The Story Of The Witch
1 Capítulo 1 - A Biblioteca
Notas iniciais
Cap I – A biblioteca
Guilherme
Uma vida com magia parece algo divertido. Pois bem, na maioria das vezes é, mas não em uma aula de alquimia com o Prof. Alfredo. Pelo menos não pra mim. Não consigo me interessar em toda essa teoria de que pena de Harpia amassada juntamente com pelo de Centauro, misturada com água é uma ótima poção para ferimentos como cortes ou até mesmo para dor de estômago. Falando assim é legal, porém saber as reações que acontecem ali não é. Simplesmente porque é algo que eu não acho importante.
O Prof. Alfredo é muito atencioso comigo, fazendo de tudo pra aula ficar divertida, mas não adianta comigo. Muitas vezes nessa aula meu pensamento está em como em um mês a minha vida mudou completamente. Hoje é aula de alquimia e antes era aula de química. Tirando o fato de que eu estudava em uma escola normal de ensino médio e não em um castelo medieval com pessoas e criaturas com habilidades mágicas.
É isso mesmo, eu era um adolescente normal de dezesseis anos estudando em uma escola normal, sendo ignorado por pessoas normais até que quando voltei para casa, meu pai me entrega um cordão com um pingente azul no formato de uma pirâmide, me dizendo para ir com o homem ao seu lado e confiar em tudo que ele me disser. Esse homem era o Prof. Alfredo. Foi então que eu descobri que magia existia, meu pai era um bruxo, Prof. Alfredo também, criaturas mágicas existiam, entre dezenas de outras novidades.
É obvio que fiz o Prof. Alfredo me provar diversas vezes até eu ver que não estava sonhando, e então soube que eu deveria ir para uma escola onde pessoas como eu – não gosto de me referir como bruxo – e outras “coisas” estudam para desenvolverem suas habilidades até quando meu pai voltasse. Eles ainda não me disseram de onde.
– E então Guilherme, se acrescentar sangue de Ogro nessa mistura, o que acontece? – Pergunta Prof. Alfredo com um olhar afiado.
– Bem. – Volto a mim engolindo o seco, percebendo que todos olham para mim. – Algo ruim?
– Aumento a força das magias não é algo ruim, Guilherme. – Me lança um olhar desapontado. Volta a olhar para o restante da turma. – Então como sabemos, ou não, — Me lança um olhar. – Água, pena de Harpia, pelo de Centauro e sangue de Ogro misturados aumentam a eficiência, a força de suas magias.
O som dos sinos começam a soar indicando o fim da aula. Isso me fez ficar um pouco aliviado.
– Muito bem, estão liberados. – Um pequeno sorriso se forma em seu rosto.
O tempo nessa aula parece não fluir. Será que o Prof. Alfredo pode fazer o tempo passar mais devagar? Isso seria possível? Talvez pergunte a ele alguma hora, mas não agora, já que meu estômago pede piedade. Preciso ir ao refeitório.
– Guilherme, poderia esperar um pouco? – Diz, vindo em minha direção.
– Sim senhor. – Já sinto a bronca que vou levar.
– Vamos almoçar juntos hoje? – Me lança um olhar agradável. – Não levará bronca, se é isso que pensa.
Me pergunto se ele “também” pode ler mentes. Isso seria legal, e ao mesmo tempo não. Começo a segui-lo quando ele faz um sinal para isso.
– Está conseguindo se adaptar bem? – Pergunta enquanto caminhamos pelo corredor.
– Mais ou menos, esses quadros ainda são bizarros. – Digo olhando para as paredes, onde quadros estranhos estavam. O que mais me incomodava era um que estava pintado um homem com cabeça de leão com chifres vermelhos enormes saindo de sua juba. Paramos bem em frente a esse quadro.
– Vejo que você se interessa bastante por esse. – Ri e logo após arruma seu chapéu. – Sempre está olhando para ele.
– Não é que me interesso. – Fico desconfortável ao ver Lydia no fim do corredor. – É que me incomoda, acho bizarro.
– Alguém já te contou sobre ele?
