The Scream and The Silence
3 A beleza que move graciosamente as vontades humanas
Notas iniciais
The Scream and The Silence
Sob as amendoeiras em flor
agita-se e fervilha
a humanidade.
Matsuo Basho
A tranquilidade de outrora pareceu ser mergulhada em um oceano de incertezas. Varus não conseguiu ver o reflexo durante todo esse tempo na alma que ele não se permitia ter. Mas, seus atos pareciam ter vida própria, como um instinto, como algo que pelo impulso e curiosidade reduzem o orgulho às chamas.
Ele retirou o cachecol de si com agressividade e o jogou longe. Soraka não o viu cair, apenas escutou o leve tecido encontrar-se com o piso incomum. As pupilas âmbares estavam dilatadas, o brilho nelas lembravam chamas. “Algo está se movimentando... aqui dentro.”
Se levantou e com passos firmes, Varus andou até Soraka e a pegou pelo pulso. Não quis rever as intrigantes pupilas, apenas a retirou do chão e a guiou pelo tempo. Ao subirem as escadas, as batidas de seus corações eram igualadas com a rapidez dos passos sobre as escadas de madeira.
No último degrau Soraka tropeçou e jogou seu peso contra Varus, fazendo ambos caírem no tatame.
– Desculpe. – Ela falou baixo se levantando de cima de Varus. Ele ignorou o seu pedido e o que ela fazia, e com o pulso que ainda segurava, a jogou novamente no tatame, ficando por cima dela.
– Me diga o porquê de as cores irem e virem. – Sua voz saiu mais apressada que ele imaginava que fosse. Soraka entrou em uma doce e quente dormência com aquele ato, em transe ao olhar os orbes brancos, pareciam duas pérolas puras prontas para serem rachadas. Varus também via as pupilas que pareciam ouro derretido, um brilho diferente estava estampado ali. “Isso é medo?” Varus riu de canto. – Não me diga que está com medo. Eu apenas alterei o meu tom de voz. Diga-me!
– O quê? – Ela sussurrou. Uma sobrancelha de Varus se levantou. “Ela está me menosprezando?” A fúria encheu seu peito. Apertou o pulso dela com mais força, porém, ela ainda tinha aquele brilho efêmero nos olhos. Varus levou seus lábios até as relhas dela e sussurrou:
– Eu só repetirei uma vez, Soraka. – A respiração quente dele entrou em contato com a pele sensível de seu ouvido. As pupilas âmbares rapidamente se dilataram, e quando as palavras começaram a fazer sentido, ela sentiu sua face ficar quente. – Me diga o porquê de as cores irem e virem.
– Cores? – Soraka falou de baixo de si com uma voz miúda. A fúria de Varus voltara e ele bateu com força seu anti-braço no tatame, apoiando-se e fazendo-a pular de susto. Seu erro foi novamente olhar para os orbes dourados que refletiam uma inocência misturada com ignorância. “Malditos olhos.”
O cabelo que antes fazia cócegas na face de Soraka agora deixava apenas uma sensação de sensação de presença em seu rosto. Varus se levantou e encarou a amendoeira do lado de fora do shoji¹ aberto.
– Eu não vejo as cores. Quando você me toca, eu as vejo. Elas parecem renascer... E quando eu retiro as suas mãos... o mundo vai lentamente voltando ao o que era antes, sem cor.
Soraka observava as costas de Varus enquanto estava estendida no chão. Não se mexia, parecia uma marionete largada, esperando o teatro começar.² Quando ele terminou de falar, a quente movimentação queimava seu estômago. Pôs-se a ficar de pé rapidamente, mas seus pés não se moviam. Ela vacilava com covardia. “Por quê?” “Por que eu não consigo ir até ele?” “Eu só quero o ajudar, não quero?” Ela cerrou o punho. “Sim, eu quero.” Andou de passos firmes com dificuldade até onde ele estava, ficando um metro de distância.
Ela o encarou. O vento levava calmamente os cabelos platinados. A face parecia conflituosa, mas seus olhos fechados davam-lhe uma atmosfera de serenidade. “Humano ou não, ele é tão bonito...”
– Varus, eu—
– Eu sei. Eu sei o que você é. Mas você não sabe o que eu sou. – Ele abriu os olhos, olhando reto. – Não. Você sabe, mas não quer compreender. Nunca vai conseguir ver além da minha escuridão. Eu só quero que você vá embora, antes que...
– Antes que? – Ele voltou a fechar os olhos. Não houve respostas. Não houve mais palavras. Apenas o silêncio reinou, esmagando ambos corações.
Havia escurecido naquele fim de dia de início de inverno. As poucas folhas da amendoeira foram todas levadas para o chão com um vento forte. Seu farfalhar foi agradável e gentil para aqueles ouvidos. E logo após, o vento entrou pelo shoji aberto, levando os fios platinados de ambos. Os olhos de Varus voltaram a se abrir, e Soraka olhou o mesmo ponto que ele.
Seus dedos foram levados até a boca entreaberta com o que via.
– As amendoeiras... floresceram. – A ultima palavra foi quase um sussurro. Soraka tentava esconder sua surpresa. Menos de um metro de si, estava a árvore de amêndoas florida com suas belas pétalas brancas levemente rosadas. O inverno mal havia começado. E o vento fazia o farfalhar gracioso daquela bela árvore.
– Que lindo... – Ela sussurrou, mas foi alto o suficiente para Varus ouvir.
– Não é? – Varus falou ao sair pelo shoji e ir até a sacada, encostando-se no suporte de madeira.
– Você não vê suas cores? – Ela perguntou com certa gentileza.
– Geralmente, faço florescer essa árvore. Suas pétalas são brancas, são bem parecidas com as quais eu vejo. – “E com aquelas que estão em minhas lembranças.”
Algo pulsou dentro de Soraka. “Te ouvir dizendo essas coisas assim... dói.”
– Você nunca as viu?
– Desde aquela noite, eu só vejo preto e branco. – Soraka cerrou as mãos, criando coragem.
– Não sente falta?
– Aquilo que muito se ausenta deixa de fazer falta.
– Mesmo que sejam cores?
– Sim.
Aquele algo voltou a pulsar. Soraka foi breve em seus passos, e Varus os ouviu como uma doce melodia. Ela andou até ele, e com o coração nas mãos, fechou os olhos e selou seus lábios com os dele. As pupilas brancas e arregaladas de Varus viram, pela primeira vez, o mundo ser pintado novamente e as pétalas sempre cinzas, ganharem um tom rosado.
A lua crescente reinava no céu sem estrelas, ignorando a beleza e a tristeza daquela humanidade clandestina.
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