The Ruler And The Killer
29 Complications - parte 1
Notas iniciais
-Clove, será que dá para você ficar quieta um segundo? – Colan pergunta, frustrado.
-Eu já estive parada durante mais de três horas! Tenho de mexer as pernas ou elas vão cair! – resmunguei enquanto me era aplicada outra dose de maquiagem.
-Você já está quase pronta, Clove, espere só mais um pouquinho. – pediu o meu estlista. Suspiro e cruzo os braços.
-Você tem dez minutos e assim que eles terminarem eu saio deste quarto. – Colan sorri de alívio.
-Tudo bem, dez minutos é tudo o que preciso. – asseniti com um suspiro e deixei que Colan continuasse a “preparar-me” para o momento mais anseado do ano (logo asseguir aos Jogos Vorazes, é claro). Fechei os olhos e penso que adormeci, sendo mais tarde acordada pela voz entusiasmada de Niah:
-Oh, ela está perfeita! Você realmente se esmerou, Colan. Os patrocinadores vão adorar! – abri os olhos e fitei o rosto excessivamente maquiado de Niah.
-Obrigada, Niah, eu também acho que ela está muito bem. – agradeçe Colan.
-Eu ainda não percebi porque é que vou almoçar com os patrocinadores e só depois vou para o Distrito 12. – disse sem sequer agradeçer pelo elogio de Niah, que se limitou a rolar os olhos.
-Querida, é simples a razão: se não fossem os patrinadores, você e o Cato não teriam sobrevivido nem metade do tempo.
-Não, não, — contrapus, abanando a cabeça – nós sobrevivemos porque lutámos contra tudo o que se meteu no nosso caminho.
-Também, mas…
-Não vale a pena discutir esse assinto com ela, Niah. – Enobaria disse, entrando no quarto – A Clove é uma pessoa de ideias e opiniões fixas. Vamos dar-nos por felizes por ela não ter tentando matar ninguém quando soube que ia ter de jantar com patrocinadores, pode ser?
-É isso mesmo, Enobaria. – sorrio em agradeçimento para a minha treinadora – Agora, eu estou cheia de fome, posso ir comer?
-Comer antes do almoço? – Colan e Niah perguntaram ao mesmo tempo, aparentemente chocados pela minha pergunta. Franzi o cenho.
-Sim. Porquê?
-Porque as pessoas da Capital “respeitam” muito ter um estomâgo vazio e quanto mais você comer, melhor. – claro, só as pessoas da Capital para pensarem assim. Mordo o lábio e não digo nada, levantando-me da cadeira.
-Então, posso comer agora ou não? – pergunto quando já estou quase a sair do quarto.
-Não! – Niah e Colan gritam ao mesmo tempo, fazendo-me bufar e fechar os punhos com raiva – Mas você pode ver-se ao espelho e me dizer o que acha do vestido que desenhei especialmente para você. – Colan sugeriu com um sorriso nervoso.
-Ok, mas depois eu quero comer. – Colan riu e Enobaria e Niah abanaram a cabeça. Talvez vocês estejam se perguntando porque eu estava tão determinada a comer e be, a raspota é simples: eram dez para o meio-dia e eu ainda não tinha comido nada desde a noite anterior!
Eu, Cato e toda a nossa equipa estávamos no trem a caminho do Distrito 12. Agora, o trem estava a cinco minutos de parar e em meia hora eu estaria numa sala cheia de gente que eu desconhecia, mas que, com o dinheiro que devia ser repartido com os Distritos, tinham ajudado eu e o meu namorado a sobreviver na arena. O almoço seria algo rápido e pouco formal, apenas Cato, eu, Brutus e Niah agradeçendo às pessoas que decidiram nos patrocinar.
Andei até onde sabia estar um espelho e quase suspirei de alívio quando vi que não estava vestida nem maquiada como as pessoas da Capital, embora durante as semanas que lá estive com Cato me tenha habituado um pouco mais á maneira de viver daquela gente tão esquisita. O meu vestido era longo, leve e solto. O decote era formato de V – um V bem longo, por acaso -, mas não era muito revelador. Havia uma espécie de cinto marrom claro na minha cintura que combinava perfeitamente com o tecido dourado do vestido. O meu cabelo estava preso de lado, fazendo com que as madeixas lisas e negras escorressem pelo meu ombro direito. A maquiagem também não era nada exagerada e me dava um ar altivo, que era exatamento o que eu queria. Colan tinha pintado as minhas pálpebras de um tom que se podia dizer ser muito semelhante á cor do mel e os meus lábios estavam pintados de um vermelho quase natural. Além disso, eu tinha passado por cinco banhos diferentes e tinham sido aplicados na minha pele mais de sete cremes revitalizantes; já não era necessário usar base, pois as imperfeições da minha pele tinham sido removidas durante a cirurgia.
