The Time
2 I
Notas iniciais
Fui para a escola. Parece surreal que alguém com poderes como o meu, tenha que estudar (ou não). Eu não me vejo como uma super heroína. Aliás, acho que se existissem super-heróis, eles seriam igual os da série The Boys, totalmente problemáticos.
Estar no terceiro ano é algo complicado. Eu deveria estar usando meu tempo livre para planejar meu TCC ou estudar para as provas complicadíssimas, mas não, uso eles para voltar no tempo e ver tudo que nossos ancestrais fizeram de errado.
O ônibus parou na casa da minha amiga, Amanda. Ela entra e vem rapidamente até nosso assento de costume. Eu não saberia viver sem ela.
— Você não sabe o que eu fiz. – ela fala sentando-se.
— Vindo de você, já imagino. – fecho meu livro e olho para ela.
Ela retira a touca, deixando cair os cabelos cor de azul.
— Amanda! Sua maluca! – falo passando a mão em seus cabelos.
— Ficou demais, né? – ela falou com tanta certeza, que nem esperava uma resposta.
— Total! E sua mãe? Deixou?
— Ela não sabe. – ela soltou um risinho.
— Só você mesmo. – revirei os olhos.
Amanda é a minha melhor amiga desde que me entendo por gente. Ela é considerada uma das meninas mais bonitas da escola. Seus cabelos, antes do azul, eram loiros e seus olhos são castanhos tão claros, que quase viram cinza. E bem, eu sou do grupo das normais. Não sou feia, porém não sou estonteante como Amanda. Meu cabelo castanho fica no mesmo penteado de sempre, um rabo de cavalo com meu prendedor de borboleta enfeitando. Meus olhos também são castanhos, mas tão escuros, que uma vez recebi o apelido de olho de cobra. Nada legal para uma menina de dez anos, mas eu superei.
O ônibus seguiu caminho até a escola. Os alunos iam rapidamente até suas salas, enquanto outros pareciam não notar o tempo passar.
— Sam... – começou Amanda enquanto andavamos pelo corredor. – Somos amigas, certo?
— Claro que somos, Mandy. – olhei em seus olhos. – Por que tá falando isso?
— Sinto você meio distante ultimamente...Como se escondesse algo de mim.
Engoli em seco. Amanda é minha melhor amiga, mas não sei o que acontecerá se ela souber dos meus poderes.
— Não tá rolando nada.
A não ser eu voltando no tempo e impedindo a morte do Kennedy.
— Confie em mim. – coloquei a mão em seu ombro. – Você é minha melhor amiga e isso nunca vai mudar.
— Então tá bom. – ela sorri. – Vamos pra sala.
O dia correu bem. As aulas são chatas como sempre, mas não teve nada de tão cansativo. Quando estava saindo pela porta e olhei para a rua, eu vi a pessoa de novo.
Vestida com aquela capa preta, mas dessa vez, sem pano no rosto. De longe, era impossível distinguir, então fui correndo em sua direção.
— Samantha! – gritou Amanda. – Tá indo pra onde, maluca?
— Te vejo depois. – gritei sem olhar para trás.
A pessoa quando viu que eu corria em sua direção, saiu correndo também.
— Ei! – eu gritava enquanto corria. – EI!
Ele não se virou. Joguei minha bolsa no chão, já que estava me atrapalhando a correr.
O sol estava começando a se esconder e o dia virar noite.
Ele virou em uma rua mal iluminada, liguei a lanterna do celular, mas foi em vão, ele havia sumido.
— De mim esse maluco não foge.
Fechei meu olhos e voltei no tempo. Eu estava na rua que ele ia virar, então me escondi em um canto para esperá-lo.
Ouvi passos. O meu coração acelerou.
— Ué...Onde ela tá? Será que...
Ele se virou para o canto que eu estava, pulei em cima dele. Caímos no chão e começamos a rolar.
— Quem é você? – gritei. – O que quer comigo?
Ele usou toda sua força e me jogou para baixo.
— SAÍ DE CIMA DE MIM! SOCORRO....SOCOR...
Ele tapou minha boca com a mão.
— Fica quieta, menina maluca.
É homem. E que homem.
A voz masculina era grave e marcava presença. A luz da rua não me deixava ver seu rosto com clareza, mas jurava que seus olhos eram verdes.
