The Scientist
29 Donetsk II- "Passado: dessa vez o de Annabeth"
Notas iniciais
Eu tinha perdido a conta de quantas vezes olhava para aquele maldito mapa. Eu já havia decorado mais de mil vezes a rota dos mulçumanos pelo oriente médio. Primeiro eles partiriam do Iraque em direção ao Marrocos. A emboscada seria na Argélia e mais uma vez eu não tinha a menor necessidade de olhar aquele mapa.
Mas Phill me obrigava.
– O Khali está de olho em você. Faz meio hora que não tira os olhos daqui. –Thalia cantarolou ao meu lado enquanto bebia algo num copo.
–Já o dispensei três vezes, não sei no quê mais ele tanto insiste. –retruquei.
–Não sei se você percebeu, Annabeth, mas você é uma mulher que vale milhares de investidas.
Olhei para Thalia dizendo com o olhar para ela calar a boca e me deixar em paz. Eu já não aguentava o ambiente em que estávamos: uma boate luxuosa no Cairo, Egito. Era um dos domínios do Sultão Adilha. A CIA havia fechado um acordo com ele para radicalizar o comércio de escravas no país. O Sultão aceitou, dizendo que não era bom para os negócios dele os ocidentais os verem com maus olhos.
Resultado: Uma grande festa numa boate tipicamente egípcia, com direito as musas do Sultão dançando sensualmente durante a festa e disponíveis para os homens ocidentais, como o Sultão nos chamava. E o mais revoltante de tudo: os agentes da CIA dormiam com aquelas moças. Moças que eram provavelmente obrigadas a se prostituir. Contudo, estávamos em uma missão para acabar com a escravização das mulheres nos países mulçumanos, a exploração e a prostituição, e os maus tratos por parte dos homens. A ONU secretamente nos confiara essa missão. E lá estavam meus colegas de trabalho, dormindo com prostitutas exploradas. Irônico, não? Com certeza muito hipócrita!
Enquanto os outros agentes estavam sentados cada um em diferentes círculos no chão, com uma pequena e baixíssima mesa de apoio do costume semita; eu e Thalia nos sentávamos nas cadeiras do bar enquanto eu lia o mapa apoiado no balcão.
–Ele levantou o copo. –Thalia avisou. –Está fazendo uma saudação, Annabeth, retribua!
–Thalia, não me interessa o que ele está fazendo. Me deixe em paz.
–Ele é sobrinho do Sultão. –ela sussurrou no meu ouvido.
–O problema é todo dele.
–No Oriente Médio, os homens ficam profundamente irritados quando esnobados por mulheres.
–Que engulham o orgulho.
–Você é impossível, Annabeth.
–Obrigada.
Eu queria que o Khali fosse ao quinto dos infernos, e todos os outros aqueles caras ali também. Só queria voltar pra casa, assistir o primeiro jogo de Malcolm como Quarterback no colegial, abraçar o meu pai bem apertado e ouvir minha mãe implicar comigo por ser muito rebelde. Mas Thalia estava ali. Minha melhor amiga jamais desistiria de salvar aquelas mulheres cativas e eu jamais desistiria dela.
Maldita.
–Como vão meninas? –cumprimentou Nico ficando ao lado de Thalia e trocando um beijo apaixonado com ela.
–Eu vou muito bem, meu amor. –Thalia respondeu por nós duas. –Mas Annabeth vai morrer daqui a pouco por estar rejeitando o sobrinho do sultão.
Revirei os olhos e Nico soltou uma gargalhada.
–Eu estou bem, Nico. E não vou morrer daqui a pouco, Thalia. –a olhei repreendora.
–Seja como for. –ela olhou apaixonadamente para Nico. Mesmo ela sendo a amiga mais irritante do mundo, eu ficava imensamente feliz por vê-la amar e ser amada. –Eu e Nico vamos dar uma volta pelo Cairo, tudo bem?
Eu assenti. Nico foi andando na frente me deixando sozinha com ela.
–Amiga, por favor, tome cuidado. –Thalia me abraçou rapidamente. –Me preocupo com você e essa sua língua afiada.
–Vou deixar ela aposentada, Lia. –prometi sorrindo e dei um beijo no rosto.
Thalia saiu e eu a acompanhei até a saída do local. Peguei um táxi rumo ao meu costumeiro destino. As ruas do Cairo eram mescladas com as diferentes classes. Existiam aqueles que mandavam que engraxassem seus sapatos e o que engraxava. O que vendia e o que comprava. Os patrões e os empregados.
