The Ruler And The Killer
34 Green Sea
Notas iniciais
Boa leitura e obrigada a todos os que comentaram (e também aos que têm mandados perguntas para a Clove e o Cato), vocês são fantásticos!
N/a: Gente, eu fiz uma fic nova sobre Jogos Vorazes. É uma história que envolve astrologia e jogos vorazes, muita ação e romance *-* Se puderem dar uma olhada aqui eu agradeço imenso (caso o link não funcione, a fic se chama "Jogos do Zodíaco" e está disponível aqui no nyah). Obrigada ♥
-Isso, Clove! Continue assim e poderá ir em breve! – a voz de Enobaria avisa pelo intercomunicador na parede.
Estou a fazer uma sessão de fotos e pequenos vídeos para a propaganda da rebelião, que passará em anúncios por toda a Panem. Os rebeldes têm grandes nomes das tecnologias a tentar aceder á rede da Capital, para poderem passar os anúncios na grande cidade também e nas horas em que as audiências são maiores.
Um flash cega-me momentaneamente e os resmungos da equipa de filmagem começam a enervar-me. Inspiro fundo e volto á posição inicial, para tentar conseguir uma boa imagem.
Foi complicado conseguir alguém que soubesse maquiar decentemente e a um nível elevado como o que é necessário, mas Lyme – outra sobrevivente dos Jogos Vorazes — acabou por encontrar uma mulher que trabalhava numa das duas lojas de maquiagem no Distrito 2. A minha equipa de preparação e o meu estilista estão desaparecidos – tal como os meus pais e a equipa de preparação de Cato – pelo que já é muito bom termos alguém que me consiga deixar apresentável. Depois de uma hora e meia a passar pincéis coloridos, a aplicar blush leve e base, batom e sombra, Latítia conseguiu deixar-me estonteante. Na pele pálida foi aplicada uma leve e pequena camada de blush claro que cobre as minhas maçãs do rosto – que foram especialmente destacadas, assim como as minhas sobrancelhas, — as pálpebras foram pintadas com um tom escuro e nos meus lábios Latítia passou um gloss claro. “Forte, bela e inesquecível” foram as suas palavras no momento em que terminou a sua obra.
-Olhe para a câmara, Clove. – o fotógrafo ordena – Tente passar a imagem de uma pessoa feroz.
-Eu sou feroz.
-Então mostre isso a Panem.
Franzo o nariz para não dizer que já provei mais do que suficiente ao povo de Panem durante as semanas na arena, mas calo-me e movo o meu corpo, ficando de lado.
Ranjo os dentes e levanto o queixo, foco o meu olhar na câmara e imagino um tributo ali, comigo, na arena.
-Isso mesmo! – exclama Brutus, encostado á parede e com um ar agora entusiasmado que contrasta com a expressão aborrecida que ele tinha há momentos atrás – Vento! Metam uma ventoinha aí!
Um dos Avoxes ali presentes sai da sala e volta minutos depois, que aproveitámos para fazer uma curta pausa. A ventoinha, pequena e redonda, é colocada no chão, a cinco metros de distância dos meus pés e voltada para o meu rosto.
-Ótimo. – inclino um pouco a cabeça para o lado e estendo os braços – Perfeito! – nos minutos seguintes, a centena de flashes me deixa desnorteada e o me mentor decide finalmente pôr um fim àquela tortura.
-Já temos fotos mais do que suficientes.- diz ele e me estende um casaco comprido e quente. Deslizo o casaco sobre os meus ombros e deixo a sala, fazendo caminho para o meu quarto.
Sempre gostei muito de observar os olhos das pessoas. Há olhos de todos os tamanhos, formas e cores. No entanto, a maior parte dos olhos é uma verdadeira janela para a alma da pessoa e os olhos de Johanna Mason fugiam a essa regra. Grandes, redondos e castanhos, os olhos de Johanna pareciam genuinamente surpreendidos por não termos ouvido falar no casamento.
Ao contrário do que eu pensava, o casamento não seria meu nem do Cato, eramos ambos demasiado jovens e eu ainda nem tinha completado dezasseis anos. Finnick Odair e Annie Cresta eram os galardoados e dentro duas semanas iriam casar. Ainda nem conheci Annie ou Finnick, apenas me lembro deles pelas reprises e repetições dos Jogos Vorazes.
Cato não pareceu tão aliviado quanto eu quando soube que o casamento não era nosso, mas não disse nada enquanto Johanna nos guiava até onde eramos esperados para sermos filmados e fotógrafados.
