The Plan

9 Capítulo 9


Notas iniciais
Placar: Sasuke 6 x 12 Itachi (votos no ff . net e Nyah!)
.
N/A: Não tenho muito o que falar nessa nota inicial, apenas pontuar que, talvez, os fãs do Itachi me perdoem agora hahahaha. ^^
Eu tinha pensando inicialmente em intercalar: um capítulo voltado pro Sasuke, outro pro Itachi. Mas se eu fizesse dessa forma, o Naruto iria parecer um promíscuo ao extremo. Por isso fiz algumas modificações e dividi a fanfic em "períodos". Nesse capítulo temos os últimos períodos do Sasuke e o início do período Itachi (que terá o mesmo tamanho/quantidades de capítulo que o do Sasuke).
Foi difícil escrever esse capitulo, fiquei triste. =/
Isso significa que as votações irão ser encerradas depois do final do período Itachi, o que implica em dizer que à época da publicação do capítulo 12 já estará encerrada e dependerá do resultado para sua redação. Assim, aqueles que ainda têm dúvidas: Decidam em quem votar, no máximo, nas reviews do Capítulo 11, depois disso não haverão alterações!
Um beijo enorme a Nyulan pela correção do capítulo, relevando a minha escrita de semi-analfabeto hahaha.
Boa leitura a todos!

THE PLAN


_ O que diabos você acha que está fazendo?

_ Se não quer ajudar não atrapalhe Shika, o Naruto precisa... – a rosada tentou falar, sendo interrompida rapidamente pelo colega de trabalho.

_ Tomar juízo nessa cabeça oca, isso sim!

Shikamaru estava indignado observando toda movimentação enquanto o loiro ignorava sua presença e amontoava as caixas cheias de bugigangas. Sakura coordenava alguns carregadores para que levassem os móveis até o caminhão de mudança, enquanto o assessor simplesmente observava toda a cena, estupefato e de boca aberta, sem saber exatamente como proceder.

_ Shikamaru – a rosada o puxava para longe da sala, em um canto próximo a escada e o mais longe de Naruto possível – Isso é o melhor pra ele, foi extremamente difícil pra mim e pro Sasuke convencê-lo de que...

_ Mas que diabos Sakura! Como assim o melhor pra ele? O Sasuke voltou pra cidade não faz nem uma semana! Que história absurda de casamento é essa? Eu achei que era uma piada de mau gosto quando a fofoca começou no partido, vim aqui pra tirar a limpo com o Naruto e me deparo com essa mudança. Muito problemático! – o moreno gesticulava para o caos, caixas, poeira e móveis embalados na sala, falando rispidamente e em tonalidade baixa, seu olhar extremamente irritado.

Sakura suspirou fundo, contendo a vontade imensa que sentia de expulsar o rapaz dali.

_ Isso é o melhor pra ele. Sabemos muito bem que os votos da campanha vão aumentar consideravelmente se Naruto estiver casado com Sasuke.

_ Que viagem! Lógico que não! Os conservadores não votam em homossexuais!

_ Mas Sasuke não é qualquer homossexual: É uma sumidade na pesquisa e tratamento de câncer, renome internacional... Você sabe disso, nós chegamos a ver há uns meses atrás uma entrevista do Sasuke, lembro bem que o Kiba fez absurdos para conseguir impedir o Naruto de entrar na sala e assistir essa entrevista com a gente. Então seria perfeito para ganhar votos, todos relevariam a sexualidade deles!

_ Que seja Sakura, mas sabe muito bem que não é só isso que interessa. O Naruto está repetindo o mesmo erro de três anos atrás, e me admira você, entre todas as pessoas, apoiar isso.

Shikamaru olhava para Sakura com olhos desafiadores, mas a rosada mantinha a postura firme, mostrando-se não estar intimidada. Puxou o moreno ainda para mais perto, sussurrando em seu ouvido.

_ Naruto e Sasuke tem um plano juntos. Itachi está atrapalhando. Você já sabe disso, eu não precisava estar repetindo as palavras de Kakashi pra você.

_ Itachi tem livre arbítrio, ele tem carta branca para atrapalhar. Você não sabe o plano completo, só sabe o que Kakashi mostrou. Já se perguntou que talvez essa intervenção do Itachi fosse prevista no plano deles?

_ De qualquer forma Shikamaru, esta é a minha missão.

_ Quê??

Sakura sorriu, sentindo-se vitoriosa, enquanto procurava em sua bolsa o aparelho celular. Apertou alguns botões, entrando na caixa de mensagem, entregando-o em seguida para Shikamaru para que lesse a sms de um destinatário desconhecido.


Sujeito: Naruto Uzumaki.

Idade: 26 anos.

Loiro, olhos azuis, magro, 1,75.

Alma em primeiro grau.

Desenvolvimento passado: retrógrado.

Plano superior: ocupar a cadeira de presidente-representante na ONU. Realização de tratados e pacificação internacional.

Missão: impulsionar a ocorrência da união civil de Naruto Uzumaki e Sasuke Uchiha em cartório.

Relatório:

Auxílio superior necessário? Sim [ ] Não [ ]

Tarefa concluída? Sim [ ] Não [ ]

Prazo: dois meses.


_ Não é possível... – sussurrou, o olhar arregalado ainda direcionado ao celular. Sakura tomou-o de volta em suas mãos, guardando-o seguramente em sua bolsa mais uma vez – Não faz sentido! O chamado tem que ser uma missão de caráter pessoal!

_ Eu fui um caso atípico por causa da regra de ouro. Não houve o chamado, apenas o despertar.

_ Mas...

_ Shika, não complica as coisas. – a rosada falava em tom firme e sério – Independente de ser minha missão, tudo que eu quero é o bem de Naruto e eu acho, sinceramente, que Sasuke é a melhor pedida.

Aguardou alguns instantes, mas o moreno não mais proferiu uma palavra.

_ Espero, de verdade, que vocês estejam certos. – Shikamaru estava irritado com a rosada, e por isso não se despediu. Pegou seus pertences e caminhou até a porta, recebendo um olhar expressivo de Naruto assim que cruzara seu caminho – E eu espero que você não se arrependa.

