A última coisa que me lembro é da dor dilacerante do tiro que recebi.

Quando acordei era de manhã. Demorei para entender e organizar os fatos, mas quando me mexi e senti aquela dor no abdômen, lembrei de tudo.

Aquele homem executou os irmãos mais novos de T.E.C..

Levantei com a maior força que encontrei, mas não consegui conter o grito de dor. Erik veio correndo e me deitou novamente.

— Não se mexe, Sam. – ele levantou minha blusa. – Droga, tá sangrando. Jay! Traz a caixa de primeiro socorros.

Jay veio correndo. Seus olhos estavam marejados. Eu só queria dizer: não chore pequeno, tudo vai ficar bem. Mas não conseguia.

Erik trocou os curativos.

— Não tenta levantar.

— Erik. Cadê o T.E.C? – falei com dificuldade.

— Falamos disso depois. Descansa um pouco.

Adormeci, mesmo não querendo fazer. Abri os olhos outra vez. Jay dormia em sua cama. Uma única luz era a fonte da casa e ela vinha da mesa de Erik. Ele parecia tentar se concentrar em algo, mas sem sucesso.

— Erik...

Ele se virou rapidamente e veio em meu encontro.

— O quê eu disse sobre não se levantar? – ele me ajudou a descer as escadas.

— O quê houve? – perguntei assim que sentei no sofá. – Me lembro do que aquele homem fez aos irmãos do T.E.C. e depois eu apaguei.

— Estávamos pulando a grade. Você era a mais lenta, então teve dificuldade, John pegou a arma do guarda e atirou em você. Você caiu e bateu a cabeça. – Erik olhava o chão. – Perdão, eu jurei proteger você e acabou que você levou um tiro. Jurei proteger o T.E.C, o Dylan e o Kalel, mas deixei eles serem executados...

— Erik, não foi sua culpa...

— Foi sim. – lágrimas escorriam de seu rosto e pingavam no chão.

Me arrastei no sofá e sentei mais perto dele para que eu o abraçasse sem sentir tanta dor.

— Ele mesmo disse que havia sido uma armadilha. Ele sabia que iríamos naquela noite e nos esperou. – olhei minha mão e depois da de Erik. – Podemos voltar no tempo...

— Não, Sam! Não cogite essa ideia. As realidades já estão bagunçadas demais.

— Mas podemos salvar Dylan e Kalel!

— Não, não podemos! Eles se foram! – Erik levantou bruscamente e foi para a sacada.

Jay havia acordado e observava tudo escondidinho lá de cima. Bebi um copo d'água antes de ir até ele.

— Obrigada por ter ajudado a tratar de mim.

Ele me olhou espantado e depois desviou o olhar.

— Não há de quê.

— Onde está a Ashley?

— Ela sumiu. Não a vemos faz dias.

Dias? Há quanto tempo estou dormindo?

— Ela é esperta. Já, já volta. – ele disse enquanto abraçava as próprias pernas.

— Você não gosta de gritos? Sei que parece uma pergunta boba, mas vejo que você fica muito incomodado. – me sentei na beirada da cama.

— Mamãe e papai brigavam muito antes de morrerem. Mas não foi sempre assim.

— Entendo...Bom, você deveria descansar.

Ele levantou e foi até sua cama.

— Boa noite, Sam. Fico feliz que não tenha morrido.

Eu não sabia o quê responder, então me limitei apenas a sorrir comigo mesma.

Eu escutava vozes vindas do andar de baixo.

— Você tem que fazer isso, Erik. – eram súplicas de Yano.

— Já disse que não posso. Isso pioraria tudo.

— Você só está pensando no seu próprio umbigo! Sabe a dor que T.E.C está sentindo agora?

— Sei exatamente como é! Eu já passei por isso duas vezes!

Yano me viu de pé na escada.

— Continuamos depois. – ele saiu e bateu a porta.

Erik não me disse bom dia, então também não lhe dei. Coloquei o comunicador na orelha.

— Bom dia, Samantha. O que posso fazer por você hoje?

— Só me distraia.

Diana colocou vários clipes de músicas totalmente diferente de qualquer coisa que eu já havia ouvido. Depois de alguns minutos, cansei e desliguei.

— Como você está? – Erik estava apoiado na bancada e de braços cruzados.

— Está doendo bastante, mas já me sinto melhor.

— Que bom. É a nanotecnologia do Jay, agradece ele depois.

— Farei isso.

— Sobre noite passada...

