The Sun
1 Único - ... help me breath.
Notas iniciais
Eu não revisei essa aqui porque estou com pressa e quero pelo menos escrever o próximo capítulo de Dust Angels ainda hoje, então desculpem qualquer erro.
Mas eu tive que escrever. Explico porque nas notas finais. Aqui vocês só precisam desse link:
http://www.youtube.com/watch?v=YMa28PKfAsw
Tá diferente da versão que eu tenho, mas serve. Essa banda é nova, de Londres. Conheci eles há um ano quando ainda tinha um twitter, eles estavam fazendo propaganda por lá. Saíram do forno agora, e eu já sou fã dessa música, achei linda. Então se eles fizerem sucesso mundial e vocês virarem fãs não esqueçam que eu apresentei primeiro u_u
Boa leitura!
Eu não sabia o que fazer.
Estava parado em frente ao hotel de onde havia acabado de sair, segurando apertado a mão da minha filha, que me olhava atentamente, esperando por alguma decisão. Mas eu não sabia. Não conseguia sequer olhar para ela; as crianças esperam que nós tenhamos as respostas para tudo!
— Pra onde nós vamos, papai?
— Não sei, Bandit. Ainda não sei.
Eu não tinha emprego. Não tinha casa, não tinha família, e meus amigos já não podiam mais me ajudar. Tudo aconteceu tão rápido... Minha vida desceu em espiral em uma velocidade que eu não pude controlar. Quando percebi, eu já estava no chão. Isso não seria um problema se eu estivesse sozinho. Mas eu tinha uma criança de cinco anos comigo! Como eu cuidaria dela na rua, sem ter nem o que comer? Eu já não tinha dinheiro para o hotel, mas como eles podem ter nos expulsado assim? Ah, eu esqueço que tenho esperança demais nas pessoas. O mundo roda com notas; sem elas, nada feito.
Ainda apertando a pequena e macia mão, comecei a andar. Eu estava procurando emprego há semanas, mas não conseguia encontrar. E agora, sem nem mesmo um lugar onde trocar de roupa para uma entrevista, quem me contrataria?
Não sei por quanto tempo fiquei andando, sem rumo. Minha mente estava vazia. Eu não tinha nenhum objetivo, nenhuma ambição... nada se apresentava. Tudo parecia ter acabado. Eu quis sentar em uma calçada e observar os carros, não pensar em mais nada. Mas Bandit disse que estava com fome. Eu precisava dar algo de comer para ela. Eu tinha que continuar por ela.
Mexi nos meus bolsos e achei algumas moedas. Daria para comprar um salgado. Fui até uma pequena lanchonete, ou algo que o valha, e pedi uma coxinha. Sentei-me em um banco do lado de fora com Bandit e esperei enquanto ela devorava o lanche.
— Gerard?
Virei-me surpreso ao ouvir a voz.
— Frank! Meu Deus, há quanto tempo!
— Eu sei! Essa é Bandit? Nossa, como ela cresceu!
— Eu sei... Bandit, esse é Frank. Você o conheceu, mas não lembra.
Bandit acenou timidamente e se concentrou na comida, não querendo participar da conversa.
Frank se sentou ao meu lado. Ele estava com uma aparência razoável. Os cabelos longos e penteados, as roupas largadas de sempre, o All Star básico. Vê-lo me trouxe uma alegria que eu não sentia há tempos. Com tudo desmoronando ao meu redor, eu não tinha tempo para ter alegria. Mas agora... eu tinha todo o tempo do mundo, não é?
— Então, como você tá? — perguntei.
Frank se animou em contar como estavam as coisas. Ele não havia desistido de tocar em uma banda, apesar de ter deixado isso em segundo plano, ou não conseguiria dar conta das despesas de casa. Trabalhava em uma confeitaria, e estava satisfeito. Outros aspectos da sua vida, porém, não estavam muito bons.
— Eu me separei da Jamia há dois meses – ele admitiu, com um suspiro. — Ainda está sendo muito doloroso.
— Por quê? O que aconteceu?