O Cato foi o primeiro alvo. Latítia passou uma finíssima camada de base pelo rosto do meu namorado e depois entregou-lhe um fato semelhante àquele que usou na abertura dos Jogos, no desfile. Cato estava de fazer conter a respiração e fiquei satisfeita por poder estar ali sentada, a ver como ele se saia e a admirar o meu namorado. Latítia, com as suas mãos gordas e os dedos curtos e cheios como pequenas salsichas, pegou no meu cabelo e prendeu-o num rabo de cavalo. Minutos depois, longe da vista de Cato, ela pegou numa tesoura prateada, abriu-a e decepou um terço do meu cabelo tão longo e escuro. Graças ao penteado que eu usava, uma espécie de coque com madeixas soltas, Cato não reparou no pedaço de cabelo que estava a faltar e demos inicio a uma filmagem relativamente calma e bem preparada.
Desfaço o coque e deixo o meu cabelo cair em ondas pelas minhas costas. Tiro a maquiagem do meu rosto com a palma da mão e salto para a minha cama, sem me importar se ainda estou o vestido caríssimo e tão bem feito especialmente para mim. Em segundos, estou a dormir.
*
É tarde, muito tarde e eu devia a estar no início de um sono tranquilo que duraria toda a noite até á madrugada. Quando, na verdade, acabei de acordar. Solto um suspiro de frustração e vou tomar um duche. As coisas são diferentes agora, dado que o Distrito já não pode gastar abundantemente. Há uma carga de água limitada para todos os quartos e, felizmente, ainda tinha alguma de sobra.
A água parece também limpar o meu interior e expelir as impurezas. Sinto-me muito mais leve quando me enrolo numa toalha e saio do banheiro.
Mesmo á minha frente está um homem de cabelos cor de bronze e olhos verdes como o mar, mas é um mar distinto, que apenas se vê na televisão… é o mar do Distrito 4. E o homem jovem que está encostado á porta do meu quarto com um tabuleiro recheado de comida é o famoso Finnick Odair, mais um vitorioso e também o noivo do mês.
-Olá, Clove. – aperto a toalha á minha volta e Finnick me olha de cima a baixo, rindo do meu constrangimento – Acho que sabe quem eu sou. Ou preciso de me apresentar? – sacudo a cabeça, balançando os cabelos molhados.
-Sei quem você é, Finnick Odair.
-Quanta formalidade. – ele se desencosta da porta e deixa o tabuleiro no baú aos pés da cama – Apenas Finnick.
-Ok. – os meus olhos encontram aqueles mares verdes e me ouço suspirar. Finnick tem um certo charme, ele sabe como deixar qualquer mulher (ou garota, que é este o caso) encantada, mesmo que com apenas meia dúzia de palavras – Porque veio cá?
-Ao 2? – Finnick sorri abertamente – A Annie e eu…
-Eu sei, eu sei. – faço um movimento com a mão e contenho a vontade de rolar os olhos – Casal maravilha, você a salvou da loucura, blá blá blá. Amor eterno e casamento.
-Sim, isso, de certa forma, resume a nossa história.
-Agora a sério, porque você está aqui? – cruzo os braços e o homem de cabelos de bronze encolhe os ombros num movimento descontraído.
-Achei que estivesse com fome. – inicialmente eu não percebo o que ele quer dizer com aquilo, mas depois os meus olhos voltam a encontrar o tabuleiro pousado na baú e a minha boca se abre num “o” surpreendido – De nada. – Finnick faz uma vénia.
-Porquê? – inquiro.
-Sou uma pessoa simpática, Clove, e, ao contrário de você, eu sei como fazer as pessoas gostarem de mim. – ele provoca.
-E eu, ao contrário de você, não preciso que as pessoas gostem de mim. – pico de volta com uma certa maldade na minha voz. Já me parecia que estava a ficar demasiado branda com esta coisa da Guerra.
-Certo. – a expressão de Finnick desmorona e uma sombra parece percorrer o seu rosto, tornando-o sombrio – Aproveite a refeição.
O vitorioso do 4 volta-me as costas e anda para a porta. Ranjo os dentes quando sou preenchida pelo sentimento de culpa. Eu sei da história de Odair, toda a nação sabe, é claro, mas talvez tenha sido errado jogar na cara dele que sei sobre o seu trabalho na Capital. O sentimento de culpa parece pesar ainda mais quando penso em como, tal como eu joguei o passado de Finnick na cara dele, também ele poderia ter usado o meu quase esturpo como carta de jogo.
-Ei, cara de peixe. – chamo. Finnick, que parece ignorar o apelido, vira-se novamente e me encara com expectativa. O seu rosto ainda é sombrio e nos seus olhos o mar verde parece estar a ser perfurado por um remoinho de memórias e lembranças assombrosas – Obrigada. – resmungo a contra gosto.