-Então, o que você acha? – pergunta Colan, que está atrás de mim com uma expressão ansiosa.
-Está legal. – sorrio um pouco – Você é chato, mas um ótimo profissional. – Colan e Enobaria riem, enquanto Niah resmunga um “Que falta de educação que esta garota tem!” – E agora, já que não posso comer, podem ao menos me dizer onde está o Cato?
-Nem pense nisso, Clove. – Enobaria diz, se colocando á frente da porta e impedindo a minha pasagem – Vocês só se podem ver no almoço? – esbugalho os olhos e quase grito:
-Porquê?
-Porque foram essas as indicações que recebemos, agora temos é de compri-las.
-Eu não recebi indicações nenhumas! Isso é vosso problema, não meu! – afasto-me de Colan e tento passar pela porta, mas Enobaria impede-me, segurando com firmeza o meu pulso.
-Clove, nós já arriscámos muito por causa desse namoro de vocês, que nem sequer deviz existir, e agora temos de obdecer às regras. E você vai obdecer. – o tom de Enobaria é autoritário e sei que não tenho outra opção senão a de fazer o que ela me diz – É para seu bem e do Cato, Clove.
-Vou fingir que acredito. – murmuro e mais do que nunca desejo ter o meu estojo de facas comigo, mas isso é mais uma coisa que tinha mudado: eu não podia andar por aí com as minhas facas. E talvez até fosse melhor assim, porque havia muita gente cujas cabeças eu queria cortar naquele momento.
*
-Uf, isto nunca mais acaba, não? – perguntei a Cato, que comia feito louco um prato de arroz com marisco vindo diretamente do Distrito 4.
-Tenha calma, Clove. – ele diz, de boca cheia e com um fio de molho a escorrer pelo queixo — Daqui a pouco o almoço termina.
-Limpa o queixo, babaca. – provoco e o vejo levar a mão ao queixo urgentemente.
-Onde você vai? – Cato pergunta quando eu me levanto da cadeira.
-Vou “agradecer” aos nossos “salvadores”. – Cato ri do meu péssimo humor – Não ria de mim, babaca.
-Então não me faça rir de você, pequena. – rolo os olhos e me afasto de onde ele está.
-Não demore muito, Clove! – o ouço dizer, mas ignoro. Depois de horas sentada numa cadeira, a ser maquiada e a tomar banhos “revitalizantes”, estou sem paciência nenhuma e só quero apanhar um pouco de ar.
Há muitas pessoas naquele lugar onde cada simples cadeiira, mesa e talher devem ter custado uma fortuna. As pessoas, vestidas de forma estranha e enjoativa, acenam-me assim que me vêem mas logo voltam às suas conversas fúteis ou voltam a dançar. Observo a enorme fila de pratos exóticos trazidos dos vários Distritos. É fácil ver de que Distrito veio cada comida, a do Distrito um nem ocupa metade do prato, limitando-se a estar organizada e a ter a melhor aparência – obviamente, o sabor também é exclente; o Distrito 2 tem as comidas mais fortes, com os picantes e molhos de tempero; os pratos do Distrito 3 e 5 quase podem ser confundidos, ambos são coloridos e têm aquilo a que chamamos de “comida inteligente”; do Distrito 4 encontram-se os pratos de peixe e marisco, muitas vezes acompanhado de arroz; o Distrito 6 e o 7 têm as sobremesas, enquanto os restantes têm os pratos de carne e comida mais “pobre”, mas rica em proteínas.
Estou tão distraída com os meus pensamentos que apenas me apercebo que estou no terraço do edifício quando sito um toque no meu ombro. Viro-me e fico imediatamente em posição de ataque e ouço uma gargalhada:
-Calma aí, garota, você já não está na arena. – olho para o rosto da pessoa que assustou e o garoto, que deve ser um dois anos mais velhos do que o Cato, sorri-me – Eu sou Arband. Arband Doven. – volto á minha posição normal e aperto a mão que Arband estendeu na minha direção.
-Clove Breil.