E tinha eu e Joey. Que sempre nos retirávamos para a parte da cidade mais perto das pirâmides. Eu sempre sabia que ele estava lá e toda vez que acabava alguma das festas dos trezes dias do Sultão, eu ia me encontrar com ele.
Ele estava sentado num dos bancos reservados para turistas, fumando como sempre.
–Queria me encontrar, Joey? –perguntei a ele quando o encontrei.
–Sim, Chase. –ele se virou e sorriu me cumprimentando. –Phill me mandou te dizer umas coisas enquanto está fora na reunião da União Europeia. Acho que finalmente descobri porque ele tanto te pressionava pra estudar aqueles mapas.
–E qual seria o motivo?
–Você vai liderar a missão. –Joey sorriu pra mim de forma carinhosa. Eu havia esperado há muito tempo por aquilo e ele sabia o quanto a notícia seria bem vinda. –Quando chegarmos à Argélia, você assume.
Não pude evitar sorrir abertamente. Joguei-me em cima de Joey e o abracei. Foi um abraço rápido, pois ele logo se esquivou. Era um cara tão estranho que não gostava de nenhum contato físico com ninguém.
–Você não sabe como fico feliz com isso. –disse a ele, ainda sorrindo.
–Imagino. –ele se levantou e arrumou a blusa que eu amarrotei um pouco quando o abracei. –Estou indo para a base, não ande pelas ruas sozinhas. Sabe o que eles pensam das mulheres aqui.
Sabia, sim. E muito bem. Estar sozinha depois de certa hora da noite era um convite para estupradores, assaltantes, assassinos e uma infinidade de coisas. Ali não era Ocidente.
Voltei com Joey para a base. Eu tinha um quarto só pra mim, no estilo militar, mas personalizado do meu jeito. Até que naquela noite, enquanto eu lia possíveis maneiras de enquadrar os contrabandistas de escravos, alguém bateu a minha porta.
Revirei os olhos, irritada por ter sido tirada do meu momento a sós, mas ainda assim fui ver quem era.
–Tem que ter bons motivos pra me perturbar... –eu comecei dizendo, mas parei ao ver que era uma pessoa desconhecida para mim.
–Me desculpe. Todos os outros quartos estavam cheios. –disse a garota.
Ela tinha a cabeça baixa e uma mala nas mãos. Tinham-me arranjado uma colega de quarto. Bufei impaciente e revirei os olhos mais uma vez.
–Tudo bem. Pode entrar. –falei, enfim.
A garota sorriu para mim. E até hoje a lembrança daquele sorriso parte o meu coração. Era tão parecido com o de outra amiga minha... Era o mesmo linear de lábios alegres que eu vejo toda vez que Piper sorri.
–Acho que não nos apresentamos. –eu disse enquanto ela colocava a mala em cima da cama vazia ao lado da minha e eu fechava a porta. –Qual é o seu nome?
–Silena Beauregard. –ela respondeu.
–Prazer, Silena. Eu sou...
–Annabeth Chase. –ela completou. –Todos falam de você.
–Ah, então quer dizer que sou famosa? –perguntei com as sombracelhas arqueadas.
–Bem, eu não sei muito. –Silena disse um pouco tímida.
Sorri maldosamente para ela. Era muito inocente para uma agente da CIA.
–Não tem problema. Eu gosto da fama.
Silena engoliu em seco com o meu olhar, mas logo depois sorriu. Naquele momento eu não pensei muito se nos tornaríamos amigas, contudo hoje vejo que não poderíamos ser menos que isso.
Depois de algumas semanas, Thalia havia se simpatizado com Silena tanto quanto eu e logo nós três nos tornamos inseparáveis.
[...]
Percy, sei o que você pensa sobre mulheres que fumam. Que são todas vulgares, que são amantes dos homens casados e do câncer de pulmão, mas eu costumava fumar antes de alguma missão tensa. Eu sempre me lembrava dos seus conselhos conservadores toda vez que fumava, mas não conseguia evitar. Me acalmava. E aquela foi à última vez que fumei.
–Preparada? –Thalia me perguntou enquanto estávamos no comboio, o que você deve conhecer como uma van grande e blindada.
–Já nasci pronta. –menti. Não estava pronta coisíssima nenhuma, mas o pessoal precisava e confiava em mim. –Todos vocês já sabem o que deve fazer, não é? É algo bem simples.
–Sim, memorizamos tudo, chefe. –Charles Beckendorf me lançou um sorriso de lado. –Fazemos a distração enquanto você liberta as moças.