Saiu, deixando um Naruto pensativo e calado para trás, segurando uma pesada caixa sem parecer se importar com o seu conteúdo. Sakura se aproximou agilmente, retirando a caixa de seus braços com a força nada feminina que tinha desde os tempos de faculdade, depositando-a no chão em seguida.

_ Shikamaru está apenas preocupado com você, Baka. Mas você sabe que está fazendo a escolha certa, não sabe? Você o ama!

_ Eu amo o Sasuke. – o loiro respondeu mecanicamente, ganhando uma caricia em seu braço esquerdo. Encarou os olhos esmeralda de Sakura, ganhando um olhar de encorajamento em resposta para que elaborasse melhor a resposta – Amo como jamais amei alguém.

_ Então problema resolvido. Bom, vou mandar encaixotarem a louça, termine o que precisa arrumar da sala, sim? – a amiga sorriu, dando-lhe as costas e caminhando até a copa.

Ele ficou mais alguns instantes parado fitando os próprios sapatos, imerso em pensamentos. Não era mentira, realmente jamais amara alguém da maneira como ama Sasuke.

Mas por que parecia tão errado aos seus ouvidos quando falava em voz alta essa constatação? Sentia-se como se estivesse ocultando algo de si mesmo...

Sacudiu a cabeça, retomando aos seus afazeres. Não havia porque questionar nada, ele não voltaria atrás. Afinal, Naruto Uzumaki jamais volta atrás em sua palavra.


(***)


Sujeito: Naruto Uzumaki

Idade: 26 anos.

Loiro, olhos azuis, magro, 1,75.

Alma em primeiro grau.

Desenvolvimento passado: retrógrado.

Plano superior: ocupar a cadeira de presidente-representante na ONU. Realização de tratados e pacificação internacional.

Missão: impulsionar a carreira política do sujeito para uma boa colocação nas eleições de prefeito.

Relatório: Naruto Uzumaki adentra o recinto, readquire a inspiração necessária e realiza um discurso impulsionador de sua carreira política. Divisor de águas.

Auxílio superior necessário? Sim [ ] Não [ ]

Tarefa concluída? Sim [ ] Não [ ]

Prazo: seis meses.


Itachi fitava a folha do caderno à quase uma hora em seu quarto. Sentia que as lágrimas que havia derramado ao ouvir a explicação de Kakashi já haviam se secado e agora irritavam sua pele, mas não conseguia sequer ter animo para se levantar e lavar o rosto. Acariciava a folha de missão como se esta fosse verdadeiramente à única lembrança que tinha de Naruto, a única forma que tinha de dizer adeus.

E, de certa forma, era mesmo a única coisa que ainda mantinha os dois parcialmente juntos...

_ Itachi... O casamento de Naruto é daqui a pouco. Espero que tenha decidido o que fazer. – Kakashi falou cordialmente parado ao lado da porta, com o pornô em mãos, mas não prestando atenção no conteúdo do livrinho. Não podia deixar de perceber o quanto essa cena era familiar... A única diferença era que da última vez que acontecera, Itachi possuía um brilho de esperança no olhar.

Agora, apenas dor e vestígios de lágrimas eram vistos naqueles olhos cor de ônix, o que indicava que, finalmente, havia tomado juízo e faria o que já devia ter feito há tempos.

_ É a coisa certa a se fazer. — Kakashi constatou, caminhando até Itachi e colocando um lápis em suas mãos. O moreno segurou o objeto sem realmente prestar atenção no que seria, mas depois de alguns instantes, ainda fitando o caderno, apertou-o com força e posicionou a ponta do grafite sobre o papel.


Tarefa concluída? Sim [x] Não [ ]


Os escritos à lápis desapareceram lentamente diante da visão dos dois homens, até que o papel voltou a ser apenas uma folha surrada e em branco. Itachi suspirou, atirando o caderno contra a parede e abraçando seus próprios joelhos.

_ Me desculpe, mas era necessário...

_ Me deixe sozinho. — Itachi pediu, fitando o caderno espatifado no chão com feições frias e desprovidas de qualquer emoção.

_ Itachi...

_ Saia. Agora. — o tom de voz era gélido e autoritário. Por respeito ao amigo, Kakashi girou os calcanhares e saiu do quarto batendo a porta com umclicksuave.

No restante da tarde, o moreno permaneceu na mesma posição, tentando ao máximo relembrar qual era o propósito de sua vida antes de tudo isso acontecer.


(***)


_ Então vocês estão namorando?

_ Argh! Não fale um absurdo desses!

_ Como se eu fosse namorar um Dobe. Por favor, Aniki!

_ Ei! Eu que não iria querer namorar um bastardo arrogante como você!

Itachi estava com a expressão facial neutra e pela primeira vez não tentou separar a briga do irmão mais novo com o loiro, não parecendo sequer prestar atenção na discussão besta e sem qualquer sentido; simplesmente se ocupava apenas a admirar a lua cheia, sua mente imersa em pensamentos desconhecidos pelos mais novos.

Os três estavam no grande quintal da mansão Uchiha, aproveitando o início sereno da noite. A lua estava belíssima e levemente amarelada, o céu límpido e repleto de estrelas, e por isso nenhum dos três preferiria deixar de aproveitar a estonteante visão para ficar dentro da casa jogando videogames ou realizando qualquer outro tipo de atividade.

Encontravam-se deitados na grama, o primogênito entre o caçula e o loiro, sendo que os dois adolescentes agora se sentavam para iniciar a briguinha de sempre. Itachi suspirou, fechando os olhos e cobrindo-os com as mãos, fazendo os garotos pararem de discutir e voltarem à atenção para si com cautela.

_ O que houve? – perguntaram juntos à Itachi, mas ao ouvir a voz do outro se encararam novamente com olhares idênticos de recriminação.

_ Ele é meu irmão! Dá pra você largar do pé dele um instante e me deixar conversar com ele em paz? – Sasuke falou de maneira ríspida para o loiro. Naruto apenas riu em tom de chacota, cruzando os braços.

