The Three Spiritual Stones
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ele ainda estava dormindo quando o som de uma trombeta ecoou, preenchendo o lugar em que se encontrava. Mexeu-se na cama sentindo-se ainda cansado e sonolento. Não queria acordar agora. Cinco minutos se passaram, quando um tremor de terra abalou todo o ambiente. Em um impulso repentino, sentou-se na cama assustado, e quase tombou para o outro lado. Abriu os olhos, e a claridade do dia invadiu sua visão, como se uma lanterna grande e potente estivesse ligada bem diante de seus olhos.
É claro, aquele tremor de terra não havia sido por acaso. Até porque aquilo acontecia todos os dias. Ele sabia quem era o responsável por aquilo.
— Mark! — chamou uma voz feminina, vindo de fora.
Ele esperou.
— Mark?
Ao som da voz dela, um sorriso se abriu em seu rosto. Gostava do fato de ela vir chama-lo para tomar o café da manhã juntos. Embora não fossem namorados nem nada desse tipo, Mark sentia-se feliz ao lado dela.
— Mark, eu sei que você está me ouvindo! — insistiu a garota do lado de fora. — O terremoto do Martin sempre lhe acorda. E você sabe o que acontece com quem chega atrasado para o café da manhã.
Mark suspirou, limpando o canto dos olhos e espreguiçando-se. Sim, ele sabia o que acontecia, e não queria nem um pouco ter de passar a manhã inteira lavando os pratos e limpando o local.
— Okay, Trinity, você venceu. — disse ele. — Já estou indo.
— É melhor vir mesmo.
Mark trocou de roupa e logo saiu, torcendo para que seu rosto não estivesse parecendo com o de um zumbi.
— Bom dia, mamãe. — sorriu Mark para Trinity. — A senhora já fez o meu café?
— Muito engraçado. — disse ela, fazendo uma careta. Os olhos cor de mel de Trinity fitavam Mark com uma simpatia amigável. Sua pele tinha uma cor bronzeada, e os cabelos castanhos caiam suavemente sobre os ombros. — Devia me agradecer por estar lhe acordando na hora do café. Caso contrário, não teria dúvidas de que você lavaria aqueles pratos todos os dias.
— Talvez sim, talvez não. — replicou Mark.
Ele virou-se e observou o ambiente ao seu redor. O lugar onde viviam tinha por nome Terra dos Deuses, um vasto campo verde com pequenas colinas que o cercavam, e um riacho que reluzia ao sol. Ali, cada pessoa tinha sua própria casa, mas em nada se parecia com uma casa. Era uma pequena habitação comprida e quadrada, com as estruturas feitas de mármore. Cada morador era responsável por sua própria habitação, ou seja, pela limpeza, organização e coisas semelhantes. Todos os garotos e garotas daquele lugar, a partir dos dez anos de idade, ganhavam um deus como guardião. Cada deus refletia a personalidade do seu protegido, o que poderia ser bom em alguns casos, mas péssimos em outros. Alguns gostavam de fazer desafios contra os outros diariamente em uma espécie de Arena, para saber qual deus era o mais forte. Essa era uma das principais diversões.
Mas Mark era o único que aparentava não ter nenhuma divindade. Desde o dia em que havia completado dez anos, nenhum deus se juntou a ele. Ninguém vira qualquer sinal de Mark sendo contemplado com um deus de presente. Isso causou surpresa em alguns, mas, como era de se esperar, para outros foi motivo de piada, e Mark passou a ser chamado de “O Sem-deus”.
Ele observou uma pequena multidão se dirigindo a um tipo de refeitório coberto por um teto de metal. O fato de ter de se juntar a eles fez o humor de Mark ir por água abaixo. Olhou para Trinity e murmurou:
— Não estou afim de me juntar aqueles panacas. Prefiro lavar todos os pratos ao invés de ter que servir de piada para os outros.
Trinity suspirou, colocando a mão sobre os ombros de Mark.
— Você devia não ligar para isso. Eu sei que... — ela hesitou, provavelmente pensando no que iria falar. — Olha, já conversamos sobre isso. Talvez você tenha sim um deus guardião com você, só não parou para senti-lo ainda.
Mark deu uma risada de deboche enquanto afirmava ironicamente balançando a cabeça.
— É... não parei para senti-lo ainda. Sendo que desde o momento em que você ganha um guardião, a primeira coisa que acontece é você sentir que você tem um guardião perto de você! — ele elevou a voz enquanto falava as últimas palavras.
Trinity não falou nada.
