Os aplausos se ergueram quando o garoto chamado Charles encaminhou-se para o centro da Arena juntamente com Jimmy.

Mark estava junto com os outros que iam participar da disputa. Do lado deles, a uma pequena distancia, estavam os seus oponentes. Ele se sentia inquieto e trêmulo. Não acreditava que havia concordado em participar de mais uma luta. Por que havia feito isso? Era óbvio que iria ser derrotado facilmente, principalmente quando o seu adversário era Henry, que tinha consigo o deus da força. Todos ali iriam rir dele... mais uma vez. Mas agora não havia mais jeito, ele tinha que lutar.

Jimmy e Charles se puseram de frente, um para o outro, cumprimentando-se com a cabeça. Lisa estava no meio e sorriu para os dois competidores, perguntando:

— Armas?

Jimmy balançou a cabeça em negativa, um leve sorriso se abrindo em seu rosto. Já Charles disse que sim, e logo Martin trouxe espada, um escudo de bronze, capacete e um peitoral metálico. Garotos e garotas na arquibancada aplaudiram dando gritinhos.

Martin afastou-se de ambos e anunciou:

— Deus do combate contra o deus do fogo. Preparados?

Charles e Jimmy assentiram.

Mark estava ansioso para ver como Jimmy iria se sair. Mas, parte dele não estava muito empolgado. Jimmy sempre se dava bem na Disputa de Guardiões. Sempre fora um adversário difícil de ser derrotado por causa dos seus poderes sobre o fogo. Não iria ser agora que ele iria perder.

Sem saber por que, seus olhos se fixaram no sr. Austin, sentado, olhando para um ponto fixo no chão. O que havia de errado com ele? Será que pressentiu que Mark iria ser derrotado na luta?

Ele próprio riu disso.

Como se fosse necessário alguém pressentir que vou ser derrotado, pensou Mark.

Um vento frio varreu o ambiente. Uma nuvem cobriu a lua, e isso fez com que o ambiente ficasse mais escuro e sombrio. As sombras se espessaram. Mark sentiu, lá no fundo, que algo não estava certo.

Um som de sino foi ouvido, e a luta começou.

Gritos se ergueram da arquibancada quando Charles e Jimmy se moveram em círculos, um encarando o outro. Charles manejava a espada com maestria, esperando o seu oponente atacar primeiro. As mãos de Jimmy incendiaram-se, tornando-se flamejantes. Pequenas chamas de fogo dançavam por entre os seus dedos.

Então ele atacou, lançando uma pequena bola de fogo em direção a Charles, que naturalmente levantou o seu escudo, defendendo-se. Dessa vez, foi a vez de Charles atacar. Avançou rapidamente em direção a Jimmy brandindo sua espada, e quando este recuou, Charles jogou o escudo em sua direção, atingindo-o no peito. O garoto caiu de costas com um gemido doloroso.

— Ai! — murmurou Graham, ao lado de Mark. — Isso deve ter doído.

— Você acha? — replicou Mark, arqueando as sobrancelhas.

Ele olhou para Trinity que estava acima do sr. Austin na arquibancada. Ao seu lado estava Agnes, com a boca aberta, o olhar perplexo e linda como sempre. De repente algo chamou a atenção de Mark na entrada da Arena. Ele pensou ter visto algo passando rapidamente do lado de fora, como um vulto. Um calafrio subiu por suas costas.

— Uoouu! — gritou Graham, juntamente com a multidão.

Mark voltou-se para a luta, e viu Jimmy de pé, com o seus braços em chamas até o cotovelo. Ele lançava jatos de fogo constantemente contra Charles, que se protegia com seu escudo, o qual já estava soltando fumaça.

— É isso ai, Jimmy! — gritou Agnes, da arquibancada. — Acaba com ele!

Jimmy cometeu o erro de olhar em direção a ela. Charles, aproveitando o momento de distração do oponente, deu-lhe uma rasteira fazendo-o cair. Pegou sua espada e tocou a ponta da lâmina no pescoço do garoto caído.

A multidão silenciou-se. Os únicos sons eram o da respiração ofegante dos dois.

— E aí? — disse Charles, o suor saindo de dentro do seu capacete. — Se rende?

— Claro... — disse Jimmy. — que não.

Suas mãos incendiaram-se outra vez, e Charles recuou soltando um grito quando percebeu que de dentro do seu escudo começou a sair fumaça. Ele largou o escudo no chão, e este foi envolvido pelo fogo, derretendo-se.

— Ah, seu idiota! — gritou Charles. — Vai pagar por isso.

Ele avançou furiosamente contra Jimmy, desviando-se das bolas de fogo. O chão ao seus pés explodiu em uma coluna de chamas, mas Charles saltou para o lado. Quando conseguiu se aproximar o bastante, deu um salto em direção a Jimmy, fazendo um corte em seu braço direito e depois o chutando no peito, mandando-o para o chão outra vez. Os gritos de animação se elevaram da arquibancada. Charles pôs o joelho no peito de Jimmy e a lâmina em seu pescoço.