_ Sabe que essa sua obsessão pelo seu amado “Aniki” não é nem um pouco saudável, né?

_ Não conseguem ficar quietos uma única vez na vida? – Itachi sibilou em tom baixo e com a voz rouca, calando prontamente qualquer reinicio de discussão.

Sentou-se da mesma maneira que os outros dois, analisando a palma de suas mãos por alguns instantes sem deixar que seu rosto transparecesse qualquer sentimento. Levantou-se em seguida, pegando Naruto e Sasuke de surpresa, e começou a marchar para dentro de casa.

_ Nii-san! – Sasuke chamou preocupado, enquanto corria atrás do mais velho. Itachi se virou e sorriu um sorriso falso que só ele era capaz de tornar convincente, acenando discretamente enquanto respondia.

_ Desculpe. Não se preocupem, estou com um pouco de sono e acho que vou dormir mais cedo. Não deixem a mãe e o pai verem vocês juntos hein? – riu de leve e deu as costas para o casal, entrando na casa e subindo para o seu quarto o mais rápido que pode.

Naruto ficou preocupado com Itachi, tal comportamento não era normal. Mas logo Sasuke deitou novamente ao seu lado e passou a acariciar as costas de sua mão com carinho, o que o fez esquecer prontamente do outro Uchiha. Sentindo-se levemente cansado e com frio, girou o corpo passando seu braço por cima do corpo de Sasuke, deitando em seu peito demonstrando a evidência da intimidade que começavam, pouco a pouco, a adquirir.

O moreno, no entanto, o empurrou para que voltasse a posição anterior. Naruto piscou atordoado, apoiando-se nos cotovelos para encarar Sasuke, que estava com a face levemente rosada, talvez pelo calor da noite de verão.

Já fazia alguns dias que Sasuke agia daquela forma estranha, tentando ao máximo não ficar muito próximo do loiro a não ser que estivessem no meio de um ato sexual, o que estava irritando prontamente o rapaz. Naruto questionou as ações do moreno com o olhar, e este respirou fundo antes de responder.

_ Itachi está certo, meus pais não podem nos ver juntos desse jeito, eles iriam surtar.

_ Hum... Ok. Você quer que eu durma no quarto do Itachi hoje?

_ Não! — Sasuke respondeu prontamente, milésimos de segundos depois de o loiro finalizar a pergunta. Tal reação fez com que Naruto levantasse uma sobrancelha de maneira duvidosa, sorrindo maleficamente em seguida ao questionar o moreno uma segunda vez.

_ Você tem um Complexo de Édipo pelo Itachi?

_ Do que diabos você está falando Usuratonkachi?

_ Bom, você fica todo enciumado quando eu falo com o Itachi ou até mesmo quando eu cito a existência dele, até parece que você é apaixonado pelo seu irmão.

Sasuke não assimilou a informação de primeira, mas assim que seu cérebro processou as palavras de Naruto foi incapaz de impedir a gargalhada intensa de escapulir por seus lábios, sentando-se e abraçando o abdômen na tentativa de parar de conter o riso. Naruto corou, adorando o som da gargalhada de Sasuke, algo que havia presenciado apenas uma vez na vida: na noite em que fizeram sexo pela primeira vez.

Quase um minuto se passou de risada frenética, até que o moreno parou de rir sentando-se e bagunçando os cabelos de Naruto, ainda exibindo um sorriso leve nos lábios.

_ Primeiro que seria complexo de Édipo se Itachi fosse minha mãe e eu fosse uma criança de colo, o que não é o caso. Segundo, você é um Dobe e não entende porra nenhuma.

_ TEME!!

Discutiram por mais alguns instantes até que Sasuke anunciou que iria tomar banho e dormir. Naruto concordou com a cabeça e seguiu o moreno para dentro da casa. Pretendia aguardar que Sasuke tomasse o banho no quarto do caçula, mas assim que este entrou no banheiro e ligou o chuveiro, Naruto tornou a raciocinar novamente e se preocupar com Itachi, decidindo procurá-lo para saber o que verdadeiramente acontecia.

O quarto de Itachi era ao lado do quarto de Sasuke e por isso em instantes batia de leve na porta do primogênito. Não recebeu qualquer tipo de resposta e tornou a bater, dessa vez com mais força.

_ Itachi, sou eu, me deixa entrar.

Ouviu um barulho de dentro do quarto, e segundos depois o moreno mais velho abriu a porta, vestido apenas com uma calça de moletom (o que sempre compunha sua vestimenta de dormir) e com os cabelos soltos. Naruto sentiu seu rosto corar, e tentou manter sua atenção apenas no rosto do moreno mais alto na tentativa de não apreciar as demais partes de seu corpo.

Maldita paixonite eterna.

_ O que foi? – Itachi questionou, franzindo o cenho. O loiro engoliu em seco e empurrou o amigo para o lado, entrando no quarto e pulando em sua cama, alcançando o livro o qual, ao que tudo indicava, estava sendo o principal alvo da atenção do Uchiha nos últimos minutos.

_ “Quando gosto imenso de uma pessoa, nunca digo a ninguém o seu nome. Seria como que entregar uma parte dela. Habituei-me a manter o segredo. Parece ser a única coisa que nos pode tornar a vida moderna misteriosa, ou maravilhosa.”(¹) Nossa você está extremamente clássico hoje. – Naruto constatou, sorrindo debochado para o moreno enquanto lia a citação. Itachi corou, mas tentou disfarçar sua vergonha ao andar rapidamente até o loiro e puxar o livro de suas mãos, guardando-o em sua estante enquanto o mais novo voltava a tagarelar – Precisando de inspiração para escrever? Fazia tempo que você não lia um clássico.

_ A leitura de livros não é a fonte de minha inspiração, posso te afirmar isso com toda certeza. – Itachi respondeu com a voz rouca e levemente irritada, sentando-se ao lado do loiro que parecia não compreender o teor de suas palavras.