-De nada, princesinha. – opa. Prin… quê?
-Você não me chamou isso.
-Ah, claro que não. – Finnick gargalha – Princesinha. – grunho.
-Eu ia te convidar para comer comigo, já que se deu ao trabalho de escolher e trazer essa comida, mas agora prefiro comer sozinha do que ficar na sua companhia, cara de peixe. – ele abana a cabeça reprovadoramente e dá alguns passos em frente como uma expressão que parece desiludida.
-Tantos apelidos a fazerem jus ao meu aspeto e você tem de escolher “cara de peixe”? A sério, Clove? – faço um esgar.
-Além de parecer um, você também cheira como um peixe. Talvez devesse tentar usar algum tipo de colónia para esconder o bafo. – a sua expressão chocada é hilária, mas não chega a ser ofendida. Finnick esteve este tempo todo a brincar comigo e eu respondi na mesma moeda.
-Vá vestir alguma roupa, princesinha. – ele sugere, sentando-se na minha cama com o tabuleiro e debicando um pãozinho com milho – O seu namorado ficaria furioso se entrasse aqui e a visse assim… comigo aqui. Estou certo?
Nem é necessária uma resposta, arranco a roupa do armário e literalmente corro de volta para o banheiro. Só aí me ocorre o pensamento de que eu queria que Cato estivesse ali, a lembrar-se de mim e a trazer-me o jantar, e não Finnick, o galanteador do Distrito da pesca. Mas Finnick parece ser legal, embora que convencido e até um pouco arrogante, e isso me faz mexer mais depressa e vestir-me e pentear-me rapidamente.
Volto para o quarto ao mesmo tempo que prendo o meu cabelo num coque frouxo.
-Tão rápida? – Finnick pergunta, ainda sentado na cama e escolhendo algo no tabuleiro – Pensei que fosse demorar mais.
-Sou uma pessoa prática, cara de peixe. – me sento ao lado dele, ainda sem ter a certeza se devia enxotá-lo do quarto ou deixá-lo lá ficar. Ainda não me sinto confortável com desconhecidos, contudo, o que sei sobre Finnick convence-me de que ele não é grande perigo para a minha pessoa. Bom, em qualquer caso, havia um ninho enorme de facas no meu quarto.
Finnick enche a mão com qualquer coisa que não consigo ver bem e, sorrindo sedutoramente e arqueando uma sobrancelha, ele oferece:
-Quer um cubo de açúcar? – a mão do cara de peixe se estende na minha direção e se abre, expondo uma dúzia de pequenos cubos de açúcar. Sinto a saliva acumular-se na boca.
-Onde arranjou isso?
Ele encolhe os ombros.
-Na cozinha. Era para ir para os animais, cavalos, eu acho, mas consegui tirar alguns sem ninguém reparar. Quer? – pego em três cubos e meto um na boca. Finnick me observa – Gosta?
-Muito. – o açúcar derrete-se-me lentamente na língua e fecho os olhos, deliciada – Hum. Os melhores cubos de açúcar que já comi.
-Os do 12 são ainda melhores. Há uma padaria lá, ou havia, e têm os melhores cubos de açúcar. E as flores de açúcar de lá são muito boas também.
-Como você sabe isso tudo? – escorrego outro cubo de açúcar no interior da minha boca e deito-me de barriga para baixo, apoiada nos cotovelos – Pensei que era necessária uma autorização especial para visitar outros Distritos.
-E é, mas eu sou um vitorioso, lembra? – ah, sim.
-Já me tinha esquecido. – olho de relance para o tabuleiro – Você jantou na cantina?
-Sim. – Finnick tira mais uma mão de cubos do tabuleiro, deixando apenas três – Com a Johanna, a Annie e mais uma ou duas pessoas. – a sua voz se suaviza quando diz o nome da noiva e eu questiono se isso também acontece comigo quando me refiro ao Cato.
-O Cato também estava nessa mesa? – Finnick abana a cabeça.
-Ele jantou com a Enobaria e o Brutus. Pareciam estar a falar de algo sério. – franzo o cenho. O que poderiam estar eles a falar que fosse sério sem eu estar ali? Estar-me-iam a esconder algo? – Ei, não se preocupe, — Finnick mastiga dois cubos de açúcar – a Capital já perdeu esse poder de venda.
-Hã?
-Eles já não podem magoar você, Clove. Nem a mim, estamos seguros aqui. – assegura e o tom de voz do cara de peixe me faz estremecer. Sinto que ele está falando de algo que eu sei o que é, mas que ao mesmo tempo me é desconhecido.
