The Scientist
15 Burgas IV - "Coração Quebrado"
Notas iniciais
05 de março.
Rua Aleshandroviska. Farol de Burgas. Porto de Burgas, Bulgária.
Annabeth sabia que tinha um compromisso naquele dia, mas ela não podia sair sem antes admirar Percy dormindo. Ele estava com um dos braços estendidos e com o outro braço ele a abraçava. E era um abraço firme, forte. Ele parecia não querer soltá-la. Ela ficou fazendo caricias no peitoral dele e sorriu quando viu alguns arranhões causados por ela mesma. E, é claro, teria que pedir desculpas pela mordida, que no momento estava roxa e funda, no ombro do rapaz. Mesmo que já fizesse uma semana e meia que ela havia lhe dado.
Ela se levantou sem fazer barulho, mas Percy abriu os olhos lentamente. Ele parecia ter sentido a falta do corpo dela junto ao seu.
–Vou sair. Tenho algumas coisas para resolver. –Annabeth sussurrou enquanto estava de pé ao lado da cama e passava a mão pelo cabelo desordenado dele. –Eu queria muito que você pudesse vir comigo, mas você não pode. Nos vemos mais tarde, tudo bem?
Percy assentiu devagar e fez um gesto com o dedo indicador para que ela se aproximasse. Annabeth assim fez, aproximando seu rosto do dele. Ela recebeu um selinho rápido.
–Se cuida. Talvez eu saia hoje também, não fique preocupada se eu não estiver aqui quando você voltar. Tenha um bom passeio. –Percy disse, sorriu e se virou para o outro lado voltando a dormir.
Annabeth sorriu, não deveria ficar feliz com aquele gesto simples, mas ficou. Nunca conheceu e provavelmente nem conheceria alguém mais carinhoso que Percy. Ela se arrumou rapidamente, colando jeans, uma blusa simples e um casaco preto por cima. Ela também pegou sua arma, que até o momento estava bem escondida em suas coisas, e escondeu-a no cox da calça.
Ela nem mesmo se despediu de Poseidon, até porque nem sabia onde ele estava mesmo. Quando ela colocou o primeiro pé no píer da praia, ela teve a sensação de que o dia seria longo e cansativo.
[...]
A morena de olhos azuis eletrizantes a olhava estupefata. Annabeth tinha contado para Thalia – que estava em Burgas somente para ajudá-la com os planos de viagem e colocá-la a par da situação -, ouviu com atenção cada detalhe do envolvimento entre Annabeth e Percy. Thalia estava diferente, o cabelo longo fora cortado na altura do queixo, ela usava uma maquiagem leve e até seu modo de falar estava mais calmo. Elas estavam sentadas na mesa de um café.
–Então vocês transaram várias vezes e você classificou as transas como “As trepadas mágicas”? –Thalia perguntou com um malicioso no rosto.
–Isso mesmo. –Annabeth respondeu.
–Vocês estão dormindo juntos toda às noites e você não teve nenhum pesadelo desde então?
–É, Thalia, eu já te disse isso. Estamos sim.
–E você deixou ele fazer com você tudo o quê ele quisesse, confere?
–Isso, confere.
–Você, minha cara Annabeth, está apaixonada! –Thalia sentenciou.
Annabeth quase cuspiu o suco de uva que estava tomando. Ela podia sentir tudo por Percy: carinho, afeto, desejo, muito desejo. Mas nada disso incluía paixão.
–Claro que não, Thalia, está louca? –ela quase gritou para a amiga.
–Annabeth, eu conheço você. –Thalia abaixou os olhos e disse um pouco mais baixo. –Eu te conheço antes mesmo daquele incidente na Argélia. Você está com um brilho diferente no olhar, Annabeth. Você transpira felicidade e pelo o que me contou, esse cara te faz muito bem.
Annabeth pensou naquelas palavras e se lembrou da primeira noite que se entregou para ele enquanto estavam ali na Bulgária, quando eles tinham acabado de fazer sexo. Ela não podia deixar de lembrar-se da forma como ela passou a vê-lo e olhá-lo. Ele era incrível, fazia toda aquela alegria perdida voltar para dentro de si. Ele foi o único homem em que ela confiara e por quem ela sentia desejo depois da última missão solo que ela havia feito. Quando ela o via, a única coisa que vinha a sua mente era fazê-lo se sentir bem. Até porque, todas as vezes que eles estavam juntos ela a fazia se sentir assim. Talvez, ela estivesse mesmo apaixonada.
–Você está usando drogas, provavelmente, Thalia. –ela disse por fim. –Agora me conta, como está as coisas com o Di Ângelo?