— Eu fiz besteira, Gee... Tive uma briga estúpida com ela, e na raiva saí e fiquei com outra pessoa. Não pensei nas consequências.
— E seus filhos?
— Os vejo a cada duas semanas. Dá uma saudade horrível, você não faz ideia.
— Imagino – comentei, olhando de esguela para Bandit. Pelo menos eu ainda tinha a companhia dela.
— E com você, como vão as coisas?
Suspirei. O que eu faria? Eu poderia falar a verdade e fazê-lo perder uma noite de sono ou fingir que estava tudo bem. Mas, pensando bem, quem disse que ele se importaria tanto assim? Ele foi um grande amigo, mas o tempo passou, a vida nos afastou e ele agora tinha seus próprios problemas.
Acabei decidindo contar tudo. Ele já sabia que Lindsey, a mãe da Bandit, havia falecido logo depois de dar a luz. Meu irmão Mikey estava morando em outro estado e nem sabia da minha situação, e meus amigos Ray e Bob só conseguiram pagar o hotel até agora.
— Eles não podem te abrigar na casa deles? — Frank perguntou, muito preocupado.
— Não, acho que não. O Bob mora com os pais e o Ray tem família. Não devem querer que um cara com uma criança se meta na vida deles.
Frank balançou a cabeça. Percebi que me enganara; ele se importava, sim. Mas pela sua expressão, ele não podia fazer muito para me ajudar tampouco.
— Ah, Gee, eu não sei o que dizer... Estou morando em uma casa alugada, e lá não aceitam crianças. Consegui que abrissem uma exceção pra quando Cherry, Lily e Miles vêm me visitar, mas morar lá...
— Não, tudo bem, Fran. Nem estou pedindo isso, eu sei que é um pedido grande. Só estou desabafando. Desculpa ter te preocupado.
Ele balançou a cabeça de novo, sentindo-se claramente impotente. Eu já estava me sentindo mal por ter falado a verdade.
— Escuta, Gerard, onde você vai dormir hoje?
Eu dei de ombros, sentindo por um momento lágrimas me subirem aos olhos, mas não queria chorar. Não na frente de Bandit.
— Vem, na rua de cima onde eu trabalho tem um abrigo, vamos ver se eles tem vagas lá.
Eu agradei imensamente e o segui, levando Bandit e uma pequena mala com nossas roupas. Inteligentemente, ele mudou de assunto durante a caminhada, deixendo tanto eu quanto minha filha mais a vontade e distraídos.
Chegando no local, não pude deixar de sentir vontade de chorar novamente. Era feio, sujo e mal-cuidado; mas o que eu poderia esperar, sendo grátis? Uma placa na porta dizia que eles abririam às 18:00 e que assim que as vagas acabassem, os demais deveriam desistir. Duas pessoas já estavam sentadas na calçada, fazendo fila, apesar de ainda serem 14:30 da tarde.
— Eu sei que é ruim – Frank murmurou para mim. — Mas é melhor do que ficar na rua.
— Com certeza. Obrigado.
— Eu não fiz nada, você teria descoberto esse lugar de qualquer jeito. Agora eu tenho que voltar pro trabalho, meu horário de almoço já acabou. Toma...
Ele tirou a carteira e começou a contar notas. Em qualquer outra ocasião eu teria dito para ele parar, mas eu sabia que a coxinha que Bandit comeu não a sustentaria por muito tempo. Com muita vergonha, aceitei o dinheiro que ele oferecia e agradeci pela milésima vez.
— Não é nada, Gee. Olha, me encontra no mesmo lugar de hoje amanhã? Mesmo horário? Não quero te perder de vista de novo.
Assenti e ele se despediu apressado; já estava bem atrasado. Eu olhei em volta e percebi que não tinha nada melhor para fazer se não esperar junto com os outros que o abrigo abrisse as portas. Coloquei Bandit no meu colo e passei o resto do dia tentando distrai-la, mas ela sentia que era tudo muito falso. Assim que Frank sumiu de vista, aquela alegria desapareceu. Meu coração voltou a ficar vazio, encolhido, desesperançoso. Como eu conseguiria seguir em frente dessa forma? O que seria de Bandit, passando a infância assim?