–Isso. Os caras do estado islâmico estão na parte superior e as meninas que foram feitas escravas estão na parte subterrânea. –eu disse e todos prestavam atenção. –Vocês irão desestabilizá-los, enquanto Nico, Charles e eu desceremos lá em baixo.
Vimos tudo o que faltava e nos posicionamos cada um em suas posições quando chegamos ao lugar. Eu, Nico e Charles iríamos depois. Charles olhava uma foto. Era Silena e ele, abraçados, se beijando, e com pequenos sorrisos no canto dos lábios. Silena não veio conosco, como estava em período de iniciação, não era permitida ir a missões. O tiroteio havia começado lá fora. Pelo o que se dava pra ver de dentro da Van, nós estávamos em vantagem.
–Você vai voltar pra ela. –eu disse a ele e pisquei um olho.
–Pode ter certeza que sim. –ele retribuiu com um sorriso confiante.
Thalia fez um sinal. Era a nossa deixa. Pulamos do comboio. Eu estava ao encalço de Nico e Beckendorf. Eles abriram caminho em meio ao caos, com o clima desértico me fazendo suar embaixo do colete a prova de balas. Entramos dentro da base. A porta tinha um sistema de segurança, mas já tínhamos o descoberto antes de chegarmos ali.
–Beckendorf, qual era a senha mesmo? -perguntei. Por que a minha memória é a mais falha do mundo. Obrigada.
–24568. –ele respondeu. –Tente se apressar, Annabeth.
–Meu caro Beckendorf, você tem que aprender que não se apressa um gênio em serviço. –eu dizia a ele enquanto digitava calmamente a senha. –Você tem que relaxar mais um pouco e... Voialá! Porta aberta, amiguinhos.
Beckendorf sorriu e Nico revirou os olhos, mas ambos entraram.
Eu preferiria não ter ficado com essa parte do serviço. O corredor pelo o qual entramos era asqueroso e pequeno. O chão era de terra e dava pra se ouvir barulho de ratos no chão. Descemos as escadas em velocidade e por algum tempo cheguei a pensar que aquela descida não terminaria. Até que de repente encontramos a cela.
E eu preferi de novo não ter ficado com aquele trabalho.
As 30 garotas de 14 á 18 anos estavam deitadas no chão das celas. Estavam magras e com as roupas surradas, seus olhares estavam tão tristes que eu não conseguia olhá-las nos olhos por muito tempo.
–Somos do resgate. –Nico gritou para que todas as 30 ouvissem. –E vamos tirar vocês daqui.
Uma das meninas, ao que parece a única que sabia o inglês, traduziu a mensagem para as outras. Nos começamos a abrir os trincos das celas e as libertávamos. Era sempre confortante ver o sorriso no rosto das meninas quando se viam livres.
–Onde está o líder desse grupo? –perguntei a Beckendorf.
–Segunda as mensagens do comunicador, ele ainda não foi encontrado, mas estava aqui.
–Vou achá-lo. –eu disse, decidida.
–Só se estiver louca! Isso não faz parte da missão. –Nico disse impaciente.
–Tem que se cortar o mal pela raiz, Nico, querido. –eu lhe disse debochadamente. –Se eu encontrá-lo ele jamais irá fazer mais escravas. Eu vou, já está decidido.
–Annabeth... –Nico agarrou o meu braço me fazendo olhar para ele. Parecia preocupado. –Não comece com essas suas atitudes impulsivas. Você sempre arranja problemas com isso.
Olhei no fundo dos olhos dele e disse, tentando passar tudo o que sentia:
–Olhe bem para o rosto dessas meninas, Nico. Foram espancadas, estupradas e arrancadas de suas famílias. Eu não quero voltar a ver esses semblantes de novo em outras garotas. –eu tirei o meu braço do aperto dele. –Eu vou encontrar esse desgraçado e dar um jeito nele.
Nico olhou para as meninas que já subiam a escada aos comandos de Beckendorf e depois olhou para mim. Ele parecia ter entendido o que eu disse e assentiu.
–Ele não está aqui, provavelmente na parte superior. –ele falou, parecendo a contragosto. –Vou te ajudar a procurar.
Fomos até o superior e reviramos tudo, derrubamos mesas, abrimos algumas portas, mas nada de encontramos o tal chefe daquele negócio. Nico perdeu a paciência depois de um tempo e ficou me olhando inquisidor para ver se eu desistia da procura. Ele checou o seu relógio de pulso, parecia que tinha chegado uma mensagem ali.