-Não estou a perceber, Odair.
Finnick enruga as sobrancelhas.
-Como não? Quero dizer, você… — o seu rosto fica paralisado durante alguns segundos assustadores.
-Finnick? – a minha voz é tensa agora – Fale, malcheiroso! – nem o apelido ofensivo e disparatado o tira do estado de hipnose e tenho de bater na sua bochecha para o trazer de volta á realidade.
-Au! Não precisava de me bater! – queixa-se, esfregando a bochecha.
-Você parecia de pedra! Estava me deixando nervosa.
-Oh, a sério? – Finnick faz uma pose idiota e sedutora – Isto a deixa nervosa?
-Vá ver se chove, Odair.
-Não preciso, princesinha, já está a chover. – provavelmente ele dizia a verdade e eu não tinha maneira de o saber, pois ignorara a televisão o dia todo e estava proibida de sair daquele Edifício.
Finnick mete outros dois cubos na boca e a sua mastigação ruidosa me faz insistir no assunto.
-O que você estava dizendo sobre a Capital, cara de peixe?
A expressão do vitorioso do 4 volta a ficar sombria e pesarosa e ele engole os restos dos cubos de açúcar. Finnick olha para baixo, parecendo subitamente interessado na colcha.
-Vai responder ou um peixe lhe comeu a língua? – um som semelhante a um riso fraco foge da garganta do vitorioso dos 65º Jogos Vorazes.
-Finalmente encontrei alguém que partilha o mesmo sentindo de humor que eu. – murmura com certo sarcasmo. Isso me recorda de que conheço Finnick á menos de uma hora e já ambos agimos como se fossemos amigos há anos.
-Estou á espera de explicações – afirmo com determinação e ele sacode a cabeça.
-Não é do meu direito contar-lhe sobre isso, se você ainda não sabe.
-Ainda não sei o quê? – insisto com irritação.
-Clove, — o cara de peixe levanta o rosto e me encara com preocupação – este é um assunto delicado, ok? Eu passei por uma situação muito, muito semelhante e sei que você vai preferir ouvir isso da boca de outra pessoa. – Cato, era a quem ele se referia.
Levanto-me bruscamente.
-Onde vai?
-Procurar as respostas que você está a esconder. – Finnick me olha alarmado.
-Mas… Ok, você tem esse direito. Ao menos coma o que eu trouxe primeiro. – mordo o lábio, indecisa entre satisfazer a vontade ao meu estômago ou á minha curiosidade e orgulho (que foi ferido e traído ao saber que as pessoas que me são tão importantes – especialmente o idiota do garoto da espada — estão a esconder informações que, pelo ponto de vista de Finnick Odair, são relevantes).
O meu estômago ronca enquanto admiro um pedaço de pão com milho e uma lata de refrigerante ao lado e eu cedo.
*
-Que a sorte esteja sempre a seu favor, princesinha. – Finnick despede-se e desaparece na curva ao fundo corredor.
De barriga cheia estou agora sonolenta e só me apetece voltar para a cama e continuar a dormir. Porém, ainda tenho respostas para exigir.
Bato á porta repetidamente, Cato está provavelmente a dormir e sei como ele tem o sono pesado quando está cansado. Tal como previa, ninguém vem abrir a porta, então eu mesma trato de o fazer. Lenta e silenciosamente, rodo a maçaneta e empurro a porta, voltando a fechá-la quando já estou no quarto. Nenhuma luz está ligada e o espaço está suspeitosamente arrumado, mas também não há nada para desarrumar. Escondido debaixo dos lençóis e com uma almofada a tapar-lhe a cabeça, Cato dorme. O seu sono não é tranquilo, certamente, e ele se remexe de um lado para o outro, agitando as pernas e resmungando e murmurando palavras imperceptíveis.
Com uma expressão cautelosa, ando até á cama do meu namorado, esquecendo momentaneamente o motivo que ali me trouxe. Os murmúrios se intensificaram e tornaram mais violentos. Com o rosto franzido, sento-me ao lado de Cato e o abano na tentativa de o acordar.
-Cato. – chamo, mas ele começa a debater-se e a gritar – Cato! – abano-o com mais urgência – Acorda! Cato, acorda!
Ele para de se mexer, repentinamente, e vira-se na cama, ficando de barriga para cima. Cato tem os olhos fechados, mas o rosto está coberto de suor e tem uma expressão dolorosa que me atinge como um raio.