Quando deu o horário, a fila para entrar no abrigo já estava gigante. Pedi um quarto com duas camas, mas é claro que não tinham. Eram quartos conjuntos, com dezenas de camas e colchões espalhadaos. Escolhi o que parecia ser mais afastado dos outros e virei Bandit para a parede, abrançando-a e protegendo-a dos olhares suspeitos de todos que entravam ali. Meu Deus, eu não poderia continuar lá. Não com ela... sempre ela. O porque eu continuava. Era sempre em Bandit que eu pensava antes de dormir, sempre nela que eu me segurava para afirmar para mim mesmo "você tem que continuar".
Mas naquela noite, pela primeira vez em semanas de desespero, não foi ela que ocupou minha mente nos últimos momentos de consciência.
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No dia seguinte, encontrei-me com Frank no horário marcado. Ele nos levou para um restaurante e pagou uma bela de uma refeição para nós dois, o que foi ótimo, pois eu já não comia há quase dois dias.
Conversamos sobre todo o tipo de banalidades, e até Bandit deixou um pouco a timidez de lado e se empolgou. Ela estava gostando de Frank, e ele dela, muito obviamente. Vê-los rirem e fazer brincadeiras juntos era tão... pacífico. Eram quase como duas crianças; parecia que não havia nada de errado no mundo enquanto eles ainda pudessem sorrir. E eu não conseguia decidir qual dos sorrisos era o mais lindo.
Bandit reclamou dos barulhos de roncos da noite anterior, e Frank riu, mas eu percebi que ele se sentiu mal.
— Não se preocupe, a gente se acostuma.
— Sim, sim, claro.
Não me convenceu, mas fiquei quieto.
Perguntei se ele podia ficar com Bandit durante o resto de seu expediente e para meu alívio ele disse que sim. Assim eu pude passar a tarde procurando emprego, ainda que sem muita esperança.
Mas era algo estranho. Era só Frank ir embora que tudo voltava ao normal, voltava a ser o buraco feio e fétido em que eu me encontrava. Quando eu estava com ele, porém... eu tinha a nítida sensação de que tudo ficaria bem. E acho que até Bandit sentia isso.
Naquela noite, não conseguimos uma cama tão boa, mas ainda tinhamos um teto sob nossas cabeças. No dia seguinte, encontrei Frank de novo, e ele novamente nos pagou o almoço. Ele me mostrou uma lista de lugares em que precisavam de desenhistas; eu disse que poderia ser qualquer emprego, mas ele insistiu que eu desse prioridade a um em que eu me sentisse bem. Quase ri com isso. Mesmo com tudo desmoronando, ele ainda dá tanta importância aos sonhos... sempre quis ser como ele.
Em mais um dia, ele disse que conseguiu encontrar um hotelzinho que conseguia pagar para mim e Bandit. Eu senti muita vontade de recusar, mas ele não teria permitido, de qualquer jeito. Até porque, Bandit o abraçou tão forte quando ele contou, que não havia como desfazer o pedido.
Eu ainda não me permitia acreditar que as coisas estavam melhorando; eu só voltei um passo na queda. Em algum tempo, Frank já não poderia pagar o hotel também e eu voltaria para a rua. Não iria culpá-lo, era inevitável.
Minha previsão estava certa. Em uma semana, Frank disse que não tinha mais como pagar tanto o hotel quanto o aluguel da própria casa.
Mas ele disse isso com duas malas e uma guitarra na mão.
— O que você tá fazendo? — perguntei, deixando-o entrar no minúsculo quarto em que estava morando.
— Me mudando, não é o que parece?
— É exatamente o que parece! Você tá louco? Você saiu da sua casa pra...
— Vir pra cá, isso mesmo.
Eu estava abismado. Bandit, por outro lado, estava dando pulinhos e agarrando as vestes de Frank para abraçá-lo.
— O "Fank" vai "moar" com a gente, papai!
