The Raven
14 Burn
Notas iniciais
Hatsune Miku fitava a paisagem flamejante. Poderia jurar que a fumaça alcançava o céu. Seu nariz se acostumou com aquele cheiro logo que o sentiu. Sangue. Carne humana pegando fogo.
Ela não sabia muito bem como reagir, então ficou sentada assistindo a tudo como se não fizesse parte daquilo.
Rin e Len Kagamine estavam sendo carbonizados, mas ela continuaria parada.
Eles eram só um empecilho que a atrapalhava a chegar até sua vingança.
E agora, agora só faltava acabar com Shion Kaito, Megurine Luka e com aqueles quatro.
Antigamente gargalharia apenas para dizer “te encontro no inferno”. O encontro não estava tão distante assim.
Megurine Luka havia a ajudado em queimar os gêmeos. Pelo que deduzira, a arma de Luka era o fogo. Uma garota calma e ao mesmo tempo explosiva.
Ela se levantou. Não havia a perdoado por se intrometer em tudo. Parecia até que convivia com ela, quando era Yui Ota.
– Vai ficar dando bandeira para ser presa novamente, ou vai sair daqui? – perguntou uma voz. Miku se virou. Era a primeira vez que via Kaito usando roupas normais, com um sorriso despreocupado no rosto e os cabelos bagunçados. Quase um adolescente igual, sem ter que se preocupar com uma matança de serial killers.
– Como pode ficar tão calmo quando vê pessoas sendo carbonizadas? – retrucou Miku. Ela cruzou os braços, irritada.
Kaito deu uma gargalhada.
– Eu? Calmo? Olha só quem fala. – Ele revirou os olhos. – Por acaso não está se referindo a você, Yui Ota?
– Não sei de quem você está falando. – Miku desviou o olhar. Kaito abriu a porta do carro.
– Vamos sair logo daqui.
Ela hesitou por um instante. Olhou novamente para a chama que antes era uma casa. Assentiu e entrou no carro.
Passou certo tempo antes que se interrogasse sobre onde estava. Ela se sentiu um pouco confusa, mas não estava assustada. Nada mais a assustava. Nem mesmo a morte. Kaito começou a abrir e fechar a janela do carro. O motorista sempre conseguia dar olhadelas feias para ele. Miku suspirou. Estúpido.
Tremendamente estúpido.
O carro parou frente a uma cafeteria enorme. Três andares. Sim, a maior cafeteria que Miku já vira. As paredes de fora pintadas da cor bege. Flores vermelhas e azuis na frente, em minúsculos canteiros. Ela nunca gostara desse tipo de coisa, mas tinha que admitir que era bem organizado.
Kaito apontou a porta e a abriu. Ele fez um gesto para que Miku passasse primeiro. Ela bufou e hesitou um instante.
Lá estava ela, de cabelos pretos bagunçados e um olhar assustador. “Yui Ota – Procurada”. Miku quase começou a rir. Por acaso voltaram alguns séculos?
O estranho era que ninguém suspeitava dela, nem de Kaito. Obviamente, o cabelo disfarçava e ajudava muito. Mas ainda assim, ninguém conhecia Kaito Shion? O multimilionário?
Ela se jogou em uma cadeira na mesa do canto. Kaito a encarou com repugnância, do estilo que sua mãe a encarava: “Onde estão seus modos, sua anormal?”.
– O que você fez? – murmurou Miku.
– Com o quê? – perguntou Kaito, em resposta.
– Por que ninguém sabe sobre você? – Ela o olhou nos olhos. Kaito sorriu, divertidamente.
– Pra eles, eu estou morto.
Miku abriu a boca, mas não tinha nenhuma palavra a dizer. Ninguém imaginaria que Kaito Shion fosse o garoto sentado a sua frente, ou que ela fosse Yui Ota, muito menos que ela havia acabado de matar alguém.
– Você não se lembra? – perguntou ele. Miku piscou os olhos algumas vezes até perceber o que tinha acontecido.
– Lembrar do quê?
De repente as pessoas se levantaram e começaram a correr. Kaito se levantou e bateu na mesa.
– Maldita. – resmungou e começou a correr. Miku se levantou e o seguiu. Tirando ela e Kaito, não havia mais ninguém, e tudo por causa da... Fumaça.
Kaito pulou os degraus. Logo estavam no segundo andar. Miku começou a tossir. A fumaça atrapalhava sua visão e o seu raciocínio. Por que ela e Kaito não davam o fora, simples assim?
– Para onde vamos? – perguntou, tossindo.
– Até ela. – Ele gritou.
O terceiro andar passou também, quase sem fumaça. Kaito pisou na cobertura e Miku tropeçou. Ela rapidamente se recuperou e não caiu.
– Hum... Vocês estão atrasados.
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