Thalia abaixou os olhos. Da última vez que Annabeth perguntara a Nico como ele e Thalia estavam, ela levara um fora de primeira com ele dizendo que não era da conta dela. Era estranho pensar que eles estivessem passando por algum problema, pareciam se amar tanto.
–Termine de beber seu suco. Não vai querer se engasgar com o que vou dizer. –Thalia ordenou.
–Está bem. –Annabeth acabou com a bebida em um gole só, por tamanha curiosidade. –Desembucha, Grace.
Thalia suspirou e soltou todas as letras de sua frase de uma vez só.
–Nico é gay.
Agora sim, Annabeth estava chocada.
–Como assim gay? –ela indagou incrédula.
–Homossexual, do tipo que gosta de homens. –Thalia ironizou.
–Eu sei o que os gays são , Thalia. –Annabeth ficou com os olhos agitados por tal notícia. –Mas e você, como ficou quando soube de tudo isso?
–Bem, nós sempre tivemos uma ótima relação juntos. Nos dois primeiros anos de casamento Nico era um doce, claro que a gente fazia muito pouco sexo, mas éramos felizes. –Thalia suspirou e mexeu no seu café com a colher. –Mas ele me revelou um segredo: o de que sempre se sentiu atraído por homens. Eu fiquei um pouco deprimida, é claro. O homem que eu amava não se sentia atraído por mim. Ele dizia que me amou de verdade, mas pelo lado mais fraternal. Ele nunca se envolveu com homens enquanto esteve comigo, mas sempre teve vontade. Tornamos-nos mais amigos ainda depois disso e consequentemente eu o liberei para ter o parceiro que quisesse. Nico até agora não se envolveu com ninguém, ele não quer me trair. Sabe, por mais que seja algo diferente, ele me ama de verdade fraternalmente e ele me respeita a ponto de não fazer nada.
–E por que vocês não se separam? –Annabeth perguntou um pouco mais baixo e se inclinando sobre a mesa para ouvir a resposta.
–Você sabe como são as regras da CIA e dos serviços militares. –Thalia respondeu. –Eles são altamente discriminadores quando se trata de gays. Nico não quer revelar nada agora, ainda mais com essa missão altamente importante. Nico não quer ser afastado do seu cargo e você sabe como ele sempre levou a sério o seu trabalho.
–É desprezível esse preconceito todo.
Elas ficaram conversando e trocando experiências. Thalia contou que Nico pensou ter se tornado verdadeiramente homem quando a conheceu, ele até gostava da coisa, mas depois de algum tempo sua natureza foi se revelando. Nico ainda comprava flores para ela, ainda beijava sua mão quando se encontravam e ainda a ouvia com todos os seus dilemas. Thalia havia se envolvido com alguns rapazes, diferentemente de Nico. Ela sempre contava as suas experiências para ele e ele sempre lhe dava conselhos sobre o que fazer.
Annabeth sorria das coisas que Thalia contava, mas logo a conversa se tornou sombria.
–Tenho uma coisa para te contar, Annie. –Thalia anunciou. –Sabe aqueles papéis que Nico te deu em Madrid?
–Aquele com o nome de várias cidades? –Annabeth disse e Thalia assentiu. –Sim, sei sim.
–É algo assustador. Os vermelhos não estavam tentando nos despistar quando enviaram as mensagens de todas aquelas cidades, eles estavam em todas elas. Eles estão espalhados por toda a Europa. Parece que montaram uma rede de emaranhados justamente para que não fossem pegos e destruídos de uma vez só.
–Essa história está cada vez mais confusa. –Annabeth balançou a cabeça para que as idéias se alinhassem – Às vezes eu fico me perguntando quando esses segredos todos vão começar a fazer sentido.
Thalia lhe entregou mais alguns papéis com as mensagens enviadas dos rebeldes. Ela lhe mostrou todas as cidades e os pontos de onde as mensagens vieram. E a cada palavra que Thalia dizia a preocupação de Annabeth aumentava mais. Percy era sua prioridade e saber que ele estava sendo ameaçado por uma rede assassina mundial a deixava desesperada.
Ela conversou com Thalia mais um pouco, até que se despediriam e Annabeth ficou sentada ali no café, sozinha. Thalia seguiu para o aeroporto, onde iria pegar um vôo direto para Kiev, na Ucrânia. Annabeth recolheu mais alguns papéis que tinha recebido e decidiu passear no grande farol de Burgas, o lugar que Percy havia a levado na semana passada. Aquele era um lugar só deles. Durante todos os dias que estavam na Bulgária, Annabeth tinha tido as melhores experiências de sua vida. Percy sempre ficava envergonhado com as propostas sexuais de Annabeth, mas as cumpria com fervor. Eles haviam feito sexo num carro alugado, ali mesmo no topo da colina do farol. Tinham feito sexo perto do píer onde ficava o barco de Poseidon, e até mesmo num local distante da praia. E fora tudo perfeito, sempre. Percy a tocava com delicadeza e ao mesmo tempo firmeza. E Annabeth não sabia o que dizer quanto a isso, ela apenas se sentia mais e mais ligada a ele.