–Temos que ir agora. Se demorarmos mais um pouco, vão chegar os reforços dos caras. –Nico dizia enquanto eu não estava nem aí pra ele, tentando achar que fosse pelo menos uma informação de onde poderia encontrar o tal cara. Nico revirou os olhos com sempre fazia comigo e segurou no meu braço de novo, só que com muito mais força. –Escuta aqui, eu não vou deixar você colocar a sua vida em risco por causa de um orgulho tolo.
–Não é um orgulho tolo!
–É sim! –seus olhos estavam furiosos, mas não me intimidavam. Nada me intimidava naquela época. –Depois achamos esse cara, você não precisa mostrar para todo mundo que é boa matando-o. Vamos, Annabeth. Agora!
Mais uma vez tirei o meu braço do aperto dele. Só que dessa vez me dei por vencida, não iria encontrar nada mesmo se ficasse ali. Fomos até a saída do local e colocamos as meninas para dentro das outras Vans que vieram buscá-las. Thalia me olhava de soslaio, acho que ele sabia que eu poderia ter uma atitude impulsiva a qualquer momento. Mas passei uns bom 5 minutos fumando o último cigarro da minha vida e com as costas escoradas na parede daquela caverna mal construída. Estava afastada de todos ali, que estavam a pelo menos sete metros de distância de mim.
A verdade é que Thalia estava certa, eu iria tomar uma atitude impulsiva.
–Me procurando? –disse uma voz de dentro da base islamita. Uma voz que assombrosamente, eu já conhecia.
Virei o meu rosto para dentro do local e vi alguém bem conhecido por mim. Alguém que havia me dado várias cantadas e que agora estava com parte do rosto queimado pelos pequenos explosivos jogados no local para matar mais rapidamente os rebeldes. Tinha um sorriso cruel em seu rosto, com um misto de expressão de dor.
–Khali. – o nome do desgraçado saiu como rosnado.
–Annabeth. –sua voz embargada de dor e acidez. –Você me quer, eu estou aqui. Conseguiu, garota, acabou com o meu negócio. E ainda me dispensou.
–Ainda bem que dispensei, Khali. –me virei com a arma em punho, andando lentamente até ele que recuava para dentro da base. E agora vou fazer mais que isso.
Ele andou mais apressadamente até a base, com as mãos ao alto em sinal de redenção. Eu não tinha percebido o plano dele, já estava toda dentro da base, eu deveria ter atirado na primeira oportunidade que tive. Khali tropeçou e caiu.
Tudo aconteceu muito rápido. Levei uma pancada na cabeça e vi o mundo girar, tentei atirar, mas meu senso de mira estava péssimo com aquela dor. As portas da base se fecharam e outra pancada foi dada na minha cabeça pela suposto ajudante de Khali. Dessa vez desmaiei.
[...]
Acordei bufando, soada, e com a cabeça doendo. Ainda estava com a roupa dá missão, mas logo tirei o casaco que estava por cima, ficando somente com a regata e a calça parda. Eu em levantei, mesmo um pouco zonza. Não era mais aquela base, era outra, tão ruim quanto. E para meu espanto e tristeza, as outras celas em frente e ao meu lado estavam cheias de garotas também.
Toda aquela missão tinha sido em vão. Enquanto o Khali não estivesse morto, de nada adiantaria fazer milhares delas. A CIA iria salvar algumas e apareceriam milhares no lugar.
–É realmente difícil ver que tudo o que você fez foi em vão, não é? –perguntou um homem parado na minha frente.
Eu levei um susto e encostei minhas costas na parede da cela. O homem era muito parecido com o Khali, mas eu não o tinha visto antes.
–Quem é você? –perguntei.
–Meu nome é Zafenate. Sou irmão de Khali. –ele suspirou pesadamente. –E antes que me pergunte, eu não concordo com nada do que ele faz, mas se eu não o apoiar, o papai e ele podem fazer algo com a minha família.
–Sinto muito. –eu sussurrei olhando para o pobre homem que parecia falar a verdade.
–Não tanto quanto eu sinto por você. –ele segurou nas grades da cela e fez um gesto para que me aproximasse, mesmo com medo fui até ele. Virei o meu rosto para que ele pudesse sussurrar rente ao meu ouvido, algo me dizia que aquela conversa não deveria ser ouvida por ninguém. –Khali acha que você é uma dos noves virgens de Ala...