— Frank, Bandit. E não vai não, ele tem um lugar pra ele.
— Não tenho, não. Já quebrei o contrato com a dona da casa. E do jeito que ela ficou, não vai me aceitar de volta tão fácil.
— Você é completamente doido?!
— Basicamente.
Ele deu de ombros. Colocou as malas em um canto, com um cuidado especial para a guitarra, e pegou Bandit no colo, rodando com ela até cair na cama, enchendo o quarto de risadas infantis vindas dos dois.
Eu ainda não podia acreditar. E mais do que isso, não devia acreditar. Ninguém me ajudara até agora. Ninguém. Por que ele faria isso? Não, eu não podia me permitir sentir a felicidade que estava sentindo, não podia deixar que ele fizesse isso para depois me abandonar. Meu coração tinha que voltar a ficar encolhido, do jeito que ficava sempre que ele não estava por perto...
Mas não tinha jeito. Ele fazia meu coração crescer.
— Frank, vem aqui um pouco.
Bandit reclamou, mas soltou Frank e ele me acompanhou para fora do quarto.
— Por que você tá fazendo isso?
— Porque é assim que tem que ser, Gerard. Eu não encontrei com você por acaso. Eu estava um lixo, mas estar com você me fez... melhor. Parece que me deu uma razão, uma alegria, entende? Mas só quando eu estou com você.
— Frank, isso é... estranho.
Ele me olhou confuso, e então corou.
— Ah... desculpa... é, eu sei, deve ser estranho mesmo eu ir morar com você, eu... eu não tinha pensado nisso, foi tudo muito impulsivo, e eu achei que você podia...
— Que eu podia o que?
— Nada, nada – ele murmurou e fez menção de voltar para o quarto, mas eu segurei seu braço.
— Que eu podia o quê?
— Talvez... estar sentindo a memsa coisa, sei lá...
Eu sorri e transferi minha mão de seu braço para seu queixo, foraçando-o a olhar para mim.
— Eu não sinto o mesmo, seu besta. Eu sinto mais. Você não é só uma alegria pra mim, você... você é o sol e a chuva que faz meu coração continuar crescendo. Você foi minha única esperança desde que apareceu. E eu quero que você fique comigo, mas...
— Mas?
— Mas você tem que prometer que não vai desistir de mim. De nós.
Ele sorriu também e, subitamente, colou seus lábios aos meus. E eu tive certeza que esse beijo era verdadeiro.
Voltamos sorridentes para o quarto, onde Bandit aguardava de pernas cruzadas.
— Vocês fizeam as pazes? — ela perguntou, muito séria, mas abriu um sorriso enorme quando assentimos. — Então o Fank vai fica com a gente?
— Frank, filha. E sim, vai.
Ela gritou e pulou para ele novamente.
Eu quase perdi o fôlego ao observá-los. Eles eram tudo para mim, não eram? E todo o resto... nós poderíamos dar um jeito. Daríamos um jeito. E toda a dificuldade valeria a pena, por momentos como esse, em que meu coração cresce tanto, em uma paz e uma felicidade tão indescrítivel, que parece que vai explodir.
É... eu consegui. Eu meio à escuridão, eu consegui encontrar meu sol. E era o mais brilhante de todos.
Notas finais
Eu escrevi isso porque ontem meu namorado disse que encontrou por acaso uma mulher que ele conheceu há uns anos num lugar onde ele trabalhava. E ela disse que estava exatamente na situação que o Gerard aí. Sem emprego, sem lugar pra ficar, e com um filho de cinco anos. Agora mesmo ela está na rua com a criança. E eu me senti tão mal, porque não sabia o que fazer. Não sei o endereço do hotel onde ela estava, e agora nem serve mais porque ela tinha até o meio-dia de hoje pra sair de lá. Ela é uma mulher com um filho jogada nas ruas de São Paulo. Se alguém já assistiu "À Procura da Felicidade" vai entender bem o que é estar numa situação assim.
Enfim, por isso precisei escrever alguma coisa. Espero que ela tenha um final feliz também :/
Até a próxima.
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