Ela pensava nessas coisas enquanto caminhava para o farol, era fim de tarde e as cores laranja do pôr do sol já se faziam evidentes. Um sorriso bobo se formava no seu rosto toda as vezes que ela se lembrava dos olhares divertidos que ele lhe direcionava depois de terem rolado pelos lençóis da cama. Toda a felicidade dela foi por água abaixo quando via a cena a alguns metros de distância. Percy estava de costas pra ela e por isso não tinha a visto, mas a mulher sim. Aquele deveria ser a tal de Sofia. E quando a mulher a viu o beijou com fervor. Annabeth observou Percy relutar no início, mas se entregar ao beijo por completo nos segundos seguintes.
Uma parte de seu coração se quebrou ali mesmo. Ela segurou sua vontade de estrangular a mulher e jogá-la do penhasco da colina. Annabeth se virou depressa e entrou no primeiro táxi que achou. Ela não sabia se estava com vontade de chorar ou atirar em alguém, mas toda sua motivação parecia ter se esvaziado. Aquela sensação de se sentir única por Percy ter apenas dado atenção a ela nos últimos dias, se fora.
O táxi chegou o mais rápido possível até o porto de Burgas. Annabeth pagou e agradeceu o motorista. Ela entrou como um furacão dentro do barco, assustando Poseidon que estava deitado no sofá.
–Annabeth, meu Deus, garota, não me assusta desse jeito. –ele disse colocando a mão no peito. Poseidon se levantou assumindo um semblante preocupado. –Annie, você está chorando?
–Não. –ela respondeu e se virou, subindo as escadas para o quarto.
–Não foi nada relacionado ao idiota do meu filho, não é? –Poseidon perguntou. –Porque se for eu vou partir a cara daquele imbecil ao meio.
–Seu filho não fez nada. –ela mentiu, gritando já da porta do quarto.
Annabeth fechou a porta com força e se sentou na beirada da cama, colocando o rosto entre as mãos. Ela não sabia se estava chorando, se sentia tão mal que nem percebeu isso. Annabeth pensou que aquilo deveria ser um troco cruel do destino. Ela havia feito a mesma coisa – em escalas piores com ele – e agora Percy tinha retrucado. Ela não queria ficar com raiva dele, não queria mesmo. Ela também o havia feito se sentir único e depois fez ao contrário. Não podia exigir que ele fosse fiel a uma pessoa como ela.
Mas que merda era aquilo que ela estava sentindo dentro de si? Seu coração estava com uma dor aguda, inexplicável. Enquanto tentava colocar os pensamentos em ordem, ela se lembrou de algo. Do olhar da mulher antes de beijar Percy. Sofia a conhecia e parecia feliz em fazê-la ficar com raiva dele. Tinha algo errado com aquela mulher.
Annabeth desceu as escadas apressada e perguntou rapidamente a Poseidon:
–Você mora há quanto tempo aqui mesmo?
–Pare de me assustar chegando de repente assim, menina. –ele a repreendeu, mas respondeu com gentileza em seguida: — Um ano e meio.
O mesmo tempo em que a mulher havia dito a Percy que a matéria sobre o coquetel anti HVI tinha sido publicada.
–Você viu alguma reportagem sobre o seu filho em algum dos jornais locais?
–Bem, não. –Poseidon respondeu desconfiado. –Que dizer, na maioria das vezes que os caras entregam jornais aqui no porto eu apenas dou uma olhada rápida neles, mas se tivessem publicado algo sobre Percy eu saberia, claro.
Suspeitas confirmadas. Annabeth agora tinha certeza que Sofia era dos vermelhos. Ela só não podia contar a Percy ainda. Voltou para o quarto deixando Poseidon mais intrigado que antes, porém ele não a seguiu fazendo indagações. Annabeth se sentou na escrivaninha do quarto e analisou pela primeira vez os papéis que Thalia e Di Ângelo tinham lhe dado. Ela estudou todo o documento que falava de Paris e da nova papelada relacionada à estadia deles na Bulgária. Os dois documentos tinham algo em comum: o nome Gorbochov.
O único pensamento que invadia sua mente era que ela precisava ter uma conversa séria com Percy quando ele voltasse.
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