Permaneceram em silêncio por alguns instantes, gerando uma áurea extremamente estranha entre os amigos. Naruto costumava vir ao quarto de Itachi para conversar e o mais velho, sem exceção nenhuma, o recebida com alegria. A postura do primogênito mudava claramente quando estava a sós com ele, e era estranho sua aparente irritação momentânea.

_ O que aconteceu? Você tá parecendo o Sasuke-teme. – Itachi suspirou, apertando a ponte do nariz com o polegar e indicador.

_ Eu já disse que estou cansado... O que quer?

_ Não vai me dizer que você também tem complexo de Édipo com o Sasuke...

Itachi reagiu da mesma maneira que o irmão mais novo: pareceu confuso e espantado no primeiro instante, iniciando uma gargalhada leve logo em seguida. Naruto sorriu contente, satisfeito por ter feito o amigo rir mesmo repleto de mau humor momentâneo.

_ Agora que você voltou ao normal, me diga qual é o problema? — Naruto tentou mais uma vez, fazendo Itachi calar-se prontamente. Ele voltou a parecer irritado, penteando os longos cabelos com os dedos, sem responder a pergunta feita. Naruto respirou fundo e experimentou chutar – Eu brinquei quando falei essa história de Édipo, mas você está incomodado com a relação que eu e Sasuke estamos tendo?

Itachi parou de se mover por alguns instantes. Piscou duas vezes e percebeu o papel ridiculamente óbvio que estava fazendo. Talvez não fizesse tão mal tentar deixar claro a Naruto o que sentia, talvez, apenas talvez, ele conseguiria se sentir mais leve e menos preso a esse segredo. Levantou-se e caminhou novamente até a estante, trazendo consigo um novo livro e colocando-o no colo de Naruto.

_ Troilo e Créssida*? Itachi, eu não sou um intelectual metido a leituras seculares como você...

_ Talvez você consiga entender o que eu sinto ao ler o livro. Mas se não quiser pode...

_ Argh, detesto quando você prefere se comunicar com metáforas. — Naruto abriu o livro, fazendo uma careta ao ler a primeira linha – Ai Deus do céu não entendo metade das palavras...

Itachi riu.

_ Vai dormir Naruto... – falou entre o riso, e o loiro concordou com a cabeça, despedindo-se de Itachi com um soquinho de brincadeira no braço e carregando o livro consigo para o quarto de Sasuke.


(***)


_ Itachi... – Naruto sussurrou praticamente sem voz ao mesmo tempo em que se sentava na cama e tentava entender aonde se encontrava. Piscou freneticamente por alguns instantes até se dar conta que as supostas lembranças não passavam de mais um devaneio...

Sim, mais um, pois pelo menos três vezes ao mês seu subconsciente brigava consigo, fazendo-o sonhar com Itachi em sua vida juvenil e alterar completamente memórias que ele possuía certeza de não serem condizente com os fatos. Céus, isso chegava a acontecer até mesmo quando estava acordado, porém em menor quantidade do que durante o sono.

A situação era extremamente peculiar, para não dizer desesperadora. Naruto estaria fazendo dois anos de casado em breve e não passava um único dia de sua vida sem pensar, ao menos uma vez, nesses estranhos acontecimentos de sua mente. Chegou a fazer exame em neurologista (sem Sasuke saber, lógico), mas nada de anormal foi constatado. Em contrapartida, o neurologista que o atendeu era amigo de Sasuke e acabou “deixando escapar” a informação sigilosa de seu paciente.

O moreno então questionou Naruto durante dias a respeito do tal problema, pois o loiro não entrara em detalhes com o especialista. Tentou disfarçar, mas o companheiro não engoliu em nenhum instante.

Com seis meses de casamento, tiveram a primeira crise. Naruto acordou gritando o nome de Itachi (algo que se tornou a se repetir algumas vezes) e Sasuke ficou lívido. Discutiram por muitas horas e Sasuke saiu de casa por alguns dias, mas retornou em breve e fizeram as pazes.

Era apenas um tratado de paz com prazo de vigência determinado.

O casamento, em suma, ia muito bem. O sexo era magnífico e eles passavam todos os fins de semana juntos fazendo algo que saísse da rotina, pois no dia de semana estavam completamente ocupados com o trabalho. Os sonhos de Naruto eram a única coisa que gerava brigas entre o casal, e depois de explicar diversas vezes para Sasuke que ele não sabia o porquê desses acontecimentos, o moreno não mais o interrogou.

E o tratado de paz converteu-se em um contrato de “eu minto e você finge que acredita”.

No entanto, isso não quer dizer que esqueceu ou engoliu as mentiras, apenas fingia-se de surdo. No aniversário de um ano de casamento Sasuke ouviu, pela vigésima vez, o nome de Itachi sair dos lábios de seu amado. Sentiu-se furioso e, não mais controlando sua ira, partiu pra cima de Naruto. Brigaram como não brigavam desde a adolescência, e desta vez foi o político quem saiu de casa por alguns dias.

A briga física por si só não foi um problema, fez até bem para o ego dos rapazes, pois fazia tempo que não interagiam desta maneira. De qualquer forma, o relacionamento recomeçou um pouco melhor com a volta de Naruto, e ambos acreditaram, realmente, que as coisas finalmente podiam dar certo.

E, pelo menos até agora, tudo parecia estar ocorrendo dentro dos conformes. Naruto teve mais alguns sonhos com Itachi, mas coincidentemente Sasuke não estava no quarto para ouvi-los – graças ao bom Deus.

Deixando instantaneamente a preocupação a respeito do conteúdo das lembranças de lado e tornando a se desesperar por notar que estava na cama (ou seja, com uma grande probabilidade de estar acompanhado de Sasuke), o loiro procurou seu marido com olhos desesperados, encontrando-o com o olhar gélido, fitando a parede e abraçando os joelhos, sentado sobre o edredom da cama.

_ S-Sasuke?

O moreno não se moveu e não parecia pretender responder. Naruto mordeu o lábio inferior apreensivo, sentando-se ao lado do amado e abraçando suas costas.

No mesmo instante, Sasuke saiu de seu transe, levantando-se da cama e esfregando os olhos. O loiro finalmente percebeu que o moreno estava nu, o que não condizia com a forma que eles tinham ido se deitar na cama....