-Ei… — afago gentilmente a bochecha dele – Foi só um pesadelo. – não há resposta, apenas um par de braços a puxarem-me de encontro ao seu corpo tenso e suado. Suspiro e fito o rosto de Cato, que mantém os olhos cerrados e uma expressão de quem viu uns quantos fantasmas – Loirinho. – começo, mas fico sem saber o que dizer a seguir. Não sei com que sonhou Cato e custa-me admitir, mas esta é a primeira vez que o vejo ter algum tipo de pesadelo. Não sei o que fazer, mas decido tentar ajudá-lo, é o mínimo que posso fazer, depois de todas as noites em que, mesmo antes de namorar-mos, Cato me acolheu no seu quarto e me protegeu dos sonhos maus – Cato, abra os olhos. – peço num tom suave.
Ele abre-os a custo e assim que o faz os seus olhos azuis revelam-se escuros e assustados. Não é normal ver Cato assustado. Aborrecido, violento e furioso sim. Mas assustados? Não mesmo.
-C-clove. – gagueja, olhando para mim como se eu pudesse desaparecer a qualquer momento.
-Está tudo bem, Cato. – abraço-o ternamente e deixo um beijo no seu rosto. Cato solta um suspiro contido e parece aliviado quando, passados alguns minutos, eu continuo ali, sem ter desaparecido ou evaporado – Parece que é a minha vez de afastar os pesadelos.
-Não se acostume a isso, esta é última vez que me verá assim.
-Não tenho nada contra ajudar você, loirinho. – sussurro e Cato volta a fechar os olhos. As mãos dele seguram as minhas, envolvendo-as num aperto quente e desesperado. A sua respiração está mais regular, mas continuo a ver as gotas de suor a brilhar na testa do meu namorado – Pelo contrário. – tiro uma mão da dele e limpo-lhe o suor no rosto.
-Eu sei. Obrigado, pequena.
-Ora, é isso que as namoradas fazem, não é?
-Acho que sim. – responde. Afago a testa de Cato e descanso a cabeça na almofada.
-Quer contar com o que sonhou? – hesito ao fazer a pergunta, mas talvez aquilo sirva para o ajudar. Falar dos meus pesadelos costumava ajudar-me ás vezes, como se isso fosse o necessário para me convencer de que os sonhos não passavam disso mesmo, sonhos, frutos da minha imaginação.
-Não. É melhor não.
-Talvez isso o ajude, sabe…
-Clove. – a sua voz é ríspida e me sobressalta – Não. Eu não quero falar disso, não insista. – um nó se forma na minha garganta e sinto-me tão egoísta por estar chateada. Sei e entendo que Cato não queira falar sobre algo que não quer recordar, mas ao menos ele podia ser menos bruto quando eu estou tentando ajudá-lo – Pequena, — o meu namorado abre os olhos e volta a olhar para mim. Mantenho-me calada – me desculpa. Vamos esquecer isso, pode ser?
-Claro. – respondo secamente e Cato volta a suspirar. Abano a cabeça – Pode ser sim. Está tudo bem. – encaixo a minha cabeça na curva do pescoço dele e fecho os olhos – Quero falar com você amanhã de manhã, loirinho, temos de conversar.
-Foi por isso que veio cá?
-Também. Queria ver você, aquele tempo juntos na sessão não foi nada.
-Concordo. – diz num tom sonolento – Se bem que você devia usar vestidos como aquele mais frequentemente. – mesmo com sono, consigo detetar a maliciosidade na voz do loiro e tenho a certeza de que naquele momento ele estava me imaginado com o vestido.
-Talvez você tenha essa sorte.
-Hum. – Cato rodeia a minha cintura com um braço e nos coloca numa posição mais cómoda. A sua mão pega numa madeixa do meu cabelo e a leva ao nariz. Continuo sem entender esse gosto que Cato tem pelo meu cabelo – Vou juntar isso á lista de coisas a cobrar, pequena. – sussurra.
-Boa noite, loirinho.
-Tenha sonhos cor de rosa, pequena. – zomba.
Cato não volta a ter pesadelos naquela noite e fiquei verdadeiramente satisfeita por isso na manhã seguinte. Porém, enquanto dormia, fui eu o alvo dos sonhos assombrosos, que inundaram a minha mente com os piores cenários possíveis para o desfecho daquela Guerra. A Capital ganhava. Os Distritos eram novamente feitos escravos e condenados á miséria. A minha equipa era capturada por um exército de Pacificadores. Brutus morria com uma bala na cabeça. Enobaria era levada para laboratórios e era torturada com cabos de eletricidade. Finnick Odair morria decapitado por uns mutantes com escamas. E eu sobrevivia, forçada a viver uma vida onde Cato não existia.
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