–Ele deve estar louco, faz tempo que não sou virgem. –soltei uma risada que logo foi cortada pelo olha reprovador do egípcio.
Zafenate prosseguiu:
–Diz que você é a mulher mais bonita que ele já viu. E por isso quer te possuir primeiro. E quando ele se cansar, vai te dar aos seus mais fiéis amigos, os que não morreram na invasão dos agentes. E depois que eles se cansarem, vão te jogar nessa cela imunda de novo. No dia seguinte vão te dar aos soldados, quando eles cansarem vão te trazer pra cá de novo. E vão fazer isso até que você morra. Essa é a vingança do meu irmão por você ter o rejeitado.
Engoli em seco. Então aquele era o meu destino? Ser molestada até morrer?
–Onde você quer chegar com isso? –minha voz saiu tão frágil e assustada que até eu fiquei com pena de mim mesma.
–Você precisa ficar viva e intacta até que os outros agentes chegam. –ele falou. –Se você for abusa, mesmo que seja em um dia só, vai ficar com a mente perturbada e não vai poder ajudar seus amigos quando eles chegarem aqui.
–Você está trabalhando para a CIA?
–Quem você acha que os trouxe até aqui? –ele acariciou o meu rosto, aparentava estar chegando à meia idade, devia ter filhas também. E devia ser muito doloroso ver meninas passarem por aquelas situações, afinal, como monstros como pai e irmão, talvez algum dia pudesse ser as suas meninas ali. –Os mulçumanos têm os costumes religiosos quase iguais ao dos judeus. Não comem carne de porco, guardam um dia da semana para religiosidade e são muito severos quanto à contaminação do corpo no ato sexual.
Acho que ele esperava que eu fizesse alguma pergunta ou absorvesse tudo, porque fez uma pequena pausa. Quando viu que eu não iria dizer nada, continuou:
–Se acharem que você tem alguma doença, nenhum deles vai abusar de você. –ele estendeu uma pequena faca para mim. Toquei a lâmina, que de tão afiada fez um pequeno corte no meu dedo. – Seja esperta. Em duas semanas os agentes vão chegar aqui.
Ele saiu e eu fiquei com a faca na mão, olhando-a e pensando o que fazer com ela.
[...]
Perto do anoitecer, me liberaram para ir tomar banho em um pequeno espaço reservador ao final daquele lugar. Era um cubículo, mas consegui ficar lá. Abri o registro e a água gelada saiu pelo cano que estava na parede. O lugar era tão imundo que toda vez que eu me banhava, um rato preto passava pelos meus pés. Ficamos tão amigos que lhe dei o nome de Stuart.
E lá estava a pequena faca em minhas mãos. Enquanto a água escorria pelo o meu corpo nu, eu fiz inúmeros cortes nas minhas coxas. Cada um doía mais do que o outro e a água corrente levava todo o sangue embora. Quando terminei, mal conseguia me aguentar em pé pela dor dos corte, que não eram profundos, mas que pela quantidade doíam muito. Coloquei um vestido verde musgo que me deram e me levaram se nem mesmo me dar tempo de pentear os cabelos.
Me jogaram dentro do quarto que era de Khali. Ele olhou para mim com as novas cicatrizes no rosto. Sua pele bronzeada e o corpo bonito, não coseguiram me fazer sentir desejo por ele, afinal não conseguiam disfarçar a maldade no seu olhar. Ele me levantou pelo braço e me jogou com brutalidade sobre a cama. Tentou me beijar inúmeras vezes, mas eu virava o rosto e ele me dava tapas forte até que eu deixasse o rosto quieto. Cedi e ele me beijou, enfiando a língua na minha boca. Eu a mordi, claro. O que ocasionou em mais um tapa. Esse fora tão forte que senti meus olhos se encherem de lágrimas.
–Fique quieta! E talvez eu não lhe dê aos outros quando tudo isso terminar. –ele começou a se desfazer das minhas roupas.
Rasgou meu vestido na parte de cima, deixando meus seios a mostra. Ele os apertou e os machucou, acho que era diversão me vê sofrer. Quando ele rasgou a parte inferior do vestido, pulou da cama em um salto.
–O que é isso?!-seus olhos estavam irados e assustados. Ele limpava as mãos no coberto sobre a cama.
–É uma doença sexualmente transmissível ocidental. Chama-se Herpes e dá feridas no corpo. –eu disse com a respiração acelerada, com os olhos com lágrimas e as coxas e os seios doendo.