A questão é que Mark sentia-se desamparado e excluído por não ter recebido um deus. Será que ele não era tão bom quanto os outros? O que havia feito de errado? Por que somente ele não havia recebido um deus?
— Tudo bem, então. — disse Trinity, lançando um olhar de solidariedade para Mark. — Se você for para o Refeitório, já sabe onde sentar.
Ela virou-se e saiu, indo juntar-se aos demais. Mark ponderou que seria melhor segui-la, para não cometer o erro de entrar no Refeitório sozinho.
— Ei Trinity, espere. — ele a seguiu.
***
O Refeitório era um lugar grande e cheio de mesas compridas de madeira. Dezenas de garotos e garotas enchiam as cadeiras ao redor das mesas, e enquanto esperavam o café da manhã, riam, conversavam e faziam barulho.
Mark entrou com Trinity e sentou-se em uma das mesas onde um grupo de amigos seus costumava sentar-se também.
— Bom dia, pessoal. — cumprimentou Trinity.
— Bom dia! — responderam os outros.
Ao lado de Trinity, estava Mark, inquieto. Após ele, estava Jimmy, um garoto de quatorze anos que tinha os cabelos grandes e encaracolados. A pele cor de cobre e os olhos castanhos claros o faziam parecer até que bonito. Tinha um deus como guardião, o deus do Fogo. Á frente de Jimmy sentava-se Graham, um ano mais novo do que Jimmy. Um pouco baixinho, cabelo crespo e olhos castanhos penetrantes. Não parecia uma ameaça para a maioria das pessoas dali. Algumas nem ao menos o respeitavam devido ao seu deus, que era o deus da Travessura. No entanto, era um erro subestimá-lo, pois dependendo da intensidade da travessura (e dos seus sentimentos), era possível que uma pessoa ficasse seriamente ferida ou até morresse. Mas muitos não levavam a sério o garoto.
— E aí, Trinity? — perguntou Jimmy, olhando para ela. — Alguma novidade sobre o nosso amigo aqui? — ele deu tapinhas nas costas de Mark.
Trinity olhou para Mark e suspirou.
— Não. Ainda não se sabe se há um deus com ele ou não.
Mark murmurou com uma risadinha:
— Ainda não se sabe.
— Mark, você não devia se desanimar. — falou uma garota que estava a sua frente, na mesa. Seu nome era Agnes, tinha dezesseis anos, e ela era, segundos os garotos, a menina mais linda de toda a Terra dos Deuses. Tinha a pele clara com um bronzeado suave. Os olhos amendoados e claros, com cílios longos. Cabelos lisos, mas cacheados nas pontas. Lábios vermelhos suaves, perfeitos, lindos e maravilhosos... hã, digo... me desculpem! Lábios vermelhos suaves. Ela tinha como guardião o deus do Encanto.
Mark olhou para ela, demonstrando toda a sua frustração e tristeza.
— Fala isso porque tem um deus com você. Duvido que se você não tivesse... — ele parou, respirando fundo. — Okay, dá para deixar esse assunto de lado por apenas um minuto?
— Tudo bem, me desculpe. — disse Agnes. — Só estava tentando ajudar. Certo, vamos deixar esse assunto de lado.
No entanto, dois garotos que estavam na mesa de trás, falaram entre si:
— Você acha que existe um Sem-deus por aí?
— Acho que não. — respondeu o outro. — Afinal, todos aqui têm um deus.
Eles viraram as cabeças e olharam para Mark, fingindo surpresa.
— Ops! Me enganei. Existe, sim!
Eles riram.
Mark inclinou-se para Jimmy e sussurrou:
— Eles têm sorte de eu não ter o deus do Fogo como guardião.
Jimmy sorriu maliciosamente.
— Quer que eu frite esses frangalhos?
Mark levantou uma sobrancelha e olhou para trás com o canto do olho.
— Ainda não.
— Psiu! — Trinity cutucou Mark. — O sr. Austin está vindo.
O ambiente inteiro caiu no silêncio quando um homem alto, forte e de aparência rígida entrou no Refeitório. O sr. Austin era o mestre e instrutor da Terra dos Deuses. Apesar de ter quarenta e cinco anos de idade, sempre se vestia como alguém muito mais jovem. Os olhos eram escuros e intensos. Tinha uma barba rala que sempre o fazia parecer muito mais velho. Era o único dali que tinha dois deuses como guardião, o deus do Tempo e da Mente.
— Bom dia. — cumprimentou o sr. Austin.
— Bom dia. — disseram todos.