-A vencedora da 74ª Edição dos Jogos Vorazes! – ele exclama, largando gentilmente a minha mão – Prazer em conhecê-la, Clove. – “infelizmente não posso dizer o mesmo” pensei, mas vi-me obrigada a ser minimamente simpática com aquele garoto, pois se não o fizesse Niah e Brutus me matariam.
-Igualmente, Arband.
-Então, vencedora, — ele começa num tom brincalhão mas simpático que quase me dá vontade de vomitar – onde está o seu parceiro de Distrito?
-Você está falando do Cato Ruthless? – Arband assente, ainda sorridente – Ah, então, ele está a devorar a comida do Distrito 4, pareçe que não come há semanas. – comento, esqueçendo-me que estou a falar com um praticamente desconheçido.
-Clove, você já conheçeu a floresta do Distrito 12? – ele me pergunta e eu franzo o cenho.
-Claro que não. A entrada na floresta é proíbida! – Arband olha para mim agora de uma forma diferente, quase maliciosa e é apenas aí que reparo no físico daquele garoto.
Arband não é propriamente alto, mas de certeza que é mais do que eu; os cabelos dele são ondulados e estão pintados de um azul escuro e bilhante semelhante áquele que Caesar usou este ano e os seus olhos são de um verde amarelado, estranho e perturbador. Tirando essas características perturbadoramente típicas dos habitantes da Capital, Arband até pode ser considerado um garoto bonito, mas, mais uma vez, nem chega aos pés de Cato.
-Gata, a lei proíbe que alguém seja avistado entrando ou saindo da floresta, mas não será proíbido se ninguém souber que estivemos lá. – Arband diz, num tom convencido e tão irritante que me apeteçe dar-lhe um soco.
-Primeiro de tudo, — começo num tom agressivo e ponho aquela minha expressão que sei que faz as pessoas me temerem – porque porra eu iria para a floresta do Distrito 12 com você? – o sorriso de Arband se defaz e ele começa a ficar pálido e nervo. Ótimo, mas eu não terminei – E segundo, me chama de “gata” outra vez e eu corto essa língua nojenta, entendeu?
-Eu vou… Eu… — Arband começa a ofegar e a ficar muito vermelho – Você não tem o direito de falar assim comigo! – ele exclama, exaltado mas ao mesmo tempo assustado.
-De que merda você tá falando, garoto? – quase grito, me controlando para não o atirar do terraço. Para minha surpresa, Arband se aproxima mais de mim e me agarra pelos ombros.
-Eu paguei por você! Você é minha agora e por isso tem que me respeitar e fazer o que eu digo! – e é aí que eu quase caio de tão chocada e confusa que estou. Mas que porra aquele garoto está falando?
-Me larga! – rosno, me afastando bruscamente dele – E eu não sei do que você está falando, por isso me deixa! – Arband abana a cabeça e me fita com raiva.
-Não. – ele dá um passo em frente – Eu paguei por você e vou ter aquilo a que tenho direito. E vai ser agora.
-Ou você é louco ou ficou louco de vez! – exclamo, tentando me soltar do aperto dele na minha cintura – Me larga!
-Ou você faz o quê? – ele sussurra no meu ouvido, prendendo o meu queixo com a sua mão esquerda, enqunato segura a minha cintura com a outra mão – Me mata? Não se incomode com o esforço, gata, e guarde essa energia para quando estivermos na minha cama.
-Esta é a última vez que vou repetir: me larga! – grito as últimas palavras e me começo a debater, mas Arband é mais forte do que eu.
-Esteja calada! – com isso, Arband tapa a minha boca com a mão que antes estava no meu queixo. E é aí que começo a entrar em pânico.
Arband me empurra contra a parede de pedra do terraço e, ainda com uma mão na minha boca (mão essa que eu tento morder a todo o custo), ele levanta o meu vestido e passa a mão nas minhas coxas. Grito mas a minha voz é abafada pela mão de Arband, que aperta a minha coxa e morde o lóbulo da minha orelha.
-Não vale a pena tentar fugir, gata, isso será inútil. – ele sussurra tom maliciosa e a mão dele sobe ainda mais, o que me faz começar a dar-lhe pontapés (ou pelo menos a tentar). Continuo a tentar me soltar quando ouço uma voz que faz que tanto Arband quanto eu fiquemos como que petrificados.
-Que merda é essa? – e a voz, que borbulha de raiva, é dele. A voz é de Cato e ele olha para Arband como se o fosse matar.
Fale com o autor