Martin levantou a mão e começou a contar.

— Três, dois... um...

O som do sino ecoou, e Charles levantou-se, vitorioso. A multidão estava aos delírios. Lisa e Frank foram ajudar Jimmy a se levantar.

Mark e Graham se olharam, confusos.

— Jimmy foi derrotado facilmente? — indagou Graham. — Como assim?

— Eu não sei. — murmurou Mark. — Mas isso é estranho.

Jimmy aproximou-se deles, o rosto vermelho e pingando de suor.

— Bem... — disse ele. — Não foi como eu esperava.

— Não foi mesmo. — disse Mark. — Acho que não foi como ninguém esperava. O que aconteceu?

Jimmy balançou a cabeça, respirando fundo.

— Não sei. Acho que estava cansado de ganhar, então decidi dar uma chance aos outros.

Graham riu sarcasticamente.

— Aham, claro.

Do outro lado, um garoto chamou Graham.

— Pronto para perder, garotinho?

Graham bufou, olhando para ele com desdém.

— Eu faço a mesma pergunta para você, Duarte. Suas ilusõezinhas não vão servir para nada.

O garoto chamado Duarte limitou-se a sorrir.

— Vamos ver. — ele olhou para Mark, e sua expressão foi de pena. — Boa sorte, Mark. Você vai precisar.

Mark odiou aquela expressão. Era o que muitos ali faziam com ele. O tratavam como se fosse um pobre coitado. Ele não pretendia responder, mas a raiva foi maior.

— Não preciso da sua boa sorte! — exclamou. — Fique você com ela. Afinal, irá precisar mais do que eu quando for lutar contra Graham.

O garoto riu como se tivesse escutado uma piada.

— Sim, claro. Com certeza.

No meio da Arena, Lisa falou:

— Primeiro luta, e o vencedor foi Charles!

Alguns meninos e meninas se levantaram aplaudindo.

— Segunda luta. — Lisa virou-se para Charles. — Deseja continuar?

— Com certeza! — disse o garoto, levantando a espada.

Lisa voltou a falar:

— Segunda luta. Charles contra Aisha.

Mark não conhecia essa tal de Aisha, até que ela saiu de trás dele, passando ao seu lado. Uma garota com os cabelos pretos cobrindo metade do rosto, piercing no nariz e batom roxo escuro. No mesmo instante ele sentiu um mal estar horrível. Seu estômago revirou-se, fazendo-o querer vomitar.

— Mark? — disse Jimmy, segurando-lhe o braço. — Você está bem cara?

— Acho que não. — gemeu ele, curvando-se.

Aisha foi para o centro da Arena, ficando á frente de Charles.

— Charles, deus do combate — anunciou Lisa. —, contra Aisha, deus da doença.

Um murmúrio sombrio levantou-se na arquibancada. Será que Charles iria conseguir vencer essa luta?

Mark voltou a se sentir melhor imediatamente. Respirou fundo e voltou a se erguer.

— Cara, o que foi isso? — perguntou ele. — Em um momento eu estava bem, em outro...

— O poder da Aisha. — respondeu Graham, com um leve receio. — Ela tem o deus da doença. Você não vai querer saber o que ela pode fazer quando está com raiva.

No centro da Arena, Lisa exclamou:

— Preparados?

O som do sino foi ouvido novamente.

Por um momento, os dois ficaram imóveis. Charles mexia sua espada de um lado para o outro, parecendo inquieto. Aisha nem se movia e nem falava, apenas olhava para Charles.

— O que estão esperando? — gritou alguém da arquibancada. — Lutem!

Como se obedecendo ao pedido, Charles avançou impetuosamente, pronto para fatiar a garota. No entanto, Aisha levantou a mão em sua direção, e o garoto desabou no chão levantando poeira. Mark ficou assustado quando notou que o corpo de Charles estava se tremendo no chão, revirando-se e soltando ruídos estranhos. Seu rosto virou-se, e ele viu uma baba branca e espumosa sair da boca do garoto. Seus olhos estavam revirados.

A multidão na arquibancada estava calada, assistindo em choque ao que estava acontecendo.

Frank levantou a mão e contou rapidamente:

— Três, dois, um... Chega! Aisha venceu!

Lisa e Martin correram em direção a Charles, socorrendo-o. Levantaram o garoto, que ainda estava se tremendo descontroladamente, e o levaram para fora da Arena. Ninguém comemorou. Aisha deu um leve sorriso.

— Deseja continuar? — indagou Frank. — Sua próxima oponente será Kelly.

Aisha assentiu, balançando a cabeça.

Kelly avançou para o centro da Arena, ficando a frente de Aisha.

— Olá, perdedora. — zombou.