– Ainda não. – Me concentro na pintura.
– O bruxo que usou poderes proibidos para proteger seus amigos e depois de tal, fugiu com vergonha de sua aparência e nunca mais foi visto. – Lydia aparece atrás de nós, fazendo-me dar um pequeno pulo.
– Correto. – Prof. Alfredo sorri, mas seus olhos não.
– Não cansa de fazer isso Lydia? – Digo colocando a mão em meu peito.
– Não, bruxo. – Ela sorriu. O sol bate em seus cabelos vermelhos que parecem queimar como fogo. – O motivo de sua fuga foi por ele ser um dos meninos mais bonitos daqui de Tworn e depois de sua transformação ele ficou bem... Como posso dizer? Dizem que essa pintura ainda foi gentil com sua aparência.
– Infelizmente. – O olhar do Prof. Alfredo estava triste e distante.
– Quando tempo tem isso? – Viro-me para Lydia.
– Bem antes da gente vir pra cá. – Me olha nos olhos. Sinto que corei um pouco. – Há uns vinte anos não é professor?
Lydia veio para Tworn dois meses antes de mim.
– Quase isso querida. – Diz forçando bastante um sorriso.
– Você o conhecia? – Me concentro novamente na pintura, dessa vez com um sentimento de pena. – Ele fez isso para salvar os amigos?
– Não só eu o conhecia como seu pai também, Guilherme. – Prof. Alfredo olha fixamente para a pintura, eu podia ver em seus olhos que sua mente viajava no tempo. – Eu, seu pai e Edward éramos da mesma equipe. No ataque a uns vinte anos, nos três estávamos feridos demais, quando três ogros vermelhos vieram para cima de mim e seu pai.
Fico surpreso ao ouvir isso. Nunca imaginei meu pai em uma situação dessas. Sempre imaginava que o maior perigo que meu pai sofrera foi quando discordou de minha mãe. Bem, isso, antes dela ser... assassinada.
– Edward vendo tudo aquilo ficou desesperado e então fez um feitiço proibido. – Ele não piscava. – Esse feitiço dá poderes incríveis a quem o faz, porém não sabendo controlar, seu corpo pode se modificar para aguentar tanto poder.
– Mas ele fugiu só por ele estar feio? – Lydia parecia indignada. – Desprezaram ele? Foi isso?
– Depois disso tudo, quando ele nos ajudou a andar, nós encontramos sua namorada morta. – A tristeza no olhar do Prof. Alfredo era tão grande que eu podia sentir em mim. – E então muita coisa mudou.
O silêncio tomou o ar. Foi quando percebi que só nós três estávamos no corredor. Lydia me olha e percebo que o assunto deve ser mudado. Estava mais do que óbvio que o assunto fazia muito mal ao Prof. Alfredo. Quando penso em chamá-los para o refeitório, algo me prende a atenção. Eu poderia jurar que vi alguém passando ao nosso lado, porém, quando olho para trás, ninguém está ali. Minha visão fica meio turva e minha cabeça dói. A sensação de desmaio passa por todo meu corpo até que ouço em minha mente: “Não vá à biblioteca esta noite.” A sensação ruim e a dor somem muito rápido e me pego olhando para o professor que ainda fitava o quadro. Eles não parecem ter percebido que eu quase desmaiei.
– Vamos ao refeitório? – Lydia limpa a garganta antes de falar.
– Vamos sim, querida. – Prof. Alfredo se vira para nós dois com um sorriso em seu rosto. Ele é forte, pois o sorriso parecia sincero mesmo dando para perceber que o assunto de Edward o atingia muito.
Nos dirigimos ao refeitório e chegando lá, o silêncio que havia no corredor sumiu da minha mente na hora. Todos conversavam, até mesmo gritavam uns com os outros. O refeitório era um grande salão, com paredes de pedras cinzas, bem antigas. Mais quadros ficavam por aqui, porém, a maioria possuía imagens agradáveis. Um tapete gigante e muito bonito de cor verde se estendia pelo salão e o impressionante é que ele sempre está limpo. As janelas são enormes, quase do tamanho das paredes, e os vidros tem uma tonalidade um tanto quanto brilhante. As cortinas vermelhas vão até o chão. Olhando ao redor, vejo Igor levantando o braço, sozinho em uma mesa.
