Antes de poder planejar enfim o passeio para as Ilhas de Maceió, Marquinhos se viu transportado para uma de suas lembranças.

Estava em Ponta Negra, na praia, alguns anos antes.

Seu mentor, a quem ele chamava apenas de “o Mestre” – um homem bronzeado, de meia idade, com cerca de 1,85 metro de altura e com cabelos grisalhos, além de uma barba extremamente farta – estava sentado em meio ao areal, como se meditasse.

Marquinhos sentou-se defronte a ele, sem se anunciar. Ele sabia que o Mestre sempre percebia a sua chegada.

- Chegou, finalmente – comentou o velhote, soturnamente, como sempre fazia quando ele chegava. – Tem praticado e refletido sobre o que venho te ensinando, Marcos?

- Sim, senhor. E eu prefiro Mark, senhor.

- Pensei que era Marquinhos.

O rapaz ergueu uma sobrancelha.

O Mestre aproveitou esse exato momento para abrir os olhos e, bricante, deu uma piscadela para o pupilo.

- Não me disse que tinha virado comediante – resmungou Mark.

O Mestre se limitou a rir levemente.

- Sempre se pode ensinar coisas novas a um rato velho, inclusive como eu. Mas o ponto aqui não é me ensinar alguma coisa... é ensinar a você alguma coisa. É fato que você nasceu com um dom, mas você precisa aprender a controla-lo... a usá-lo de modo certo.

Mark assentiu.

- Ainda não sei como simplesmente ganhei este poder.

- Existem várias possibilidades – disse o Mestre, fazendo um gesto com a mão como se se afastasse da pergunta do garoto, tratando-a como desimportante no momento. – E existem várias teorias, ou podem existir. No momento, porém, não quero ver você preocupado com isso. Talvez chegue o dia em que tenhamos que nos aprofundar e descobrir como exatamente o seu dom se tornou uma realidade. Mas agora, quero que você aprenda a como usar seu dom sabiamente. Você já me prometeu que não o usará para o mal nem para ganhos pessoais, é claro. Espero que esteja lembrado disso.

- Sim, senhor, estou sim.

- Perfeito. O importante agora é se concentrar. Pense aonde você quer ir, aonde você quer estar.

Mark fechou os olhos. Concentrou-se apenas na voz do Mestre.

- Você pode me ouvir. Mas, além de me ouvir, precisa sentir a si mesmo. Sinta seus pensamentos... sinta para onde eles querem te levar. Desse modo, seu dom fluirá facilmente em você.

Concentrou-se agora em seus pensamentos, em acordo com o que fora orientado pelo seu Mestre. Sentiu fluir pelo seu corpo, pelas suas veias, até mesmo na ponta de seus dedos, o “dom” de que o velho estava sempre falando.

Sentiu então como se tivesse havido um estalo em sua mente. Quando abriu os olhos, ele e o Mestre estavam agora em uma praia diferente. Ainda sentados na areia, mas era claramente um cenário diferente.

- Pipa – disse o Mestre, admirando as falésias mais adiante. – Impressionante. Ainda que não tenhamos ido muito longe, é fato que você conseguiu nos transportar para um local a cerca de 85 km ao sul de onde estávamos.

Mark ergueu as sobrancelhas, levemente confuso, e em seguida olhou em volta, observando o entorno da praia na qual se encontravam.

- Não entendo. Achei que o dom só funcionasse comigo. Como o senhor veio junto?

- Tenho uma teoria – começou o Mestre. – Talvez pelo fato de você ter acabado de ouvir a minha voz, ou talvez pelo fato de que você tenha se concentrado de forma tão centrada e focada, que conseguiu materializar não só a si mesmo, mas também uma pessoa imediatamente ao seu lado, como era o meu caso.

- Ah...

- O que significa que o seu dom é ainda mais incrível e excepcional do que eu havia antecipado. Você fez bem, Mark. Seu dom ainda pode ser aperfeiçoado... mas sinto que você está, sim, no caminho certo.

O Mestre se levantou.

- Me prometa que não vai mesmo usar seu dom para o mal ou para ganhos pessoais, e você poderá fazer o que bem entender com ele. Não irei ficar te vigiando. Você já é bem grandinho... o máximo que posso fazer é orienta-lo, quando você sentir necessidade ou quando julgarmos necessário.

- Ahn... certo, e-então, M-mestre. Obrigado...

- Não tem de quê. – O Mestre sorriu paternamente. – Mas na verdade, sou eu quem devo agradecer. Ter a oportunidade de acompanhar e auxiliar no seu desenvolvimento... Tem sido educativo para mim, mas também uma dádiva. Você está praticamente no mesmo nível que os demais alunos. Sendo franco, estou já satisfeito com o progresso que você já conseguiu em tão pouco temp...

- Espera – disse Mark. – Que outros alunos?