… Certo?

Moveu as pernas, percebendo que contra a sua pele friccionava apenas o edredom abaixo de suas coxas. Nada cobria a sua pele bronzeada a não ser uma fina camada de suor. Seus cabelos estavam bagunçados e úmidos, assim como os de Sasuke. E para completar a cena inusitada, o moreno exibia grandes marcas de arranhões em suas coxas, marcas estas que outrora, ao serem visualizadas, causariam prazer em Naruto, mas agora apenas induziam-no ao completo desespero.

Oh... Não!

_ Sasuke, eu...

_ Eu quero divórcio. – o moreno disse em tom rouco e grave, levemente sem fôlego. Não parou de esfregar os olhos para encarar Naruto. Isso, conjuntamente com as palavras secas e cheia de significados, fizeram o coração do loiro doer de tal forma que superou todas as dores anteriores.

Superou a dor de saber do desaparecimento de seu pai, há muitos anos atrás. Superou a dor de encontrar o cartório vazio na sua primeira tentativa de casamento. Superou a dor de tentar ligar varias e varias vezes para Itachi, jamais sendo atendido...

_ Sasuke, por favor, não faça isso! Eu te expliquei, eu não contro...

_ Sabe Naruto, se já era terrível ouvir você sonhar com ele toda semana, eu nem tenho palavras pra definir o que é pra mim ouvir você chamar o nome dele em meio ao sexo.

Seu medo acabara de se confirmado, os pelos de seus braços se arrepiaram com a constatação. Sasuke podia não ter mais o orgulho Uchiha tão aflorado, mas era, ainda sim, um ser humano. E ser humano nenhum aceitaria esse tipo de coisa.

Pulou da cama e correu para abraçar o marido, desesperado e sentindo lágrimas formarem em seus olhos. Desta vez Sasuke não se moveu, mas não correspondeu o abraço forte, deixando apenas seus braços caírem na lateral de seu corpo.

_ Por favor Sasuke confie em mim! Eu te amo, por favor! – o loiro exclamava entre os soluços, mas não recebia nem sequer um afago em resposta. Sasuke permaneceu parado como uma estatua, ouvindo o lamentar e pedidos de perdão do esposo sem exibir qualquer reação, mantendo os olhos fechados durante todo o processo.

Naruto chorou e implorou por vários minutos, se não horas, tentando explicar exatamente o que acontecia em seu cérebro, mas sabia que o moreno estava esperando apenas que ele o largasse para se retirar do quarto. Em uma última tentativa desesperada decidiu beijá-lo, unindo seus lábios contra os finos e rosados do amado.

Sasuke não impediu o beijo, mas não correspondeu. E isso, sem sombra de duvidas, doeu muito mais do que qualquer xingamento, qualquer soco, qualquer ameaça, qualquer discussão que tiveram em suas vidas.

_ Eu quero muito ir embora. – o moreno falou em tom neutro assim que o loiro desistiu e deu um pequeno passo para trás.

As lágrimas de Naruto começaram a rolar em cascata, a intensidade do choro aumentando consideravelmente.

_ Eu não deixo, por favor! Me perdoe! Eu prometo que nunca mais vai acontecer! Eu... Olhe pra mim Sasuke! – Naruto falou abruptamente, tentando forçar a cabeça do esposo para fitá-lo. Sasuke ainda mantinha os olhos fechados, e nem depois do pedido de Naruto os abriu.

_ Não. – respondeu em um sussurro doce, tão doce que apenas serviu para assustar ainda mais o cônjuge.

Sasuke não costumava agir assim...

_ Olhe, estou falando com você.

_ Eu sinceramente não sei como você aprendeu a mentir desse jeito com seus olhos, mas eu não vou mais cair nesse feitiço. Me largue. – o tom de voz ainda era doce e sombrio, o coração do loiro doía tão intensamente que seria capaz de explodir.

_ Teme, por fav...

_ Não me chame assim, Uzumaki.

Desta vez Naruto não conseguia mais responder. Estava estupefato, surpreso e sentido. Deu dois passos para trás, largando o corpo de Sasuke e encarando-o como se fosse um fantasma. O moreno abriu os olhos e, sempre evitando encontrar a íris de Naruto com seu olhar, passou a vestir suas roupas.

_ Você está cometendo um grande erro.

_ Não é sua culpa. Eu insisti em uma causa perdida, eu não devia ter feito aquele pedido de casamento...

_ CALE A BOCA! – Naruto gritou, empurrando Sasuke para trás e fazendo o moreno fitá-lo, finalmente, assustado pela reação agressiva – Não ouse se arrepender do nosso casamento Sasuke! Você pode até querer se divorciar, mas não ouse se arrepender te ter casado comigo! — Naruto exclamava, apontando o dedo no rosto do Uchiha, as lágrimas ainda escorrendo de seus olhos em grande quantidade, fazendo as safiras cintilarem diante do olhar gélido de Sasuke.

_Pois eu me arrependo. Me arrependo de ter fugido da primeira vez sim, talvez se tivéssemos casado àquela época as coisas fossem diferentes, mas me arrependo ainda mais de ter me casado com você há dois anos atrás. – o olhar gélido de Sasuke se converteu em questão de instantes para um estreitar de olhos perigoso, imerso em ira, transmitindo-o instantaneamente para o loiro, que agora fechava e abria os punhos com raiva – E sabe do que mais? Me arrependo por não ter destruído a vida desse tal de Itachi...

_ Você tá de brincadeira não é?

_ Esse maldito tirou de mim a única coisa que eu ainda tinha! Eu não estou de brincadeira, se ele aparecer na minha frente eu não respondo por mim!

Naruto teve total certeza de que Sasuke estava, apesar do calor do momento, sendo convicto em sua escolha de palavras. Encarou-o por mais alguns instantes, tentando recriminá-lo com o olhar, não surtindo efeito nas íris predatórias e recheadas de ódio vingativo. Passou ele também a se vestir, alcançando uma muda de roupa no armário enquanto enxugava os olhos e face molhada com a camisa preta antes de vesti-la.

