The Survivors
2 Apanhados
Notas iniciais
—Zoe — o meu irmão acorda. Olho para ele que ainda tem um ar ensonado. — Dormiste bem?
—Sim — menti. Esta foi uma das noites em que fiquei acordada a pensar e a relembrar os infortúnios da vida. — E tu?
—Também — sorrio forçosamente e levanto-me e ele faz o mesmo.
—Que estás a fazer? — pergunto surpreendida.
—Eu vou contigo — diz como se parecesse óbvio.
—Não, Ben. Esquece isso! Não vens comigo! Tu sabes que agora estão a haver mais tiroteios lá fora, não te vou por em risco! — recuso-me, não quero que se magoe.
—Mas... — ele tenta argumentar.
—Mas nada! Ben, eu prometi à mãe que te ia proteger e eu estou determinada a cumprir a promessa! Tu não te vais por em perigo e fim de conversa! — insisto na minha decisão inicial já um pouco irritada.
—E quem te protege a ti? Eu tenho 12 anos e essa era a idade que tu tinhas quando assumiste tudo! Não podes continuar a tratar-me como um bebé! — ele rebate.
—Eu protejo-me a mim própria, é o que tenho feito nos últimos anos e tem dado certo. Quanto a ti, não tentes discutir o assunto agora porque garanto-te que a resposta não vai ser afirmativa — viro-lhe as costas e caminho, já vou longe quando me viro. — E é verdade, eu assumi tudo aos 12 e não devia tê-lo feito. Não quero que passes por isso.
Continuo a caminhar a lacrimejar, é complicado ser tão dura com ele e falar destas coisas... O que tem que ser, tem muita força e não há nada que eu possa fazer, por muito que o quisesse fazer. Subo as escadas e saio lá para cima. Olho em volta, tudo normal. Dirijo-me para o mercado negro, mas não antes de apanhar algumas ervas medicinais para trocar por comida.
—Bom-dia — pouso as ervas e tiro comida, a senhora não se opõe, o que significa que aceitou a troca. Trago umas maçãs e umas peras. Vai servir para as refeições de hoje. É então, que guardas entram, agarram-me contra a mesa, ao lado está o meu irmão. — Benjamin, eu disse-te para ficares lá embaixo! Que parte de "Não vens comigo é que não percebeste corretamente?
—Desculpa, Zoe... — ele lamenta.
—Largue-me que é que vão fazer connosco? — eles prendem-nos e colocam-nos numa carrinha. — É surdo e não está a ouvir ou fala russo? O que é que vão fazer connosco?!
—Nomes — ignoram-me quando já estou presa dentro da carrinha.
—Para onde nos vai levar, ah? Para a morgue! Então acabe com tudo já! — revolto-me.
—A menina não percebeu bem? Quero os nomes! — ele parece irritado.
—Benjamin Clark e Zoe Clark — o meu irmão responde e eu olho para ele indignada.
—Muito bem — eles parecem sorridentes e fecham a porta. Tento libertar-me.
—Não há forma de te libertares — ele pronuncia-se e eu faço de conta que não ouvi. — Zoe! Não há forma de te libertares. Para!
—Eu nem quero discutir contigo agora! Disse-te para ficares lá embaixo e tu não ligaste a nada do que disse. Agora estamos os dois aqui! — não sei ao certo o que sinto, se é desilusão, raiva, tristeza, medo, frustração, e em caso de morte, alívio. Talvez seja um pouco de tudo.
—Ao menos eu estou contigo. Já pensaste se só tu tivesses sido apanhada? — paro para pensar no que ele diz e percebo que é verdade. Não sei que seria dele se apenas eu tivesse sido levada.
Fico em silêncio e acabo por adormecer, acordo com a luz e guardas a pegarem em mim como se eu fosse um saco de batatas, abrindo uma porta e descendo connosco, eu tento debater-me, mas já sei que vou ser torturada até à morte. Que eu seja pouco resistente e morra logo é o meu único desejo no momento.
Quando chegamos lá abaixo vejo uma sala com luzes brancas, com um montão de adolescentes que se alimentam. Não percebo nada do que se está a passar, mas seja o que for, não parece um centro de tortura. Ainda assim, estou bastante irrequieta e assustada até, confesso.
Entramos numa sala com uma grande cadeira e uma mulher lá dentro, há duas cadeiras e uma secretária no meio.
—Quem temos aqui? — eu tenho a cara fechada.
—Os dois Clark — ela muda a expressão de superioridade para choque.
—Meu deus! Nós procuramo-vos durante 5 anos e nunca vos encontramos — ela chega perto de nós e eu não percebo nada. — O meu nome é Roselyn, fiquei encarregue de recolher todos os adolescentes para este campo, para vos proteger e ensinar a sobreviver.
—Acredite que sobreviver é o que faço melhor — respondo-lhe à letra. — Não quero e não preciso de estar aqui.
—Acredito que sim, Zoe — ela chega-se perto de mim. — No entanto, não vais sair.
—Desculpe? Não me pode fechar aqui! — revolto-me.
—Tanto posso, como vou. Vocês são órfãos e além do mais, está institucionalizado! — ela explica.
—Wow, este país ainda tem leis? — provoco.
—Ela precisa de descansar, levem-na daqui — começo a debater-me e se num segundo estou a lutar, no outro sinto um líquido a passar pela agulha que me espetaram e tudo fica preto.
Seja o que for que se está a passar aqui, eu não tenho interesse em ficar. Quero voltar para a minha vida normal, não ficar aqui fechada. Nunca o fiz, nunca o vou fazer. Nenhum lugar é seguro e eles não são ninguém para me fazer acreditar que é.
Continua...
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