–Você é desprezível mesmo. –ele rosnou. –Que adianta ser bonita se é doente? –ele se aproximou de mim, me jogou no chão e me deu um chute nas costelas. –Vai sair da minha frente agora e será colocada naquela cela. Receberá uma comida tão salgada que vai fazer com que os dentes da sua boca caiam. Só beberá água uma vez por dia e vai ser obrigada a ver as meninas que você tanto luta para proteger serem estupradas nos chão sujo daquele lugar. E vou verificar se essa doença é verdadeira mesmo, se essas feridas se cicatrizarem, eu juro pelo os setes céus de Ala e pela descendência de Maomé, que todos os homens daqui irão possuí-la, inclusive o covarde do meu irmão.
Khali gritou por Zafenate, que veio para me levar para a cela. Khali me jogou com ódio nos braços do irmão, que teve o cuidado de tirar o casaco e colocar sobre mim, já que o outro havia me deixado nua.
Quando saí do quarto, duas meninas que pareciam ter 15 anos foram jogadas lá. E durante o caminho até a cela, pude as ouvir gritarem por misericórdia.
Foram os primeiros gritos que ouvi ali.
[...]
–Aqui está a comida para você. –Zafenate disse enquanto depositava dois pratos de comida a minha frente.
–Pra que as duas comidas?
–Essa aqui foi a que meu irmão mandou fazer para você. Acho que até um boi morre de pressão alta com essa comida. –ele pegou o outro prato – Essa é a que eu fiz para você comer sem morrer.
–A com sal é para mim disfarçar que comi –deduzi rapidamente. –Mas vai servir pra outra coisa também. Sal ajuda a não infeccionar as feridas.
–Menina espera. –Zafenate sorriu. –Mas eu não ia deixar você passar comida nas feridas. Tome.
Ele me estendeu um pacote de sal.
–Não tenho acesso aos remédios de verdade.
–Isso vai servir. –a verdade é aquilo iria doer pra caralho.
–Escute, eles vão te obrigar a olhar. Apenas...
–Eu sei. Obrigada, Zafenate. –peguei o saquinho de sal das mãos dele. –Só traga a CIA aqui o mais rápido possível.
–Durona até mesmo quando está na pior. –ele sorriu de novo. –Continue forte até quando der.
E ele fez aquilo todos os dias que fiquei lá: trazia-me os dois pratos de comida e dizia pra mim continuar forte.
As noites lá se tornaram as piores lembranças da minha vida. Os soldados escolhiam uma das meninas e a estupravam no chão das celas. Como se não bastasse eu ouvir, eles ainda me levavam para ver, e toda vez que eu desviava o rosto, sempre tinha um daqueles desprezíveis pra segurar nos meus cabelos e me fazer olhar.
De três em três dias eles iam verificar minhas feridas para ver se estavam sarando. O que me fazia ter que abri-las dia sim, dia não. Eu sempre chorava muito quando fazia isso, minha mente estava esgotada, meu corpo doído e estava cansado. E as meninas das outras celas tinham raiva de mim, por eu ter sido a única a não sofrer nas mãos daqueles caras.
Eu só queria tirá-las dali e ir embora. Comecei a marcar o tempo fazendo um corte na parede com a faca simbolizando cada dia. Não fiquei lá duas semanas, eu havia contado 48 dias ao todo. E sempre que a minha mente me forçava a se matar com aquela maldita faca, eu jogava sal nas feridas, que fazia eu me perder naquela dor, ao ponto de não me importar com mais nenhuma.
[...]
No dia 52, Zafenate apareceu bem cedo em frente a minha cela. Só tinha eu ali na prisão. Todas as outras meninas que não foram abusadas foram vendidas, e as que foram já haviam sido mortas. Minhas feridas das coxas doíam muito, eu não consegui levantar para ir até ele. Minha boca estava seca, minha cabeça estava explodindo e meu corpo estava quente. Eu não fazia mais a minha alimentação direito e comecei a perceber que as feridas estavam infeccionando. Só o sal não havia adiantado.
–Consegue andar? – Zafenate perguntou.
–Não. –minha voz saiu quase inaudível.
–Precisa tentar uma última vez. –ele me olhou com pena, mas abriu um sorriso em seguida. –Seus amigos, os agente, vão vir hoje.
Me animei e fiz um esforço para me levantar e ir até ele, mas o esforço não durou muito tempo e quando eu cheguei nas grades eu desabei. Contudo, dessa vez, eu também estava sorrindo.
–Não está brincando, não é?