_ Eu não me dei conta de que você havia se tornado alguém tão desprezível. — sibilou o loiro enquanto vestia suas calças, ganhando uma risadinha debochada de Sasuke em retorno.

_ Talvez se parasse de gastar todo seu tempo tendo fantasias eróticas e se masturbando pelo Sarutobi, conseguisse prestar o mínimo de atenção em mim.

Foi o limite para Naruto: impulsionou o braço e tentou desferir um soco certeiro no rosto do moreno, mas este conseguiu prever os movimentos e segurou o punho antes que este acertasse em cheio sua mandíbula. Cruzaram o olhar uma última vez, e desta vez Naruto viu as grossas lágrimas escorrendo dos olhos de Sasuke.

Não lágrimas de tristeza e desespero como as dele... Eram lágrimas de ódio e sede por vingança.

Ambos relaxaram o corpo instantaneamente, e não trocaram mais palavras enquanto tentavam vestir as roupas com as mãos tremulas pelas correntes de emoções que sentiam.

Não iriam brigar, não conseguiam. As brigas, por mais paradoxal que parecesse, eram a forma que eles tinham para desestressar, relaxarem os corpos e fazerem as pazes. Alguns casais faziam as pazes através de sexo, mas Naruto e Sasuke faziam através de socos e pontapés, sempre foi assim.

Mas agora não havia mais sentido para tentarem se comunicar desta maneira. Não havia mais um “nós” entre o “eu” e o “ele”. Estavam, por fim, a se separar definitivamente.

A ausência cobrira o papel dos punhos... Não eram mais um casal. Estava claro, pra qualquer um que quisesse ver, que não havia mais volta. Os devaneios de Naruto chegaram ao limite, e Sasuke não estava mais disposto a sofrer daquela maneira por amor.

_ Eu vou sair de casa, amanhã volto para buscar minhas coisas.

_ Não, deixe que eu saio, você...

_ Eu tenho a minha casa antiga. E eu não quero ficar aqui. – Naruto sussurrou em resposta, procurando sua carteira no quarto escuro. Sasuke sentou-se na cama, descansando a cabeça na palma das mãos.

_ Faça como achar melhor.

Naruto suspirou fundo, terminou de calçar os sapatos e tentou caminhar o mais rápido que pode para a porta do quarto, mas a voz de Sasuke o fez parar no meio do caminho.

_ Eu consegui.

_ Ahn?

_ Eu fui chamado para o centro de pesquisa contra o câncer em Harvard. Eu pretendia te contar depois de... Você sabe.

Naruto sentiu o coração pesar ainda mais... Sasuke pretendia fazer o anúncio mais importante de sua carreira, o sexo daquela noite era para ser uma comemoração. E ele estragou tudo, mais uma vez. Ele jamais odiaria qualquer coisa nessa vida mais do que odiava a si mesmo naquele determinado instante.

_ Eu sinto muito Sasuke. – sussurrou, sentindo as lágrimas voltarem aos seus olhos, mas não se virando para olhar o moreno uma última vez, faltava-lhe coragem.

Era, afinal de contas, um imenso covarde, um covarde tão grande que fora incapaz de escolher entre Sasuke e Itachi, casando-se com Sasuke apenas porque fora ele quem dera o primeiro passo. Caso contrario, provavelmente ainda estaria dividido e sofrendo pela dúvida de não saber quem escolher, com medo de perder o outro...

A quem estou querendo enganar, eu sou o desprezível da história e não Itachi por ter desaparecido, ou Sasuke por terminar comigo... Eu não mereço nenhum deles.

Alcançou a maçaneta e girou de leve, ouvindo uma resposta do moreno que foi tão baixa que era incapaz de saber se era real ou mais uma alucinação de sua mente.

_ Eu também sinto muito...

(***)


Shikamaru bebericava sua xícara de café enquanto olhava pensativamente para o corpo adormecido de Naruto em seu sofá. Os rastros de lágrimas nas bochechas do amigo ainda podiam ser vistos, mesmo depois de secos, e todo o restante de seu corpo parecia um imenso caos emocional.

Seus cabelos chegavam a estar alisados e ensebados de tanto que o loiro passara a mão sobre as madeixas devido à preocupação e desespero. Olheiras e inchaço eram vistas abaixo dos olhos, seus lábios estavam rachados e sangravam de tanto que mordera devido ao nervosismo.

Nem mesmo no dia da eleição Naruto parecia tão acabado emocionalmente como agora.

_ Problemático... – Shikamaru constatou, deixando seu copo descansar sobre a mesa de centro da sala. Permaneceu quieto por mais alguns instantes, avaliando a situação e todas as possibilidades que ela oferecia.

Se Sasuke e Naruto terminaram o casamento, ou o plano deles fora concluído ou a intervenção de Itachi havia sido grande de tal forma que mesmo a distância interferira no cumprimento do plano do casal. Shikamaru não sabia qual era o plano destinado à Sasuke, mas a visão deplorável do loiro o fazia, inconscientemente, constatar que faltava muito para que este atingisse o seu propósito de vida, independente de já ter tomado conhecimento do seu plano por meio da sms no celular de Sakura há dois anos.

Naruto ressonou no sonho, falando em voz baixa algo que parecia extremamente com o nome de Itachi, o que fez Shikamaru avaliar a possibilidade restante.

Se Naruto se lembrava do seu passado com Itachi, como havia declarado aos prantos ao entrar em sua sala àquela noite, era possível que tais acontecimentos estivessem programado em seu plano. Afinal, Itachi já não mais interferia na vida do loiro há quase dois anos. Mesmo Sakura tendo recebido a missão para unir o casal em matrimônio, talvez todos esses acontecimentos (tanto o casamento, quanto o retorno das lembranças e o divórcio) fizessem parte de algo que nem mesmo Shikamaru poderia entender.

E, ao que tudo indicava, essa era a explicação mais racional no momento.

Levantou-se em silêncio, procurando o telefone na bancada da cozinha e discando sem se importar com o fato de que ainda era madrugada, horário não muito propicio para telefonemas.