— Antes de comermos, quero dizer que estou muito satisfeito com o progresso de vocês em controlar seus poderes. Sei que já disse isso milhares de vezes, mas torno a repetir: Nunca matem ninguém! A não ser que seja absolutamente necessário. O castigo para quem matar alguém intencionalmente, como já disse, é a expulsão. Nunca usem seus poderes para ganhar vantagens sobre os outros. E aprendam a lutar. Não só com seus poderes, mas com o seu corpo. Treinem com armas, pois, se entrarmos em uma guerra, vocês terão vantagem sobre o inimigo.
Uma garota da mesa ao lado da de Mark, levantou a mão.
— Quer dizer que teremos guerra?
Um murmúrio de conversas elevou-se. O sr. Austin ergueu as mãos.
— Não haverá guerras tão cedo aqui! Não se preocupem. Apenas disse isso para se prepararem para o caso de entrarmos em uma. Agora, tenham uma boa refeição. Ah! E Mark... — ele apontou para o garoto. — Depois quero falar com você.
O sr. Austin bateu palmas, e cinco rapazes entraram com bandejas cheias de pães com queijo e presunto, copos de café e pedaços de frutas cortadas.
Quando a bandeja chegou à mesa onde estava Mark, ele encheu seu prato de pães, frutas e um copo de café. Não estava com muito apetite, mas não queria demonstrar isso para os outros.
— Huummm. — Jimmy estava devorando os pães junto com as frutas. — O sr. Austin com certeza deve ter com ele o deus da Cozinha, porque ele sempre acerta na comida.
Trinity deu uma risada, assim como Graham e Agnes.
Após o café da manhã, o sr. Austin anunciou a programação do dia. Pela manhã, limpeza das casas e fazer um relatório sobre o progresso e controle dos poderes de cada pessoa. De tarde, treino com armas e outros equipamentos. E de noite, para encerrar o dia com chave de ouro, a famosa Disputa entre Guardiões. Todos aplaudiram ao ouvir que a disputa seria aquela noite.
Quando todos começaram a sair, o sr. Austin chamou Mark.
— De novo. — murmurou Mark.
Trinity o beliscou no braço.
— Pare com isso. — sussurrou ela. — Ele só está preocupado com você. Vá! Vejo você mais tarde.
Trinity saiu, e Mark foi em direção ao sr. Austin.
— Senhor?
— Tudo bem, Mark? — perguntou ele.
— Sim, claro. Por que não estaria?
O sr. Austin deu um sorriso. Seus olhos estudavam Mark por completo.
— Muito bem. Receio que já saiba o que vou perguntar, mas não posso deixar de falar. — ele colocou a mão no ombro do garoto. — Alguma mudança nesses dias? Sentiu alguma coisa?
Mark já estava cansado daquelas mesmas perguntas. Só o fazia se sentir ainda mais frustrado e desanimado. Mas balançou a cabeça em negativa.
O sr. Austin deixou escapar um suspiro.
— Eu sinto muito. Eu também não entendo porque você foi o único a não receber... — ele hesitou. — Deixa pra lá. Tenho certeza que isso o afeta tanto quanto imagino. Mas Mark, não desanime. Eu sinto que... que você, em algum dia, irá receber o seu deus-guardião.
Mark olhou para ele e murmurou:
— Então porque não vê? Por que não olha dentro da minha mente e vê quando vou receber esse deus? O senhor pode fazer isso, eu ouvi falar. Pode ver o nosso futuro próximo quando uni seus poderes do Tempo e da Mente.
O sr. Austin limitou-se a balançar a cabeça, discordando.
— Isso é uma coisa que nunca farei de novo, Mark. Não quero ficar sabendo do futuro de meus alunos. Isso nunca é bom. Na última vez que fiz isso... — ele olhou para o chão, como se uma lembrança desagradável tivesse vindo a sua mente. — Vamos deixar assim, okay? Mantenha a calma. O seu momento vai chegar. Eu garanto.
Mark queria protestar, mas o sr. Austin virou-se e saiu.
***
Enquanto caminhava até sua casa, Mark não pôde deixar de se sentir estranho. Alguma coisa havia mudado dentro dele depois de ter falado com o sr. Austin. Não sabia explicar. Depois de anos sentindo-se para baixo, uma pequena fagulha de esperança havia surgido em seu interior.
De repente, Mark acreditou mesmo que as coisas iriam melhorar dali para frente. Ele tentou disfarçar, mas um pequeno sorriso abriu-se em seu rosto.
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