The Unholy Girl

1 Monique - Dia 0


Hoje é um dia importante para mim. Hoje, eu vou dar um grande passo na minha vida.

Mas quem sou eu, que tanto falo?

Meu nome é Monique Lynx. Tenho 22 anos, moro numa cidade pequena do Missouri, Cartage. Minha casa é a A08 em um condomínio de casas e sobrados localizado próximo ao Rio Mississipi. Sem pais ou parentes por perto, moro sozinha, e consigo me sustentar muito bem trabalhando no jornal local.

Acabei de sair de um relacionamento difícil. A relação, em si, era fácil. Mas sair dele... complicado. Richard era seu nome. Educado, romântico... um sonho de consumo para qualquer mulher.

Nesse momento, estou sentada no enorme tapete felpudo que cobre minha sala de estar. Meus cachos e ondas ruivas estão presos de qualquer jeito num rabo de cavalo desleixado. Estou observando atentamente a TV, sintonizada num canal desativado. Se você não sabe o que se vê num canal assim, é aquela clássica tempestade de chuviscos, chiados e ruídos, uma tela preta e branca, fora de sintonia. Ainda que não haja nenhum motivo aparente para eu estar assistindo à isso, eu estou aqui, esperando. Está bem, não sei exatamente o que estou esperando, mas saberei quando acontecer.

Certa vez, um amigo me disse que às três da madrugada, os espíritos e demônios estão mais fortes. Agora são, precisamente, 3:07 da manhã. Não sinto medo. Não estou insegura.

Há poucos meses, num fórum online, conheci duas mulheres que descobri serem minhas vizinhas: Meg e Lara. Nos tornamos... amigas. Nos reuníamos na casa de uma das duas, sempre. Não demorou para que eu compartilhasse com elas meus sentimentos e mágoas pelo término do meu namoro com Richard. Pelo que percebi, elas sentiram o ódio — que um dia fora amor — nas minhas palavras.

E então, foi a vez delas de me revelarem algo. Naquele dia, estávamos na casa de Meg. Ela me trouxe uma pequena pilha de livros encapados por couro, um era grande, o maior, com aparência mais antiga, e os outros não se destacavam tanto assim. Ela folheou um ou dois livros menores antes de abrir o que tinha me chamado a atenção. Quando escolheu a página, virou o livro pra mim, e eu observei atentamente a gravura na parte superior da página esquerda. Claramente, um casal. A mulher vestia branco, mas uma mancha vermelha em seu peito, o redor de um buraco — onde possivelmente deveria estar o coração — preenchido de vazio. Sua expressão, uma mescla de dor e ódio. Uma das mãos segurava uma linha fina, tênue, que ia até a perna de um corvo. O homem estava no chão, agonizando, esticava uma das mãos segurando um coração ensanguentado, enquanto o corvo bicava, furava e destruía o seu.

Para minha própria surpresa, não achei aquela imagem perturbadora ou doentia. Mas antes que eu pudesse ler algo do livro, Meg o fechou na minha frente com um baque surdo.

- Monique, nós entendemos o que você sente. E o que podemos te propor, não é só vingança, é equilíbrio.

Ela falou tão calmamente, e se inclinou um pouco para segurar minha mão.

- Se você estiver disposta, nós vamos mostrá-la o caminho.

Naquele dia, naquele momento, tudo que passava pela minha cabeça era Richard, e tudo que ele fez comigo. Lara segurou minha outra mão, e estavam as duas olhando para mim, esperando uma resposta. Temi, por um segundo, mas quando acenei com a cabeça, um leve sorriso escapou dos meus lábios, assim como dos das minhas amigas também.

Hoje é um dia importante para mim. Hoje, eu sei que a mudança na minha vida não tem volta. Hoje, eu vou me vingar do meu ex-namorado.

Hoje, vou me entregar de corpo e alma.