_ Dennis. – uma voz feminina e doce atendeu, parecendo prontamente acordada.

_ Shizune, sou eu, Shikamaru. – o moreno disse, colocando mais pó de café na cafeteira e ligando o aparelho em seguida.

_ Oi Shikamaru, quer mudar o horário do plantão de novo?

_ Não. Eu quero saber se há a possibilidade de marcar uma reunião com uma alma superior, o mais breve possível.

Ouviu um barulho de papel do outro lado da linha e um som de contemplação advindo da garganta de Shizune.

_ Em que nível?

_ No maior que você conseguir. – o moreno percebeu a mudança abruptamente da postura da mulher, que deixou um som de surpresa escapar na linha telefônica.

_ Pode demorar semanas, até meses. Está disposto a aguardar?

_ Sim, mas tenho urgência, consiga o mais rápido pra mim Shizune, te peço encarecidamente que quebre esse galho...

_ Ok... Farei o possível. Retorno quando conseguir. Até mais! – a morena desligou o telefone e Shikamaru bocejou, cansado e sabendo que estaria entediado em breve por esperar. Mas era o que devia ser feito, não confiava mais na precisão dos acontecimentos, precisava entender o que estava ocorrendo no plano de todos os três envolvidos.

Entenderia e resolveria o problema, afinal de contas, não era considerado um gênio da estratégia atoa.

_ Agora você vai ver o quão problemático eu posso ser pra você, Kakashi.


(***)


Naruto caminhava cabisbaixo. O outono já estava presente e o vento gélido do fim de tarde entrava pelas frestas de sua blusa de lã, mas ele não se importava mais com o seu bem estar. Observava as folhas marrons caírem a sua frente enquanto caminhava, fitando sempre seus pés e eventualmente ouvindo alguns barulhos de pedestres e conversas ao seu redor.

Sentia-se perdido, desiludido, dilacerado. Sasuke havia-o contatado há poucas horas pelo celular, propondo um divórcio consensual e ele aceitou sem grandes considerações a fazer. Dentro de alguns dias iriam ao cartório assinar os papéis e Sasuke se mudaria para os Estados Unidos a fim de continuar suas pesquisas no Centro de Estudos Oncológicos de Harvard.

Só de pensar nisso os olhos de Naruto já enchiam de lágrimas, não parecia que estavam separados há um mês, possuía a impressão de que a briga havia sido apenas há um dia, era difícil para ele se acostumar com a ideia de perder Sasuke de vez.

Mas, respeitando a decisão do ex, não tentou de maneira alguma reatar. Sabia que havia acabado com tudo de vez, pretendia permanecer sozinho em seu lamentar e respeitar o espaço de seu amado.

Era o mínimo que podia fazer.

Continuou a andar distraído ao extremo e submerso em sua própria miséria, até que acabou tropeçando e quase caiu, sendo amparado por um dos braços por alguém que caminhava na direção contrária. Um familiar formigamento se fez presente no local de seu braço onde o estanho o segurava e, curioso, olhou para o indivíduo a fim de agradecer e verificar o que de tão peculiar acontecia em sua pele. O que viu, sem sombra de duvidas, fez seu coração parar de bater por alguns segundos.

Itachi, de carne e osso, dois anos mais velho, mas aparentando exatamente como a última vez que o vira, há anos atrás, estava parado a sua frente. Seu coração voltou a bater, dez vezes mais rápido do que anteriormente.

_ I-Itachi?? – Naruto gaguejou.

Itachi parecia mortificado, os olhos cor de ônix arregalados evidenciando confusão emocional. Seus olhos deixaram os de Naruto, pousando em sua mão esquerda, provavelmente em busca da aliança.

Encontrou apenas uma marquinha de sol do anel, mas não mais o objeto. De qualquer forma, não respondeu a indagação do loiro e ignorando a vontade agarrá-lo pelo pulso e levá-lo para casa, virou de costas e recomeçou a andar como se nada houvesse acontecido.

Naruto, ainda petrificado, observava as passadas largas do moreno e seu afastamento progressivo, deixando claro em seus movimentos pretendia, mais uma vez, desaparecer de sua vida. Tomando plena consciência do que estava acontecendo, falou alto o suficiente para que os cinco metros de distância do mais velho fossem inúteis tentativas de fuga. Afinal, não iria deixá-lo escapar novamente sem, ao menos, confirmar a verdade.

Não depois de todos aqueles sonhos.

_ "Nisto é que consiste a monstruosidade do amor...” — Itachi quase tropeçou nos próprios pés ao escutar as palavras do loiro, girando os calcanhares em seguida e encarando seu objeto de afeição mais uma vez, desta vez com o olhar beirando a incredulidade. Naruto sorriu calorosamente, e prosseguiu — “... em ser infinita a vontade e limitada a execução; em serem ilimitados os desejos, e o ato, escravo do limite" (²).

_ Naruto... Você...

_ Quem você achava que era Itachi? Troílo? Heitor? – caminhava em passos lentos, aproximando-se cada vez mais do moreno – Nunca mais tivemos a oportunidade de conversar sobre essa leitura, e tenho certeza que você não evitou esse assunto em vão.

Itachi estava estupefato, como Naruto conseguira recordar do passado? Como?! Ele havia abdicado toda e qualquer vida anterior ao despertar, todos os envolvidos e conhecidos tiveram as memórias alteradas. Era impossível que o loiro estivesse agora a sua frente conversando sobre... Deus do céu... Shakespeare!

_ Como... Eu... Você... – Naruto o puxou pela gola da camisa, unindo sua testa bronzeada à pálida de Itachi, os fios da franja do moreno roçando de leve suas bochechas. O contato entre as peles novamente fez ambos os corpos formigarem em toda sua superfície, não apenas a região unida.

Todo o corpo tremia, adormecia. Pois os corpos não eram mais importantes, nada disso era relevante. Estavam sendo simplesmente inutilizados perante a grande quantidade de emoções que sentiam.