— Esquece, Erik. Vamos fingir que nunca aconteceu. Está sendo difícil pra todo mundo.

Ele concordou e silêncio.

— Vou tomar um pouco de ar. – levantei e fui até a sacada.

Subi as escadas e parei no telhado. A vista era belíssima. O vento batia forte e balançava os lençóis brancos. Em um desses movimentos, vi Ashley, encolhida em um canto. Me aproximei com cuidado.

— Ashley?

Ela só olhou para mim por uma fração de segundo e depois voltou para seu mundinho.

— Se quiser conversar, estou a ouvidos. Tá tudo bem difícil.

Eu ia deixá-la quietinha, mas quando eu estava voltando, ela perguntou:

— Eles sofreram?

Eu sabia de quem ela estava falando. Era de Dylan e Kalel. Dois adolescentes com a vida inteira pela frente.

— Não, foi rápido. – me virei para ela.

— Bom, fico menos angustiada. – ela estava desfazendo as defesas. – E você? Como está?

— Bem melhor. Ainda dói, mas nada comparado a antes.

— Jay é realmente talentoso com nanotecnologia. E eu o criticava ainda...Sou muito besta.

— Não fale assim. Você é Incrível.

Seus olhos azuis se encheram de lágrimas que rolaram pelo seu rosto.

— Não chora. – eu sentei no chão junto a ela e a abracei.

Ashley era muito nova. Eu não sabia o perrengue que os irmãos Parker haviam passado, mas não era nada fácil.

— Uma vez, eu estava chorando muito. Eu havia caído de uma árvore e minha mãe cuidou de mim. Ela me disse que a dor é temporária, e ela estava certa. Depois da dor, vem o aprendizado. – eu falei.

— Sua mãe era muito inteligente.

— Mas não o bastante pra prestar atenção no caminho que estava chegando. – eu havia perdido o rumo. – Desculpa.

— Tá tudo bem. – ela esfregou os olhos. – Meus pais foram assassinados.

— Que horror!

— É. – ela brincava com a beirada do vestido. – John Carter matou eles. Só sei disso. Erik não nos conta os detalhes.

— Acho que é melhor assim.

— Também acho. – ela suspirou. – Agora somos dois a menos. Já fomos um grupo tão grande. Ele tinha várias meninas, mas uma em especial.

— Quem era essa menina especial ? – perguntei.

— Leslie. Namorada do Erik. John matou ela também. E desde que ela se foi, eu me sinto muito sozinha. O Erik também deve se sentir. É por isso que eu fico falando que você é a namorada dele. Você é bonita e me lembra ela. Tem a mesma coragem.

Leslie. Uma menina a qual nunca conheci e nunca conhecerei. Outra flor arrancada muito cedo. E o jardineiro do mal, era o mesmo.

— Como era a Leslie?

— Tinha cabelos ruivos e cacheados. Era ágil e determinada. Graças a ela que conseguimos a tecnologia que temos hoje.

— Leslie era uma Guerreira Optimus.

Ashley abriu um sorrisão.

— Eu imagino como T.E.C esteja se sentindo. Ele perdeu tudo, não tem mais ninguém. – eu disse.

— Depois que a Leslie morreu, ele se fechou um pouco, mas agora... – ela suspirou. – Mas ele ainda tem a gente. Somos uma imperfeita família feliz.

— Tem razão.

Com as palavras de Ashley, percebi o quanto eu era egoísta. Eu havia sacrificado meu pai por um futuro incerto, sem nem hesistar.

— Eu ganhei isso da minha mãe, antes de ela morrer. – retirei a presilha de borboleta e a coloquei no cabelo de Ashley. – Agora é sua.

— Mas, Sam... – ela não retrucou, aceitou o presente de bom grado e me deu um beijão.

O céu estava ficando escuro.

— Acho que vai chover, vamos voltar pra dentro.

Ashley me ajudou a levantar e a descer as escadas. Fechei a porta de vidro. Ela exibia a presilha nova para Jay e Erik.

Erik sorriu para mim como um agradecimento. Sorri de volta.

Ele preparou a janta, e mais uma vez, negou minha ajuda. Jay e Ash caíram no sono bem rápido.

— O quê você fez pra ela sorrir daquele jeito? – Erik sentou do meu lado.

— Só a escutei. Ela é uma pré-adoslecente, a cabeça fica confusa.

— Você tem mais sucesso nisso do que eu. Quando tentei, ela mandou eu me ferrar.

Nós rimos.