–Porque que diabos eu brincaria? –ele pegou uma chave e abriu as grades da minha cela. –Você vai ficar no começo do corredor da prisão. Vai esperar uma agente vir te buscar e depois disso... Estará livre.
Juntei todas as forças que não tinha e sorri, me levantando e saindo da cela. Zafenate assentiu e sai de lá e eu fiquei esperando por quase uma hora parada ali.
A porta se abriu, revelando Silena saindo por ela. Quando ela me abraçou, eu desabei em choro. O abraço dela era confortável, cheio de carinho, eu quase me senti em paz enquanto ela acariciava os meus cabelos.
Quase.
–Vamos, Annie. Temos que ir o mais rápido possível. –ela segurou meu rosto entre as mãos. –Charlie vai colocar esse lugar a abaixo com explosivos. Vamos por fim a isso.
–Você Foi promovida? Já está fazendo missões...
Silena sorriu docilmente.
–Depois você se preocupa se eu vou pegar o seu lugar ou não, Annie. –ela me puxou para que fossemos correndo. Eu gemi longamente de dor. –Ah, meu Deus, Annabeth, suas coxas!
–Não foi nada. –eu tentei sorrir e fingir que estava tudo bem, mas acabei caindo nos braços dela. –Não está tudo bem, não. Me tira daqui por favor.
Ela foi praticamente me arrastando até a superfície, no salão principal da base. Nunca vou esquecer a satisfação ao ver aqueles extremistas ajoelhados e com os rostos desfigurados pelas surras.
Mas como sempre, tinha algo errado. Aquilo era pouco comparado com o que eu via indo abusar as meninas ou nas reuniões de leitura do alcorão. Eles estavam esperando reforços, assim como os agentes que tinham mais reforços do lado de fora. A diferença é que os extremistas já estavam dentro e os agentes, até entrarem lá dentro, iriam demorar demasiadamente.
–Silena. –eu a chamei segurando nos braços dela e me colocando em pé. –Tem mais deles aqui dentro, eles vão entrar a qualquer momento.
–Não tem, não, Annie. Nós revistamos tudo.
–Silena, me ouve! Tem mais deles aqui. –eu varri os olhos pelo local. –Avise a alguém.
Eu senti uma sombra atrás de mim e virei meu rosto. Era só Beckendorf. Por enquanto.
–Vamos embora, meninas. Já colocamos tudo em seu devido lugar. –ele falou enquanto também esquadrinhava o local. Ele também sabia que tinha algo errado. –Algo me diz que isso não vai terminar bem. Então saiam logo daqui.
Só foi ele falar que os extremistas começaram a disparar tiros no grupo. Nós nos abaixamos, mas alguns agentes foram atingidos. Beckendorf correu para abrir a porta para a entrada de reforços para nós. Não sei como nenhuma bala o atingiu no caminho.
–Silena, pelas beiradas. Não vão conseguir nos atingir se formos bem próximo às paredes. –disse a ela.
–Ok. –ela colocou um dos meus braços sobre os seus ombros e segurou na minha cintura, me carregando.
O tiroteio se agravou e eu comecei a ficar com medo. Aquilo já estava ficando fora de controle. Ouvi um grito a direita, um pouco atrás de mim. Era Joey e ele gritava pra termos cuidado.
Quando me dei conta por que, só havia percebido que um atirador estava mirando em mim quando ele disparou. E só percebi o quanto estive perto da morte quando Silena se colocou na minha frente e caiu. Segurei-a antes que seu corpo delicado se estatelasse no chão. Deitei-a suavemente no meu colo e a observei, quase não acreditando no que via.
Fora um tiro no estômago. E pela posição tinha atingido vasos sanguíneos importantes. Meus olhos se encheram de lágrimas e meu coração se perdeu no pânico quando percebi que não havia jeito, ela não sobreviveria. A embalei nos meus braços.
–Deus do céu, Silena! Porque fez isso? –minha voz saiu com tanto desespero que as palavras saíram entrecortadas.
–Você é superior a mim. Um bom soldado sempre protege o seu sargento. –ele tentou sorrir, mas de sua boca já saia sangue. Aquela frase fora eu que a ensinara. –O tempo que você ficou presa aqui, eu e Charlie tivemos a melhor fase de nossas vidas. Diga a ele que eu o amo, Annie. E que vou esperar por ele a onde eu estiver.
Os olhos dela se fecharam e sua alma se desprendeu do corpo.