_ Me responda e, por favor, me prove que eu não estou ficando louco. Com quem você se identificava, Itachi Uchiha? – o loiro sussurrou, sentindo o lábio inferior tremer. O medo de constatar que estava realmente alucinando era muito grande e ele não sabia se suportaria mais um balde d'água fria àquela altura do campeonato.

O homem mais alto fechou os olhos e respirou fundo, acariciando os cabelos loiros antes de responder em tom igualmente falho e baixo.

_ Eu era... Eu sou... A guerra.

_ Guerra?

Itachi abriu os olhos, fitando os orbes azuis e hipnotizantes, observando as gotículas de lágrimas presas entre os cílios. Naruto estava confirmando a verdade naquele exato momento, e seu psicológico não deveria estar muito melhor que o do mais velho.

_ Não foi Heitor ou qualquer outro personagem que separou Tróilo de Créssida, foi a guerra e o vício que todos tinham nela. Assim como Sasuke e você desejavam me impressionar, Tróilo e Créssida queriam a vitória na guerra, e essa obsessão fez com que o relacionamento terminasse da maneira que terminou... Na época eu me afastei de vocês com medo de destruir aquilo que vocês construíam mesmo sem perceber; mas na realidade eu era tão egoísta quanto a guerra e desejava tê-los ao meu lado, sempre. Você como meu enamorado, Sasuke como a pessoa mais especial pra mim. Deixar vocês foi imensamente difícil... – Itachi declarou, piscando de maneira penosa e sentida enquanto falava.

_ Oh meu Deus, você é dramático do mesmo jeito que eu me recordo... — Naruto sussurrou como um mantra de alívio, fechando os olhos e exibindo um belo sorriso radiante, daqueles que a mais de um mês não emolduravam seus lábios. Esticou os braços e entrelaçou o pescoço de Itachi, puxando-o ainda mais para perto – Sabe quem você realmente é Itachi?

O moreno tentou abrir a boca para responder, mas sua voz parecia não mais funcionar. O cheiro de seu amado, tão próximo a si depois de tanto tempo, embriagava-o. Seu corpo chegava a latejar de tão dormente que se encontrava, e seus lábios coçavam, desesperados para unirem-se aos carnudos de Naruto.

_ Um completo idiota. — o loiro falou em um tom de voz tão baixo, não esperando qualquer tipo de reação ao beijá-lo com ternura e admiração logo em seguida.

As memórias remanescentes iam voltando aos poucos a cada entrelaçada de língua, a cada estalo de lábios, a cada suspiro dengoso, a cada mordida leve. Pouco a pouco as lacunas em seu passado eram preenchidas, sabia que não era tudo, mas era consideravelmente mais do que todas as lembranças adquiridas nos últimos meses, a imensa quantidade de informações deixou seu corpo extremamente mole e sem forças.

Naruto gemeu quando o moreno mais velho passou um braço ao redor de sua cintura e o puxou para mais perto de si, apoiando-o e impedindo-o de escorregar de encontro ao chão. O loiro levou as mãos instantaneamente aos cabelos sedosos que agora conseguia recordar ser receptor de sua total admiração ontem, hoje e sempre.

Era Itachi quem o beijava. Itachi Uchiha, o ator, e não o Itachi Sarutobi, o papel interpretado digno de um Oscar.

De uma hora para a outra o beijo se tornou menos inocente, a sensação que sentia ao tocar a pele de Itachi não ajudava em nada o seu estado: precisava de mais, queria mais, a dança de suas línguas compeliam os desejos de ambos, as bocas engoliam cada gemido alheio. A volúpia do casal nada combinava com o ambiente, e ouviam alguns cochichos de reprovação ao redor.

Itachi, surpreendendo a si mesmo pelo autocontrole que não sabia possuir, empurrou o loiro pelo peito com cuidado e delicadeza, respirando ofegante em seguida.

_ Quando? – foi tudo que conseguiu falar entre a respiração entrecortada.

Naruto não estava num estado muito melhor e precisou de alguns segundos para se recompor, aproximando-se novamente do moreno e pegando sua mão esquerda a sua, puxando-o para que caminhassem juntos.

_ Começou no dia que você dormiu comigo... Tive a primeira lembrança quando fui... ah... Me desculpar com Sasuke. — iniciou a caminhar, ainda puxando o outro, mas este não saia do lugar. Suspirou fundo, levemente irritado – Acho bom você começar a entender que eu não vou te deixar escapar de novo, e que você me deve explicações. Então acho melhor começar a andar. Eu te procurei por muito tempo pra deixar você sumir de novo!

Itachi sentiu seu coração aquecer com as palavras do Uzumaki, mesmo que levemente ríspidas. Sorrindo de leve, passou a acompanhá-lo no trajeto, sem desprender o toque de mãos.

_ Onde vamos?

_ Vamos para um café ou restaurante, você tem muito a me explicar.

Itachi parou de caminhar subitamente, finalmente entendendo o que o loiro dizia com aquelas palavras. Olhou para os lados com um leve desespero.

_ O que foi? — Naruto perguntou ao perceber a inquietude de Itachi. O moreno costumava ser uma pessoa serena, não fazia sentido a mudança de comportamento de uma hora para a outra.

_ Você quer que eu explique porque não se lembrava de mim, não é?

_ Isso também, e o porquê de apenas eu lembrei e ninguém mais.

_ Naruto, se eu explicar isso para você... Eu não sei o que pode acontecer.

Itachi parecia preocupado, Naruto piscou duas vezes tentando processar a informação e o aparente medo incoerente do moreno. Sorriu, levando as mãos até as bochechas do homem mais alto, acariciando-as com ternura antes de olhar em seus olhos tentando transmitir calma e confiança.

_ Eu assumo qualquer risco.


… Continua …

Notas finais
(¹) O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde.
(²) Troilo e Créssida de William Shakespeare.
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N/A: Pra iniciar a fase do Itachi, eu reli varias obras clássicas que eu tinha lido há alguns anos atrás (quem mandou criar um Itachi escritor e eternamente apaixonado hahaha), provavelmente vou citar algumas... Deus, eu tinha esquecido como são perfeitas.
Considerem cada citação aqui feita uma singela recomendação de leitura. ^^