— Vou tirar a mão e você não vai gritar. – concordei com a cabeça.
— Quem é você? O que quer?
— Calma, princesa. Vamos sair daqui e te explico tudo.
Ele me ajudou a levantar e fomos até a rua que estávamos antes. Peguei minha bolsa e escondi um spray de pimemta no bolso da frente da minha calça.
— Guarda isso.
— Isso o quê? – dei de louca.
— Esse spray de pimenta. – ele apontou pro meu bolso. – Se eu quisesse te matar, já teria feito.
— Quem é você?
Ele fez sinal com a mão para a direção da escola. Começamos a caminhar.
— Erik. Tenho os mesmos poderes que você.
Meu queixo caiu, literalmente.
— Fecha a boca. – ele falou, grosseiramente.
— Fecha você sua boca. – parei em sua frente com os braços cruzados. – Me persegue. Fala dos meus poderes e ainda age grosseiro? Sem falar que anda parecendo um motoqueiro dos anos 50.
Ele corou. Achei fofo, não nego.
Com a luz mais forte, reparei em seu rosto. Ele possuí cabelos pretos cortados e uma leve franja lateral e seus olhos eram realmente verdes.
— Quer uma foto? – ele perguntou ironicamente.
— Não deve existir câmera boa nos anos 50.
Ele passou por mim e disse:
— No meu tempo, tem câmeras mais avançadas que um cérebro humano.
Sua declaração tinha um quê de verdade.
— Como assim? – fui correndo até acompanhá-lo.
— Você ainda não me disse seu nome.
— Samantha.
— Bom, Samantha. Eu não sou dessa Terra. Sou de outra, da 718.
— Outra realidade?
Ele assentiu.
— E qual é essa Terra?
— 610.
— Como você veio parar aqui?
— Senti seus poderes sendo usados e então vim. Mas antes eu não tinha eles, acho que os ganhei quando você usou o seu. Tipo reação em cadeia.
— Eu entendi...Caramba, será que nas outras realidades tem pessoas com o mesmo poder que o nosso?
— Até onde eu sei, não.
— Mas espera. – parei de andar. – Se o nosso poder é voltar no tempo, como que você veio para outra realidade?
— Aprimorei os poderes. Você também é capaz. E quem sabe, sejamos capazes de avançar o tempo e ver o futuro?
— É muita coisa. – sorri em sinal de desespero olhando pro chão.
— Realmente. – ele também sorriu, mas pareceu verdadeiro.
Continuamos a caminhar.
— Essa sua Terra...Ela é igual a minha?
— Nem de longe. A minha é muito avançada cientificamente.
— Tipo aqueles filmes que mostram carros voadores?
— Por aí.
Olhei em seu pulso e vi um relógio bem diferente, não marcava as horas e era diferente de qualquer coisa que eu já vi.
— O quê é isso? – apontei para seu pulso.
— Um estabilizador de matéria.
Minha cara de confusão fez com que ele explicasse.
— Quando eu vou para qualquer realidade, é perigoso que partes minhas fiquem na anterior. Então essa peça impede isso.
— Que interessante. Tem tanta coisa que eu não sabia. Fico até com vergonha de usar meus poderes pra brincadeiras.
— E essas suas brincadeiras causaram muitos problemas, srta. Samantha.
— Como assim? – olhei espantada.
— Chegamos na escola. Sua amiga está a sua espera.
Olhei e vi Amanda olhando de um lado para o outro procurando por mim. Quando bateu os olhos, veio correndo.
— Até. – disse Erik.
— O quê? Como assim? Como te acho?
Ele já havia sumido, então tive a conclusão de que ele viria atrás de mim.
— Onde você estava, Samantha? – Amanda parecia à beira de um ataque de nervos.
— Encontrei um amigo. – menti, de novo. – Desculpas, não quis te deixar preocupada.
— O importante é que você tá bem. – ela me abraçou. – Minha mãe veio buscar a gente. Vamos.
A mãe de Amanda me levou até em casa. Meu pai estava dormindo no sofá e nem deve ter reparado que demorei mais que o normal.
Desde que ganhei meus poderes, não cogitei a ideia de salvar minha mãe. Mas aquela noite me influenciou a fazer. Talvez trazê-la de volta, fizesse minha família voltar a ser como era dez anos atrás.
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