— Kelly, deus do medo, contra Aisha, deus da doença.

O sino tocou, e imediatamente Kelly atingiu Aisha com um chute, mandando a garota ao chão.

— Ohhhhhh! — exclamou a pequena multidão na arquibancada.

Aisha se levantou, olhando para Kelly com ódio. No entanto, Kelly parecia de fato querer vencer a disputa a qualquer custo. Apontou o dedo para a outra garota, e ela começou a gritar desesperadamente, encolhendo-se no chão. Parecia aterrorizada com alguma coisa.

— Esse é o poder do Medo. — sorriu Kelly.

Aisha pegou areia do chão e jogou contra o rosto de Kelly.

— Ahhhh! — gritou ela, coçando os olhos. — Sua idiota! Maníaca! Demente...

Ela provavelmente teria dito coisas bem piores, mas Aisha levantou a mão em sua direção, e Kelly começou a coçar a cabeça loucamente enquanto gritava. Risos explodiram na arquibancada.

Do seu lugar, Mark também ria, sentindo-se vingado. Kelly o derrotara na luta de tarde, mas agora ela estava sendo derrotada.

— Para onde o sr. Austin está indo? — perguntou Graham.

Mark virou-se, e viu o sr. Austin saindo da Arena. O que havia acontecido com ele?

— Não sei. — respondeu Mark. — Mas vou até lá.

— Claro que não. — interrompeu Jimmy. — Você vai lutar, não se lembra? Falta somente a luta de Graham para que você entre. Não vai amarelar agora, vai?

— Não, não vou. — disse Mark, asperamente. — Afinal, eu já sei que vou ser derrotado facilmente pelo Henry. Mas preciso saber o que aconteceu com o sr. Austin. Quando for minha vez, prometo que estarei aqui para ser amassado como uma pizza.

Mark saiu correndo da Arena, e pelo caminho escutou vaias e gritos de deboche.

— Covarde! — gritou alguém para ele. — Fique e lute!

— Vai para a sua caminha chorar? — zombou uma garota.

— Comprei um pacote de fraldas para você, Mark! — disse outro.

Ele ignorou todos os insultos enquanto saía da Arena. Olhou para a esquerda e para a direita, mas não viu o sr. Austin. Correu, passando pelo meio das casas e pelo Refeitório, que estavam escuros. Ao longe, o som dos gritos na Arena ecoava.

— Sr. Austin! — chamou.

De repente, uma mão o agarrou pelo o ombro com força. Mark virou-se repentinamente soltando um grito.

— Mark — disse o sr. Austin. —, está tudo bem com você?

— Que susto o senhor me deu! — disse ele, respirando fundo. — Por que saiu da Arena?

O ambiente estava escuro, o que dificultava ver o rosto do líder. O sr. Austin parecia confuso e irritado.

— Eu não sei. — respondeu. — Não estava me sentindo bem.

— O senhor já disse isso. Mas o que está sentindo? Há algum problema? Pela expressão do senhor, diria que...

— Mark... — dessa vez, o sr. Austin sussurrou, como se fosse compartilhar algum segredo. — Há alguma coisa errada.

Apenas essas palavras fizeram os pelos de Mark se arrepiar.

— Hã... como assim “há alguma coisa errada”? O que quer dizer?

Um som de explosão ecoou na Arena. Vários garotos e garotas riram.

— Eu... eu não sei. — murmuro o sr. Austin. — Eu estou tentando ver mais a frente, mas não estou conseguindo. Talvez eu esteja velho demais...

— Claro que não. — interrompeu Mark. — O senhor é o mais poderoso da Terra dos Deuses. Consegue parar o tempo e entrar em nossas mentes... — ele riu. — Isso é incrível!

O sr. Austin deu um leve sorriso.

— Você é um bom garoto, Mark. Espero que um dia você consiga o seu guardião. Na verdade, eu já havia conseguido ver quando você receberia...

Uma onda de empolgação e alívio tomou conta de Mark. Até que enfim! Ele iria receber o seu guardião. Não iria mais ser chamado de o Sem-deus.

— Mas, infelizmente, com esse meu problema de agora, eu me esqueci completamente. Sinto muito!

Quase na mesma hora, a animação diminuiu.

— Mas mesmo assim irei receber, não é? — indagou Mark.

— Acho que sim, rapaz. Agora vá. Tenho a sensação de que a sua luta está prestes a começar. — o sr. Austin colocou a mão sobre o ombro do garoto. — Boa sorte!

Mark sentiu um frio no estômago. A hora havia chegado. Mais uma luta vergonhosa ele teria de passar. Talvez a pior.

— Obrigado, sr. Austin.

Ele virou-se e correu em direção a Arena, e pensou ter ouvido um som de um relincho de cavalo na escuridão. Sentiu que estava sendo observado. Mas não se importou. Tudo o que importava era que, mais cedo ou mais tarde, ele iria receber o seu guardião.