Eu ouvi um grito doloroso e que despedaçou a minha alma quando ouvi. Era Beckendorf do outro lado da base, com as mãos enroladas em um emaranhado de fios e os olhos marejados e carregados de dor. Ele queria vir correndo até nós, mas tanto os tiros e os fios o impediam.
–Que pena. Não era pra atingir a moça bonita. –levantei o meu rosto e vi o desgraçado que começou tudo aquilo: Khali. –Era pra matar você, só isso.
Não o respondi de imediato. Limitei-me a escorrer as mãos por entre as roupas de Silena. Encontrei a pistola que queria lá e a escondi atrás do corpo. Eu estava com tanta raiva que me esqueci da dor nas minhas coxas, e levantei e o encarei.
–Pois bem, imbecil. Você está aqui e eu também. –eu disse com a voz rancorosa e observando ele com a cabeça levantada e o orgulho também. –Me mate e termine logo som isso, seu merda!
–Mesmo diante da morte você não desiste da prepotência. –ele deu uma risada sarcástica. –Vai me satisfazer demais a sua morte.
Ele puxou o gatilho, mas era tão retardado que não havia percebido que as balas haviam acabado. Aquele foi o sorriso mais cruel que já dei na vida. Ele bateu na arma e começou a me olhar em pânico.
–Olha eu não queria que... –ele tentou dizer.
Porém logo foi interrompido pelo tiro no estomago, no mesmo lugar que ele atingiu Silena.
–Não tenho gosto nessa vingança, Khali. –apontei a arma novamente para ele, que estava de joelhos com as mãos na barriga. – Paguei um preço muito caro para obtê-la. Mas confesso que nada poderia amenizar tanto as minhas dores quanto a sua morte.
O último tiro que disparei contra ele foi na cabeça e então ele foi para as terras de Ala.
–Annabeth! –Beckendorf gritou meu nome do outro lado da base. –Saia daqui! O lugar vai explodir em segundos, saia!
As malditas das minhas pernas me traíram naquele instante. A dor se tornou aguda e alucinante, eu definitivamente não conseguiria correr para fora dali.
Quando estava prestes a cair mais uma vez, Joey me jogou sobre um dos ombros e correu comigo para fora do lugar. Vi ele passando pela porta da base e correndo em direção ao deserto desabitado. Alguns poucos agentes também saíram de lá. Entre eles estavam Thalia e Nico, que corriam a toda velocidade atrás de Joey, o primeiro da fila.
Pelo treinamento pesado que recebíamos, os agentes correram quase dois quilômetros e meio em oito minutos. Tempo suficiente para a base explodir e distância suficiente também para que a explosão machucasse alguns.
Eu não me lembro de ter visto Beckendorf entre aqueles que fugiam.
[...]
Eu tinha uma máscara de oxigênio no meu rosto e as minhas coxas enfaixadas, enquanto meu corpo estava envolto naquela típica roupa de paciente hospitalar. Levantei os olhos lentamente e vi um quadro na parede. Era o meu nome, minhas informações e o nome do hospital Argélio que parecia ser de luxo.
–Acordou, finalmente. –Phill disse com a voz embargada ao meu lado. –Fiquei com medo de que te perdesse também.
Tirei a máscara de meu rosto apenas por alguns segundos para falar.
–O que houve, Phill? –perguntei.
–Nossa missão para te resgatar e acabar com o maior tráfico de escravas do Oriente Médio foi um sucesso. –ele respondeu.
–E porque você não está feliz? –voltei a indagar e logo depois coloquei a máscara de oxigênio para respirar melhor.
–Porque como você deve suspeitar, Silena se foi. –ele fez uma pausa e continuou: — E como um problema ocorreu no acionamento dos explosivos e era necessário alguém de dentro para acioná-los, Beckendorf teve que ficar por lá para que a base pudesse ser destruída. Infelizmente, ele também foi.
Deitei minha cabeça no confortável travesseiro da cama. E chorei muito, até que eu pudesse dormir para afugentar aquela dor. Creio que Phill queria me contar mais detalhes do êxito da missão, mas minha reação o fez sair do quarto.
Silena não estava ali, Beckendorf também não. Pelo menos estavam juntos a onde quer que estivessem. Tudo pelo meu orgulho e por uma falha minha. No final de tudo, Khali fora morto por mim. Mas isso como, Nico havia me dito, não fez de mim uma agente melhor.
E as cicatrizes nas minhas coxas só me serviram para me lembrar do pior: de que somos sempre nós que podemos fazer os maiores males contra nós mesmos.
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