– Ali, o Igor. – Digo aos dois, que me seguem até estarmos sentados.
– Vocês demoraram muito! – Diz em um tom bravo e alto. – E o que o professor está fazendo com vocês?
– Igor! – Lydia dá um tapa em seu ombro. – Cala a boca!
– Tudo bem, Lydia. – Diz o professor rindo. – Só quero companhia neste jantar.
– E então professor, o que queria falar comigo? – Coloco suco de uva em meu copo.
Pode não ter nada a ver, mas esse suco de uva é o melhor que já provei. Seu gosto é bem doce, porém, nada enjoativo. Sinto que fico mais animado quando o bebo. Sinto mais energia. Mas o Prof. Alfredo jura que não há qualquer tipo de magia nele e não é por isso que ele deixa de ser mágico.
– Uma carta de seu pai chegou pra mim nesta manhã. – Diz, me olhando fixamente.
– Uma carta do m-meu pai? – Engasgo, quase cuspindo o suco. – O que ele disse?
– Ele disse que está com saudades de você, e que você precisa ter paciência por aqui. – Disse, arrumando seu chapéu. – Ele me pediu pra explicar tudo a você.
– Por favor, explique. – Falo, apressado.
Minha curiosidade era muito grande. Queria saber o porquê disso tudo. Se ele era um bruxo, por que não me disse antes? Mandou-me pra uma escola de magia, onde certamente encontrei gente legal, mas estou sem minha família. Minha família é ele. Ele me prometeu que não me deixaria sozinho, nunca. Mas sei que deve ter seus motivos, por isso quero tanto conhecê-los.
– Amanhã eu te contarei. – Comenta, com seu sorriso confortante – Hoje é aniversário do Diretor Bartolomeu.
Eu queria muito saber de tudo. Mas aquela realmente não parecia a hora. Todos estavam em clima de festa, rindo e se divertindo. O que o Prof. Alfredo tinha para me contar com certeza traria assuntos desagradáveis. Soube disso depois da história de Edward. A noite passou um tanto quanto rápida. Comemos bastante, rimos, conversamos. O Diretor Bartolomeu falou algumas palavras e logo depois todos saíram. Eu e Igor nos despedimos de Lydia e do Prof. Alfredo. Este me deu um abraço e disse que eu terei muito orgulho do meu pai. Assim que chegamos no quarto Igor se jogou em sua cama, o que me incentivou a fazer o mesmo. O sono veio forte depois de comer tanto. Troquei de roupa para meu pijama, deitei e minha visão foi escurecendo. No meio da noite, desperto com uma pontada horrível na cabeça. Acordo desnorteado, olhando em volta não vendo quase nada. Esfrego meus olhos e algo aparece na mente. Não vá à biblioteca hoje. Isso me dá uma vontade enorme de ir. Fico sentado na cama pensando no porquê de não ir, e não vejo nenhum. Levanto da cama em silêncio e caminho até a porta. Abro com cuidado para não fazer barulho, quando vejo que Igor se mexe. No momento em que ele para, eu continuo indo pro corredor, que estava muito escuro, então pego minha varinha.
– Luz. – Falo bem baixo na escuridão.
Uma luz bem fraca sai da ponta da minha varinha. Me amaldiçoo por não conseguir fazer algo tão simples quanto isso, mas continuo andando bem devagar observando as pinturas, que com a pequena luz ficavam mais bizarras. Logo estou na frente da biblioteca. Fecho os olhos e peço em minha mente que não esteja fechada. Coloco a mão na maçaneta e consigo abrir. Ótimo, é agora que vou ver se estou louco ou não. Entro bem devagar e vejo muitos livros espalhados pelo chão. Uma prateleira estava totalmente destruída. Já estava com medo antes de olhar para a recepção e meus olhos se encherem d’água.
Professor Alfredo estava jogado sobre ela com sua barriga toda destruída.
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