— Obrigada por tudo que está fazendo por mim. – eu disse.

— Não estou fazendo nada demais.

— Só salvando minha vida. – dei uma cotovelada nele.

Ele encostou a cabeça no sofá e ficou me observando.

— O quê foi? – perguntei entre risos, tentando disfarçar a timidez.

— Ash tem razão. Você é mesmo muito bonita.

Meu rosto queimou. Me senti mal, parecia que iria vomitar.

— Coisa da sua cabeça.

— Não, é sério. – ele segurou meu queixo e o virou para ele. – Mas não só de beleza, vive o homem. Você tem uma coragem acima da média. Nunca havia usado uma arma, mas mesmo assim, usou.

— Obrigada. – sorri tímida.

Ele soltou meu queixo. Eu encostei a cabeça no sofá também.

— Sabe a primeira coisa que pensei quando te conheci? – perguntei.

— Não faço ideia.

— No quanto seus olhos eram bonitos.

— Eu sei disso.

— Ué, como assim?

— Li seu diário.

Meu queixo caiu. Meu rosto ficou absurdamente vermelho.

— Erik, não...Você não fez isso.

Ele gargalhava.

— Não aguentei. Me senti tentado. – ele se endireitou. – Acha mesmo que tenho olhos verdes igual montanhas?

Taquei uma almofada nele.

— Meu Deus, que vergonha. – levantei do sofá.

— Aliás, quem era o cara que espalhou fotos suas? Quero saber o nome pra quando você voltar pra sua Terra, eu ir junto e dar uma surra nele.

— É o Scott. Babaca misógino.

— Anotado.

Voltar para minha Terra? Eu nem havia pensado nisso mais. Sentia que ali, junto do grupo, era meu lugar.

Me sentei no sofá novamente. Erik ria de mim ainda.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro. – ele respondeu.

— O quê houve com seus pais?

Ele ficou sério.

— Bom...

— Se não quiser contar, tudo certo.

— É melhor você saber de uma vez. – ele apoiou os cotovelos nos joelhos. – Meu pai e minha mãe haviam inventado um aparelho revolucionário.

"Meu pai, muito amigo de John Carter, confiou nele para contar tudo. O estabilizador de matéria, seria uma revolução no mundo tecnológico.

Meus pais almejavam a paz a nível universal. Queriam usar esse aparelho para unir todas as Terras em uma só. Fazendo com que todos estivessem juntos. Carter, porém, havia perdido sua filha alguns meses antes. Ele viu o estabilizador como uma fonte primária de tempo. Ele queria voltar ao passado e salvar sua filha. Meu pai descobriu, e negou-se a usar sua criação para mexer no espaço-tempo. Carter ficou possesso e jurou destruí-lo.

Algumas semanas depois, ele invadiu nossa casa e matou meus pais silenciosamente. Eu, percebi que havia algo errado, então fugi com Ash e Jay. Ele assumiu o papel de CEO da empresa que meu pai deu sangue, suor e lágrimas para erguer."

— Sinto muito, Erik. Faz quanto tempo isso?

— Dois anos. Desde então temos vividos escondidos. Carter me acusa de ter matado meus pais pra ficar com a empresa.

— Ele é um monstro.

— De fato. – ele cruzou os braços. – Aí conhecemos o Optimus. Eles nos acolheram.

— Ashley me contou.

Um aparelho começou a apitar freneticamente. Erik levantou e o desligou.

— O quê é isso?

— Ash chama de Caça-Tempestade. Mas é um captador de chuvas cósmicas.

Minha cara de confusão fez com que ele explicasse.

— Lembra que eu disse que você estava criando bolhas de anormalidades? – concordei com a cabeça. – Essas bolhas explodem e criam chuvas cósmicas. Tempestades capazes de varrer qualquer realidade.

Tapei a boca com as mãos. Minhas aventuras poderiam destruir vidas.

— Esse apito quer dizer que tem uma Chuva chegando nessa realidade. Mas não acredito que seja sua culpa, John anda fazemdo coisas suspeitas.

— Ele está alterando alguma máquina pra trazer a filha dele de volta? – perguntei.

— Deve ser por aí. Não tenho certeza. – ele coçou a nuca. – Acho que já deu nosso horário. Os olhos de montanha aqui precisa descansar. – ele disse rindo.

Mostrei a língua e subi as escadas.

— Boa noite, Sam.

— Boa noite, Erik.

Quando deitei na cama, ativei Diana e pedi que ela tocasse as músicas mais românticas que encontrasse.