpar a ficha de cada prisioneiro, ou seja, aniquilar todo o seu grupo anterior.

Clara recuou, tremendo.

– Esse é o motivo da pergunta – esclareceu Oliver – Ele que acabar com seu antigo grupo para que o shopping não sofra risco de ser atacado.

Gabriel se levantou.

– Podemos dar uma pista falsa – contou ele – Mentir no interrogatório.

David negou com a cabeça.

– Isso não dá certo – disse – Perdemos nosso amigo com esse blefe.

A porta se abriu e dois capangas adentraram na sala escura.

– Você aí, menino feioso – gritou um para Gabriel – O chefe quer falar com você.

Gabriel olhou para todos e se dirigiu para a porta. Antes que pudesse encostar o pé no chão, Clara se meteu entre ele e os guardas.

– Eu vou primeiro! – ordenou ela.

Os guardas deram de ombros e arrastaram Clara para fora com violência. Assim que a porta bateu, Oliver soltou um palavrão alto e forte.

– Não podemos deixá-la sozinha com ele – disse Juliana – Temos que ajudá-la. Gabriel olhou para a porta.

– Não devia tê-la deixado ir – falou – Eu deveria estar lá apanhando.

A sessão de Clara durou apenas dez minutos. Assim que a porta da sala se abriu permitindo a passagem dela o som de motores ecoou por todo o prédio. Ao longe, era possível ouvir risadas altas e bêbadas dos olimpianos se preparando para o combate. Lágrimas escorriam silenciosas pelas bochechas da menina assim que ela se sentou.

– E aí? – perguntou Gabriel, curioso – O que você disse a eles?

Clara fungou.

– A verdade – disse ela – Eles estão indo para o Copacabana Palace!

Notas finais
Próximo Capítulo: O ataque de Zeus tem consequências para todos!!!!